Superproteção parental pode adoecer filhos

Mães ou pais superprotetores podem adoecer seus filhos.  Estudos sugerem que cuidados parentais superprotetores e autoritários, isoladamente ou em combinação, estão associados à probabilidade maior de uma criança apresentar dependência problemática na adolescência ou na vida adulta; tecnicamente falando, o nome correto é Transtorno de Personalidade Dependente (TPDP).  “Cuidados parentais superprotetores ensinam às crianças que elas são vulneráveis e fracas e que não podem sobreviver sem a proteção de cuidadores poderosos” ( Robert Bornstein, in O’Donohue, 2010, p. 301). Bem resumidamente essa alteração na saúde psicológica e emocional decorre de a criança desenvolver a representação mental de si mesma como sendo fraca e incapaz. Errar e acertar, cair e levantar, testar-se e descobrir as próprias habilidades são necessidades da criança ao longo do desenvolvimento, desde a idade mais tenra. Por distorção do que seja amor materno/paterno ou “cuidados amorosos”, muitos pais e muitas mães se excedem e tornam-se INVASIVOS;  “é por amor”, garantem. Mas na verdade as motivações subjacentes das figuras parentais costumam ser outras bem diferentes, e na maior parte dos casos são inconscientes. Podem ser projeção da própria insegurança, ímpeto pra compensar a falta de sentido da própria vida, desenvolver em alguém a dependência de modo a tornar-se imprescindível, neuroses de vários tipos e justificativa para fugirem da meta de se dedicarem  ao próprio desenvolvimento – intelectual, material, emocional, psicológico e até espiritual no sentido puro, entre muitas outras possibilidades – mas nunca por amor; porque o amor implica em preservar a liberdade do outro de ser quem é, no caso dos pais, de preferência ensinando os filhos a terem autonomia e a não dependerem de ninguém, nem mesmo deles, mãe e/ou pai.

Claro que todo ser humano apresenta algum nível de dependência de outras pessoas, mas esse transtorno refere-se a um tipo patológico, excessivo de dependência psicoemocional e até material, em alguns casos. A seguir, alguns sintomas de TPDP, de acordo com o DSM-IV, que é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Organização Mundial de Saúde (OMS):

  1. Dificuldade  em  tomar decisões cotidianas sem aconselhamento e reasseguramento excessivo.
  2. Necessidade de que os outros assumam a responsabilidade pela maior parte das áreas importantes da sua vida.
  3. Dificuldade em expressar discordância.
  4. Dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas por conta própria.
  5. Chegar a extremos para obter cuidados e suporte.
  6. Ficar desconfortável e desamparado quando sozinho.
  7. Procurar urgentemente outra fonte de apoio quando um relacionamento importante termina.
  8. Preocupação irrealista sobre o medo de deixar de receber cuidados de alguém.

A pessoa deve apresentar pelo menos cinco dos oito critérios  relacionados acima para ser diagnosticado como portador de DPDP.

Na prática clínica, o que se observa que pode ser acrescentado a esses critérios? A pessoa torna-se ciumenta e possessiva. Na relação conjugal, o investimento é para controlar o cônjuge de modo a que ele/ela  aja sempre dentro das expectativas e necessidades da pessoa com TPDP – para que ela não sinta a aparente ou ilusória sensação de segurança ameaçada. Sofrem de modo assustador ao pensar na perda, morte, separação das pessoas significativas – porque sentem-se incapazes de viver por conta própria.  No caso de filhos, mesmo na idade adulta e embora estejam casados e com os próprios filhos, mantêm vinculação patológica com as figuras parentais. Tive uma paciente que chegava a ligar mais de dez vezes diariamente para a mãe que morava em outro estado – e estranhou que a terapeuta considerasse isso excessivo, afirmando: “eu gosto de conversar com minha mãe e me preocupo em saber se ela está bem… isso não tem nada demais”. Mas ao longo do processo terapêutico, reconheceu a dependência envolvida nisso. Insegurança paralisante, falta de confiança em si mesmo(a) para qualquer desafio, condutas controladoras , tendência à depressão e, em casos mais graves, com tendências suicidas são aspectos registrados em indivíduos com esse transtorno. Mais: “indivíduos com TPDP são incapazes de tomar decisões por eles mesmos, são frequentemente submissos, sempre precisam de tranquilização e não conseguem funcionar bem sem alguém que cuide deles” (Gabard, 2006, p. 437).  Já atendi adolescentes com comportamentos de retardado mental (sem o serem).  Tive um paciente adolescente que teve uma crise de medo paralisante em uma situação de teste (filho de mãe muito invasiva, do tipo que não deixava o adolescente chegar a sentir sede por se antecipar oferecendo a ele água; escolhendo as roupas que ele iria usar, mesmo após a puberdade); outro caso: um rapaz de 28 anos de idade que sofria profundamente, a ponto de somatizar doenças autoimunes, quando surgia qualquer situação que lhe exigia uma decisão.

