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Fortalecendo a relação amorosa na pandemia

Casar é buscar parceria, certo? Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Se não for assim, para quê casar? Fácil falar, né?!  Na prática, porém, o bicho pega. Mas sabe aquela brincadeira entre amigos(as) de que não se pode casar antes de fazer uma longa viagem juntos para conhecer o cônjuge em diferentes situações e testar a relação num tempo maior de convivência? Quem duvida da validade dessa ideia? Então, se seu cônjuge passou no teste e vocês se uniram no dia a dia, talvez falte um pouco de criatividade e, claro, senso de responsabilidade, inclusive para se lembrar dos propósitos de estarem juntos. E paciência. É verdade: às vezes um CAMINHÃO de paciência. Tudo bem, paciência é uma virtude a ser desenvolvida.

Esqueça o “ e foram felizes para sempre”; isso é conto de fadas, apenas uma metáfora para dizer que a relação deu certo. Ou lembre-se da frase, mas não se esqueça de considerar que o felizes para sempre não exclui compartilhar dificuldades. Enfrentar problemas não é necessariamente ser infeliz; é ser adultos! E desejar só diversão e felicidade, além de infantil, é para os fracos (ou para os sonhadores)! Os fortes se testam e se descobrem mutuamente na adversidade. Mas sempre valerá outro velho conselho: para um relacionamento dar certo a longo prazo, os casais devem manter o espaço pessoal de cada um. O isolamento social forçado pela pandemia dificulta isso, claro, mas não inviabiliza. Zelar para respeitar a privacidade mínima do outro e, dentro do possível, fazer um ligeiro afastamento momentâneo apenas para oxigenar a individualidade. Aí entra a necessidade de serem criativos e respeitosos mutuamente em relação ao “espaço” do outro.

Além disso, a permanência juntos por muito tempo pode ser uma oportunidade para os casais se  reconectarem, redescobrirem-se mutuamente. “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio” – porque o rio está sempre mudando,  tornando-se outro rio com o correr das águas. Isso ocorre também com as pessoas. Se o(a) parceiro(a) mudou, descubra quem é essa nova pessoa e como se relacionar com ela. O modo de fazer isso é muito individual. Também é muito singular o caminho de os parceiros se moldarem ao “novo” cônjuge.

Namoro e casamento são caminhos de evolução, de crescimento pessoal em parceria com outra pessoa. Quem prometeu que só envolve flores?! Mas pode haver flores no caminho também. Lembrando que algumas flores têm espinhos como forma de autoproteção! E falar de flores faz lembrar outra grande necessidade nas relações amorosas: fazerem coisas divertidas juntos. Na fase de namoro e/ou noivado, convidamos o outro muito mais vezes para coisas agradáveis, certo? Só uma vez ou outra para uma chaticezinha. Após o casamento, o cotidiano engole as pessoas como um tsunami e adeus diversão. Quase sempre a lógica é invertida: só uma vez ou outra uma diversão. Forçosamente isso vai deixar a convivência pesada. Então, sejamos criativos em descobrir coisas agradáveis para fazermos a dois, mesmo com o isolamento social.

O lazer sempre será um componente necessário a qualquer casal, com ou sem filhos – com filhos mais ainda! E a diversão também existe em coisas simples! Há muito prazer, por exemplo, em duas pessoas contemplarem juntas o pôr-do-sol! Em lerem poemas um para o outro (para os que gostam). Ou cozinharem juntos, montarem uma varanda florida (sem varanda no apartamento pode ser em uma estante próxima à janela – nada de desculpas!). Na verdade não há a necessidade de se apresentar uma lista de opções, inclusive porque levantar as possibilidades criativas é um trabalho que pode ser feito em conjunto.

O fundamental é o amor, a afetividade construída entre ambos e, também importantíssimo, o respeito em relação ao outro, inclusive para reconhecer que a pessoa está de mau humor e quer sossego. Deixe quieto (a), então. Analisar as contingências, “ler” o que está acontecendo a sua volta e não sair disparando ações irrefletidas. Andar em vez de correr dentro de casa – no sentido figurado, claro. Com esse textinho quis apenas fazer algumas observações simples, lembretes corriqueiros. Espero ter ajudado.

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A história real do menino-pássaro

Apesar de muito raros, casos reais de crianças portadoras da Síndrome de Mogli, (nome inspirado no caso do menino criado por lobos) existiram ao longa da história e um deles foi descoberto em 2008, na cidade russa de Volgogrado.

“Assistentes sociais encontraram um menino de sete anos de idade, chamado Vanya Yudin, que vivia em uma minúscula casa rodeado de gaiolas com pássaros. Segundo relatado na época pelo Daily Mail, o jovem foi achado em um minúsculo apartamento de dois quartos que parecia funcionar como um aviário, cheio de gaiolas contendo dezenas de pássaros. Tudo isso rodeado por grãos e fezes dos animais.”

A continuação da história pode ser lida na versão em português em AVENTURAS NA HISTÓRIA. Busquei na web informações complementares sobre o garoto hoje e só encontrei informações de 2018, segundo as quais ele estaria morando em um asilo em Volgogrado, mas estavam planejando transferi-lo para um centro de atendimento psicológico que estava dois anos atrás, monitorando a propagação da síndrome de Mogli, onde havia cinco crianças com a mesma síndrome. Se alguém mais habilidoso em pesquisar na internet quiser ajudar na busca por notícia mais atual…

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Pela busca do sentido de viver

Quando vi a fotografia de um amigo pendurado pelo pescoço, falecido, autoimolado, me pus a perguntar “que sentido ele dava à Vida?”, “que dor atroz ou frustrações cortantes o empurraram para o buraco escuro do desespero a ponto de ele desistir de viver?” Mas se a dor dele era atroz, certamente não era a única nem a maior. Se as frustrações lhe roubaram o ímpeto de continuar em frente, quão frágeis ou talvez ilusórias eram as próprias metas de vida e o sentido por ele atribuído às lutas do viver extensivas a todos os seres humanos?

No caso específico do meu amigo, ele tinha família, renda, reconhecimento público, casa própria, propriedade rural para entretenimento e descanso, amigos e tinha, sobretudo, muitos irmãos a sofrerem mais do que ele, precisando de ajuda, material ou moral. Mas o olhar continuou voltado para si apenas? Há egoísmo no suicídio? Talvez o menor dos componentes. E o maior? Arriscaria afirmar: ausência ou percepção equivocada do sentido da Vida na Terra.

O ato de suicídio pode ter algo de corajoso, afinal lançar-se no obscuro mundo dos mortos sem saber o que há por lá, e ninguém que, forçosamente, foi visitar o Hades voltou de corpo presente para contar como é lá, certamente exige coragem. Mas acima de tudo é ato de desespero. Julgamento moral sobre a atitude, certamente é algo a ninguém autorizado, visto que a nenhum ser humano foi dada a faculdade da onisciência.

No entanto, soa imaturidade querermos abster-nos de refletir e buscar entender as causas de tão extremada e irreversível atitude, inclusive para fins de prevenção. As circunstâncias, como é sabido, são as mais variadas, mas em todas o que há de recorrente é a perda da fé na continuidade da vida pós-morte, o sentimento de desistência, o achar que não vale a pena continuar vivendo e, em muitos casos, angústia tão profunda que conduz a intenso desespero na alma. Resumidamente, em todos os casos parece predominar a ilusão de que matando-se o corpo, eliminar-se a dor da alma.

Na mesma direção, portadores de transtornos mentais que cometem atos de autoagressão (como cortar-se com lâminas), relatam algum tipo de alívio: enquanto estão sentindo a dor na pele, por alguns instantes ficam livres da dor na alma. Esta, se lhes afigura tão lancinante que passa a valer a pena uma dor física em troca de instantes de alívio das angústias. “Quando eu estou fazendo isso, eu deixo de sentir essa coisa dentro de mim, essa agonia, esse fogo me queimando…” A frase é de uma adolescente questionada sobre os cortes no braço e nas pernas.

Tanto quanto as causas dessas dores intensas e subjetivas – tão difíceis de serem expressas – a forma de enfrenta-las é muito singular. O conceito de resiliência, a capacidade que algumas pessoas têm de permanecerem saudáveis e equilibradas apesar de expostas a severas adversidades, começou a ser usado no sentido psicológico na década de 80. A ideia veio da Física e refere-se à capacidade de um material voltar ao estado inicial após sofrer profunda tensão. Por extensão e redutivamente, ser resiliente é ser capaz de voltar ao estado de antes após sofrer abalos; é resistir à “quebra” ou “deformação”.

Variados estudos e propostas de intervenções foram testadas no mundo todo com o intuito de se desenvolver resiliência nos indivíduos. Fosse uma questão meramente física, biológica ou de sentido apenas racional certamente os esforços teriam surtido resultados mais eficazes e os índices de suicídio não teriam crescido em números alarmantes, tampouco aumentado a fuga para antidepressivos e ansiolíticos, uma proposta tortuosa dos avanços da Medicina.

