Paz no Rio exige mais que coerção

Acompanhei o episódio da invasão do Complexo do Alemão com muito envolvimento emocional. Torci pelo fim da opressão dos moradores honestos de lá e vibrei com o desfecho bem-sucedido. Tenho amigos e parentes no Rio e sei que a população dessa bela cidade merece qualidade de vida, tranqüilidade, paz. Penso que a ação era algo necessário e ocorreu com muito atraso. Todos sabemos que o cartel do tráfico ocupou espaços que a omissão do Estado deixou vazios.  O mesmo que ainda acontece na zona oeste, onde há favelas dominadas pelas milícias, outro tormento que precisa ter as “asas cortadas”. Neste caso, talvez o cancro seja mais difícil de eliminar porque envolve a própria polícia e agentes de segurança da máquina do Estado. Como os moradores das favelas do Alemão e a população do Rio, estou bem contente com a devolução aos moradores do território que lhes pertencia por direito. No entanto, não pode prevalecer a ilusão de que essa é a única medida a ser adotada. Veja: traficantes expulsos de seus territórios não viram santos de uma hora para outra. E continuam tendo que prover suas necessidades básicas de alimento, moradia, vestimenta… o próprio sustento e o de suas famílias. Ou alguém tem a ilusão de que essas pessoas vão se deixar morrer à míngua sem lutar? Todo ser humano, assim como os animais irracionais, são movidos pelo instinto de sobrevivênvia. Vão fazer o que sabem fazer: roubar, furtar, matar até, se preciso for para permanecerem vivos. Expulsos das suas casas, das suas famílias, do território que habitavam, eles apenas migram para outros lugares: Baixada Fluminense, Morro da Mangueira, Vidigal, outras localidades do Rio e, em menor número, para outros estados. Infelizmente o Rio de Janeiro não vai se tornar uma cidade tranqüila, segura para se andar nas ruas, sem roubos de carros ou outros crimes apenas com a expulsão dos traficantes de suas favelas de origem, nem mesmo se  for ampliada a atuação das tais UPPs, Unidades de Polícia Pacificadora. Porque esses traficantes fugitivos vão continuar aterrorizando, aqui ou acolá. Cada um de nós está encarregado de defender a própria vida e eles farão isso. E em situações de risco, a ética e regras morais têm menos força do que o instinto de vida. Se cada traficante, ladrão ou homicida que fosse preso saísse da cadeia com uma formação profissional que lhe permitisse arrumar emprego, se todos os presidiários fossem orientados a transformar suas condutas sociais e obtivessem oportunidade de inserção social, cada pessoa presa seria um indivíduo a menos a ameaçar a vida dos demais. Mas sabemos que isso não ocorre, muito ao contrário. E mesmo que todos os traficantes tivessem sido presos com a invasão do Complexo do Alemão  e das outras 13 favelas recuperadas pelo Estado, isso não livraria o Rio da violência lá  instalada e cronificada por força da indiferença, incompetência e omissão do Estado, assim como pela atuação de agentes públicos corruptos. Claro que mesmo que se tivéssemos o melhor sistema prisional ainda assim haveria aqueles elementos que insistiriam em ser bandidos. Caso do Elias Maluco, Fernandinho Beiramar e outros grandes chefões do tráfico. Para esses acho que o único caminho a essa altura é mesmo um tiro na testa e uma boa desculpa para que tudo pareça acidente. Sim, porque para esses já foram dadas todas as oportunidades, foi assegurado julgamento e  tratamento humano e mesmo assim eles insistem em comandar atos terroristas de dentro dos presídios.  Nada os detém, então não tem jeito. Para livrar a sociedade deles, pena de morte camuflada. Para os demais, alguns deles pelo menos, ainda há salvação e a eles também deve ser assegurado o direito a julgamento e tratamento digno. Mas para que o Rio paulatinamente reconquiste a paz que precisa o Estado não pode recorrer ao eterno jogo do “faz de conta que estamos fazendo”. Quando nos tornamos adultos, perdemos o direito de acreditar em Papai Noel ou Fada Madrinha. A sociedade carioca merece a paz, mas ainda falta muito para que a tenha e deve cobrar do governo federal, do governador do Rio, dos prefeitos e dos comandantes das polícias o cumprimento do papel de gestores públicos. Uma das medidas necessárias é remunerar melhor os policiais. Dirigindo pelas ruas de Brasília vejo PMs tranqüilos, quase entediados com o marasmo da cidade. São policiais preparados para garantir a ordem em eventos públicos e fazer blitz de trânsito. Ganham quatro mil reais por mês. Salários pagos pelo governo federal. Os policiais militares do Rio, com treinamento e desafios de “guerra”, ganham mil reais, pagos pelo governo federal. O que justifica essa distorção absurda? Para ter o mínimo de qualidade de vida muitos são seduzidos por propostas de corrupção. Claro que quando a pessoa tem problema de caráter pode ganhar até mais de vinte mil por mês e ainda assim vai se corromper, como nos mostrou o promotor do Ministério Público Leonardo Bandarra. Esse sim deveria ser taxado de “bandido” pela mídia julgadora, porque ele teve todas as oportunidades necessárias para ser do bem e se perdeu na sedução do mal. O que quero dizer é que festejar a libertação dos moradores do Alemão e de outras favelas é lícito. Mas o Estado não pode entrar no clima de comemoração infantil, repetir o erro de ignorar a dimensão do problema do tráfico de drogas e supor que a violência no Rio será resolvida apenas pela coerção ou pelo poder de polícia do Estado. É preciso serviços públicos de qualidade,  geração de empregos, é preciso combater com determinação a corrupção, doa a quem doer, é preciso fazer distribuição de renda mais justa e acabar com tantas injustiças sociais.