Em pessoas com DPDP são centrais nos processos internos os pensamentos automáticos relacionados à dependência (autodeclarações reflexivas que refletem a falta de competência percebida pela pessoa). Esses pensamentos automáticos são acompanhados por autodeclarações negativas ou seja, monólogos internos autodepreciativos nos quais as pessoas dependentes reafirmam  várias razões se perceberem sem competência ou habilidade para agir por conta própria ou para fazer bem qualquer coisa. Conforme descreve Robert F. Bornstein ( in O’Donohue, 2010, p. 300), “os pensamentos e as autodeclarações negativas se combinam para criar um viés atributivo persistente que reforça a sensação de vulnerabilidade e fraqueza da pessoa. Segue-se um ciclo vicioso no qual cada novo desafio desencadeia um conjunto de respostas cognitivas que exacerbam os sentimentos de desamparo da pessoa dependente; conforme a sensação de desamparo da pessoa aumenta, cada novo desafio parece ainda mais insuperável”.

A premissa básica da perspectiva comportamental é de que as pessoas com DPDP apresentam comportamentos dependentes porque esses comportamentos são recompensados, foram recompensados ou o indivíduo percebe que provavelmente trarão algum tipo de recompensa  (comportamento aprendido no contexto de  dependência da criança com a mãe ou com o pai). Na medida em que a busca por ajuda e apoio é recompensada pelos cuidadores primários, a criança em desenvolvimento terá mais chances de exibir essas respostas em outras interações sociais, ou seja, o reforço intermitente do comportamento dependente propaga a dependência problemática em adultos e crianças.

A explicação psicodinâmica, de acordo com Gabard, é semelhante: “um padrão global de reforço dos pais para a dependência ao longo de todas as fases do desenvolvimento”(2006, p. 438). E mais: “muitos dos  pacientes cresceram com pais que, de uma forma ou de outra, comunicavam que a INDEPENDÊNCIA era carregada de perigo. Eles podem ter sido sutilmente recompensados por manter lealdade a seus pais, que pareciam rejeitá-los diante de qualquer movimento em direção à independência ” (Gabard, 2006, p.438).

A motivação central dos pacientes com TPDP é na obtenção e a manutenção das relações de conforto e apoio. E o apego dependente com frequência mascara a agressão. A conduta dependente também pode ser uma forma de evitar a reativação de experiências traumáticas do passado.

O Transtorno de Personalidade Dependente pode aparecer associado a outros transtornos, como transtorno bipolar, depressão maior, transtornos de ansiedade e transtornos de alimentação (obesidade, anorexia, bulimia). Em alguns casos essa patologia é confundida com Transtorno Borderlaine. Para diferenciar as duas patologias, há um aspecto a ser considerado: o paciente com borderline  reage ao abandono com raiva e manipulação, enquanto o paciente dependente torna-se submisso e apegado.

