O Brasil medicado

Em breve, acredita-se, uma  importante face do Brasil será conhecida e divulgada: a que usa medicamentos. Esse retrato será revelado por meio de uma pesquisa do IBGE a pedido do Ministério da Saúde, a  PNAUM ( Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos). Serão levantados dados sobre o acesso da população a medicamentos, aos produtos no Sistema Único de Saúde (SUS), o  uso racional de medicamentos e a automedicação.

A medida foi lançada em setembro do ano passado (2013) e efetivamente já foi iniciada na Bahia, no Espírito Santo, Piauí e em outros estados. “A pesquisa será dividida em duas etapas. A primeira, será realizada nos domicílios dos 26 estados e no Distrito Federal”, informa o Blog Saúde,   do Ministério da Saúde.  A segunda etapa do levantamento consistirá na aplicação de questionário nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos locais de entrega dos medicamentos nesses serviços.

Minha expectativa é de que os resultados alertem as instâncias governamentais para a prática exagerada, senão abusiva, de prescrições e do uso de remédios, sobretudo os psicotrópicos.  No jogo de força e de interesses, a indústria farmacêutica tem levado vantagem, a um elevado custo para a população, inclusive pelo adoecimento provocado, que redunda em elevados gastos com saúde pública.

A preocupação minha e de outros profissionais de saúde reside, entre outras variáveis, no fato de que o Brasil é o maior consumidor do mundo de clonazepam, o princípio ativo do Rivotril, um famoso “tranquilizante”. O problema com o uso desse remédio começa quando se instala a dependência e surgem os efeitos colaterais, que são bem preocupantes, conforme descritos em post anterior e largamente comentados por leitores. Muitas pessoas publicaram relatos  de suas experiências com esse remédio. Em “Cuidado com o Rivotril”

O que estaria por trás do sucesso desse medicamento, além, claro, das estratégias de marketing do laboratório fabricante, a Roche? Reposta: a natureza humana. As pessoas naturalmente tendem a buscar soluções rápidas e aparentemente fáceis – ainda que o preço a médio e longo prazo seja alto. É da natureza humana também o mecanismo de fuga. As pessoas optam por usar um psicotrópico, quando estão ansiosas e perceptivelmente alteradas no equilíbrio psicoemocional, para fugir de entrar em contato com o problema real, tentando resolver suas dificuldades com estratégias de esquiva. Afinal, reconhecer falhas de percurso, equívocos paradigmáticos, limitações e entrar em contato com a própria “Sombra” é tarefa que exige coragem e empenho genuíno na direção do autoconhecimento e da autocura.

As pessoas queixam-se, não totalmente sem razão, de que a alternativa apregoada para os psicotrópicos, as psicoterapias, são caras. Mas na maioria dos casos isso é apenas uma “desculpa”; porque, atualmente, nas grandes cidades as faculdades de Psicologia e as escolas de especialização em psicologia clínica oferecem psicoterapias a preços simbólicos, nos centros de formação de psicólogos, podendo isso ser a saída para quem não tem dinheiro. Os convênios médicos ajudam pouco nessa necessidade, por razões que a população já conhece: limitar número de sessões e pagar valores pouco atrativos aos profissionais.

A verdade é que não se pode negar a existência de uma tendência generalizada para a  ‘medicalização’, em detrimento de ações mais saudáveis. Inclusive sem que haja os necessários esclarecimentos acerca dos riscos e das complicações que o uso de remédios pode trazer. Como também não é esclarecido que remédios alopáticos tratam dos sintomas, nunca das causas. Amenizar a dor em momento de crise é compreensível e, às vezes, até necessário. Um dos grandes problemas, como já disse também no outro post,  está em prescrever remédios indicados ao manejo de crises para uso contínuo, sem os necessários esclarecimentos em torno dos riscos e das reais possibilidades de ajuda do remédio.

A mim se afigura como exigência ética informar ao paciente de que muitas perturbações emocionais e mentais não podem ser “curadas” com medicação, mas com exaustiva análise do que vai na alma.

Voltando à pesquisa, me ocorrem questionamentos do tipo:  a quantas anda esse levantamento? Em que fase está? Em quantas cidades os trabalhos já foram iniciados efetivamente? Quando começará a segunda etapa, se é que ainda não começou? Há previsão para divulgação dos  primeiros resultados? São questões que gostaria de ter respondidas pelo Ministério da Saúde ou por algum veículo de comunicação.