Sobre hipocrisia

Procurava na internet uma conceituação precisa de hipocrisia, a  máscara dos fracos, e encontrei uma série de vídeos muito interessantes de Mário Persona, incluindo uma com bem elaborada descrição dos hipócritas.

Mário é escritor, palestrante, professor, consultor de comunicação estratégica e marketing. Apesar de muitas das palestras dele terem conteúdo religioso, ele informa no próprio blog ( na verdade um podcast ou conjunto de arquivos digitais de áudio e imagens),  o EVANGELHO EM 3 MINUTOS não ser vinculado a nenhuma crença. Ele parece ser o que eu chamo de “cristão independente”, denominação/orientação que uso para mim. Leia um trecho do que ele diz na palestra sobre hipocrisia.

“O homem religioso é assim: ele tenta se esconder de Deus estando entre as próprias coisas que Deus aprova, como esmolas e orações. Tenta disfarçar, fingir, dissimular, tenta encobrir os seu pecados. O nome disso: hipocrisia. Jesus veio ao mundo para salvar pecadores; e são esses, os pecadores, que Deus procura. Se você continuar se escondendo atrás de sua religião, de suas boas obras e de suas orações, para parecer que não é um pecador, como espera ser encontrado por Deus, como espera ser salvo?

Quer assistir ao vídeo? Clique neste LINK.

Para nós, psicólogos clínicos, a hipocrisia é o mecanismo de fuga por excelência, é a vitória da resistência ao desafio de enfrentar a própria sombra, buscar o autoconhecimento e um vida cultivando a Verdade. É também a sobreposição da persona (“coincidentemente” o sobrenome de Mário) ao si-mesmo de forma vitoriosa (para azar da pessoa, que acaba por adoecer de tanto negar sua essência e suas reivindicações mais legítimas); é o medo de se olhar no espelho e destituir-se das máscaras. Mas é também a fraqueza de deixar que a vaidade lhe conduza os passos, as emoções, as decisões de vida… é, enfim, uma lástima, fonte de incalculável desperdício de vida, propagação de sofrimento e perda de oportunidade para evoluir espiritualmente – a partir da evolução psicológica. Mário Persona acabou por me esclarecer porque justo os crentes na graça divina são os mais hipócritas, mesmo sabendo que Deus e Jesus têm aversão indiscutível aos hipócritas. Basta ler qualquer um dos evangelistas para se deparar com essa contestação. Para finalizar, faço uma afirmação peremptória:  hipócritas não fazem psicoterapia. Não suportam o convite para olhar dentro deles mesmos no processo de análise.

Fuga do autoconhecimento

Transcrevo um trecho esclarecedor do livro Os Parceiros Invisíveis, obra imprescindível para todos que se percebam com dificuldade em interrelações, sobretudo em relacionamentos amorosos. Esclarece sobre a força das projeções do animus e da anima, as contrapartes masculina e feminina, existentes na mulher e no homem, respectivamente.

