Seu Pedro e as promessas dos políticos

Casa dos avós no CE

Cartaz de propaganda política com foto do Lula ao fundo (Foto: Carmelita Rodrigues).

 

A foto acima ainda está afixada numa velha casa, agora vazia, de uma família de sertanejos do Ceará. Gente humilde, mas também íntegra, trabalhadora, resistente. Quem a pregou foi o Pedro Rodrigues, também chamado de “seu Pedro”, meu tio. Ele nasceu e sempre viveu na mesma casa, construída pelo pai. Após a morte deste, como de costume, a casa e a família ficaram a cargo dos irmãos mais velhos, até passar a ser ele o mais velho e herdeiro das responsabilidades. Uma família patriarcal, sim, e não incestuosa, como defende a deputada Érika Kokay (PT/DF) e por isso sempre houve proteção e respeito, nunca abusos. Os valores ético-morais são até hoje rígidos, em contraste com a frouxidão moral que predomina no País e desencadeia desordem e insegurança.

Meu tio Pedro, depois de um tempo virou petista, como muitos nordestinos; ele acreditou no populismo do Lula, afinal, era este também nordestino, também sertanejo e prometia cuidar do povo, das pessoas humildes, julgou seu Pedro. Ele próprio, dado ao trabalho honesto e à labuta penosa, não precisava de ajuda; só queria o que lhe assegura a Constituição: segurança pública, hospital decente para quando tivesse algum viés da idade avançada e tranquilidade na velhice. A vida toda só trabalhou, lidando na roça; diversão quase não teve. Nunca se afastou mais do que alguns quilômetros da casa e das terras herdadas dos pais. Nos últimos tempos, magro e sem muita energia, ainda cuidava dos bichos, dos parentes que podia ajudar e de duas irmãs, que como ele, nunca se casaram.

Seu Pedro viu entrar e sair governo; e perdeu a conta das promessas que ouvira de políticos na época das eleições ; e já não estranhava quando eles desapareciam depois do pleito e nenhuma das benfeitorias juramentadas vinham. A energia elétrica, uma das promessas recorrentes a cada eleição, só chegou quando ele passava dos sessenta anos de idade. As chuvas, essas também desapareciam. E quando não chovia por seguidas estações, ele assistia angustiado a aflição dos humanos e dos bichos sedentos e famintos; bichos e humanos compartilhando fome e sede.

Nunca nenhum projeto de irrigação ou qualquer coisa que aliviasse as agruras das secas foi realizado por lá, apesar das doces promessas dos que apareciam pra pedir votos. Dnocs, Sudene, Codevasf… siglas e promessas de políticas públicas que nunca beneficiaram os sertanejos – mas sempre consumiam milionárias verbas públicas. E nada mudou até hoje!

Ele viu a irmã caçula ir embora com os sobrinhos, outros parentes partirem, vizinhos, conhecidos, todos eles vendendo seus pertences e reproduzindo na vida real o que Luiz Gonzaga cantou em A grande Partida. Alguns, voltavam tempos depois pra matar a saudade da terra natal; outros, ele jamais reencontrou. Viu os pais morrerem, os irmãos mais novos também e ele foi ficando, resistindo, envelhecendo e teimando em acreditar que era possível viver no sertão. A visão aos poucos também o abandonou: catarata maldita que lhe roubou o gosto de ver o pôr do sol, a aurora, luz revigorante, a babuja  surgindo verde no pós-chuva, e as penas coloridas dos passarinhos. Dedilhando um velho violão nas horas vagas, ia tocando em frente, como na canção do Almir Sater.

Com a eletricidade veio também a TV. Ele acompanhava as campanhas políticas, os discursos de Lula e esperava nele, confiava nele, afinal, era também um sertanejo e de origem humilde, como ele. Não tinha muito, mas não queria nada além de paz e de poder morrer na sua vidinha calma, cuidando das criaturas que Deus pôs sob sua responsabilidade. Tio Pedro acreditou no PT do Lula e no Lula do PT. E pra ele mesmo não queria nada, mas para os vizinhos que nem um pedaço de terra tinham pra cultivar.

