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Mamão-abóbora

Este mamão nasceu igual aos outros, mas cresceu com cara de abóbora! O que terá acontecido? Transtorno de Personalidade frugal? Alguma anomalia, certamente, mas quem o comeu garante que tinha gosto de mamão saboroso! Eu tencionava experimentar, mas num vacilo e… retornei tarde demais para provar! 😦

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Família funcional, criança saudável

Inspirada no texto do filósofo Carlos Adriano Ferraz, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), preciso novamente falar da importância que os pais e as mães têm para os filhos, não apenas do ponto de vista da sobrevivência, mas principalmente da saúde mental.

Ele afirma em texto publicado no Jornal da Cidade Online: “Uma família funcional não precisa do Estado. A família é uma das derradeiras resistências aos avanços do Estado sobre as vidas individuais.”

Minha prática clínica como psicóloga de crianças e adolescentes numa unidade pública de saúde (e de adultos no consultório particular) corrobora a veracidade dessa afirmação. Percebemos com clareza que as crianças são sequeladas pela falta de funcionalidade das famílias, quando não da ausência de um núcleo familiar estruturado para lhes assistir o período de desenvolvimento infantil.

Sendo mais direta: crianças cujos pais e mães são responsáveis, presentes, comprometidos com o desenvolvimento dos próprios filhos dão conta de educa-los, acompanhar o crescimento/desenvolvimento psicoemocional deles sem precisarem de psicólogos, psiquiatras e/ou medicamentos do governo.  

Muitos dos transtornos que levam as crianças às unidades de saúde mental têm origem na falta de funcionalidade das famílias, desde o Transtorno Opositor-Desafiador (TOD) à Depressão, passando por outros como Transtorno de Ansiedade e o Antissocial.

Obviamente alguns indivíduos chegam à fase adulta com sintomas dessas alterações, senão com elas agravadas. E, obviamente também, não se pode negar a força influenciadora do meio social, principalmente da escola, sobre o manejo das famílias, mesmo as funcionais. Tampouco seria correto negar a existência de alterações psíquicas e psicoemocionais de  causalidades diversas das mencionadas aqui, com origem/causa mais profunda. 

Em reunião de trabalho no início do isolamento social ouvi a preocupação de alguém da nossa chefia  ao afirmar, com a certeza de um tolo, que os transtornos das crianças que atendíamos estariam agravados com o isolamento. Para mim e  colegas  que conhecem a dinâmica e a gênese  das alterações na saúde dos nossos pacientes isso soou como uma sandice.  Protestei, explicando que poderia ocorrer o contrário: elas retornarem à rotina mais saudáveis do que antes porque estavam recebendo atenção e cuidados de quem realmente lhes interessa, os próprios pais.

Claro que há deploráveis exceções, como os menores cujos pais nunca entenderam  a necessidade de dedicação e renúncia envolvidos na maternidade e na paternidade. Nesses casos haverá sempre transferência de responsabilidades para  escolas e serviços de saúde, ou para outros parentes. E essas famílias também confirmam a afirmação inicial: necessitam do Estado porque são disfuncionais.

Neste período de isolamento social tenho visto cenas que exemplificam bem o porquê, a partir da comparação com o oposto,  de tantas crianças adoecidas das emoções e dos comportamentos. Antes da pandemia, raros eram os pais e as mães que víamos dando atenção aos seus filhos, fazendo coisas simples como testar receitas culinárias, desenhar e/ou recortar figuras, fazer colagens, jogar entretenimentos simples (dominó, Ludo, quebra-cabeças, etc.), ler,  assistir a bons filmes juntos, moldar argila ou massinha colorida,  passear de bicicleta, patinete ou simplesmente andar de mãos dadas, como tenho recorrentemente visto no meu bairro, que dispõe de amplos espaços abertos.

Mais fácil será continuar esse saudável convívio com as crianças após o isolamento, já que espaços públicos estarão liberados, como parques, ruas de lazer, clubes e circos, entre tantas outras opções. Quem não sabe o valor que tem um piquenique no parque embaixo de uma árvore, rodeados de uma imensidão  verde? E, por que não, até de um piquenique no fundo do quintal ou no meio da sala? Coisas diferentes e criativas despertam o interesse das crianças, fazem-nas sorrir e ter confiança nos adultos que cuidam delas. Além de enriquecerem o vínculo e as memórias afetivas.    

