Respeito à crença religiosa do outro

Há muitos aspectos admiráveis em Singapura, um país asiático novo, mas que preserva tradições milenares dos povos asiáticos. Dentre as que mais me impressionam, cito a boa convivência entre as diferentes religiões. Coexistem em clima de paz e respeito mútuo budistas, induístas, taoístas, muçulmanos e cristãos. Obviamente que existem leis regulando essa relação social, entre elas a proibição para pregação em público e/ou perturbando a ordem pública e desrespeito a cultos religiosos. Vi o térreo de um bloco residencial transformado em templo muçulmano, mas para tanto, o espaço foi cercado por um tecido em forma de muro. Aquelas pregações em ônibus, metrô ou a céu aberto e aos berros, principalmente em rodoviárias ou outros espaços de grande circulação de pessoas, que ocorrem no Brasil são proibidos em Singapura. Tudo para que as pessoas se sintam respeitadas na sua escolha religiosa. É comum (como mostra imagem 1) as pessoas colocarem pratinhos com oferendas aos ancestrais ou a divindades nos corredores e nos alpendres dos prédios residenciais, do lado de fora dos apartamentos. Os vizinhos respeitam e cada um pode vivenciar a própria relação com Deus pelo caminho que lhe convier. Nos centros comerciais (vide foto 2) as pessoas expõem pequenos altares com oferendas. As religiões orientais têm a reencarnação como verdade; apesar disso, em Singapura, se um cristão católico ou evangélico discordar disso, ninguém irá lhe ameaçar para que mude o pensamento (os cristãos kardecistas também são reencarnacionistas e compartilham preceitos filosóficos muito semelhantes aos dos budistas). Esse respeito à escolha religiosa do outro reflete o grau de civilidade e talvez também de evolução espiritual de um povo. No Brasil, ao contrário disso, predomina uma quase selvageria: cada religião reivindicando para si o monopólio da aliança com Deus, como se Este fosse insignificante e pequeno para caber num só modelo filosófico-religioso.  Se alguém encontra uma oferenda aos ancestrais ou a divinades, destrói, chuta e chinga, dizendo que é “macumba”. É comum verem-se imagens de Nossa Senhora sendo quebradas e chutadas por fiéis de igrejas evangélicas, que se opõem à adoração da Mãe de Jesus como divindade, justificando isso com uma tosca interpretação de  suposto trecho do Evangelho. Não quero aqui argumentar contra o sentido dessa interpretação tendenciosa e equivocada, posto ser outro o foco do meu humilde texto. Mas não posso deixar de mencionar também as grotescas perseguições aos seguidores de religiões e cultos afros, às imagens de suas divindades e os rituais deles. Os equivocados autores de tais absurdos sequer param para avaliar o que há de ignorância e visão obtusa nesse desrespeito. Não atentam para o fato de que são meros repetidores de um ranço católico (mesmo no caso dos evangélicos) cuja a origem remonta ao período da escravidão, quando os negros trazidos da África era obrigados a negar suas crenças religiosas e abster-se de adorar as divindades dos cultos africanos,  perversamente associados a “coisas do demônio”. O caminho escolhido para reprimir a fé dos africanos e seus descendentes foi o da opressão, inclusive ao incutir medo endemonizando entidades e práticas africanas. O que chamam de sincretismo, ao meu ver, é na verdade o resultado da opressão imposta aos africanos em relação à religiosidade deles.  Um festival de absurdos até hoje repetidos na associação, por exemplo, da imagem de Iemanjá a “coisa do capeta”. Quanta ignorância! A atual legislação brasileira contra a intolerância religiosa não dá conta de conter a bestialidade de pseudos líderes religiosos e seus seguidores e ainda se vê, aqui no DF, para citar um exemplo concreto, gente quebrando ou incendiando estátuas representativas de orixás, na Praça dos Orixás,às margens do Lago Paranoá. Essa prática é crime desde 1997, de acordo com a Lei 9.459/97, que prevê cadeia  e multa para os crimes de discriminação ou preconceito religiosos. Apesar disso, e mesmo decorridos 11 anos de aprovação dessa lei, ainda são comuns abusos e desrespeito ao direito individual de vivenciar a fé e a religiosidade. Enxergo isso como uma clara demonstração de atraso cultural e intelectual. Em Singapura, quem desrespeita as leis pode ser condenado a pena de morte (em crimes graves, como tráfico de drogas), ser preso, pagar multa ou levar uma surra de  varas, castigo chamado de caning. Pixação e vandalismo, por exemplo, são punidos por caning. Nos anos 90, debochando das leis locais, o americano Michael Fay foi condenado a  levar seis varas de bambu nas costas por ter feito um grafite numa estação do metrô de Singapura. O governo local não achou graça na brincadeira; considerou como vandalismo (por ter sido feito sem autorização, claro): ele foi preso e punido.  Após intervenção do governo dos EUA, a pena foi reduzida: quatro varadas. Isso  lhe parece muito rigor? Para os singapurianos,  é ordem e tem o apoio popular. É também uma forma eficaz de combater a impunidade dos transgressores às leis. Num pais onde as leis realmente são cumpridas, todos podem vivenciar em paz suas práticas religiosas. Por essa e outras motivações, imagine  quanta gente iria apanhar de varas nas costas e na bunda se aqui fossem aplicadas leis vigentes em alguns países orientais? Será que não temos sido muito permissivos? Qual a medida do bom senso? Certamente não é o excesso de ‘tolerância” que temos no Brasil. Preconceitos racial, religioso ou étnico talvez ainda estejam sendo punidos com muita brandura e/ou imunidade por aqui.