Contudo, por envolver dimensão muito mais complexa, as pessoas seguem enfrentando grandes dificuldades para se defrontarem com a dor e o sofrimento. Ao se analisar estatísticas de casos de suicídio, nenhuma relação é capaz de explicar o fenômeno. Nenhum fator responde sozinho pelos altos índices de suicídio, que pode ser considerado como a falência da capacidade de resolver uma crise pessoal, resultante ou não de fatores externos. É o resultado fatal de uma alteração piscoemocional ou psicoemocional-social-espiritual, de um problema de saúde mental greve não solucionado.

A Lituânia, país desenvolvido e membro da União Europeia, aparece como infeliz campeão nos casos de suicídio em 2018, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). No mesmo relatório, o Brasil aparece na posição 113, apesar da extensão de nossas crises econômica, político-social, moral e financeira e todas as mazelas disso decorrentes, incluindo pobreza extrema afetando mais de 13 milhões de brasileiros. A Lituânica, registrou em 2018 um PIB de 16,6 €, enquanto o Brasil, no mesmo ano, computou 7,56 €. Ou seja, a questão está longe de ser explicada pelo viés econômico meramente. A cultura, a religiosidade, a organização político-partidária, nenhum desses fatores explica isoladamente os altos índices de suicídio da Lituânia.

Um estudo mais aprofundado, verificando-se meticulosamente o caso da Lituânia e outros que encabeçam a lista, inclusive em contraponto com os de menores índices, talvez possa trazer valiosas respostas. Que variáveis são recorrentes em um e em outro caso? Há que se buscar hipóteses explicativas e compreensão ampliada do problema mundial.

De acordo com o relatório de 2016 da OMS, anualmente mais de 800 mil pessoas cometem suicídio em todo o mundo; uma pessoa a cada quatro segundos. Grande parte dos casos têm relação direta com distúrbios mentais mais comuns, como a  depressão, a esquizofrenia e os transtornos psicóticos. O abuso de drogas e o alcoolismo também têm influência considerável na ideação suicida, principalmente entre jovens de até 29 anos de idade.

 No caso dos jovens, alguns fatores podem ser elencados como tendo relação causal com o suicídio: influência de produções audiovisuais (séries e/ou filmes televisivos ou de plataformas  streaming); impacto das redes sociais ou do universo digital; falta de expectativa no futuro; conflitos relacionados à orientação social e falta de tratamento ou inadequação das intervenções.

Nos casos dos não-jovens, principalmente os idosos ou pessoas mais maduras, a relação causal pode ser diferente e possivelmente a falta de expectativa no futuro ou ausência do sentido de viver desponte como causa principal. Para esses casos,  o psiquiatra suíço Carl Jung apresenta alguma luz: o criador da Psicologia Analítica,  ensinou que as pessoas saudáveis na meia idade, após terem alcançado as realizações materiais, familiares e profissionais, naturalmente voltavam-se para fora de si e focam no “outro” o sentido para viver. Ou seja, encerrada a fase das conquistas pessoais efêmeras, chega a hora de somar conquistas que o indivíduo poderia levar para além-túmulo. É a atenção voltada para o metafísico. Mas para isso fazer sentido a pessoa precisa ter a visão transcendente da existência humana e não um pensamento materialista de que com a morte do corpo tudo termina.

O oposto do olhar transcendente é a visão hedonista da vida, isto é, colocar o prazer como bem supremo, finalidade e fundamento da existência humana. Para a Neurociência, o pensamento antecede a emoção e a ação. Então, a visão de vida orientada por crenças materialistas pode levar a pessoa a recusar qualquer necessidade de enfrentamento da dor, seja decorrente de doenças, limitações do envelhecimento do corpo, grande privação material, decepção afetiva e/ou sentimento de vergonha/humilhação frente a um suposto erro ou fracasso material/social (golpe na vaidade).   

Outro grande fator de perda do sentido de viver que pode levar ao suicídio, em casos extremos, é o afastamento do Numinoso, alguma divindade e/ou crença em um Poder Supremo que lhes aponte alguma compensação após o sofrimento. Não no sentido de troca ou mercantilismo, mas de ordem cósmica universal, Justiça Superior, propósito evolutivo ou algo similar.

Assim, as ideias alimentadas a partir do Iluminismo e a supervalorização do cientificismo resultaram no afastamento das pessoas de suas respectivas deidades e, percebe-se hoje, tirar Deus da vida das pessoas nenhum benefício trouxe.

Então talvez se deva buscar nova compreensão da relação criatura e Criador, aproveitando-se dos avanços tecnológicos e desenvolvimento do intelecto humano e não utilizando-se dessas conquistas para negar a existência de Deus e a necessidade humana de alguma experiência metafísica.

Importante também assinalar que o decurso histórico da humanidade mostrou que, sem empunhar nenhuma bandeira, para fins de sentimento de realização ou saúde mental, o dinheiro não substitui Deus, tampouco as titulações acadêmicas, nem a fama, lideranças políticas ou o Estado em si. A criatura carece do criador como a criança do pai e da mãe. Obviamente não estou afirmando que a causa do suicídio é sempre falta de religiosidade e ou espiritualidade. A simples vivência espiritual por si só não debela todas as angústias da alma. Defende-se aqui um sentido de vida construído em bases sólidas, seja pela via da religião (do latim religare) ou de uma conexão qualquer com o Numinoso, que pode ser, inclusive, pela conexão arquetípica com a Natureza, no papel de Grande Mãe.

Foto de Benjamín Gremler in Unsplash

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Família funcional, criança saudável

Inspirada no texto do filósofo Carlos Adriano Ferraz, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), preciso novamente falar da importância que os pais e as mães têm para os filhos, não apenas do ponto de vista da sobrevivência, mas principalmente da saúde mental.

Ele afirma em texto publicado no Jornal da Cidade Online: “Uma família funcional não precisa do Estado. A família é uma das derradeiras resistências aos avanços do Estado sobre as vidas individuais.”

Minha prática clínica como psicóloga de crianças e adolescentes numa unidade pública de saúde (e de adultos no consultório particular) corrobora a veracidade dessa afirmação. Percebemos com clareza que as crianças são sequeladas pela falta de funcionalidade das famílias, quando não da ausência de um núcleo familiar estruturado para lhes assistir o período de desenvolvimento infantil.

Sendo mais direta: crianças cujos pais e mães são responsáveis, presentes, comprometidos com o desenvolvimento dos próprios filhos dão conta de educa-los, acompanhar o crescimento/desenvolvimento psicoemocional deles sem precisarem de psicólogos, psiquiatras e/ou medicamentos do governo.  

Muitos dos transtornos que levam as crianças às unidades de saúde mental têm origem na falta de funcionalidade das famílias, desde o Transtorno Opositor-Desafiador (TOD) à Depressão, passando por outros como Transtorno de Ansiedade e o Antissocial.

Obviamente alguns indivíduos chegam à fase adulta com sintomas dessas alterações, senão com elas agravadas. E, obviamente também, não se pode negar a força influenciadora do meio social, principalmente da escola, sobre o manejo das famílias, mesmo as funcionais. Tampouco seria correto negar a existência de alterações psíquicas e psicoemocionais de  causalidades diversas das mencionadas aqui, com origem/causa mais profunda. 

Em reunião de trabalho no início do isolamento social ouvi a preocupação de alguém da nossa chefia  ao afirmar, com a certeza de um tolo, que os transtornos das crianças que atendíamos estariam agravados com o isolamento. Para mim e  colegas  que conhecem a dinâmica e a gênese  das alterações na saúde dos nossos pacientes isso soou como uma sandice.  Protestei, explicando que poderia ocorrer o contrário: elas retornarem à rotina mais saudáveis do que antes porque estavam recebendo atenção e cuidados de quem realmente lhes interessa, os próprios pais.

Claro que há deploráveis exceções, como os menores cujos pais nunca entenderam  a necessidade de dedicação e renúncia envolvidos na maternidade e na paternidade. Nesses casos haverá sempre transferência de responsabilidades para  escolas e serviços de saúde, ou para outros parentes. E essas famílias também confirmam a afirmação inicial: necessitam do Estado porque são disfuncionais.

Neste período de isolamento social tenho visto cenas que exemplificam bem o porquê, a partir da comparação com o oposto,  de tantas crianças adoecidas das emoções e dos comportamentos. Antes da pandemia, raros eram os pais e as mães que víamos dando atenção aos seus filhos, fazendo coisas simples como testar receitas culinárias, desenhar e/ou recortar figuras, fazer colagens, jogar entretenimentos simples (dominó, Ludo, quebra-cabeças, etc.), ler,  assistir a bons filmes juntos, moldar argila ou massinha colorida,  passear de bicicleta, patinete ou simplesmente andar de mãos dadas, como tenho recorrentemente visto no meu bairro, que dispõe de amplos espaços abertos.