Finalizando, destaca-se o seguinte: sob a alegação de cuidar excessivamente por amar demais, as figuras parentais adoecem seus filhos! Tiram-lhes a possibilidade de serem indivíduos autônomos, independentes e felizes. Pode haver resultado pior da paternidade ou da maternidade?

Referências

Baker, Jeffrey D., Capron, Earl W. & Azorlosa, J. (1996). Family environment characteristics of persons with histrionic and dependente disorders. Journal of Peresonality Disorders.

Gabard, Glen O. *2006). Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica (4ª ed.). Artmed, Porto Alegre (RS).

O Donohue, Katherine A. Fowler & Lilienfeld, Scott. (2010). Transtornos de Personalidade em direção ao DSM-V. Ed. Roca, SP.

TPOC (por Gabard) – Compreensão psicodinâmica II

Continuação do post anterior:

“Apesar dos esforços dos pacientes com Transtorno de Personalidade Obsessivo Compulsivo (TPOC) para serem submissos,  ponderados e complacentes, o medo de que possam isolar os outros se torna  com frequência uma profecia autorrealizável. A conduta obsessivo-compulsiva tende a irritar e exasperar aqueles que entram em contato com ela. Entretanto, a pessoa que apresenta o comportamento pode ser percebida de maneira um pouco diferente, dependendo do poder diferencial na relação. Os indivíduos com TPOC são considerados dominadores, hipercríticos e controladores pelas pessoas a eles subordinadas. Para seus superiores eles podem parecer agradáveis e obsequiosos de uma forma que soa falsa. Ironicamente, a aprovação e o amor que eles buscam é enfraquecido, e as pessoas  com TPOC se sentem cronicamente não-estimadas à medida que trabalham da sua própria forma torturada para ganhar a tão desejada aprovação por parte dos outros.

As pessoas obsessivo-compulsivas também são caracterizadas por uma busca de perfeição. Elas parecem possuir uma crença secreta de que, se puderem pelo menos alcançar um estágio transcendente de perfeição, irão finalmente receber a aprovação e a estima dos pais que lhe faltaram quando crianças. Essas crianças com frequência crescem com a convicção de que simplesmente não tentaram o suficiente e, como adultos, sentem cronicamente que não estão fazendo o suficiente. O pai ou a mãe que parece nunca estar satisfeito é internalizado como um superego severo que espera mais e mais do paciente. Muitos indivíduos obsessivo-compulsivos tornam-se viciados no trabalho por serem inconscientemente guiados pela convicção de que o amor e a aprovação podem ser obtidos apenas por meio de esforços heroicos para alcançar extraordinário destaque na profissão escolhida. Entretanto, a ironia nessa busca de perfeição é que as pessoas obsessivo-compulsivas raramente parecem satisfeitas com quaisquer de suas realizações. Elas parecem mais guiadas por um desejo de obter alívio de seu superego atormentador do que por um desejo  genuíno de prazer.

Esses fundamentos dinâmicos levam a um estilo cognitivo característico. Enquanto os pacientes histéricos e histriônicos tendem a supervalorizar os estados afetivos à custa de pensamento cuidadoso, o inverso é verdadeiro para as pessoas obsessivo-compulsivas. Da mesma forma que o Sr. Spock de Jornada nas Estrelas, os indivíduos obsessivo-compulsivos buscam ser inteiramente racionais e lógicos em tudo o que fazem. Eles temem qualquer situação de emoção descontrolada, e sua tendência mecanicista de ser totalmente sem afeto pode levar aqueles que estão à sua volta a não dar atenção a eles. Além disso, seu pensamento é lógico dentro de certos parâmetros limitados. Seus padrões de pensamento podem ser caracterizados como rígidos e dogmáticos. Dinamicamente, essas qualidades podem ser compreendidas como compensações da dúvida e ambivalência subjacentes que inundam a pessoa obsessivo-compulsiva.