Foto 1

fullsizeoutput_414Oferendas de alimentos e incenso (insensário vermelho) no corredor, em reverência aos ancestrais; Singapura, 2018.

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Pequeno oratório na fachada de lanchonete, com oferenda de alimentos, em reverência à divindade cultuada pela família dos comerciantes.

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Templo induísta em Singapura

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Templo budista

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Outro templo budista em Singapura.

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Menos direitos individuais e mais direitos coletivos

Singapura, localizada no sudoeste asiático, é um lugar singular, onde predominam a ordem e o progresso. Isso mesmo, o que está escrito na nossa bandeira como lema nacional é, na prática, o que existe de verdade em Singapura. Este pequeno país, uma cidade-estado menor que o Vaticano e mais nova que Brasília, tem um IDH ( Índice de Desenvolvimento Humano) muito elevado: 0,925 (dados da ONU de 2015). Resumidamente, o IDH é um referencial de progresso a longo prazo, obtido a partir da medição de três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde.

Em Singapura não se vê mendigos, gente comendo em lixeiras nem sujeira nas ruas. Os idosos são saudáveis: é até difícil adivinhar a idade deles! As crianças, educadas, respeitadas e respeitosas; e também protegidas. As delegacias são vazias; o transporte coletivo é excelente; é um lugar seguro: pode-se andar tranquilo nas ruas sem o medo de ser assaltada ou agredida de qualquer forma: a violência urbana é inexistente.

As pessoas trabalham muito, o tempo todo; o comércio, por exemplo, não para aos domingo ou feriados e funciona até no período noturno; respeito é palavra de ordem nesta cidade, construída na maior parte sobre aterros. Respeito às tradições, à religiosidade do outro, às mulheres, aos idosos, às leis, ao patrimônio público.

Água potável é comprada da Malásia, apesar disso, não falta no dia a dia. Por que não? Chega-se a outra característica fundamental de Singapura: os serviços públicos funcionam! São vistas obras de manutenção e reparos diariamente em vários pontos da cidade. Há câmeras de vigilâncias por toda parte, o que assegura o combate aos delitos e às transgressões. Ou seja: não há impunidade para com qualquer um que desrespeite as leis e as regras locais. É um governo considerado linha-dura. E no primeiro momento tem-se vontade de apelidar o lugar de cidade-do-não-pode. Há muitas restrições, sim.

Depois, avaliando melhor o contexto, conclui-se que é muito bom do jeito que é; e admirável! Porque progresso só é possível onde há ordem; e que esta não pode existir onde predomine a impunidade e onde não se cobre disciplina e respeito aos direitos coletivos. Em Singapura, há uma perfeita noção de coletividade e as pessoas não reclamam das regras ou da rigidez do Estado (criticada por alguns estrangeiros); ao contrário: concordam com o modus operandi rigoroso do governo porque sabem, percebem na prática, que viver de forma disciplinada faz as coisas funcionarem e assegura bem estar a todos. Aliás, disciplina é um traço cultural dos orientais sobre o qual nós, brasileiros, deveríamos aprender mais.