Numa leitura mais ampla sobre os efeitos do bom desenvolvimento das crianças, pode-se afirmar que fortalecer o futuro do nosso País envolve também recusar qualquer produto televisivo e/ou ação político-social,  governamental ou não, que esconda estratégias de enfraquecimento das famílias  e os valores ético-morais que lhes dão consistência e força. Pense: a quem interessa desconstruir as famílias e criar indivíduos dependentes do Estado? A quem deseje controlar os indivíduos e a sociedade!

Minha expectativa é de que essa dolorosa crise causada pela COVID-19 deixe como resultado positivo o fortalecimento dos núcleos familiares e a descobertas dos pais sobre o que realmente tem mais valor para seus filhos: presentes caros? Ou uma hora na companhia deles? E do que realmente as crianças precisam: exagerada permissividade para compensar ausência e atenção? Ou muitos “nãos” orientadores sobre limites e necessidade de autorrespeito, respeito aos outros e aos diretos coletivos?

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Este País tem donos! Ou: estimulando a divisão

Tive um sonho. Explicativo; metafórico. A Psicologia Analítica chama de Sonho Arquetípico ou Grande Sonho. Nele eu vi inicialmente uma cidade moderna, que de repente deixa de ser uma cidade e passa a ser um país. Vi sua imensidão e suas verdes matas! Vi tantas riquezas! Em cima e sob o solo; e muita água cristalina!  O céu muito azul; aves coloridas sobrevoando. Se me afigurou que havia cidade embaixo e em cima da terra… essas coisas estranhas de sonhos.

Vi sua gente também, o povo desse país tão verde. E a população estava dividida em grupos: uns vestiam vermelho;  outros,  amarelo e azul. E as pessoas brigavam, se digladiavam, se ofendiam, alguns corriam atrás de outros; uns realizavam duelos de espadas. Havia brados e  gargalhadas debochadas. Vi grandes grupos mais afastados também; uns jogando futebol;  outros, festejando não sei o quê.  Pareciam alheios, indiferentes ao topo do morro e às pessoas que brigavam; mais riam e pulavam de modo irrefletido do que aparentavam racionalidade.

Então enxerguei  um morro. As pessoas divididas em diferentes grupos estavam na base do morro, que  era dourado e brilhava, como se fosse formado todo ele de ouro e pedras preciosas.  No topo dele havia poucas pessoas; bem poucas!  E estavam muito bem vestidas, como se tivessem saído de um evento pomposo, como entrega do Oscar.  Fumavam grossos charutos e sobre as cabeças tinham cartolas. As mulheres tinham o colo coberto de preciosas joias e usavam vestidos de festa, muito glamorosos, ricamente enfeitados de desenhos dourados, como seda brocada, e com pedras preciosas incrustradas.

Ainda sonhando entendi que as pessoas do morro que olhavam para baixo representavam pessoas muito ricas do Brasil. Bem poucas eram as do topo do morro, como já disse,  e as do pé do morro, numerosas, uma multidão, como também já disse, mas repito, e estavam divididas em grupos.    

Enquanto as pessoas de baixo brigavam, as do alto gargalhavam e assistiam  às cenas aos pés delas com desprezo e arrogância. Havia uma orquestra com um  maestro que mexia a baqueta conforme o que acontecia lá em baixo, de forma a dar novo som e a provocar novas reações na ralé, que não percebia a manipulação.

Minha interpretação: o lugar é o Brasil. O morro, o topo da pirâmide social onde 1% dos mais ricos distribuem entre si  30% das riquezas, e todo o resto da numerosa população de trabalhadores fica com  o restante. 

Os grupos de pessoas representam a população brasileira, atualmente dividida no dualismo esquerda x direita ou  bolsonaristas x lulopetistas, principalmente. A quem interessa essa rivalidade? Contra quem guerreiam as pessoas não-ricas, classe média e mesmo as pobres? Brigam entre si enquanto os verdadeiros inimigos manipulam para continuarem “donos” das riquezas do País.