Em contraste com o estilo cognitivo do histérico, o do indivíduo obsessivo-compulsivo envolve a atenção cuidadosa ao detalhe, mas uma quase completa falta de espontaneidade ou flexibilidade, com intuições impressionistas sendo automaticamente rejeitadas como sendo ‘ilógicas’. As pessoas obsessivo-compulsivas gastam uma extraordinária energia para manter seu rígido estilo cognitivo e de atenção, de forma que absolutamente nada que elas fazem é sem esforço. Um conjunto de crenças mal adaptadas persegue a pessoa com TPOC. Entre elas as seguintes: ‘É importante fazer um trabalho perfeito em  tudo’; ‘qualquer falha ou defeito no desempenho pode levar a uma catástrofe’; ‘as pessoas devem fazer as coisas do meu jeito’; ‘os detalhes são extremamente importantes’. Estar de férias, ou mesmo relaxar, geralmente não provoca nenhum encantamento na pessoa verdadeiramente obsessivo-compulsiva. Em um estudo de revisão envolvendo 100 médicos abertamente declarados obsessivo-compulsivos, apenas 11% tiravam férias exclusivamente pelas férias e apenas 10% se afastavam regularmente do trabalho para relaxar. Embora muitos desses indivíduos sejam grandes realizadores, alguns acham que seu estilo de caráter prejudica sua capacidade de ter sucesso no trabalho. As pessoas obsessivo-compulsivas podem ruminar por um tempo indefinido a respeito de pequenas falhas, exasperando aqueles em torno delas. Com frequência elas se prendem a detalhes e perdem o rumo do principal objetivo da tarefa em questão. A indecisão pode estar dinamicamente relacionada com sentimentos profundos de insegurança. Elas podem sentir que o risco de fazer um erro é tão grande que pode impedir uma decisão definitiva para um lado ou para outro. De forma semelhante, sua preocupação de que o resultado final de um projeto possa estar menos do que perfeito pode contribuir para a indecisão. Muitas pessoas obsessivo-compulsivas são extraordinariamente articuladas verbalmente, mas encontram obstáculos psicológicos maiores devido à preocupação de que o resultado final possa não ser perfeito.

A qualidade de ‘ser guiado’ inerente às atitudes da pessoa obsessivo-compulsiva foi bem descrita por Shapiro (1965) como tendo “a aparência de ser pressionada ou motivada por alguém além do interesse da própria pessoa em ação. Ela não parece tão entusiasmada. Seu interesse genuíno na atividade, em outras palavras, não parece ser responsável pela intensidade com a qual ela a realiza’. Esses pacientes são sempre guiados por seu próprio supervisor interno, que emite comandos sobre o que eles ‘devem’ ou ‘deveriam’ fazer. Em termos dinâmicos, eles têm pouca autonomia das injunções de seu próprio superego. Eles se comportam dessa forma porque precisam, independentemente de como seu comportamento possa refletir sobre os outros.

O superego hipertrofiado (superdesenvolvido) do paciente obsessivo-compulsivo é incansável nas suas exigências de perfeição. Quando as exigências não são satisfeitas por um longo período de tempo, pode ocorrer depressão. Esse elo dinâmico entre o caráter obsessivo-compulsivo e a depressão foi observado pelos clínicos por muitos anos. As pessoas obsessivo-compulsivas podem apresentar risco particularmente alto de depressão na meia-idade, quando os sonhos idealizados da juventude são despedaçados pela realidade do tempo que se escoa com o avanço da idade. Esses pacientes podem se tornar suicidas nesse momento de seu ciclo vital e necessitar de hospitalização apesar da  longa história de funcionamento razoavelmente bom numa situação de trabalho.