A principal queixa em relação a Singapura por parte de ocidentais e turistas apressados em criticar a cultura local é a de não haver respeito aos direitos individuais. A mim isso não parece ser uma verdade incontestável, e muito mais um discurso vazio de quem gosta de falácias. Entendo que ter boa educação, transporte coletivo de qualidade (o acesso de cadeirantes aos ônibus é uma coisa espetacular, é inclusão pra valer, não o faz-de-conta que temos no Brasil), segurança em todos os ambientes, boas escolas, respeito para com os idosos e com as mulheres, vida digna para todos, com pouca desigualdade social (não é comunismo, existem os ricos, sim, mas os não-ricos não são acintosamente excluídos, maltratados ou negligenciados nas necessidades básicas, como ocorre no Brasil) e segurança para ir e vir são aspectos muito pertinentes ao conceito de direito individual, e muito mais bem atendido do que em locais onde o excesso de liberdade individual provoca o caos (sabem a que lugar me refiro).

Entendo assim: o progresso passa pela ordem e não há ordem sem disciplina; o processo civilizatório visa, num sentido mais amplo, conduzir o ser à evolução. Sem evoluir, continuaremos a agir como primatas, nos orientando pelos instintos. Não estou menosprezando os seres primitivos, que fique claro, mas defendendo que cada espécie deve respeitar seu estágio evolutivo. Considerado a Teoria da Evolução, se não fizermos bom uso da razão, uma conquista dos seres de nossa espécie, estaremos atrapalhando a marcha natural do Universo ou desdenhando do propósito da Vida. A predominância dos interesses individuais sobre o bem coletivo é resultado de demandas primitivas, em que o ser se orienta mais pelo Princípio do Prazer, ignorando o Princípio do Dever, em termos psicanalíticos. Às crianças na primeira infância é permitido que hajam assim…

No Brasil, onde predomina a desordem e a falta de progresso, o contrário do nosso lema (mente quem diz que somos país em desenvolvimento; somos subdesenvolvidos mesmo), até membros do Poder Judiciário debocham das leis e da Justiça, institucionalizando a impunidade, o que leva à violência urbana a níveis inacreditáveis, a desigualdades e injustiças sociais elevadas e à muita violência urbana, entre outras mazelas. Enquanto isso, os direitos individuais dos transgressores, no entanto, são muito bem assegurados.

Um exemplo: são gastos milhões de reais, dinheiro que deveria ir para serviços públicos necessários ao coletivo, com o pagamento de Auxílio-reclusão, uma remuneração paga a dependentes dos presidiários. Ao invés de compensar o filho de um transgressor com dinheiro, o Estado brasileiro deveria desenvolver neles (no filho e no pai) a noção de dignidade e desejo de viver honradamente; e fazer das cadeias locais de correção de conduta e não escolas de bandidagem. É um remendo de estopa em tecido de seda porque aos legisladores e gestores públicos brasileiros não interessa o progresso do País e muito menos os direitos da minorias. Importa fingir que estão fazendo algo e assim justificar e manter os privilégios individuais deles. Com o tal auxílio, o Estado brasileiro se omite e incentiva o crime e o aumento da violência; falaciosamente em nome da defesa dos direitos individuais. Coisa de transgressor disfarçado, resumindo.

Não conheço pessoa de bem, proba e honrada, que vive sem transgressões às leis e trabalha honestamente, sem ferir o direito do outro, que defenda os tais “direitos individuais” em detrimento dos direitos da coletividade. Quem está sempre gritando por democracia e direitos humanos no Brasil atualmente são pessoas que respondem a processos na Justiça e desfrutam de inúmeros privilégios, na maioria pagos com dinheiro público. Será coincidência?!

Um País é um coletivo. Sem se respeitar isso, sem se priorizar interesses do Todo acima dos individuais não se tem progresso, desenvolvimento, não se pode ser uma democracia, mas ter-se-á  desordem urbana, uma anarquia, no sentido vulgar do termo. E é bom lembrar aos defensores dessa utopia que um regime anárquico só daria certo se as pessoas fossem igualmente evoluídas, condição inexistente na Terra no tempo atual. Então, pra concluir, quiçá nos tivéssemos no Brasil de hoje menos direitos individuais e mais respeito ao coletivo. Quem dera aprendêssemos a ser patriotas como os singapurianos.

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Vista aérea de Singapura, foto feita do alto da Roda Gigante (Singapore Flyer).