“O conhecimento mais elementar de si mesmo é algo a que a maioria das pessoas resiste com a máxima determinação. Em geral, somente quando nos achamos num estado de grande sofrimento ou confusão, e somente quando o autoconhecimento nos oferece uma saída, é que nos dispomos a arriscar nossas estimadíssimas idéias a respeito daquilo que sentimos ser quando postos diante da verdade, e , mesmo assim, muitas pessoas preferem viver uma vida sem sentido a ter de passar pelo processo, não rato desagradável, que as leva ao autoconhecimento. Além disso, há alguns aspectos existentes em nós que são mais difíceis de conhecer do que outros. Por exemplo, a personalidade da sombra, que se forma com características indesejadas e não desenvolvidas, que poderiam ter-se tornado parte da consciência, mas que foram rejeitadas (em vez de integradas). A sombra há muito foram reconhecidas pela Igreja Católica ‘Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero’, exclamou Paulo de Tarso, angustiado com a sua sombra*. Não é coisa inacreditável para nós que haja um lado mais escuro da nossa natureza, porque a religião muitas vezes já no-lo mostrou, embora, mesmo neste caso, haja uma impressionante conspiração dentro da maioria de nós, no sentido de prestar um serviço silencioso à nossa natureza mais obscura, ainda que evitando encará-la em suas peculiaridades. Assim, a nossa sombra frequentemente se apresenta óbvia para outros, mas continua desconhecida para nós. Muito maior é nossa ignorância acerca dos componentes masculinos e femininos existentes dentro de nós, que escapam à nossa atenção, por serem completamente diferentes do que nossa consciência conhece a respeito de nós. Por esse motivo Jung denominou a integração da sombra usando o termo a peça-aprendiz no processo de tornar-se inteiro, e chamou a integração da anima e do animus de obra-prima”Sanford, pág. 16.

A dificuldade de buscar o autoconhecimento e realizar processo analítico que conduza ao contato e à integração da  sombra é mais frequente em pessoas de elevada capacidade e bagagem intelectual. Isso ocorre  porque esses indivíduos costumam ser intelectualmente arrogantes, alimentam postura de autosuficiência quando , na verdade, estão se sabotando, isto é, recorrendo à propria inteligência como mecanismo de defesa para essa fuga. Há também os que preferem se refugiar na religiosidade,  supondo que lhes basta seguir diretrizes da igreja e, não raro, se submeter a autopunições ou repressões de todo tipo para sentirem-se salvas. pagam preço alato para nada!

* 12 Rom, 7,19

SANFORD, John. Os Parceiros Invisíveis. São Paulo (SP): Paulus,2007

A irreversibilidade da maternidade e da paternidade

Em momento de rara lucidez a produção do programa da Ana Maria Braga (Mais Você) levou ao estúdio uma pessoa que realmente tinha algo a dizer, o psiquiatra Fábio Barbirato. O assunto era o comportamento violento de jovens. O médico explicou o que nós terapeutas temos vontade de gritar pelas ruas naqueles caminhões de música baiana: “a responsabilidade de educar e orientar seu filho é sua e não pode ser transferida para ninguém, nem para a babá, a professora, diretora da escola ou  terapeuta. Taqmbém não funciona pedir ao pediatra um remedinho pra curar ele das condutas indesejáveis.” É isso, esses jovens que tocam fogo em índio, agridem professores ou outros jovens nas ruas, shopping centers ou saída de boates fazem isso porque para eles faltou pai e mãe orientando, dando limites. Pais da classe média para cima erram mais nesse aspecto por dois motivos.  Primeiro: acreditam que conseguem suprir ausências e omissões deles com presentes, concessões de todo tipo e confundindo amor com permissividade. Segundo motivo: distanciamento de Deus e da noção de respeito ao próximo – o que, obviamente, não têm como ensinar aos filhos, uma vez que essa diretriz não existe dentro deles.

Assista à ENTREVISTA.

Você que é pai ou mãe: Ninguém pode substituir você nessa função. Essa atribuição não pode ser delegada a ninguém, nem mesmo à avó da criança.

Bom, mas não vou me estender no comentário. Fábio Barbirato escreveu um livro e as ideia dele podem ser lidas em “A Mente do Seu Filho: Como Estimular as Crianças e Identificar os Distúrbios Psicológicos na Infância”. O livro aborda as causas de transtornos como agressividade, birra e timidez, e indica como avaliar quando eles são normais e quando devem ser tratados.

A negligência de homens e mulheres no cuidado com os próprios filhos revolta a nós psicoterapeutas porque constatamos em consultório que a maioria absoluta dos transtornos mentais e dificuldades psicoemocionais e comportamentais das pessoas que nos procuram, adultos e crianças, têm origem no ambiente familiar, em decorrência do “manejo” de pais e mães equivocados ou de outros adultos (i) responsáveis. E se uma babá perversa causa desajuste psicológico numa criança, ainda assim a responsabilidade é dos pais.