Mais fácil será continuar esse saudável convívio com as crianças após o isolamento, já que espaços públicos estarão liberados, como parques, ruas de lazer, clubes e circos, entre tantas outras opções. Quem não sabe o valor que tem um piquenique no parque embaixo de uma árvore, rodeados de uma imensidão  verde? E, por que não, até de um piquenique no fundo do quintal ou no meio da sala? Coisas diferentes e criativas despertam o interesse das crianças, fazem-nas sorrir e ter confiança nos adultos que cuidam delas. Além de enriquecerem o vínculo e as memórias afetivas.    

Numa leitura mais ampla sobre os efeitos do bom desenvolvimento das crianças, pode-se afirmar que fortalecer o futuro do nosso País envolve também recusar qualquer produto televisivo e/ou ação político-social,  governamental ou não, que esconda estratégias de enfraquecimento das famílias  e os valores ético-morais que lhes dão consistência e força. Pense: a quem interessa desconstruir as famílias e criar indivíduos dependentes do Estado? A quem deseje controlar os indivíduos e a sociedade!

Minha expectativa é de que essa dolorosa crise causada pela COVID-19 deixe como resultado positivo o fortalecimento dos núcleos familiares e a descobertas dos pais sobre o que realmente tem mais valor para seus filhos: presentes caros? Ou uma hora na companhia deles? E do que realmente as crianças precisam: exagerada permissividade para compensar ausência e atenção? Ou muitos “nãos” orientadores sobre limites e necessidade de autorrespeito, respeito aos outros e aos diretos coletivos?

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Este País tem donos! Ou: estimulando a divisão

Tive um sonho. Explicativo; metafórico. A Psicologia Analítica chama de Sonho Arquetípico ou Grande Sonho. Nele eu vi inicialmente uma cidade moderna, que de repente deixa de ser uma cidade e passa a ser um país. Vi sua imensidão e suas verdes matas! Vi tantas riquezas! Em cima e sob o solo; e muita água cristalina!  O céu muito azul; aves coloridas sobrevoando. Se me afigurou que havia cidade embaixo e em cima da terra… essas coisas estranhas de sonhos.

Vi sua gente também, o povo desse país tão verde. E a população estava dividida em grupos: uns vestiam vermelho;  outros,  amarelo e azul. E as pessoas brigavam, se digladiavam, se ofendiam, alguns corriam atrás de outros; uns realizavam duelos de espadas. Havia brados e  gargalhadas debochadas. Vi grandes grupos mais afastados também; uns jogando futebol;  outros, festejando não sei o quê.  Pareciam alheios, indiferentes ao topo do morro e às pessoas que brigavam; mais riam e pulavam de modo irrefletido do que aparentavam racionalidade.

Então enxerguei  um morro. As pessoas divididas em diferentes grupos estavam na base do morro, que  era dourado e brilhava, como se fosse formado todo ele de ouro e pedras preciosas.  No topo dele havia poucas pessoas; bem poucas!  E estavam muito bem vestidas, como se tivessem saído de um evento pomposo, como entrega do Oscar.  Fumavam grossos charutos e sobre as cabeças tinham cartolas. As mulheres tinham o colo coberto de preciosas joias e usavam vestidos de festa, muito glamorosos, ricamente enfeitados de desenhos dourados, como seda brocada, e com pedras preciosas incrustradas.

Ainda sonhando entendi que as pessoas do morro que olhavam para baixo representavam pessoas muito ricas do Brasil. Bem poucas eram as do topo do morro, como já disse,  e as do pé do morro, numerosas, uma multidão, como também já disse, mas repito, e estavam divididas em grupos.    

Enquanto as pessoas de baixo brigavam, as do alto gargalhavam e assistiam  às cenas aos pés delas com desprezo e arrogância. Havia uma orquestra com um  maestro que mexia a baqueta conforme o que acontecia lá em baixo, de forma a dar novo som e a provocar novas reações na ralé, que não percebia a manipulação.

Minha interpretação: o lugar é o Brasil. O morro, o topo da pirâmide social onde 1% dos mais ricos distribuem entre si  30% das riquezas, e todo o resto da numerosa população de trabalhadores fica com  o restante. 

Os grupos de pessoas representam a população brasileira, atualmente dividida no dualismo esquerda x direita ou  bolsonaristas x lulopetistas, principalmente. A quem interessa essa rivalidade? Contra quem guerreiam as pessoas não-ricas, classe média e mesmo as pobres? Brigam entre si enquanto os verdadeiros inimigos manipulam para continuarem “donos” das riquezas do País.

Os grupos mais afastados são as pessoas isentas e as indiferentes, que optam por não se envolverem na disputa pela ordem social e distribuição das riquezas da Nação, como se fosse isso atribuição de outros, ocupando-se eles apenas de diversão, futebol e banalidades.

Ainda agora, se me pondo a analisar o significado do sonho me pergunto onde estava situado Sérgio Moro? No topo do morro, apoiando as elites aristocráticas  ou na base da pirâmide? Até ontem eu talvez o colocasse como um personagem franciscano, do tipo que nasce entre os ricos, mas  rompe com a oligarquia e vai viver em defesa dos desfavorecidos. Hoje, já o retirei desse roteiro poético e estou começando a enxergar que ele é um dos que traga charuto cubano, fabricado por escravos do regime comunista.

Um detalhe: para os “aristocratas” do topo do morro pouco importa se a ralé é subjugada pelo regime comunista ou capitalista. Desde que eles continuem os donos da riqueza, o sistema de governo é só algo a ser acochambrado aos interesses deles, que é o de manter a pirâmide com base alargada e um topo afinado, forrado de ouro.

Como no jogo de xadrez, onde existem o rei, a rainha, o bispo, o cavalo e os peões, vez ou outra é preciso sacrificar alguns peões para salvar a realeza. E também vez ou  pode aparecer um peão rebelde,  com retórica boa ou que consegue ameaçar de alguma forma o status quo do “jogo”. No mundo real, nessa hora, os poderosos se reúnem para descobrir qual o preço do “peão”; quanto ele cobra para deixar em paz a aristocracia e manter as coisas como são. Ou: qual a hora certa de abater o resistente.

Pensando assim, talvez faça sentido pensar que o pobre Luiz Inácio Lula da Silva  tenha sido apenas um peão no tabuleiro dos abonados –  em riquezas materiais, mas tão desprovidos de virtudes e a elas indiferentes. Pode-se deduzir que talvez o operário pernambucano tenha logo entendido a jogada:  ou se venderia, aliando-se aos interesses das elites e tentando dela fazer parte, ou morreria, politicamente. Se bem que alguns peões fora do comum já morreram de fato e outros, foram vítimas de atentado.

Hoje, para mim, Bolsonaro é esse peão incômodo que tem resistido a muitas investidas, a ataques por todos os flancos e que aparenta disposição para morrer lutando em vez de se render ou se vender.  Mas se assim o é, a divisão ideológica entre nós tem sido providencial para os habitantes do topo do morro! Temos sido usados, impelidos a nos atacarmos mutuamente enquanto continuamos subjugados e produzindo riquezas para eles.  E se assim continuarmos, tudo ficará bem para eles, mas não para nós.

E Sérgio Moro? Talvez tenha feito tudo de caso pensado, para colaborar com os parceiros de aristocracia e, mesmo desprezando o Bozo, (negou a Bolsonaro um aperto de mão na época de campanha) tenha aceitado ser ministro dele para estar perto do inimigo. A saída neste momento, tão inoportuna para o Brasil, pode ter sido algo meticulosamente planejado e articulado como estratégia para encurralar o “peão” rebelde e garantir a vitória sobre a plebe que, com ajuda da internet,  ameaça “mexer no queijo” das elites. Afinal, de quem é esse país? Quem tem mamado e mandado nele todo esse tempo? Mudar agora e abrir mão de fatias maiores riquezas, revendo a distribuição das riquezas? De jeito nenhum!

Assim, ou Bolsonaro se alia ao Centrão no Congresso, fazendo acordos para aprovar irrelevantes avanços – e começa a jogar o jogo deles para não ser retirado à força do poder – ou eles vão forçar o impeachment do presidente eleito pela maioria da população. Daí  continuarão donos da Nação e dos destinos dos brasileiros. E sabe quem até o momento tem ajudado as oligarquias? Quem vai ajudar a derrubar o defensor do País? Os incautos opositores políticos dele, que ainda não perceberam quem realmente são os inimigos. Cartas à mesa! Que vençam os mais espertos! Ou, se houver uma ajudinha do Céu, que vença a Verdade. Deus salve esta Nação.

Texto e fotos: Carmelita Rodrigues
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Solidariedade…

… entre os passarinhos. Porque entre os humanos tá difícil! Hoje vi um sabiá bicando a corda de um comedouro para derrubar alpiste e ajudar os amigos que ciscavam no chão, sob a árvore onde o comedouro estava pendurado: tico-tico, canário-da-terra, azulim; todos amiguinhos. Sabiás nem gostam tanto de alpiste e esse não descia para comer as sementes! Eles preferem as frutas que coloco por lá, como mamões, bananas e abacates.