 

Símbolo de Resistência

Resistindo bravamente ao vândalo que tentou destruí-la, quebrando-lhe no tronco por duas vezes, este pé de moringa oleífera cresceu e cumpre seu propósito de vida: alimentar outras vidas. Suas flores alimentam abelhas, beija-flores, pequenos pássaros e borboletas, além de embelezar-nos a Vida, umidificar e perfumar o meio ambiente. Em breve,  as minúsculas flores vão se transformar em vagens semelhantes às do feijão (folhas, flores e vagens da moringa oleífera  podem ser comidas também por seres humanos – e por desumanas pessoas); são ricas em nutrientes e florescem o ano todo, chova ou faça sol.

Até os vegetais conseguem ser mais “prontos” que alguns seres humanos… quiçá quem hoje perde tempo com vandalismo e outras violências soubesse a que veio e se empenhasse em cumprir o propósito existencial, em vez de ocupar-se em destruir e disseminar más ações…

A história completa está no post UM PÉ DE MORINGA E UM VÂNDALO

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Rivotril é a segunda droga mais vendida no Brasil: os perigos disso.

No Brasil, Rivotril é o segundo medicamento mais vendido;  mesmo sendo um remédio  tarja preta. É um tranquilizantes, prescrito em variadas queixas psiquiátricas, como Síndrome do Pânico e outras manifestações de ansiedade. O problema está no fato de que ele pode causar graves efeitos colaterais e causar dependência quando for usado por muito tempo. Além disso, medicar determinadas manifestações de sofrimento psíquico sem o devido cuidado ou esclarecimento de que o remédio irá apenas amenizar os sintomas, mas não resolver o problema, acaba por camuflar uma real necessidade de enfrentamento efetivo das questões subjacentes à patologia. Algumas pessoas refugiam-se em remédios e desperdiçam toda uma vida sem conseguir elaborar questões de fundo emocional, de ordem psicológica, cuja compreensão e enfrentamento promoveria crescimento pessoal no sentido amplo.  “Quando indicado segundo os melhores critérios, o Rivotril pode ser bastante útil no tratamento da ansiedade generalizada. O paciente vive angustiado, preocupado, nervoso. Dorme mal, não se concentra e se irrita por qualquer coisa. Sozinho, no entanto, o remédio não resolve o problema. O tratamento depende também do uso de outros recursos, como antidepressivos, psicoterapia e atividade física. O mesmo vale para o tratamento de outros transtornos, como síndrome do pânico, fobias e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)”, alerta o médico Paulo Maciel, no site profissional dele.

Outro importante alerta contra as prescrições e uso indiscriminado do remédio: “Rivotril não deve ser remédio de uso contínuo. Deve ser reservado para as crises agudas e usado por no máximo seis semanas”, diz o psiquiatra Joel Rennó Jr., coordenador do Projeto de Saúde Mental da Mulher do Hospital das Clínicas, em São Paulo. O que está por trás desse largo consumo do Rivotril no Brasil? O  médico Paulo Maciel publicou no site dele esclarecedora reportagem sobre o assunto.

Leia o texto completo no link abaixo: http://drpaulomaciel.com.br/rivotril-a-segunda-droga-mais-vendida-no-brasil/

Embrapa desenvolve hamburguer de caju!

No Ceará, a Embrapa Agroindústria Tropical encontrou uma forma de aproveitar melhor o caju, fruta que existe em abundância por lá. No processamento da fruta para extração da polpa e produção de sucos e sobremesas, só 10% são aproveitados. A maior parte, 90% do caju, vira ração!

Esses dados tristes, da Secretaria de Agricultura de Beberibe, motivou o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) a buscar uma forma evitar tamanho desperdício. A saída? Uma receita de hambúrguer!

O procedimento é simples: a polpa é batida no liquidificador e peneirada para tirar o suco. Depois, o que fica nas peneira é temperado como se fosse carne, com cebola, pimenta, alho, sal e ervas como orégano, manjericão, alecrim ou o que a pessoa queira.

Após o cozimento, deixa-se esfriar e acrescenta-se farinha de trigo. Para finalizar, é só modelar no formato de hambúrguer e fritar.

Pesquisadores do Laboratório da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) analisaram a receita; descartaram riscos de contaminação e confirmaram o nível nutricional do alimento. Segundo a pesquisadora Janice Ribeiro Lima,  o hambúrguer de jaca tem alto teor de fibras, mas o valor proteico é baixo.

A intenção é congelar o produto feito na época da safra para ter alimento saudável o ano inteiro, inclusive para usar na merenda escolar, como planeja a prefeitura de Beberibe, no litoral do Ceará.