A complexa estrutura de caráter do paciente com TPOC pode ser resumida como envolvendo um sentido público do self e um sentido inconsciente do self. Cada um desses, tem uma dimensão que é mais aplicável à relação com superiores e outra ligada a relacionamentos com subordinados. Por exemplo, o sentido público do self na relação com superiores é o de um trabalho responsável e consciencioso, sério, atencioso, socialmente adequado em todas as situações e previsível. O sentido público do self em relação a subordinados é o de um mentor zeloso ou que faz críticas construtivas e dá um feedback valioso para aqueles que irão escutá-lo. Infelizmente, tal sentido público do self vivenciado subjetivamente não é sempre o que é percebido pelos outros. As reações dos outros, de fato,  dão origem a um sentido público do self que é totalmente consciente, mas amplamente oculto dos outros. Pacientes com TPOC frequentemente têm a sensação de não serem estimados e, consequentemente, se sentem magoados e com raiva. A falta de aprovação os leva a ser torturados pela insegurança . Essa insegurança deve ser resguardada daqueles em posições superiores, pois os indivíduos  com esse transtorno  temem a humilhação e a vergonha associadas à exposição desse lado inseguro. Eles estão com frequência convencidos de que os outros os irão considerar fracos e lamurientos. Paralelamente a esse aspecto do sentido privado do self, existe uma total convicção de superioridade moral em relação àqueles que estão em posições subordinadas. Pelo fato de os pacientes com TPOC se defenderem tanto contra seu próprio sadismo e agressão, eles não querem parecer desdenhosos. Eles tentam mascarar esse aspecto do sentido privado do self para evitar parecer pretenciosos, pomposos ou excessivamente críticos. Eles podem sentir-se orgulhosos de quão atenciosos e contidos eles são em relação àqueles ‘abaixo deles’.

As duas dimensões do sentido inconsciente do self podem ser resumidas como sendo a de um masoquista servil em relação aos seus superiores e a de um sádico controlador em relação aos subordinados. O inconsciente sádico de espírito mesquinho que deseja infligir dor àqueles que não se submetem a seu controle é inteiramente inaceitável para os pacientes com personalidade obsessivo-compulsiva e deve consequentemente ser reprimido. Fazer de outra forma seria comprometer seus altos padrões morais. Nas relações com figuras de autoridade, por outro lado, esses pacientes temem a humilhação por sua submissão e desejo de ser amados e, então,  de forma masoquista, se submetem a seus próprios padrões morais excessivamente severos e torturam a si próprios por não corresponder a essas expectativas. Essa tortura de si próprio poupa do que temem, ou seja, a humilhação controladora, dominadora e sádica por parte dos outros. A mensagem do inconsciente dada aos superiores é: “não há necessidade de você me criticar e atacar, pois, como você vê, já estou me atormentando de forma impiedosa”.

Fonte: Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. Gabard, Glen O. – 4ª edição, SP, 2006 (p. 426-428).

Considerações psicoterapêuticas (desisti de postar um texto sobre aspectos psicoterápicos para não incentivar a autoanálise por pessoas não preparadas para tal, como também para não fornecer subsídio para estratégias de resistências).

 