Em geral as aves que compartilham a pequena área verde do meu trabalho são muito educadas e ficam pousados num galho perto do comedouro ou das frutas, à espera de que o outro termine de comer para só então se aproximar. Algumas vezes ocorrem brigas, principalmente se aparecem as pombas-rolas, os sanhaços e bem-te-vis.

Os beija-flores costumam ser muito territorialistas: expulsam as cambacicas que vão beber o melzinho que ponho para todos como se o mundo fosse só deles. Como enganam: têm uma leveza e penas coloridas que de tão belas, ou por gostarem de néctar, os associamos a doçura… ledo engano. São bem agressivos, briguentos!

Mas na maioria das vezes reina a cortesia, como hoje. E foi tão agradável assistir! Tanta “civilidade”!

Por lá também aparecem pica-paus, os de corpo preto & branco e os amarelados, mas eles “não se mistura”! Nem é por esnobismo, creio eu. Apenas por não disputarem o mesmo alimento. Ou melhor: os vermezinhos de troncos de árvores que saboreiam também são apreciados pelos bem-te-vis. Mas os pica-paus têm “ferramentas” exclusivas, então fica cada um no seu canto.

Enquanto isso, no reino dos humanos, pessoas nada evoluídas se engalfinham pelo poder ou para manter privilégios. Humanos de almas em putrefação, de tanta maldade, se reunem em conchavos para tramar contra um líder que julgam lhes ameaçar a liberdade de roubar e trair.

Nesses tempos de pandemia, não bastassem as preocupações com a doença, muitas almas feias, tão feias, andam em polvorosa no reino dos ditos racionais, armados de mentiras, falácias e muita, mas muita hipocrisia. Verdadeiras pragas do Planeta!

No reino dos animais, ao contrário, predominam os impulsos para sobreviver, sim, mas em harmonia. E de quebra, espalham cantos e cores, graça e beleza; tentam despertar os humanos para o real sentido da vida. Em vão, pobres serezinhos tão belos! Chegam nem perto de atingir esse intento!

Onde reina a irracionalidade, então?!

O sabiá, posicionado no galho acima do comedouro, bicava a cordinha e fazia o comedouro balançar, derrubando as sementes de alpiste.

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Um tempo para tratar o pulmão da Terra

O isolamento obrigatório das pessoas devido à  pandemia do COVID-19 teve pelo menos um efeito positivo: diminuiu a poluição do ar. A  paralisação de atividades industriais, comerciais e menor tráfego de veículos nas rodovias e estradas reduz os índices de dióxido de carbono lançados na atmosfera. Pode-se dizer que o vírus afetou os pulmões dos homens para que a natureza pudesse tratar o pulmão do Planeta.

Na China, houve queda de pelo menos 25% na emissões de dióxido de carbono (CO₂), segundo cálculos de Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (Crea), com sede nos Estados Unidos. Redução de 25% nas emissões de gás carbônico na China equivale à redução global de 6%.

Nos Estados Unidos, o tráfego nas estradas e rodovias diminuiu drasticamente no início da segunda quinzena de março. Um satélite que detecta emissões na atmosfera ligadas a carros e caminhões mostra enormes quedas de poluição nas principais áreas metropolitanas, incluindo Los Angeles, Seattle, Nova York, Chicago e Atlanta.

O portal especializado Carbon Brief estima que se a redução do consumo de carvão se somar à queda de utilização do petróleo, as emissões mundiais de CO2 podem baixar este ano em cerca de 7%. Esse percentual é quase os 7,6% de redução firmados no Acordo de Paris como meta para 2020. 

Na Europa, imagens do satélite Sentinel 5,  feitas no período entre 05 e 25 de março, mostram redução nos níveis médios de dióxido de nitrogênio, na comparação com o mesmo período do ano passado, em cidades como Bruxelas, Paris, Milão e Frankfurt. Em Madri, os níveis médios de dióxido de nitrogênio recuaram 56% na comparação semanal depois que o governo espanhol proibiu viagens não essenciais a partir de 14 de março.

No Brasil a situação é parecida: A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) registrou boa qualidade do ar para os poluentes primários, são emitidos diretamente pelas fontes poluidoras, em todas as 29 estações de monitoramento da região.

A má notícia é: se não houver mudança de paradigmas e condutas, quando o isolamento acabar, governos vão incentivar a retomada das indústrias e de outros processos produtivos e em pouco tempo a emissão de gases poluentes voltará aos índices de antes ou estarão maiores, nos esforços de compensação de perdas financeiras.

Fontes:

BBC – https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51682790

The New York Times: https://www.nytimes.com/interactive/2020/03/22/climate/coronavirus-usa-traffic.html

Notícias UOL:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2020/03/30/com-isolamento-cai-a-poluicao-do-ar-em-sao-paulo.htm

Portal Extra Classe: https://www.extraclasse.org.br/ambiente/2020/03/pandemia-reduz-poluicao-na-atmosfera/


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Tempo para autoconhecimento e descobertas pessoais

Uma reflexão: a Segunda Guerra Mundial, com a convocação para que as mulheres substituíssem os homens – enviados às frentes de combate nos campos – nas fábricas e nas indústrias, despertou nelas o desejo de trocar a vida de dona de casa pelo mercado de trabalho. Após experimentar uma rotina de sair de casa, ter um trabalho e ter o próprio dinheiro, elas descobrirem que podiam ( e queriam) ser ser mais do que apenas “do lar”. E o mundo nunca mais foi o mesmo. Nem as mulheres!

Agora, século 21, a pandemia do coronavírus, com a obrigatoriedade de as pessoas ficarem em casa, pode também ter um efeito inesperado, mas na direção contrária: muitas mulheres podem descobrir que ficar em casa, cuidando dos filhos, da casa e do marido pode ser bom! E podem optar, no “pós-guerra”, por trabalharem menos tempo fora de casa – ou nem trabalharem. Ou, na mesma onda, mais homens perceberem que ter tempo para ficar em casa com a família é algo que desejam e/ou necessitam. Tempo para serem pais. Tempo para serem maridos. Tempo para serem bons filhos e passearem mais, conversarem mais com os pais e com as mães.

Isso porque as pessoas estavam vivendo “no automático”, sem entenderem a si próprias, sem conhecerem o que realmente lhes importa, o que desejam de fato. Um tempo para o autoconhecimento, para o encontro consigo mesma(o) pode mudar muita coisa, interna e externamente.

E adivinhem quem mais irá se beneficiar disso? As crianças! Não é pequeno o número das que têm tomado muita Ritalina e Risperidona, numa vã tentativa de compensar falta de atenção maternal/paternal por medicamentos.

Claro, haverá também um contingente de pessoas que festejará a volta da “normalidade’, quando poderão voltar a transferir a maternidade/paternidade às creches, babás ou escolas. Porque sempre haverá pessoas com pouco ou nenhuma vocação para serem mães ou pais. Isso só a evolução da Humanidade pode mudar.

Mas sei, com base na minha prática clínica e observação empírica, que há muitas pessoas com suas inclinações reais sufocadas pelo cotidiano estressante, pela competitividade do mundo capitalista e, principalmente, pelo distanciamento dos reais valores que fazem a vida valer a pena, incluindo a conexão com o Numinoso.Ter dinheiro e conforto é bom e desejável, mas nunca o “ter” será mais importante que o “ser”; nunca a acumulação de bens materiais, por si só, será fonte de realização.

Então, eu desejo, pelas crianças e pelos adultos, que no “pós-guerra-Covid” muitas pessoas se beneficiem de reflexões profundas e descobertas sobre si mesmas, a ponto de passarem a viver com mais qualidade, dando mais atenção às demandas reais dos filhos, dos pais, dos cônjuges e às próprias demandas , valorizando menos as convenções sociais irrefletidas. Adivinha quem vai perder com isso? A indústria farmacêutica, que talvez venda menos remédios.

Eu não me importaria de perder todos os pacientes com Transtorno de Ansiedade, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou Transtorno Opositor-Desafiador (TOD), entre outras alterações psicoemocionais. E embora não tenha entrado em isolamento (sou da assistência em saúde), eu também tenho feito minhas reflexões. E percebi: se minha mãe ainda estivesse aqui, eu viajaria muito, muito mais com ela. Viajamos pouco! Hoje sei disso.

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Mais médicos ou pais melhores?

Saí pra caminhar carregando crachá de profissional de saúde, que não está em quarentena por força do ofício. Não estou me queixando, ao contrário. Trabalhar faz bem à alma. Mas se alguém me abordasse querendo me impedir de caminhar eu me justificaria assim: “se preciso sair de casa pra cuidar da saúde de outras pessoas, tenho o direito de sair pra cuidar da minha própria saúde”. Pegar um sol que reforce meu sistema imunológico, sintetizar vitamina D, melhorar minhas emoções…

Ninguém me perturbou, felizmente. Oh, como uma lufada de vento e ondas quentes do sol são curativas e energizadoras!