Os grupos mais afastados são as pessoas isentas e as indiferentes, que optam por não se envolverem na disputa pela ordem social e distribuição das riquezas da Nação, como se fosse isso atribuição de outros, ocupando-se eles apenas de diversão, futebol e banalidades.

Ainda agora, se me pondo a analisar o significado do sonho me pergunto onde estava situado Sérgio Moro? No topo do morro, apoiando as elites aristocráticas  ou na base da pirâmide? Até ontem eu talvez o colocasse como um personagem franciscano, do tipo que nasce entre os ricos, mas  rompe com a oligarquia e vai viver em defesa dos desfavorecidos. Hoje, já o retirei desse roteiro poético e estou começando a enxergar que ele é um dos que traga charuto cubano, fabricado por escravos do regime comunista.

Um detalhe: para os “aristocratas” do topo do morro pouco importa se a ralé é subjugada pelo regime comunista ou capitalista. Desde que eles continuem os donos da riqueza, o sistema de governo é só algo a ser acochambrado aos interesses deles, que é o de manter a pirâmide com base alargada e um topo afinado, forrado de ouro.

Como no jogo de xadrez, onde existem o rei, a rainha, o bispo, o cavalo e os peões, vez ou outra é preciso sacrificar alguns peões para salvar a realeza. E também vez ou  pode aparecer um peão rebelde,  com retórica boa ou que consegue ameaçar de alguma forma o status quo do “jogo”. No mundo real, nessa hora, os poderosos se reúnem para descobrir qual o preço do “peão”; quanto ele cobra para deixar em paz a aristocracia e manter as coisas como são. Ou: qual a hora certa de abater o resistente.

Pensando assim, talvez faça sentido pensar que o pobre Luiz Inácio Lula da Silva  tenha sido apenas um peão no tabuleiro dos abonados –  em riquezas materiais, mas tão desprovidos de virtudes e a elas indiferentes. Pode-se deduzir que talvez o operário pernambucano tenha logo entendido a jogada:  ou se venderia, aliando-se aos interesses das elites e tentando dela fazer parte, ou morreria, politicamente. Se bem que alguns peões fora do comum já morreram de fato e outros, foram vítimas de atentado.

Hoje, para mim, Bolsonaro é esse peão incômodo que tem resistido a muitas investidas, a ataques por todos os flancos e que aparenta disposição para morrer lutando em vez de se render ou se vender.  Mas se assim o é, a divisão ideológica entre nós tem sido providencial para os habitantes do topo do morro! Temos sido usados, impelidos a nos atacarmos mutuamente enquanto continuamos subjugados e produzindo riquezas para eles.  E se assim continuarmos, tudo ficará bem para eles, mas não para nós.

E Sérgio Moro? Talvez tenha feito tudo de caso pensado, para colaborar com os parceiros de aristocracia e, mesmo desprezando o Bozo, (negou a Bolsonaro um aperto de mão na época de campanha) tenha aceitado ser ministro dele para estar perto do inimigo. A saída neste momento, tão inoportuna para o Brasil, pode ter sido algo meticulosamente planejado e articulado como estratégia para encurralar o “peão” rebelde e garantir a vitória sobre a plebe que, com ajuda da internet,  ameaça “mexer no queijo” das elites. Afinal, de quem é esse país? Quem tem mamado e mandado nele todo esse tempo? Mudar agora e abrir mão de fatias maiores riquezas, revendo a distribuição das riquezas? De jeito nenhum!

Assim, ou Bolsonaro se alia ao Centrão no Congresso, fazendo acordos para aprovar irrelevantes avanços – e começa a jogar o jogo deles para não ser retirado à força do poder – ou eles vão forçar o impeachment do presidente eleito pela maioria da população. Daí  continuarão donos da Nação e dos destinos dos brasileiros. E sabe quem até o momento tem ajudado as oligarquias? Quem vai ajudar a derrubar o defensor do País? Os incautos opositores políticos dele, que ainda não perceberam quem realmente são os inimigos. Cartas à mesa! Que vençam os mais espertos! Ou, se houver uma ajudinha do Céu, que vença a Verdade. Deus salve esta Nação.