Pode haver quem estranhe a ideia, mas não os veganos, que já conhecem carne de jaca. Abaixo,  uma receita fácil:

CARNE DE JACA

Sem ser ainda vegana, comecei a descobrir o universo do vegetarianos e tenho me surpreendido com valiosas descobertas. Aqui em Brasília, já existem muitos e bons restaurantes que oferecem pratos saborosos feitos apenas com ingredientes vegetais. Um caminho perfeito para baixar nível de colesterol,  perder peso, desintoxicar o organismo e prevenir doença, como diabetes e cardiopatias, entre outras, além de evitar o uso de medicamentos. A indústria farmacêutica vai odiar ver essa moda se espalhar!

Imagens da internet

Médico pode fazer mal à saúde?

“Médicos podem receber dinheiro de laboratórios como remuneração por serviços de consultoria e palestras, e pela realização de pesquisas patrocinadas. O que não podem é ganhar para prescrever algum remédio. Ou melhor, não em espécie. (…) A indústria farmacêutica está legalmente autorizada a convidar os profissionais para a participação em eventos, congressos e treinamento com despesas pagas, enviar aos consultórios amostras grátis de medicamentos e brindes, contratar médicos e promotores para informar sobre os remédios. O que se discute é o limite da ética e as perversões que esse sistema pode gerar.

O fato de um médico estabelecer algum vínculo com uma companhia, como dar palestras, não quer dizer que ele tenha vendido a alma, claro. Também não significa que só prescreva uma medicação em troca de benefícios. Em tese, médicos tomam decisões baseadas em evidências de eficácia e segurança das drogas.

A questão é: pode acontecer de alguns deles se corromperem? Sim. Pode. Uma pesquisa do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) mostrou que 93% dos médicos paulistas recebem brindes, convites para almoços, jantares e eventos culturais, ou pagamentos de honorários de aulas e palestras das empresas farmacêuticas e de equipamentos. Desse total, 48% prescrevem os produtos indicados pelos fabricantes que os bancaram.

Curiosidade: 77% dos médicos afirmam conhecer outros médicos que aceitam presentes, benefícios e pagamentos de maior valor, mas apenas 37% admitem que eles mesmos receberam.

Outras curiosidades: 33% souberam ou presenciaram casos de pressão da indústria sobre médicos, 28% souberam de profissionais que receberam comissão por receitar medicamentos e realizar procedimentos DESNECESSÁRIOS, inclusive cirúrgicos, em troca de benefícios. Nenhum deles assume essas práticas.

A conclusão do Cremesp é que a promoção de medicamentos, produtos e equipamentos, mesmo as iniciativas que parecem inofensivas, como distribuição de brindes, pode influenciar de forma negativa decisões sobre tratamentos.

Nos EUA, essa relação entre médicos e indústria vem sendo alvo de iniciativas de controle. Desde 2013, o governo americano mantém uma lista aberta para consulta com informações sobre valores que médicos e hospitais universitários recebem da indústria e para quais atividades. Em 2014, as empresas declararam pagar 6,4 bilhões de dólares a profissionais da área – só metade desse dinheiro foi remuneração pelo envolvimento em estudos. A outra metade financiou despesas que incluem brindes, viagens e contratações de palestras.

Nove das dez maiores empresas farmacêuticas do mundo gastam mais em marketing do que em pesquisa¹. A maior parte delas coloca quase o dobro de dinheiro em ações para divulgar os remédios do que para desenvolvê-los.

E você paga essa conta, já que todos esses preços são embutidos nos preços dos remédios. Por isso, dizer que novos medicamentos são caros por consumirem muito tempo em dinheiro e pesquisa é uma meia verdade.

Mas dizer que a indústria farmacêutica é o monstro criador de todo esse sistema perverso é simplificar a questão. Existem muitas nuances de cinza entre o branco e o preto.

Duas situações que, no Brasil, são preocupantes e abrem as portas para distorções. Uma delas é o despreparo de parte dos profissionais. “Hoje, temos mais médicos formados do que antes, porque os critérios de abertura de novos cursos de Medicina no País muitas vezes atendem a interesses comerciais, e não à qualidade do ensino”, diz o psiquiatra Mauro Aranha, vice-presidente do Cremesp. As estratégias de marketing ganham espaço porque entram no vácuo da falta de conhecimento.

Todos os anos, o Cremesp faz um exame para avaliar recém-formados em Medicina no Estado de São Paulo. A participação e a nota na prova não impedem o exercício da atividade. Ela funciona como diagnóstico da qualidade das faculdades de São Paulo, onde estão muitas das melhores do País. Portanto, serve indiretamente como termômetro nacional. E os resultados mostram que o ensino médico está na UTI.