Avistei outras pessoas fora de casa, graças ao bom senso. Num bairro onde antes só se via pessoas andando com seus cães, inclusive aos domingos, hoje vi crianças acompanhadas! Vi homens sendo pais e mulheres sendo mães. Sem creches e sem escolhas, há que se cuidar, cada um, da própria prole. Mas isso não deveria ocorrer sempre? A caminhada resultou em outra reflexão: será que precisamos de mais metilfenidato e outros remédios, de mais psicólogos e médicos ou precisamos de mais seres humanos vivenciando com mais tempo e mais responsabilidade a maternidade e a paternidade?

Quantas crianças com diagnóstico de Transtorno do Déficit da Atenção e Hiperatividade (TDAH) não sofrem, na verdade, de déficit de atenção dos pais? Outras, com Transtorno Opositor-desafiador (TOD) não carecem de pais lhes dando limites e explicando que o mundo não é um repositório de direitos sem cobrança de deveres, de adultos compensando-lhes a ausência de atenção materna e/ou paterna com presentes e permissividades?

Vivemos num mundo onde predominam as exigências do ID, sufocando a atuação do Superego e as reais demandas do Si-Mesmo. Indivíduos soltos, atuando sem a contenção repressora do Superego funcionam tal qual um multidão de embriagados, desnorteados e deprimidos. Observe-se como reagem grupos humanos após consumirem exagerada quantidade de bebidas alcoólicas. O álcool tem o poder de desativar o Superego, deixando o indivíduo solto, livre para ser quem realmente é, para agir sob o Princípio do Prazer, ignorando o Princípio do Dever. Um mundo de embriagados não me parece seguro sem construtivo.

Minha sugestão é que os pais observem seus filhos nesses dias, vejam como funcionam, quais as reais demandas deles, se estão realmente sentindo falta de shopping centers, de coisas materiais ou se, no nível profundo (ou superficial e visível), estão apreciando estar em casa com seus pais e suas mães… fazer coisas juntos, conversar, caminhar, brincar na companhia dos pais, os seres mais amados pelas crianças, é o desejo íntimo mais forte e mais legítimo dos filhos.

É terapêutico ser amado, cuidado, protegido e orientado pelos próprios pais. Após a pandemia, espero que nossas crianças continuem sendo cuidadas pelos seus pais e precisem menos de remédios e intervenções médicas – resguardadas as exceções, claro.

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Adiar a sexualidade é correto!

Sou psicoterapeuta de crianças, pré-adolescentes e adolescentes (além dos adultos). O que o governo federal propõe na campanha “iniciação sexual não precoce”, da Política Nacional de Prevenção ao Risco da Atividade Sexual Precoce, eu já usava como orientação aos pacientes há muito tempo. Porque é algo sensato e necessário a ser feito.

Nada de errado com isso, ao contrário. Explicava aos adolescentes que ao ter a primeira relação sexual, sem um namoro consistente, apenas por “modinha”, como eles contavam, estariam criando uma demanda poderosa a ser atendida a partir de então, bem mais do que antes de concretizar a experiência.

A exigência do corpo para ter atendida a necessidade de fazer sexo poderia passar a ser, inclusive, causadora de ansiedade desconstrutiva. Prejuízo certo para a dedicação aos estudos e construção do futuro. Além de envolver o risco de gravidez, claro. É um direcionamento conservador, de direita? Nunca foi esse o foco! Apenas defender as chances de vida saudável e feliz para meus pacientes, tão influenciáveis na fase da adolescência.

Sexo não é lazer nem entretenimento; é função Vital, e nos seres racionais está ligada ao processo evolutivo individual. Reforçava a noção de autorrespeito, autocuidado com o próprio corpo, o “templo da alma”, e dissertava sobre o foco em um projeto de vida, que seria prejudicado por uma gravidez precoce.

Tudo simples, embora uma ideia abandonada pela mídia e até por alguns pais. Em vez disso, os jovens deseducados pela TV, de modo particular por programas permissivos e equivocados como “Malhação”, da TV Globo, tinham incutido (e ainda têm) na cabeça que fazer sexo é só um ato de pertencimento ao grupo dos jovens descolados. Ou pior: fazer sexo é só transar e ponto final.

Longe disso, dando-se à sexualidade outra concepção mais responsável e implicante em relação ao futuro, retarda-se a gravidez precoce, sim. Sobretudo se associando-se essa ideia a outras medidas, claro! E embora pareça de esfera distante, um bom caminho auxiliar seria um programa consistente de cursos profissionalizantes para jovens.

Fazer sexo gera gravidez. E supor que adolescentes vão levar isso em conta no auge do apelo instintivo e determinismo hormonal chega a ser ingenuidade, se não má fé. A verdade é que há interesses nada dignos por trás da oposição a essa ideia como, por exemplo, atacar e enfraquecer o trabalho da ministra conservadora Damares Alves, em defesa dos propósitos indignos da chamada Revolução Cultural.

Para entenderem melhor isso, caros leitores, e não suporem apressadamente que estou a misturar alho com bugalhos, sugiro assistirem ao vídeo do link abaixo, onde a deputada Érika Kokay explica o que é Revolução Gramsciana, numa palestra para um auditório repleto de professores. E, finalizando, sugiro aos opositores e críticos da proposta do governo que viagem, conheçam outras culturas e vejam como os países desenvolvidos tratam o desenvolvimento sexual das crianças. Ficarão abismados com a sexualização precoce das nossas.

PALESTRA DE ÉRIKA

Sugiro a leitura de um texto que também analisa essa proposta do governo federal, do jornalista Eduardo Olímpio, no portal R7: ADOLESCENTES, SEXO E CABEÇA FEITA.

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Para se livrar do Rivotril

“O Rivotril® é uma das medicações mais prescritas no Brasil e serve para aliviar os sintomas da ansiedade de maneira muito eficiente. Porém, o Rivotril® pode causar dependência, problemas de memória e concentração graves. No vídeo de hoje, você aprenderá um método de 3 passos para retirar gradativamente o Rivotril® da sua vida , mas lembre-se: não faça nada sem acompanhamento médico.”

A mensagem acima é do médico Marco Antonio Abud, psiquiatra e responsável pelo canal no Youtube Saúde da Mente. A seguir o vídeo com o conteúdo dos alertas sobre esse remédio, que não deveria ser prescrito para uso contínuo, mas vem sendo receitado em alguns casos ano após anos, levando as pessoas à perda de memória, senilidade precoce e sintomas similares aos de Alzheimer. O grande potencial dele para causar dependência e dificuldade para que a pessoa consiga ficar sem tomá-lo já seria motivo suficiente para evitá-lo, mas há outros prejuízos. Assista ao vídeo, assuma e proteja sua vida. E ATENÇÃO! Quando a pessoa já o toma por mais de quatro meses, NÃO DEVE interromper abruptamente. Efeitos podem ser muito prejudiciais. Há que ser feito o desmame, que o médico explica melhor como fazer.

Neste blog (Psicopauta), desde 2011 venho alertando para os perigos desse medicamento, que é um dos mais consumidos no Brasil. Escrevi, há mais de oito anos o post CUIDADO COM O RIVOTRIL, até hoje um dos mais lidos, o que me leva a supor que existe um enorme contingente de pessoas sofrendo os efeitos do uso indiscriminado desse psicotrópico.

COMO PARAR DE TOMAR RIVOTRIL – Marco Abud

CUIDADO COM O RIVOTRIL – Carmelita Rodrigues

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Cliques de pássaros: captura do belo

Não sou fotógrafa; sou uma psi, uma “médica de almas”! Embora já tenha sido repórter, hoje não me ocupo mais em reportar fatos. As mensagens que me interessam atualmente são as do obscuro Inconsciente. Sou uma psicoterapeuta; com muito amor e gratidão ao Universo pelo meu ofício, a melhor profissão do mundo! Assim, dispenso-me do dever de contar histórias pela via das palavras ou das imagens.

Conheço pessoas que se ocupam de falar por meio das fotos, de fazer imagens que contem algo, independentemente da estética da cena. Aprecio também! Mas eu, em não sendo mais repórter, gasto meu tempo vago, embora nem sempre, querendo capturar o belo! Principalmente o manifestado em elementos da natureza e de modo muito particular, os pássaros. Gosto deles porque além de belíssimos, são inquietos, ágeis, leves, soltos (os aprisionados me entristecem) e além de tudo isso ainda cantam! Eles voam e cantam! duas coisas que não posso fazer. Tudo bem: não se pode ter tudo.

A cada pouso deles, muitos cliques! Sendo amadora, é difícil para mim fotografá-los em vôo, embora já me tenham ensinado a técnica para isso. Não me importo de esperá-los pousar. Eles param por instantes e eu lhes capturo o esplendor de seres diáfanos. E somente assim eles devem ser capturados: em fotos. Quem de nós gostaria de ter asas e ser impedido de voar?