Seu Pedro já se foi, não vive mais entre nós; desencarnou em 2013, aos 86 anos, por complicações da idade e de uma surra que levou de um bandido. Um jovem covarde invadiu a casa do idoso, onde vivia com a irmã, também octogenária, bateu no seu Pedro com um pedaço de pau, até derrubá-lo, e levou o dinheirinho da aposentadoria que ele guardava em casa para gastar com as necessidades do cotidiano. Meu tio Pedro morreu sem compreender que a omissão do político que ele defendia devotadamente fez a violência urbana crescer e chegar até a zona rural; e chegar até ele. Não teve tempo de juntar as peças e perceber que também aquele político havia prometido sem cumprir e cujos erros e omissões tiveram consequências federais, já que pedira votos não apenas para vereador ou deputado local, mas para Presidente do País!

Meu tio  morreu um pouco naquele dia em que sua casa foi invadida e ele, agredido a pauladas covardemente. O bandido machucou-lhe o corpo e alma de idoso que só precisava e merecia proteção, que não teve. Ele defendia outro bandido porque este distribuiu algumas esmolas, que nem chegaram ao lugarejo dele,  mas ele via na TV e acreditava. E nunca nenhuma das promessas do velhaco sertanejo político foi cumprida e nunca o sertão do Ceará, onde morreu o velho e cansado Pedro, recebeu qualquer cuidado, além de umas caixas para guardar água da chuva e uma privada de alvenaria no fundo do quintal; muito menos que esmolas.

Nunca nenhuma universidade federal, bancada com o dinheiro suado de muitos trabalhadores do Brasil, inclusive imigrantes nordestinos, se importou ou se importa com os sertanejos resistentes; nunca levaram até os rincões rurais humildes um pouco de tecnologia, de conhecimento, de desenvolvimento pra ajudar aquelas pessoas a sobreviverem no sertão sedento, de águas e de políticas públicas sérias. Nunca nada além de TV e falácias de políticos.

E até hoje, com discursos de homens talhados na prática da enganação, os sertanejos seguem sofrendo. As crianças nunca tiveram e ainda não têm escolas dignas; nem atendimento médico. As mulheres ainda curam seus males e de seus filhos com chás e benzedeiras; e muitas ainda têm filhos com a ajuda de parteiras. Os jovens continuam crescendo sem perspectiva de trabalho ou de futuro; e como manda a natureza, repetem o ciclo de miséria tendo filhos, que lhes darão netos e assim sucessivamente. Mas eles votam. Então, os políticos voltam, de tempos em tempo.

Nunca nenhuma promessa de progresso se cumpre; nunca nenhum centavo da milionária arrecadação de tributos vai pra eles. E deveria; porque os filhos deles, expulsos pela seca e falta de trabalho, envelhecem na labuta dura das grandes metrópoles, mas principalmente porque os sertanejos nordestinos são também brasileiros. Ano após ano só mentiras, promessas vazias, falácias e depois esquecimento, abandono. Agora tem mais um,  com sorriso falso prometendo mundos e fundos aos nordestinos em troca de ser eleito presidente, exatamente como fizera Lula. E inclusive, indiretamente, pedindo votos para o mesmo Lula que abandonou os sertanejos à própria sorte, embora esses ainda não percebam isso.

Olhar pra essa fotografia me inspira a escrever essas mau arranjadas ideias para lembrar aos irmãos nordestinos, incluindo os sertanejos, que eles não precisam de esmolas… Bolsa Família ou coisa parecida. Precisam sim, de políticas públicas responsáveis que gerem trabalho digno; precisam de projetos de desenvolvimento que lhes permitam permanecer nas suas terras; necessitam de boas escolas para seus filhos; precisam ter de volta a tranquilidade que sempre existiu entre as pessoas simples do campo, acostumadas a dormir e acordar cedo, com a confiança de adormecer numa rede armada no alpendre, de janela aberta e porta escancarada – pro vento amenizar o calor do torrão seco.