Há poucas coisas na vida que são irreversíveis. Ser pai e mãe é a principal. Resolveu ter filho? O resultado dessa decisão  é para sempre. Então faça direito. Se não sabe como, procure descobrir. Se não quisesse essa responsabilidade deveria ter comprado um bebê de plástico. Já existem alguns no mercado que são cópias fieis de bebês vivos. Só que ninguém tem o direito de se esquecer que esses últimos fazem cocô, choram, pedem comiga, companhia e educação.  A irreversibilidade de ser  pai e mãe só perde em importância para o oposto disso: a morte, isto é, matar uma pessoa.

Fabio Barbirato é psiquiatra, professor de psiquiatria infantil (PUC-Rio) e de medicina (Souza Marques). Ex-presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil do Rio de Janeiro, atualmente é responsável pelo setor de psiquiatria infantil da Santa Casa de Misericórdia.

A Mente do Seu Filho tem uma coautora: Gabriela Dias, mestre em psiquiatria e saúde mental pela UFRJ e especialista em saúde mental e desenvolvimento infantil pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Silvia coordena o Programa de Avaliação e Atendimento ao Pré-Escolar do setor de psiquiatria infantil na Santa Casa de Misericórdia do Rio. É também professora da Faculdade de Medicina Souza Marques.

Para quem gosta do estilo, o livro pode ser adquirido também no formato e-book, isto é, em versão eletrônica. Particularmente não gosto; prefiro sentir a textura e o cheiro do papel; coisa de quem já passou dos 40, talvez.

Câncer: melhor não arriscar

Algumas pessoas se esforçam tanto para adoecer que acabam conseguindo.” A frase é de uma médica oncologista que deu palestra na manhã de ontem na Faculdade de Ciências da Saúde do GDF, a Fepecs. Explicando melhor, conforme o que aprendi no encontro: o câncer se desenvolve em organismos que nasceram com um gene “defeituoso”, que predispõe à doença. É a chamada predisposição genética. Todas as pessoas que nascem com esse gene terão câncer? Não. A predisposição não é determinante por si só. Apresenta aumenta a probabilidade para a doença. No entanto, mesmo contendo em seu organismo o tal gene defeituoso, a pessoa pode nunca chegar a adoecer, se ela não somar a essa predisposição nenhum fator de risco. Entre esses fatores, a maioria de origem comportamental, estão o estresse cronificado e intenso, a baixa imunidade, alimentação inadequada (sem fibras, frutas, verduras e legumes – que ajudam na desintoxicação, fortalecimento e defesa do organismo), vida sedentária, alcoolismo, consumo de cigarros, uso de drogas ou substâncias psicoativas de  qualquer espécie, incluindo a maconha, cocaína e coisas similares. E importante: mesmo quem não tem o gene que predispõe ao surgimento do câncer, pode desenvolver a doença, se incluir na vida esses fatores de risco. Daí porque ela usou a expressão acima, de tanto se esforçar, a pessoa acaba por conseguir desenvolver um câncer. No meio médico e psicológico costumamos dizer que as pessoas “fazem” um câncer e todos sabemos que outro fator de risco para desencadear essa doença terrível é o cultivo de emoções nada saudáveis, como a raiva, a culpa e o ressentimento, entre muitas outras. Quem se “alimenta” dessas emoções e as cultiva diariamente, na verdade reprime coisas muito significativas para ela, em vez de pôr a sujeita para fora, tentar compreender e ressignificar a experiência desagradável que deu origem ao padrão psicoemocionalcomportamental doentio. Outras adoecem por não integrarem a própria sombra, sequer tomarem conhecimento dela, e gastarem anos de vida empenhadas em ser como não são, em fazer coisas diferentes do que pede o si-mesmo. A psicossomática, uma ciência que ganha força a cada dia, vem tentando sistematizar a relação entre  emoções/pensamentos e o adoecer. Algo que a medicina chinesa já reconhece e propaga há milhares de anos. Uma amiga psicóloga que trabalha na oncologia do Hospital de Base de Brasília comentou comigo que a história de vida das mulheres com câncer de mama atendidas por ela costuma tem algo em comum: casamentos com parceiros desleais e/ou abandono. Um amigo espírita e também psicólogo me ensinou que pessoas com práticas contrárias à saúde, que não adoecem na encarnação em que cometem esses desatinos, levam consigo (no perispírito, segundo ele) as marcas dos maus tratos ao corpo para a próxima vida e alguns anos depois renascem com doenças crônicas, as chamadas congênitas. Assim, quem nesta vida, por exemplo, tem câncer apesar de sempre ter levado vida saudável, “plantou a semente” na encarnação anterior.  No meu ponto de vista, seja levando em conta o alerta da médica, seja considerando a explicação do espírita, o melhor é  não arriscar e (pelo sim, pelo não) viver sem desrespeitar a saúde do corpo e do espírito. Até porque, a vida é maravilhosa, mesmo com os problemas [e políticos corruptos]! Viver com saúde é infinitamente melhor. Há um apresentador de TV aqui em Brasília que repete sempre : “saúde e paz, o resto a gente corre atrás”. Problemas vêm e vão e fugir da realidade, se esconder da vida em práticas equivocadas pode ter preço muito alto.