Estando fora das redes sociais, descobri no site UNSPLASH um lugar para compartilhar minhas fotografias (de amadora). Uma pequena parte delas está lá, à disposição inclusive para download gratuito. Essa é a proposta do Unsplash: mostrar e ceder direitos autorais a quem aprecie as imagens. Abaixo, o link da minha página lá.

UNSPLASH

Guaracava de topete

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Sou JOMO! Que alívio!

Tudo que sobe desce! Lei da Física! O sucesso meteórico das chamadas “redes sociais”  parece ter atingido o ápice e o movimento agora é de descida. Talvez não em queda vertiginosa, mas  gradualmente, para o bem da humanidade! Estou falando dos que estão felizes por terem saído! Das redes sociais.

Agora existe um grande contingente de pessoas que se autodenominam JOMO. É a sigla para “joy of missing out” (prazer em estar fora, neste caso, das redes sociais e dos eventos badalados). Ser Jomo é a nova tendência, que significa sentir prazer em abster-se de gastar tempo exagerado na internet,  acompanhando a vida alheia ou  alimentando o próprio ego postando incansavelmente selfies.

Em vez disso, o comportamento in é ser autêntico, mergulhar no mundo real e cuidar mais dos próprios interesses, afinal, a vida não é um reality show e não favorece a ninguém cultivar a persona de fofoqueiro virtual, entre outros vícios.  O movimento surgiu, assim como a moda das redes sociais, nos Estados Unidos. E começa a se espalhar mundo afora.

E essa sigla, pasmem,  saiu de outra: FOMO,  abreviação de fear of missing out (medo de estar de fora). Vinha (e ainda está) incomodando muita gente a sensação de sentir-se excluído(a) de um mundo de festas e baladas! Esse medo estava (está) sempre acompanhado de ansiedade, inquietação, agitação (inconsciente ou não) e frustração, entre outras emoções nada construtivas.

Mas talvez o prejuízo maior seja de ordem paradigmática: o sujeito investir tempo para fora, extrovertidamente, e não para dentro, introvertidamente. A evolução individual (no sentido transcendente ou material) só acontece quando o sujeito investe tempo tentando conhecer e corrigir a si mesmo, isto é, quando o investimento é em si, na própria essência, nos próprios comportamentos, defeitos e  talentos  e não na imagem  “vendida” de si mesmo ou em se projetando na dos outros.

E como “tempo é ouro”, dedicar-se demasiado às redes sociais pode causar  prejuízos  de ordem prática: deixar de ocupar-se  com os estudos, trabalhos remunerados (ou altruístas) e no planejamento do futuro em bases sólidas. Ou seja: viver projetado para fora, mirando o viver alheio ou tentando espalhar uma imagem nem sempre real de sucesso e felicidade de si mesmo pode até agradar ao ego, mas desagrada ao superego pelo potencial de causar prejuízos incalculáveis, inclusive econômicos. Mas isso não é novidade, certo? Novo mesmo é as pessoas perceberem isso, isto é, reconhecerem que ninguém precisa acompanhar a vida alheia nas redes sociais para sentir-se feliz e realizado ou para atingir o sucesso desejado.

Além disso, exibir-se nas redes sociais é também expor-se demasiado e quase sempre desnecessariamente! É facilitar a vida dos malfeitores, seja o simples invejoso ao mais sofisticado hacker. Claro que as pessoas comuns, sem projeção pública e sem importância no cenário das  grandes decisões  nacionais/internacionais não são alvos frequentes de hackeamento (atividade cuja realização deve levar em conta a relação custo-benefício e não é barato).

Apesar disso, o uso exagerado e pouco criterioso das redes sociais abre brechas para muitos outros perigos, como o de expor-se aos stalkers. Esse vocábulo deu origem ao verbo“stalkear”,  criado e disseminado pela internet  com o sentido de alguém que persegue ou espiona as atividades e os comportamentos de outros usuários. E qual é a utilidade de ter a sua vida stalkeada?

Algumas empresas fazem isso antes de contratar um funcionário (preferível mostrar-se na entrevista); dizem que o governo americano o faz para analisar pedido de vistos; seu(sua) ex-  pode estar espionando sua vida neste exato momento; seu desafeto faz uso dessa “ferramenta” para saber se a praga dele(a) está dando certo… e por aí vai.

Em oposição a isso, um número grande de  pessoas está descobrindo que precisa aproveitar mais a própria vida em vez de acompanhar virtualmente a dos outros (e ter a sua acompanhada). Existe vida fora das redes sociais! E pode ser mais saudável,  mais fluida e verdadeira. A menos que dedicar tempo na produção de conteúdo para as redes sociais lhe renda dinheiro, seja sua profissão!

Ser Jomo não significa alienar-se, recusar os avanços tecnológicos, que podem ser  valorosos aliados, nem tampouco deixar de usar a internet. Ser  Jomo é utilizar a internet de forma consciente, comedida e inteligente: para pesquisar, ler notícias, fazer transações bancárias, orientar-se no trânsito, assistir a filmes (salve, Netflix!), entre outras facilidades. 

Pessoalmente, a minha opção (sim, virei Jomo há alguns meses) foi  sair do Facebook, Tweeter e Instagram. Mantenho o blog e o WhatsUpp. Este,  considero útil nas comunicações (tomando cuidado com os tais “grupos”); e o blog é minha paixãozinha desde sua criação, em 2007, como também é um valioso canal informativo, até na esfera profissional. Ah! E como tornei-me uma “fotógrafa diletante”, tenho conta no Unsplah para postar minhas fotos e disponibilizá-las gratuitamente a quem apreciar e precisar. No Unsplash pode-se  fazer download grátis de fotos em alta resolução e aproveitar livremente. Vejam que incrível possibilidade criada pela internet!

Foto: Marcus Spiske, in Unsplash

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Sonhar com trem e túnel

Transformei parte da resposta escrita para uma leitora em um post sobre sonhos. Ela questiona sobre o significado de sonhar recorrentemente com um trem em um túnel com muita luz.

Sonhos com túneis, de modo geral, podem indicar um momento do indivíduo de passagem por uma situação difícil. Se há luz no fim do túnel remete àquela frase de senso comum “luz no fim do túnel”, que sugere: as coisas vão melhorar, tempos melhores virão. Mas há que se avaliar caso a caso, a partir das associações pessoais do sonhador.

Sonhos com trem, de modo generalizado, referem-se a pensamentos que seguem rota predeterminada, de se adotar a “lei do menor esforço”; ou podem representar uma maneira de viver antiquada/tradicional (com o inconsciente dando à pessoa um elemento para o autoconhecimento ou clarificando que as dificuldades podem decorrer desse modo de viver); ou, ainda, a preconceitos ou paradigmas muito rígidos. E também pode referir-se à consciência coletiva, isto é, aceitação tácita do status quo, de seguir a multidão em pensamento e ação.

Há uma explicação universal para o símbolo “travessia”, que transcrevo na íntegra do livro Dicionário de Símbolos (ROSA, M.A.): “passagem, peregrinação. Mudança de um estado natural para um estado consciente. Avanço. Símbolo do esforço de superação.”

Mas como já expliquei anteriormente em outros textos sobre sonhos, elementos do percurso individual do sujeito sonhador e associações particulares podem ampliar essa “explicação” ou dar a ela outros significados. A compreensão ampla e fidedigna do significado dos sonhos somente pode ser obtida em processo de análise. Destaco também o fato de um sonho recorrente representar uma demanda do inconsciente por autoconhecimento sobre um traço ou comportamento específicos do indivíduo ou sobre algo que ele precisa resolver.

E faz-se necessário ressaltar: este blog não tem o propósito de analisar os sonhos dos leitores. Eventualmente pego uma solicitação e dou esclarecimentos genéricos, quando a dúvida de um (uma) visitante pode ser a de muitas pessoas, principalmente os que têm conteúdo universal mais conhecidos . Sonhos de conteúdo muito específico, claramente recheados de aspectos individuais dificultam as generalizações e precisam ser analisados em processo analítico da pessoa. Ocorre também de eu receber um pedido de esclarecimento/interpretação e estar completamente sem tempo para responder. O Psicopauta é um blog apenas informativo (pretensamente) e não de atendimentos individuais, por múltiplas razões. Mas desculpo-me por não poder atender a todas as solicitações.

Escrevi mais sobre este assunto no texto SONHOS RECORRENTES

Fontes de consulta

TANNER, Wilda B. O Mundo Místico e Maravilhoso dos Sonhos. Ed. Pensamento. SP, 2000.

ROSA, Maria Cecília A. Dicionário de Símbolos. Oceano Indústria Gráfica Ltda. SP; s/ ano informado.

Crédito da foto: Zhifei Zhou, retirada do site Unsplash

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Não faço neve loção!