Mas agora percebo que eles precisam também de algo mais: de malícia! Para conseguir  separar o joio do trigo no terreno da política, como fazem na colheita dos grãos. Irmãos nordestinos, não se deixem usar por mentirosos que repetem promessas antigas, tão conhecidas de vós e jamais cumpridas. As cores das logomarcas mudaram; os discursos, também; mas as intenções são as mesmas: chegar ao poder a qualquer custo, doe a quem doer. Cuidado, irmãos, com os lobos vestidos de pele de cordeiro.

Algo em mim mudou

Uma canção terapêutica: “Bem-vindo amor próprio”, da cantora Lilian. Para trabalhar o autoperdão, autossuporte e a importância de amar a si mesmo(a), inclusive como condição para ser capaz de amar a outrem.  “Algo bom em mim se modificou… posso perdoar, posso aceitar, sou o meu amor”. Amei descobrir essa bela música! Recomendo escutarem!

BEM-VINDO, AMOR PRÓPRIO

Queremos um Brasil com ordem e progresso

Em 2007 eu postei aqui  no Psicopauta um texto em que eu dizia acreditar que veria chegar o tempo em que as pessoas iriam às ruas pedir a volta dos militares. Foi um texto profético: temos visto na atualidade muitas manifestações públicas defendendo e pedindo a volta de um governo militar para o Brasil. No texto eu argumentava que,  obviamente, não desejava as arbitrariedades ditatoriais de figuras que estiveram no poder, inclusive extrapolando as atribuições e os limites dos cargos que exerciam. Tampouco defendia as torturas e os assassinatos que existiram nem qualquer tipo de injustiça ou violência abusiva. Ocorre que, já naquela época eu enxergava sinais de crescente desordem no País e ouvia das pessoas reconhecimento de mérito dos governos militares no combate à bagunça institucionalizada. Havia, sim, nos anos de linha dura,  menos impunidade a transgressores e menos liberdades individuais se sobrepondo aos interesses coletivos.E as pessoas começavam a se dar conta disso, a sentir falta de ordem.

Enquanto o texto esteve publicado, eu fui muito agredida, inúmeras vezes; me acusaram de alienação, de não conhecer a historia do Brasil, de ignorar o mal que a ditadura militar fez aos brasileiros e etc. Nada disso é verdade. Não sou alienada e de certo que não defendo qualquer tipo de abuso contra a Vida. Acontece que sou a favor da disciplina e entendo que liberdade individual sem cerceamento só dá certo entre pessoas de bom senso, pessoas evoluídas e íntegras. Do contrário, os indivíduos primitivos vão extrapolar e invadir o direito alheio. Entendo que ao se defender os direitos dos indivíduos deve-se necessariamente destacar ao mesmo tempo e com a mesma veemência o dever delas. Na mesma proporção que temos direitos, temos também deveres. “O seu direito termina onde começa o do outro”; ouvíamos isso nas escolas. Os países desenvolvidos, de população mais civilizada que a nossa, mostram-nos que os direitos coletivos  devem sobrepor-se aos individuais, caso contrário a vida em coletivo fica inviável e os índices de  violência sobem, como ocorre no Brasil, principalmente a violência urbana, onde espaços e serviços precisam ser compartilhados.

Devo acrescentar que também recebi à época manifestações de apoio, principalmente de alguns militares, mas parecíamos doidos pregando no deserto. Hoje a situação é bem diferente. O candidato militar Bolsonaro, um capitão do Exército e cujo vice é um general, está assustando os adversários devido às grandes chances de ser eleito, como apontam  as manifestações populares de apoio a ele. As pesquisas? Ah, essas, quem confia nos resultados delas?

Quem diria, né?  As pessoas pedindo de volta a linha dura dos militares. Como explicar isso? A explicação advém da própria realidade brasileira, com as sucessivas experiências pseudodemocráticas dos substitutos dos militares, incluindo pessoas que receberam enorme apoio popular para chegar ao poder e que, uma vez instalado nele, agiram como os porcos do livro de George Orwell, em A Revolução dos Bichos. Esquecendo-se dos compromissos assumidos com o País e com o povo, os indignos “representantes” da população puseram em prática inúmeras e variadas estratégias para espoliar, extorquir e oprimir o povo, mas pregando sempre o contrário com discursos falaciosos ou  populistas, jurando estar governando para a população.