Feche a gestalt e siga em frente

“Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final.
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos [fechando gestalt]. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.

Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu….
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora…
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração… e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.

Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.

Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.

Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do “momento ideal”.  Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!

Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa – nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.

Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és.
E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão.”

Texto: Fernando Pessoa

Homossexualismo na adolescência

Será lançado em São Paulo, no próximo dia 18, o livro Uma Outra Verdade, do psicólogo Claudio Picazio. Sem apelar para explicações fáceis nem recorrer a julgamentos de valor, ele responde às dúvidas mais comuns feitas por pais e educadores sobre homossexualidade na adolescência. O objetivo é transmitir ao leitor informações claras e diretas, eliminando o “achismo” e o senso comum, ajudando a combater, assim, qualquer forma de discriminação.

A noite de autógrafos será na Loja das Artes, que fica na Av. Paulista, 2073 – São Paulo (SP), das 18h30 às 21h30.

O livro, segundo o autor, nasce da necessidade de se esclarecer algumas questões que ainda geram dúvidas e, consequentemente, preconceito por parte de pais e educadores. “Quando pais e professores conseguem entender a questão, percebendo que a homossexualidade não é desvio e sim uma outra verdade da expressão da nossa sexualidade, tudo fica mais claro, tornando mais fáceis a quebra do preconceito e a formação de um novo paradigma”, afirma Picazio.

Explicando o que é preconceito e homofobia, por exemplo, Picazio apresenta dados recentes sobre a homossexualidade. Segundo pesquisas feitas por organizações que lutam pelos direitos homossexuais e entidades de direitos humanos, a cada três dias, uma pessoa é morta simplesmente por ser homossexual. Além disso, o Brasil é campeão mundial em crimes contra homossexuais. “O triste é constatar que essa violência começa em casa. Muitos pais rejeitam e até expulsam do lar filhos e filhas que não correspondem ao comportamento e ao desejo sexual esperado. A violência física e psicológica torna-se a estrutura de um estigma fragilizado. São enormes a vergonha e o preconceito internalizados em um gay que conviveu com essa atitude familiar”, diz.

O índice de suicídios na adolescência é três vezes maior no caso de homossexuais. “Em minha experiência clínica, atendi um casal de pais cujo filho cometera suicídio e havia deixado um bilhete com os seguintes dizeres: ‘Desculpa pai, mãe, não quero decepcionar vocês. Sou homossexual e isso magoaria muito vocês. Beijos’. Nenhum pai, nenhuma mãe, acredito, gostaria de ver essa cena; mas, infelizmente, profetizam tal ação quando dizem alto e bom som que prefeririam um filho morto a um homossexual.”

Claudio Picazio é formado pela Universidade São Marcos (SP). Especialista em sexualidade humana e em violência doméstica e abuso sexual infantil pelo Instituto Sedes Sapientiae. Psicólogo clínico desde 1983, atende adolescentes e adultos e oferece terapia a casais homo e heterossexuais. Também desenvolve grupos de estudos e de pais. Foi consultor do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação no projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE). Atuou no projeto Tecer a Vida, do Unicef, onde deu supervisão a profissionais da instituição e da rede pública que atendiam adolescentes e adultos soropositivos (primeira geração), visando à reintegração familiar. É cofundador da Atos, oscip que atua na diminuição da vulnerabilidade social, e autor dos livros Diferentes desejos: adolescentes homo, bi e heterossexuais e Sexo secreto – Temas polêmicos da sexualidade, ambos das Edições GLS.

Texto: Resenha da editora