Alguns meses atrás, (mais de um ano , na verdade) aproveitando uma “janela” na agenda, desci para a sala de espera e me pus a observar os pássaros da área verde ao lado e os pacientes que estavam lá também. É uma unidade de saúde mental para crianças e adolescentes, incluindo autistas:

*Mateus, 15 anos,  caminha se arrastando, emburrado, um capuz cobre a cabeça e parte do rosto; cara amarrada. Caminha na direção do banco e despenca sobre ele; se contorce todo, como uma lesma ameaçada, e pára numa posição; só movimenta os olhos, acompanhando, algumas vezes, as pessoas que passam à frente dele.

*Lucas, 8 anos,  caminha decidido, olhar atento, na direção da horta; inquietação parece sair-lhe pelos poros. Encosta-se na cerca e põe-se a observar as plantas ao fundo e os passarinhos…  não liga pro Mateus. Não o incomoda. Mesmo assim, Mateus se incomoda, talvez com a indiferença do outro, e põe-se a observá-lo. Não se falam. Cada um no próprio mundo.  De repente, Lucas se senta à frente do Mateus, mas ainda sem olhar pra ele, a mente vagando… uma pergunta na cabeça: “por que eu gosto tanto de coisas da natureza, por que outras pessoas também gostam?”  Pergunta a si mesmo, mas fala alto o suficiente para Mateus escutar e resolver provocá-lo, se intrometendo nos pensamentos do outro.

_ Eu não gosto, disse o adolescente.

Lucas se vira para Mateus, finalmente o enxergando; estranha o agasalho com capuz do adolescente num dia ensolarado e pergunta, fugindo do assunto:

_ Você tá com frio?

Mateus não responde. Lucas volta a ignorá-lo… mas na estranha mania de pensar alto…

_ Por que as pessoas gostam de árvores?

_ Eu não gosto.

_ Gosta sim! Só não sabe que gosta… Responde Lucas, sem olhar para o adolescente.

Aquela criança pequena, por alguma razão, havia retirado o adolescente do casulo e ele passa a observar Lucas, que volta a pensar alto:

Por que as pessoas gostam de árvore?

_ Quem disse que eu gosto de árvore?!

_ Eu digo… Por que as pessoas acham flores bonitas?

_ Eu,  não.

_ Você, sim!

_ Por que as pessoas gostam de brincar na areia, pisar na grama, ouvir canto de passarinho, olhar o pôr do sol… eu não sei ainda o que essas coisas têm em comum…

_ Falsidade das pessoas… não gosto de nada disso…

_ Gosta sim, só não sabe.

Esse diálogo todo acontece sem que um olhe para o outro diretamente, mas faz surgir um risinho no rosto de Mateus…

_ Sabichão, você me conhece? Como sabe do que gosto?

_ Você é igual a todo mundo…

_ Sou nada…

_ É sim.

Nesse ponto, se restabelece o silêncio entre os dois.

Em outra ponta, duas garotinhas brincam com brinquedos já velhos, postos lá para distrair, ajudar a passar o tempo. Uma delas pergunta:

_ Da outra vez que vim aqui tinha um bate-bate azul… cadê? A outra respondeu:

_ Não faço  neve loção!

Ao som dessa frase enviesada, os dois rapazinhos se viram rápido na direção das meninas, que continuaram brincando.

Lucas põe-se a repetir baixinho:  “neve loção… neve loção… neve loção… ela quis dizer leve noção… “Ele fala pra si mesmo… mas Mateus ouve e ri…

É assim que eles se comunicam; algo meio truncado, solto, livre de padrões, mas reciprocamente influenciando; há entendimento, há comunicação, de algum tipo. Difícil é a aceitação desse funcionamento como um direito do sujeito. Comunicação singular; direito singular. Tudo em saúde mental é singular. As intervenções devem ser também, espaço para o singular.

*Os nomes são fictícios.

Uma planta singular: Ora-pro-nobis; espinhos, doçura, beleza e perfume das flores, riqueza nutricional nas folhas; a natureza é também rica em singularidade. Na imagem acima, o fruto da planta ainda verde. Na foto abaixo, as flores da planta.

Fotos: Carmelita Rodrigues
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Freud estava certo

“Ao contrário do que se dizia, a psicanálise e as terapias psicodinâmicas funcionam, sim, e muito bem. Um estudo de 2016, enorme e feito no sistema de saúde inglês, mostrou que, para os pacientes com depressão mais grave, 18 meses de análise foram muito mais efetivos que o tratamento padrão, que incluía TCC. O mesmo resultado vale para outros transtornos, inclusive os mais severos.

É o que demonstra uma meta-análise publicada em 2008 no prestigioso JAMA, Journal of the American Medical Association, que concluiu que terapias freudianas com mais de um ano de duração são mais eficazes que terapias de curto prazo para pacientes com patologias complexas, como transtornos de personalidade.

O mais impressionante dos dados é que, diferente da terapia cognitiva e dos remédios, os benefícios da análise não só permaneceram, como ficaram ainda maiores após o final do tratamento, causando mudanças duradouras nos pacientes.”

O trecho acima foi retirado da matéria O retorno de Freud, da revista Superinteressante, ed.391/2018. Só li hoje e considero merecedora de divulgação, embora meses após sua publicação.  O texto destaca avanços de descobertas científicas que referendam afirmações de Freud e validam teoria e técnicas psicanalíticas. Também comenta as limitações da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) que por décadas (de 1961 a 2015) foi aceita como “terapia baseada em evidências” e desfrutou de reconhecimento e hegemonia, em detrimento das terapias psicodinâmicas (Psicanálise e  Psicologia Analítica, cuja base fundamental é o Inconsciente e suas determinações sobre os pensamentos, sentimentos e as emoções do ser humano). Por muito tempo, a visão cientificista predominou inconteste no meio acadêmico, refutando afirmações e descobertas desvinculadas de metodologias científicas, como se essas fossem capazes de abarcar toda a complexidade do psiquismo humano. E a TCC, de todos os tipos de psicoterapias, é a que mais se enquadrada nessa visão cartesiana, tendo sido melhor aceita por todos que tenham visão limitada dos fenômenos da Vida. No Brasil, esse equívoco é largamente reforçado nos cursos de formação de Medicina. Por isso, é mais comum esses profissionais recomendarem terapias do tipo TCC, quase sempre a única da qual têm algum conhecimento. As demais, por serem deles desconhecidas, são consideradas desaconselháveis. Claro que ressaltando-se as honrosas exceções.

Em 2015, pesquisadores noruegueses publicaram uma meta-análise mostrando que a eficácia da terapia cognitiva para tratar a depressão caiu pela metade desde os primeiros estudos, em 1977. Meses depois, na Suécia, auditores do governo publicaram um relatório devastador sobre um experimento de saúde mental do país, que pagou ao longo de oito anos R$ 2,6 bilhões em TCC para os cidadãos suecos. O programa do governo, concluíram os auditores, falhou completamente em seus objetivos.

E um artigo de 2004 mostrou como os pesquisadores da TCC, para tornar os resultados mais fáceis de interpretar, excluíam dos estudos justamente o tipo de paciente mais comum nos consultórios, aquele com mais de um problema psicológico.”

O que o último parágrafo quer dizer é: a TCC é uma abordagem válida, objetiva e rápida, porém mais indicada para pacientes com queixa única ou com disfuncionalidade específica numa área.  Quando o indivíduo tem queixa complexa, multicausal e de raízes profundas (no Inconscientes), a TCC não propicia condições de compreensão ou intervenções eficazes, via de regra.

Link:  O retorno de Freud.  

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Bullying nas escolas tende a aumentar

O episódio de hoje na escola de Suzano (SP), que resultou na morte de 10 pessoas (além do tio de um dos agressores) nos remete mais uma vez ao alerta: precisamos falar mais sobre bullying! Nas escolas, em família, nas igrejas e em outros ambientes de interação social. E mais: precisamos prestar mais atenção na saúde emocional das nossas crianças e dos nossos jovens. O bullying é um problema real e crescente. Esse tipo de violência, de origem emocional, não vai desaparecer se for ignorado, se se deixar pra lá, fingir que não está ocorrendo ou ao se atribuir pouca importância a ele. Ao contrário: vai aumentar e fazer mais vítimas com o passar do tempo! Vão aumentar tanto as vítimas de bullying quanto as vítimas das vítimas do bullying, a exemplo do que ocorreu hoje em Suzano e em Janaúba (MG) em 2017. Repetindo: precisamos prestar mais atenção à saúde mental das nossas crianças e dos nossos adolescentes, dos nossos filhos e estudantes. Não é de hoje que se percebe: o Estado brasileiro tem negligenciado na atenção ao problema do bullying nas escolas. E em vez de ampliar a compreensão e as intervenções em torno da questão, tem feito vistas grossas. Igualmente é visível a negligência às demandas por atendimento na área de saúde mental para crianças e jovens. Na contramão do aumento da população e da crescente procura por serviços psiquiátricos e psicológicos, o Estado brasileiro tem reduzido o número de unidades ambulatoriais e emergenciais de atendimento a portadores de transtornos mentais. Ignoram os gestores que quadros de alterações psicoemocionais, se não forem tratados a tempo, podem evoluir para transtornos psiquiátricos, de incalculáveis consequências? Ou apenas fingem não saber?