Quando defendem Bolsonaro, na verdade o que as pessoas querem é o direito à paz, à segurança; querem o fim da bandidagem instituída; querem o Estado no comando e não organizações criminosas.Querem andar nas ruas sem medo de assalto ou morte –  e hoje pessoas morrem por balas perdidas até na sala da própria casa! Hoje os transgressores não respeitam idosos, gestantes, crianças, religiosos nem mesmo Deus, a quem desconhecem! Matam outras pessoas com a naturalidade de quem cospe em sinal de repulsa;  assassinam contando com a certeza de que nenhuma punição do Estado sofrerão; roubam cargas, destroem escolas, assaltam bancos, esfaqueiam ciclistas, destroem patrimônio público, desviam bilhões de verba pública… é infinita a lista de crimes cometidos contra os direitos coletivos e contra os individuais, claro. As pessoas comem de lixeiras na falta de emprego; moram nas ruas por impossibilidade de manter um lar… e se escutam nefastas criaturas repetirem que na época de fulano ou de beltrano os pobres eram prioridade! Hipócritas e mentirosos infernais! Ao prometer votos a um Bolsonaro, o que as pessoas querem e pedem, na verdade, é um Brasil em que predomine o que está escrito na nossa bandeira: ORDEM E PROGRESSO!

Que fique claro: eu não estou declarando meu voto a Bolsonaro nem defendendo que votem nele! A candidatura dele ainda está em análise, como a dos demais, com exceção, claro, de figuras que sequer merecem ser consideradas como candidatas a coisa alguma. Estou tentando explicar que o apoio popular a ele não é desarrazoado, ao contrário, expressa o anseio das pessoas pelo fim da corrupção – de verdade – e da desordem no Brasil. Em quem votar cabe a cada um decidir.

Um sobrado abandonado?

“Furnarius rufus é o nome científico da ave popularmente conhecida como João-de-barro. O processo de construção da casa dessa peculiar ave é feito em conjunto pelo macho e pela fêmea, que usam como material principal o barro úmido, e também uma mistura de esterco misturado com palha. O casal faz centenas de viagens em busca da matéria prima. Em geral, essas casinhas tem cerca de 30cm de diâmetro, e sua parede tem 5cm de espessura, e para construí-la, o casal vai amassando o material e fazendo pequenas bolas com auxílio das patas e do bico. Um grande diferencial é que a porta da casa é feita do lado oposto a chuva e vento os especialista ainda não sabem como os pássaros têm essa noção.”

 

 

Foto: Carmel Gomes

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Respeito à crença religiosa do outro