Em 2015, 48% dos inscritos foram reprovados, acertando menos de 60 das 120 questões. O índice foi menor entre os formados de escolas públicas (um quarto dos reprovados) do que de instituições privadas (três quartos). Considerando todos os participantes, 60% ou mais não souberam diagnosticar ou tratar problemas de saúde frequentes que chegam aos consultórios e prontos-socorros, como hipertensão, crise de asma, hipertireoidismo, doenças psiquiátricas e cetoacidose, uma complicação em diabéticos causada pelo excesso de glicose no sangue que pode levar ao coma e à morte. Também demonstraram despreparo para agir diante de um quadro inicial de infarto agudo do miocárdio e de primeiros socorros de vítimas de acidentes automobilísticos.

Em 2014, 55% não atingiram a nota mínima. Em 2013, foram 59,2%. Poderia ser um indício de que o ensino está melhorando, mas não. Segundo parecer do Cremesp, o nível de dificuldade da prova foi menor em 2015 do que nos outros anos. Enquanto isso, mais e mais cursos de Medicina são abertos no País. Foram 28 novas escolas em 2014 e mais 18 em 2015.

Médicos despreparados tendem a prescrever abusivamente, ter menos visão crítica diante das informações que recebem e fazer diagnósticos errados. Principalmente durante poucos minutos de consulta. Tudo isso junto reduz muitos médicos a meros carimbadores de receitas.” (Kedouk, 2016, págs 21-25).

¹ ANGEL, Marcia. A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos. Editora Record, 2014.

Referência: KEDOUK, Marcia. Os Segredos que os Médicos não Contam sobre os Remédios que Você Toma. Editora Abril, São Paulo, 2016.

Toma. Kedouk, Márcia. Ed. Abril: São Paulo, 2016.

Despraticando as normas na Medicina

A médica Ana Cláudia Quintana faz diferente. E faz a diferença. Ela trabalha pela Vida; em respeito à singularidade dos pacientes. Formou-se em Medicina pela USP, aprendeu o mesmo que centenas de outros médicos, mas quis contemplar um horizonte distante, o mesmo enxergado pelos psicólogos clínicos, a emoção e as consequências sobre a alma e o corpo. Para esses passos largos, fez residência médica em Geriatria e Gerontologia no Hospital das Clínicas da FMUSP e  pós graduação em Psicologia – Intervenções em Luto pelo Instituto 4 Estações de Psicologia, além de especialização em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium e Universidade de Oxford.  Com essa bagagem valiosa e uma alma boa, ela vem espalhando esperança, bem-estar e conhecimento genuíno por onde passa e ao ser assistida em vídeos disseminados via internet. A abrangência do trabalho dela pode ser vista no site CASA DO CUIDAR.

Ao afirmar que “despratica” as normas da Medicina a médica não tenciona desvalorizar os saberes médicos nem a prática convencional da Medicina. Ao contrário. Ela vê o quanto a Medicina pode fazer no controle dos sintomas pelas pessoas na fase final da vida. Em minha defesa: quando posto sucessivos textos valorizando práticas médicas pouco conhecidas, não convencionais, não estou a negar o valor do trabalho dos médicos, ao contrário. Apenas me incomodam àqueles profissionais que se deixam arrastar pela “ola” da medicina da doença, da medicina medicamentosa, da medicina da indústria farmacêutica. Médico é missionário da Vida e qualquer deles que se forme e comece a trabalhara visando lucro ou status social está fadado ao fracasso, fracasso em atingir o propósito nobre da profissão. Claro que isso vale também para os psicólogos e outras categorias profissionais, principalmente as da saúde – mas não apenas.

O vídeo do link abaixo dá uma ideia da valiosa atuação da médica Ana Cláudia Quintana:

A MORTE É UM DIA QUE VALE A PENA VIVER

 

Escrevi neste blog sobre cuidados paliativos anos atrás. É só clicar nos títulos abaixo para acessar os textos.

Cinco principais arrependimentos de doentes terminais

Morte, perdas e viver o luto

Psicologia e Cuidados Paliativos

Cuidados paliativos: a morte é uma dimensão do viver

 

Orquídea

Um pé de orquídea ou uma orquídea de pé?

Abacaxi

Um abacaxi ou uma flor? Depende da singularidade do modo de olhar e da singularidade da planta!