Vamos por parte, numa análise nem tão profunda assim: os laços familiares estão mais fracos;  as redes sociais de acompanhamento e assistência às crianças é muito frágil nos dias atuais. Se antes os pais contavam com a ajuda de avós, tios, tias, irmãos mais velhos e vizinhas  amigas no cuidado com as crianças, hoje essa “rede”, em muitos casos está reduzida a pai e mãe ou apenas mãe, quando não apenas a uma avó. Os vizinhos mal se avistam, que dirá compartilhar criação de filhos! Os genitores precisam sair de casa para trabalhar e ter dinheiro para sustentar as crianças e dedicam menos tempo aos filhos.  Então, as crianças estão chegando nos ambientes escolares já com incontáveis problemas emocionais e psicológicos, como abandono ou ausência parental. Neuroses diversas, crises de ansiedade, transtornos do sono, nutrição deficiente, funcionamento depressivo, baixa tolerância à frustração e fraco repertório nas inter-relações sociais são algumas das alterações recorrentes no desenvolvimento das crianças que são levadas às escolas.  Ou seja: grande parte das falhas das famílias estouram em salas de aulas ou nos pátios das escolas. Essas,  não têm recebido suporte maior para o incremento de suas funções, ao contrário: a autoridade dos professores foi duramente reduzida e as condições de trabalho deterioradas. Os mestres adoecem junto com seus alunos adoecidos.  E o que fazem os governantes? Fingem que não estão vendo ou que o problema é de outrem e não uma das contas a ser paga com o dinheiro dos contribuintes! Gestores desavisados preferem gastar elevadas quantias com remédios psicotrópicos, em farmácias de alto custo, como se houvesse pílula para tudo. A indústria farmacêutica adora! E talvez até compactue (mas isso já é outra grande história!). Enquanto isso, o problema dos transtornos mentais/emocionais nas escolas, incluindo o bullying, só cresce. E a conta com remédios, internações, benefícios sociais para portadores de graves transtornos psiquiátricos também, além do custo alto com o afastamento de professores e e servidores das escolas por problemas de saúde. Isto é, as mudanças na organização social afeta os pais, que afetam as crianças, que crescem doentes e vão afetar as escolas. E dão origem a tragédias como assassinatos em escolas. Em relação à violência nas escolas, e talvez também como profilaxia para algumas desordens na saúde das famílias, deve ser considerada, inclusive como medida para evitar doenças psíquicas de alunos e servidores, a hipótese de haver em cada escola pelo menos um psicólogo clínico (bem formado e experiente – para dar conta do recado e não ser mais um faz-de-conta), além de pedagogos e assistentes sociais. Ou seja: intervenções concretas e multiprofissionais – porque o problema tem causas múltiplas e complexas.

Ou seja, tanto as famílias quanto os governantes têm negligenciado na atenção às demandas psicoemocionais das crianças e dos jovens.  Assim, em ambientes escolares fragilizados nas competências para acolher e atender as dificuldades dos alunos, muitos sofrerão maus tratos por parte de quem, em família está sendo maltratado/negligenciado. Sim, estou dizendo que os autores de bullying também são vítimas e precisam tanto de atenção quanto às crianças de  ego frágil, autossuporte deficiente e habilidade de autodefesa inconsistente que se tornam anteparo da agressividade de colegas. É um ciclo vicioso que se não for interrompido acaba em tragédias como a de ontem,  porque a agressividade e/ou negligência sofrida na infância em algum momento vai manifestar-se e ser, por alguma via,  somatizada (e virar transtorno mental), ou externalizada em forma de bullying ou vingança pelo bullying sofrido. Nesse baile sinistro, ainda dançam muitas outras vítimas da falta de providências e recorrentes equívocos de políticas públicas educacionais e sociais. Resumindo: tragédias como as de Suzano e outras semelhantes têm causas sociais, familiares e políticas.

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Próteses de silicone são seguras e inofensivas?

Novas pesquisa estão revelando que colocar prótese de silicone não é seguro como afirmam as empresas fabricantes e os cirurgiões plásticos gananciosos. Um estudo divulgado em novembro de 2018 mostrou que implantes de silicone aumentam os riscos de a mulher desenvolver artrite em 600%, e de câncer de pele em 400%, além de aumentar em 450% os riscos de gravidez resultando em natimorto.

Entre as participantes pesquisadas, a motivação  mais frequente para a colocação do implante era estética (72%);  as cirurgias de reconstrução representaram 10%.

O estudo foi publicado na revista científica Annals of Surgery. Os pesquisadores analisaram  quase cem mil pacientes, os quais estavam inscritos em grandes estudos pós-aprovação de próteses entre 2007 e 2010. Do total de sujeitos,  80 mil participantes tinham implantes de silicone e o restante, implantes preenchidos com solução salina

Em todo o mundo, mais de 10 milhões de mulheres colocaram próteses de silicone. Nos Estados Unidos, a prática ficou proibida de 1990 até 2006, quando o persistente lobby das empresas afetadas, principalmente os grandes fabricantes Allergan e Mentor, conseguiram convencer a Agência Norte-americana de Alimentos e Remédios (FDA – Food and Drog Administration) de que não havia comprovação científica conclusiva da relação entre doenças desenvolvidas, como artrite reumatoide, câncer e doenças autoimunes, e a implantação de prótese de silicone.

Abaixo, algumas matérias curtas, mas esclarecedoras que podem ajudar nos primeiros passos para conhecer melhor os riscos das próteses mamárias de silicone, antes de decidir pela cirurgia ou para ajudar na decisão de explantar a já existente.

Empresas omitem lesões causadas por implantes de mama

Prótese aumenta o riso de diversas doenças, diz estudo

Implantes de silicone aumentam riscos de doenças

Além disso, no Instagram e no Facebook existem milhares de mulheres, do Brasil e fora daqui,  formando grupos e comunidades contra as próteses.

Este post, de modo particular, surgiu do relato de uma colega de trabalho, que sofreu muito até descobrir a causa dos seus males: a prótese que havia colocado a mais de 15 anos. Em breve, aqui, uma entrevista com ela, com vistas a esclarecer riscos, clarificar sintomas das complicações e relacionar medidas terapêuticas da pós-explantação.

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Efeitos da maconha

“Eu não deveria estar falando, enquanto psiquiatra, sobre efeitos da maconha, uma vez que esta, hoje, me dá muito dinheiro. Estou cuspindo no prato em que eu como. Eu deveria é estar achando bom o aumento no número de problemas psiquiátricos da maconha, pois estou botando comida na mesa com esse dinheiro maldito.

Estou num hospital psiquiátrico há quase 40 anos, ora como psiquiatra, ora como paciente (KKKK). Ja vi muitas complicações da maconha,  e elas têm aumentado, mas toda vez que a gente avisa para uma família – preocupada com o fato de que “esquizofrenia” grave de seu filho/sua filha foi produzida pela maconha – eles dizem: “gente, mas como ninguém nunca avisou isso? Por que todo mundo fala que não faz mal? Por que a imprensa não avisa? Dr. mas ela não faz menos mal do que cigarro e álcool? Meu filho diz que  ele tem amigos que fumam há décadas e são normais (…)”

O texto acima é  do psiquiatra Marcelo Ferreira Caixeta, publicado pelo Jornal da Cidade Online. Replico a opinião desse  médico no Psicopauta pelo fato de que o texto expressa exatamente o que venho defendendo, aqui mesmo e fora daqui, inclusive em ambientes acadêmicos, há alguns anos.

A maconha não é inócua, como também não o é o cigarro, o álcool nem remedinhos para dormir. Por vezes sofri duros ataques ao me posicionar publicamente contra a legalização da maconha. Tudo bem, a exposição em redes sociais e em blogs nos põe a mercê de críticas; faz parte.

O que me causava apreensão era algo mais grave: a percepção do risco real de que a maconha fosse liberada no Brasil, país cuja saúde pública é precária e o grau de informação da população baixíssimo, além de tantas outras mazelas sociais que levariam muitas pessoas à morte ou a sofrimento intenso a partir de surtos e/ou vício. Seríamos uma nação de zumbis, vendo se proliferarem as “cracolândias”e similares.

Chegamos bem perto da legalização, graças a políticas equivocadas e descomprometidas com a saúde coletiva. Tendo a acreditar que, felizmente, esse risco está temporariamente afastado, graças à gestão conservadora dos próximos anos, que assumirá a partir de janeiro de 2019. Até que o povo tenha mais maturidade e evolução para gerenciar as próprias escolhas, convém que o Estado assuma a função linha dura e protetiva. Até lá poderemos aprender com a experiência, os prós e os contra, dos países que já legalizaram.

Sugiro a leitura do artigo completo, que pode ser lido no link EFEITOS DA MACONHA.

 

Leia mais sobre o assunto em CONTRA A LEGALIZAÇÃO DA MACONHA.