Há muitos aspectos admiráveis em Singapura, um país asiático novo, mas que preserva tradições milenares dos povos asiáticos. Dentre as que mais me impressionam, cito a boa convivência entre as diferentes religiões. Coexistem em clima de paz e respeito mútuo budistas, induístas, taoístas, muçulmanos e cristãos. Obviamente que existem leis regulando essa relação social, entre elas a proibição para pregação em público e/ou perturbando a ordem pública e desrespeito a cultos religiosos. Vi o térreo de um bloco residencial transformado em templo muçulmano, mas para tanto, o espaço foi cercado por um tecido em forma de muro. Aquelas pregações em ônibus, metrô ou a céu aberto e aos berros, principalmente em rodoviárias ou outros espaços de grande circulação de pessoas, que ocorrem no Brasil são proibidos em Singapura. Tudo para que as pessoas se sintam respeitadas na sua escolha religiosa. É comum (como mostra imagem 1) as pessoas colocarem pratinhos com oferendas aos ancestrais ou a divindades nos corredores e nos alpendres dos prédios residenciais, do lado de fora dos apartamentos. Os vizinhos respeitam e cada um pode vivenciar a própria relação com Deus pelo caminho que lhe convier. Nos centros comerciais (vide foto 2) as pessoas expõem pequenos altares com oferendas. As religiões orientais têm a reencarnação como verdade; apesar disso, em Singapura, se um cristão católico ou evangélico discordar disso, ninguém irá lhe ameaçar para que mude o pensamento (os cristãos kardecistas também são reencarnacionistas e compartilham preceitos filosóficos muito semelhantes aos dos budistas). Esse respeito à escolha religiosa do outro reflete o grau de civilidade e talvez também de evolução espiritual de um povo. No Brasil, ao contrário disso, predomina uma quase selvageria: cada religião reivindicando para si o monopólio da aliança com Deus, como se Este fosse insignificante e pequeno para caber num só modelo filosófico-religioso.  Se alguém encontra uma oferenda aos ancestrais ou a divinades, destrói, chuta e chinga, dizendo que é “macumba”. É comum verem-se imagens de Nossa Senhora sendo quebradas e chutadas por fiéis de igrejas evangélicas, que se opõem à adoração da Mãe de Jesus como divindade, justificando isso com uma tosca interpretação de  suposto trecho do Evangelho. Não quero aqui argumentar contra o sentido dessa interpretação tendenciosa e equivocada, posto ser outro o foco do meu humilde texto. Mas não posso deixar de mencionar também as grotescas perseguições aos seguidores de religiões e cultos afros, às imagens de suas divindades e os rituais deles. Os equivocados autores de tais absurdos sequer param para avaliar o que há de ignorância e visão obtusa nesse desrespeito. Não atentam para o fato de que são meros repetidores de um ranço católico (mesmo no caso dos evangélicos) cuja a origem remonta ao período da escravidão, quando os negros trazidos da África era obrigados a negar suas crenças religiosas e abster-se de adorar as divindades dos cultos africanos,  perversamente associados a “coisas do demônio”. O caminho escolhido para reprimir a fé dos africanos e seus descendentes foi o da opressão, inclusive ao incutir medo endemonizando entidades e práticas africanas. O que chamam de sincretismo, ao meu ver, é na verdade o resultado da opressão imposta aos africanos em relação à religiosidade deles.  Um festival de absurdos até hoje repetidos na associação, por exemplo, da imagem de Iemanjá a “coisa do capeta”. Quanta ignorância! A atual legislação brasileira contra a intolerância religiosa não dá conta de conter a bestialidade de pseudos líderes religiosos e seus seguidores e ainda se vê, aqui no DF, para citar um exemplo concreto, gente quebrando ou incendiando estátuas representativas de orixás, na Praça dos Orixás,às margens do Lago Paranoá. Essa prática é crime desde 1997, de acordo com a Lei 9.459/97, que prevê cadeia  e multa para os crimes de discriminação ou preconceito religiosos. Apesar disso, e mesmo decorridos 11 anos de aprovação dessa lei, ainda são comuns abusos e desrespeito ao direito individual de vivenciar a fé e a religiosidade. Enxergo isso como uma clara demonstração de atraso cultural e intelectual. Em Singapura, quem desrespeita as leis pode ser condenado a pena de morte (em crimes graves, como tráfico de drogas), ser preso, pagar multa ou levar uma surra de  varas, castigo chamado de caning. Pixação e vandalismo, por exemplo, são punidos por caning. Nos anos 90, debochando das leis locais, o americano Michael Fay foi condenado a  levar seis varas de bambu nas costas por ter feito um grafite numa estação do metrô de Singapura. O governo local não achou graça na brincadeira; considerou como vandalismo (por ter sido feito sem autorização, claro): ele foi preso e punido.  Após intervenção do governo dos EUA, a pena foi reduzida: quatro varadas. Isso  lhe parece muito rigor? Para os singapurianos,  é ordem e tem o apoio popular. É também uma forma eficaz de combater a impunidade dos transgressores às leis. Num pais onde as leis realmente são cumpridas, todos podem vivenciar em paz suas práticas religiosas. Por essa e outras motivações, imagine  quanta gente iria apanhar de varas nas costas e na bunda se aqui fossem aplicadas leis vigentes em alguns países orientais? Será que não temos sido muito permissivos? Qual a medida do bom senso? Certamente não é o excesso de ‘tolerância” que temos no Brasil. Preconceitos racial, religioso ou étnico talvez ainda estejam sendo punidos com muita brandura e/ou imunidade por aqui.

Foto 1

fullsizeoutput_414Oferendas de alimentos e incenso (insensário vermelho) no corredor, em reverência aos ancestrais; Singapura, 2018.

