Sobre Crianças com transtorno de conduta

Os transtornos de conduta podem se manifestar com diferentes configurações: restrito ao contexto familiar (comportamentos agressivos e/ou desafiador apenas contra membros da família); transtorno de conduta não socializado (quando criança tem dificuldade relacional, isto é, não se integra a grupos de outras crianças); transtorno de conduta socializado (quando agressividade e/ou comportamentos desafiadores ocorrem na relação com os grupos nos quais estão inseridos, como colegas de escola) e transtorno desafiador de oposição, também conhecido por TOD (Transtorno Opositor-Desafiador).

Os comportamentos observados em uma criança que justificam o diagnóstico de transtorno de conduta incluem: níveis excessivos de brigas ou intimidação; crueldade com animais ou outras pessoas; destruição grave de propriedades; comportamento incendiário; roubos, mentiras repetidas; faltar aulas ou fugir de casa; ataques de birra frequentes e graves; comportamento provocativo desafiador e desobediência grave e persistente (CID 10, 2007).

Transtorno de conduta na infância sem as necessárias intervenções ou sem intervenções eficazes pode evoluir, embora não necessariamente, para um transtorno de personalidade antissocial na vida adulta. E o que é transtorno de personalidade?  De acordo com o DSM-IV é um m padrão duradouro de experiência interior e de comportamento que se desvia marcadamente das expectativas da cultura do indivíduo; é disseminado e inflexível; tem início na adolescência ou no começo da idade adulta; é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento e incapacitação. Ou seja, se a criança não for devidamente orientada e tratada poderá persistir nos erros e sofrer muito, além de causar sofrimento a muitos (principalmente aos pais).

O Transtorno de Personalidade Antissocial (também chamado de sociopatia) é marcado pelo contraste entre o comportamento adotado pelo sujeito e as regras socais predominantes. Os critérios de diagnósticos para o enquadramento de uma pessoa como antissocial são as que seguem (CID 10, 2007, pág. 199):

  1. indiferença insensível pelos sentimentos alheios;
  2. atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito por normas, regras e obrigações sociais;
  3. incapacidade de manter relacionamentos, embora não haja dificuldade em estabelecê-los;
  4. muito baixa tolerância à frustração e um baixo limiar para descarga de agressão, incluindo violência;
  5. incapacidade de experimentar culpa e de aprender com a experiência, particularmente punição;
  6. propensão marcante para culpar os outros ou para oferecer racionalizações plausíveis para o comportamento que levou o paciente a conflito com a sociedade.

Seja em terapia seja no ambiente familiar, o recomendável no manejo adequado desses casos de comportamento alterado é a firmeza; firmeza nos comandos, na imposição de limites, no cumprimento da palavra dada, mas também no bom exemplo, e demonstrando preocupação genuína com o bem estar da criança. Ou seja: os adultos devem se orientar pelo amor, senso de justiça e imparcialidade (quando houver outras crianças envolvidas). Devem recorrentemente clarificar, esclarecer, informar, orientar a criança em relação às condutas desajustadas dela e às implicações envolvidas. Quando se trata de criança inteligente, esclarecer as razões das regras, explicar os motivos dos limites impostos, clarificar quanto ao porquê das regras e normas pode funcionar muito bem, se o adulto usar de argumentação capaz de fazer a criança enxergar sentido nas regras. Mesmo assim, em muitos casos haverá reincidência, o que exige persistência e paciência por parte dos pais e cuidadores.

Além disso, a minha experiência clínica com esses casos mostrou-me que as crianças querem que alguém lhes dê limite, desejam ser orientadas – o que lhes alivia, inclusive, da ansiedade. Isso porque ao agir com agressividade e desrespeito às regras, elas estão em desequilíbrio interno e externo. Percebendo-se em atrito com os outros, a criança fica ansiosa e alterada. Sofre. Inconscientemente, deseja adaptar-se ao meio e ficar bem. Assim, com esse desejo interno inconsciente, essas crianças tendem a gostar de adultos firmes, que sabem lhes impor limites sem arbitrariedade. Além da percepção de haver sentido, parece acontecer uma barganha velada e interna: em contrapartida à frustração imposta e à negação da vontade delas, ao receber afeto dos adultos-referência, percebem-se recompensadas. Ou seja: agir com firmeza, mas também carinho, com amor e atenção é fundamental. Nunca funcionará apenas punir. Menos ainda demonstrar desamor, indiferença.

Em psicoterapia, intervenções no contexto familiar são de importância crucial. Certo dia, ao conversar com uma avó que acompanhava o neto no acompanhamento terapêutico e que se queixou das confusões dele na escola e em casa, comecei a explicar sobre a importância de os adultos terem autoridade e muita firmeza com crianças com transtorno de conduta. E afirmei:  “Os professores que eles mais gostam são os mais duros com eles”. Nesse momento o menino, de 9 anos, sorri com cara de quem foi pego no flagra, olha para mim e em seguida para a avó e diz:  “É mesmo”. A avó também ri discretamente, acenando concordância com a cabeça porque ela – explicou-me depois – conhecia os professores a quem ele respeitava e de quem gostava.  Expliquei-lhe também que ela deveria tomar cuidado para não cair nas armadilhas dele, não se deixar manipular. Eles ficam medindo força o tempo todo. E testando os adultos. Ela sabe bem disso.

Aos poucos, têm-se que ir ensinando a criança a respeitar as regras, a cumprir normas que as demais cumprem, a respeitar as outras pessoas e até os animais – da mesma forma que ela quer ser respeitada. Isso terá que ser feito várias vezes, quantas vezes forem necessárias, incansavelmente deve-se mostrar que a vontade dela não pode prevalecer sobre o direito das outras pessoas. E deve-se, ainda, tomar cuidado para não “premiar ” a criança fora de hora – o que irá confundir-lhe as ideias.

Aqui relacionei apenas algumas dicas de como lidar com crianças com transtorno de conduta. Não quero dar a entender que seja algo fácil, mas tampouco devem os familiares se desesperarem ou desistirem de cuidar da criança ou deixarem de ajudá-la a vencer as inatas inclinações para o erro.  Afinal, nossos filhos, como todos nós, têm por desafio e meta de vida a evolução.

Fontes:

  1. CID-10 – Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento, Descrições Clínicas e diretrizes diagnósticas. Ed. Artmed, 2007
  2. Transtornos de Personalidade em Direção ao DSM-V. William O Donohue, Katherine A. Fowler, Scott O. Lilienfeld. Ed. Roca, 2010.
  3. DSM-IV, APA, 2000.