Texto e fotos: Carmelita Rodrigues
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Solidariedade…

… entre os passarinhos. Porque entre os humanos tá difícil! Hoje vi um sabiá bicando a corda de um comedouro para derrubar alpiste e ajudar os amigos que ciscavam no chão, sob a árvore onde o comedouro estava pendurado: tico-tico, canário-da-terra, azulim; todos amiguinhos. Sabiás nem gostam tanto de alpiste e esse não descia para comer as sementes! Eles preferem as frutas que coloco por lá, como mamões, bananas e abacates.

Em geral as aves que compartilham a pequena área verde do meu trabalho são muito educadas e ficam pousados num galho perto do comedouro ou das frutas, à espera de que o outro termine de comer para só então se aproximar. Algumas vezes ocorrem brigas, principalmente se aparecem as pombas-rolas, os sanhaços e bem-te-vis.

Os beija-flores costumam ser muito territorialistas: expulsam as cambacicas que vão beber o melzinho que ponho para todos como se o mundo fosse só deles. Como enganam: têm uma leveza e penas coloridas que de tão belas, ou por gostarem de néctar, os associamos a doçura… ledo engano. São bem agressivos, briguentos!

Mas na maioria das vezes reina a cortesia, como hoje. E foi tão agradável assistir! Tanta “civilidade”!

Por lá também aparecem pica-paus, os de corpo preto & branco e os amarelados, mas eles “não se mistura”! Nem é por esnobismo, creio eu. Apenas por não disputarem o mesmo alimento. Ou melhor: os vermezinhos de troncos de árvores que saboreiam também são apreciados pelos bem-te-vis. Mas os pica-paus têm “ferramentas” exclusivas, então fica cada um no seu canto.

Enquanto isso, no reino dos humanos, pessoas nada evoluídas se engalfinham pelo poder ou para manter privilégios. Humanos de almas em putrefação, de tanta maldade, se reunem em conchavos para tramar contra um líder que julgam lhes ameaçar a liberdade de roubar e trair.

Nesses tempos de pandemia, não bastassem as preocupações com a doença, muitas almas feias, tão feias, andam em polvorosa no reino dos ditos racionais, armados de mentiras, falácias e muita, mas muita hipocrisia. Verdadeiras pragas do Planeta!

No reino dos animais, ao contrário, predominam os impulsos para sobreviver, sim, mas em harmonia. E de quebra, espalham cantos e cores, graça e beleza; tentam despertar os humanos para o real sentido da vida. Em vão, pobres serezinhos tão belos! Chegam nem perto de atingir esse intento!

Onde reina a irracionalidade, então?!

O sabiá, posicionado no galho acima do comedouro, bicava a cordinha e fazia o comedouro balançar, derrubando as sementes de alpiste.

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Um tempo para tratar o pulmão da Terra

O isolamento obrigatório das pessoas devido à  pandemia do COVID-19 teve pelo menos um efeito positivo: diminuiu a poluição do ar. A  paralisação de atividades industriais, comerciais e menor tráfego de veículos nas rodovias e estradas reduz os índices de dióxido de carbono lançados na atmosfera. Pode-se dizer que o vírus afetou os pulmões dos homens para que a natureza pudesse tratar o pulmão do Planeta.

Na China, houve queda de pelo menos 25% na emissões de dióxido de carbono (CO₂), segundo cálculos de Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (Crea), com sede nos Estados Unidos. Redução de 25% nas emissões de gás carbônico na China equivale à redução global de 6%.

Nos Estados Unidos, o tráfego nas estradas e rodovias diminuiu drasticamente no início da segunda quinzena de março. Um satélite que detecta emissões na atmosfera ligadas a carros e caminhões mostra enormes quedas de poluição nas principais áreas metropolitanas, incluindo Los Angeles, Seattle, Nova York, Chicago e Atlanta.