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Pequeno oratório na fachada de lanchonete, com oferenda de alimentos, em reverência à divindade cultuada pela família dos comerciantes.

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Templo induísta em Singapura

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Templo budista

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Outro templo budista em Singapura.

Menos direitos individuais e mais direitos coletivos

Singapura, localizada no sudoeste asiático, é um lugar singular, onde predominam a ordem e o progresso. Isso mesmo, o que está escrito na nossa bandeira como lema nacional é, na prática, o que existe de verdade em Singapura. Este pequeno país, uma cidade-estado menor que o Vaticano e mais nova que Brasília, tem um IDH ( Índice de Desenvolvimento Humano) muito elevado: 0,925 (dados da ONU de 2015). Resumidamente, o IDH é um referencial de progresso a longo prazo, obtido a partir da medição de três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde.

Em Singapura não se vê mendigos, gente comendo em lixeiras nem sujeira nas ruas. Os idosos são saudáveis: é até difícil adivinhar a idade deles! As crianças, educadas, respeitadas e respeitosas; e também protegidas. As delegacias são vazias; o transporte coletivo é excelente; é um lugar seguro: pode-se andar tranquilo nas ruas sem o medo de ser assaltada ou agredida de qualquer forma: a violência urbana é inexistente.

As pessoas trabalham muito, o tempo todo; o comércio, por exemplo, não para aos domingo ou feriados e funciona até no período noturno; respeito é palavra de ordem nesta cidade, construída na maior parte sobre aterros. Respeito às tradições, à religiosidade do outro, às mulheres, aos idosos, às leis, ao patrimônio público.

Água potável é comprada da Malásia, apesar disso, não falta no dia a dia. Por que não? Chega-se a outra característica fundamental de Singapura: os serviços públicos funcionam! São vistas obras de manutenção e reparos diariamente em vários pontos da cidade. Há câmeras de vigilâncias por toda parte, o que assegura o combate aos delitos e às transgressões. Ou seja: não há impunidade para com qualquer um que desrespeite as leis e as regras locais. É um governo considerado linha-dura. E no primeiro momento tem-se vontade de apelidar o lugar de cidade-do-não-pode. Há muitas restrições, sim.

Depois, avaliando melhor o contexto, conclui-se que é muito bom do jeito que é; e admirável! Porque progresso só é possível onde há ordem; e que esta não pode existir onde predomine a impunidade e onde não se cobre disciplina e respeito aos direitos coletivos. Em Singapura, há uma perfeita noção de coletividade e as pessoas não reclamam das regras ou da rigidez do Estado (criticada por alguns estrangeiros); ao contrário: concordam com o modus operandi rigoroso do governo porque sabem, percebem na prática, que viver de forma disciplinada faz as coisas funcionarem e assegura bem estar a todos. Aliás, disciplina é um traço cultural dos orientais sobre o qual nós, brasileiros, deveríamos aprender mais.

A principal queixa em relação a Singapura por parte de ocidentais e turistas apressados em criticar a cultura local é a de não haver respeito aos direitos individuais. A mim isso não parece ser uma verdade incontestável, e muito mais um discurso vazio de quem gosta de falácias. Entendo que ter boa educação, transporte coletivo de qualidade (o acesso de cadeirantes aos ônibus é uma coisa espetacular, é inclusão pra valer, não o faz-de-conta que temos no Brasil), segurança em todos os ambientes, boas escolas, respeito para com os idosos e com as mulheres, vida digna para todos, com pouca desigualdade social (não é comunismo, existem os ricos, sim, mas os não-ricos não são acintosamente excluídos, maltratados ou negligenciados nas necessidades básicas, como ocorre no Brasil) e segurança para ir e vir são aspectos muito pertinentes ao conceito de direito individual, e muito mais bem atendido do que em locais onde o excesso de liberdade individual provoca o caos (sabem a que lugar me refiro).

Entendo assim: o progresso passa pela ordem e não há ordem sem disciplina; o processo civilizatório visa, num sentido mais amplo, conduzir o ser à evolução. Sem evoluir, continuaremos a agir como primatas, nos orientando pelos instintos. Não estou menosprezando os seres primitivos, que fique claro, mas defendendo que cada espécie deve respeitar seu estágio evolutivo. Considerado a Teoria da Evolução, se não fizermos bom uso da razão, uma conquista dos seres de nossa espécie, estaremos atrapalhando a marcha natural do Universo ou desdenhando do propósito da Vida. A predominância dos interesses individuais sobre o bem coletivo é resultado de demandas primitivas, em que o ser se orienta mais pelo Princípio do Prazer, ignorando o Princípio do Dever, em termos psicanalíticos. Às crianças na primeira infância é permitido que hajam assim…

No Brasil, onde predomina a desordem e a falta de progresso, o contrário do nosso lema (mente quem diz que somos país em desenvolvimento; somos subdesenvolvidos mesmo), até membros do Poder Judiciário debocham das leis e da Justiça, institucionalizando a impunidade, o que leva à violência urbana a níveis inacreditáveis, a desigualdades e injustiças sociais elevadas e à muita violência urbana, entre outras mazelas. Enquanto isso, os direitos individuais dos transgressores, no entanto, são muito bem assegurados.

Um exemplo: são gastos milhões de reais, dinheiro que deveria ir para serviços públicos necessários ao coletivo, com o pagamento de Auxílio-reclusão, uma remuneração paga a dependentes dos presidiários. Ao invés de compensar o filho de um transgressor com dinheiro, o Estado brasileiro deveria desenvolver neles (no filho e no pai) a noção de dignidade e desejo de viver honradamente; e fazer das cadeias locais de correção de conduta e não escolas de bandidagem. É um remendo de estopa em tecido de seda porque aos legisladores e gestores públicos brasileiros não interessa o progresso do País e muito menos os direitos da minorias. Importa fingir que estão fazendo algo e assim justificar e manter os privilégios individuais deles. Com o tal auxílio, o Estado brasileiro se omite e incentiva o crime e o aumento da violência; falaciosamente em nome da defesa dos direitos individuais. Coisa de transgressor disfarçado, resumindo.

Não conheço pessoa de bem, proba e honrada, que vive sem transgressões às leis e trabalha honestamente, sem ferir o direito do outro, que defenda os tais “direitos individuais” em detrimento dos direitos da coletividade. Quem está sempre gritando por democracia e direitos humanos no Brasil atualmente são pessoas que respondem a processos na Justiça e desfrutam de inúmeros privilégios, na maioria pagos com dinheiro público. Será coincidência?!

Um País é um coletivo. Sem se respeitar isso, sem se priorizar interesses do Todo acima dos individuais não se tem progresso, desenvolvimento, não se pode ser uma democracia, mas ter-se-á  desordem urbana, uma anarquia, no sentido vulgar do termo. E é bom lembrar aos defensores dessa utopia que um regime anárquico só daria certo se as pessoas fossem igualmente evoluídas, condição inexistente na Terra no tempo atual. Então, pra concluir, quiçá nos tivéssemos no Brasil de hoje menos direitos individuais e mais respeito ao coletivo. Quem dera aprendêssemos a ser patriotas como os singapurianos.

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Vista aérea de Singapura, foto feita do alto da Roda Gigante (Singapore Flyer).

 

Símbolo de Resistência

Resistindo bravamente ao vândalo que tentou destruí-la, quebrando-lhe no tronco por duas vezes, este pé de moringa oleífera cresceu e cumpre seu propósito de vida: alimentar outras vidas. Suas flores alimentam abelhas, beija-flores, pequenos pássaros e borboletas, além de embelezar-nos a Vida, umidificar e perfumar o meio ambiente. Em breve,  as minúsculas flores vão se transformar em vagens semelhantes às do feijão (folhas, flores e vagens da moringa oleífera  podem ser comidas também por seres humanos – e por desumanas pessoas); são ricas em nutrientes e florescem o ano todo, chova ou faça sol.

Até os vegetais conseguem ser mais “prontos” que alguns seres humanos… quiçá quem hoje perde tempo com vandalismo e outras violências soubesse a que veio e se empenhasse em cumprir o propósito existencial, em vez de ocupar-se em destruir e disseminar más ações…

A história completa está no post UM PÉ DE MORINGA E UM VÂNDALO

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