O portal especializado Carbon Brief estima que se a redução do consumo de carvão se somar à queda de utilização do petróleo, as emissões mundiais de CO2 podem baixar este ano em cerca de 7%. Esse percentual é quase os 7,6% de redução firmados no Acordo de Paris como meta para 2020. 

Na Europa, imagens do satélite Sentinel 5,  feitas no período entre 05 e 25 de março, mostram redução nos níveis médios de dióxido de nitrogênio, na comparação com o mesmo período do ano passado, em cidades como Bruxelas, Paris, Milão e Frankfurt. Em Madri, os níveis médios de dióxido de nitrogênio recuaram 56% na comparação semanal depois que o governo espanhol proibiu viagens não essenciais a partir de 14 de março.

No Brasil a situação é parecida: A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) registrou boa qualidade do ar para os poluentes primários, são emitidos diretamente pelas fontes poluidoras, em todas as 29 estações de monitoramento da região.

A má notícia é: se não houver mudança de paradigmas e condutas, quando o isolamento acabar, governos vão incentivar a retomada das indústrias e de outros processos produtivos e em pouco tempo a emissão de gases poluentes voltará aos índices de antes ou estarão maiores, nos esforços de compensação de perdas financeiras.

Fontes:

BBC – https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51682790

The New York Times: https://www.nytimes.com/interactive/2020/03/22/climate/coronavirus-usa-traffic.html

Notícias UOL:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2020/03/30/com-isolamento-cai-a-poluicao-do-ar-em-sao-paulo.htm

Portal Extra Classe: https://www.extraclasse.org.br/ambiente/2020/03/pandemia-reduz-poluicao-na-atmosfera/


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Tempo para autoconhecimento e descobertas pessoais

Uma reflexão: a Segunda Guerra Mundial, com a convocação para que as mulheres substituíssem os homens – enviados às frentes de combate nos campos – nas fábricas e nas indústrias, despertou nelas o desejo de trocar a vida de dona de casa pelo mercado de trabalho. Após experimentar uma rotina de sair de casa, ter um trabalho e ter o próprio dinheiro, elas descobrirem que podiam ( e queriam) ser ser mais do que apenas “do lar”. E o mundo nunca mais foi o mesmo. Nem as mulheres!

Agora, século 21, a pandemia do coronavírus, com a obrigatoriedade de as pessoas ficarem em casa, pode também ter um efeito inesperado, mas na direção contrária: muitas mulheres podem descobrir que ficar em casa, cuidando dos filhos, da casa e do marido pode ser bom! E podem optar, no “pós-guerra”, por trabalharem menos tempo fora de casa – ou nem trabalharem. Ou, na mesma onda, mais homens perceberem que ter tempo para ficar em casa com a família é algo que desejam e/ou necessitam. Tempo para serem pais. Tempo para serem maridos. Tempo para serem bons filhos e passearem mais, conversarem mais com os pais e com as mães.

Isso porque as pessoas estavam vivendo “no automático”, sem entenderem a si próprias, sem conhecerem o que realmente lhes importa, o que desejam de fato. Um tempo para o autoconhecimento, para o encontro consigo mesma(o) pode mudar muita coisa, interna e externamente.

E adivinhem quem mais irá se beneficiar disso? As crianças! Não é pequeno o número das que têm tomado muita Ritalina e Risperidona, numa vã tentativa de compensar falta de atenção maternal/paternal por medicamentos.

Claro, haverá também um contingente de pessoas que festejará a volta da “normalidade’, quando poderão voltar a transferir a maternidade/paternidade às creches, babás ou escolas. Porque sempre haverá pessoas com pouco ou nenhuma vocação para serem mães ou pais. Isso só a evolução da Humanidade pode mudar.

Mas sei, com base na minha prática clínica e observação empírica, que há muitas pessoas com suas inclinações reais sufocadas pelo cotidiano estressante, pela competitividade do mundo capitalista e, principalmente, pelo distanciamento dos reais valores que fazem a vida valer a pena, incluindo a conexão com o Numinoso.Ter dinheiro e conforto é bom e desejável, mas nunca o “ter” será mais importante que o “ser”; nunca a acumulação de bens materiais, por si só, será fonte de realização.

Então, eu desejo, pelas crianças e pelos adultos, que no “pós-guerra-Covid” muitas pessoas se beneficiem de reflexões profundas e descobertas sobre si mesmas, a ponto de passarem a viver com mais qualidade, dando mais atenção às demandas reais dos filhos, dos pais, dos cônjuges e às próprias demandas , valorizando menos as convenções sociais irrefletidas. Adivinha quem vai perder com isso? A indústria farmacêutica, que talvez venda menos remédios.

Eu não me importaria de perder todos os pacientes com Transtorno de Ansiedade, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou Transtorno Opositor-Desafiador (TOD), entre outras alterações psicoemocionais. E embora não tenha entrado em isolamento (sou da assistência em saúde), eu também tenho feito minhas reflexões. E percebi: se minha mãe ainda estivesse aqui, eu viajaria muito, muito mais com ela. Viajamos pouco! Hoje sei disso.

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Mais médicos ou pais melhores?

Saí pra caminhar carregando crachá de profissional de saúde, que não está em quarentena por força do ofício. Não estou me queixando, ao contrário. Trabalhar faz bem à alma. Mas se alguém me abordasse querendo me impedir de caminhar eu me justificaria assim: “se preciso sair de casa pra cuidar da saúde de outras pessoas, tenho o direito de sair pra cuidar da minha própria saúde”. Pegar um sol que reforce meu sistema imunológico, sintetizar vitamina D, melhorar minhas emoções…

Ninguém me perturbou, felizmente. Oh, como uma lufada de vento e ondas quentes do sol são curativas e energizadoras!

Avistei outras pessoas fora de casa, graças ao bom senso. Num bairro onde antes só se via pessoas andando com seus cães, inclusive aos domingos, hoje vi crianças acompanhadas! Vi homens sendo pais e mulheres sendo mães. Sem creches e sem escolhas, há que se cuidar, cada um, da própria prole. Mas isso não deveria ocorrer sempre? A caminhada resultou em outra reflexão: será que precisamos de mais metilfenidato e outros remédios, de mais psicólogos e médicos ou precisamos de mais seres humanos vivenciando com mais tempo e mais responsabilidade a maternidade e a paternidade?

Quantas crianças com diagnóstico de Transtorno do Déficit da Atenção e Hiperatividade (TDAH) não sofrem, na verdade, de déficit de atenção dos pais? Outras, com Transtorno Opositor-desafiador (TOD) não carecem de pais lhes dando limites e explicando que o mundo não é um repositório de direitos sem cobrança de deveres, de adultos compensando-lhes a ausência de atenção materna e/ou paterna com presentes e permissividades?

Vivemos num mundo onde predominam as exigências do ID, sufocando a atuação do Superego e as reais demandas do Si-Mesmo. Indivíduos soltos, atuando sem a contenção repressora do Superego funcionam tal qual um multidão de embriagados, desnorteados e deprimidos. Observe-se como reagem grupos humanos após consumirem exagerada quantidade de bebidas alcoólicas. O álcool tem o poder de desativar o Superego, deixando o indivíduo solto, livre para ser quem realmente é, para agir sob o Princípio do Prazer, ignorando o Princípio do Dever. Um mundo de embriagados não me parece seguro sem construtivo.

Minha sugestão é que os pais observem seus filhos nesses dias, vejam como funcionam, quais as reais demandas deles, se estão realmente sentindo falta de shopping centers, de coisas materiais ou se, no nível profundo (ou superficial e visível), estão apreciando estar em casa com seus pais e suas mães… fazer coisas juntos, conversar, caminhar, brincar na companhia dos pais, os seres mais amados pelas crianças, é o desejo íntimo mais forte e mais legítimo dos filhos.

É terapêutico ser amado, cuidado, protegido e orientado pelos próprios pais. Após a pandemia, espero que nossas crianças continuem sendo cuidadas pelos seus pais e precisem menos de remédios e intervenções médicas – resguardadas as exceções, claro.