TPOC (por Gabard) – Compreensão psicodinâmica

“As primeiras contribuições psicanalíticas associavam certos traços de caráter – particularmente obstinação, parcimônia e ordem – à fase anal do desenvolvimento psicossexual. Os pacientes com esses padrões de personalidade eram considerados como tendo regredido da ansiedade de castração associada à fase edípica do desenvolvimento para o período anal relativamente seguro. Conduzidos por um superego punitivo, eles presumivelmente empregam operações defensivas características do ego, incluindo isolamento afetivo, intelectualização, formação reativa, anulação e deslocamento. Sua ordem obsessiva, por exemplo, foi definida como formação reativa contra os desejos subjacentes de se envolver com a sujeira anal e seus derivativos. A dificuldade considerável  que a pessoa com personalidade obsessivo-compulsiva tem de expressar agressão estava relacionada a lutas precoces de poder com figuras maternas em torno do treinamento de hábitos de higiene. A teimosia do indivíduo obsessivo poderia também ser considerada como uma consequência dessas mesmas lutas. Contribuições mais recentes foram além das vicissitudes da fase anal para enfocar os elementos interpessoais, a autoestima, o manejo da raiva e da dependência, o estilo cognitivo e os problemas de fazer um balanceamento entre trabalho e relações emocionais. Indivíduos com TPOC  possuem uma boa dose de dúvida. Quando crianças, eles não se sentiram suficientemente valorizados ou amados por seus. Em alguns casos, essa percepção pode ter relação com a frieza ou a distância das figuras parentais, enquanto em outros a criança pode simplesmente ter necessitado de mais reasseguramento e afeto do que a criança comum para ter sentido de aprovação por parte dos pais. O tratamento psicodinâmico desses pacientes revela fortes anseios não-satisfeitos de dependência, e uma reserva de raiva dirigida aos pais por esses não terem estado mais disponíveis emocionalmente. Pelo fato de os pacientes obsessivo-compulsivos acharem tanto a raiva  quanto a dependência inaceitáveis, eles se defendem contra esses sentimentos com defesa como formação reativa e isolamento afetivo. Em um esforço contradependente para negar qualquer dependência de outra pessoa, muitos indivíduos obsessivos-compulsivos fazem qualquer coisa para demonstrar sua independência e seu “austero individualismo”. De forma semelhante, elas anseiam pelo completo controle sobre toda a raiva e podem até mesmo fazer deferências e serem obsequiosos para evitar qualquer impressão de que possuem sentimentos de raiva. Relacionamento íntimos são um problema significativo para os pacientes obsessivos-compulsivos. A intimidade levanta a possibilidade de eles serem sobrecarregados por desejos poderosos de serem cuidados, com o concomitante potencial de  frustração desses sdesejos, resultando em sentimentos de raiva e ressentimento e em um desejo de vingança. Os sentimentos inerentes às relações íntimas são ameaçadores por terem o potencial de ficar “fora de controle”, um dos medos fundamentais da pessoa obsessivo-compulsiva. Os outros significativos com frequência queixam-se de que as pessoas amadas obsessivo-compulsivas são muito controladoras. Paralisações e impasses com frequência ocorrem nessas relações, pelo fato de as pessoas obsessivo-compulsivas recusarem-se a reconhecer que qualquer outra pessoa pode ter uma forma melhor de fazer as coisas. Tal necessidade de controlar os outros, frequentemente tem origem numa preocupação fundamental de que as fontes de conforto do ambiente são altamente tênues e podem desaparecer a qualquer momento. Em alguma parte da pessoa obsessivo-compulsiva existe uma criança que não se sente amada. A baixa autoestima associada a essa sensação infantil de não ser valorizada leva com frequência a uma suposição de que os outros iriam preferir não conviver com pessoas obsessivo-compulsivas. O alto nível de agressão e os intensos desejos de destruição espreitando no inconsciente da pessoa obsessivo-compulsivas podem também contribuir para esse medo de perder os outros.  Os pacientes com frequência temem que sua destrutividade afaste os outros ou que leve à contra-agressão, uma projeção de sua própria raiva.” (Continua) Fonte: Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. Gabard, Glen O. – 4ª edição, SP, 2006 (p. 425-427).

TPOC (por Gabard)

Em cumprimento à promessa feita em abril passado, começo a postar mais informações sobre TPOC ou Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsiva. Em respeito à minha fonte, Glen O Gabard (2006), mantenho o texto na íntegra (apenas omitindo trechos que referenciam capítulos anteriores) e o transcrevo sem alterações. Para não ficar um post extenso, vou dividir o texto em subtítulos e postar um a cada semana.

“O transtorno da personalidade obsessivo-compulsivo é um transtorno comum. (…) Entretanto, ele é com frequência confundido com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC.

A distinção entre TOC (ou neurose obsessivo-compulsiva) e transtorno de personalidade obsessivo compulsiva (TPOC) está baseada na diferença entre sintomas e traços de caráter persistentes. O paciente com TOC é atormentado por pensamentos desagradáveis e recorrentes e é levado a realizar rituais no seu comportamento. Essas manifestações sintomáticas são geralmente ego-distônicas, pois o paciente as reconhece como problemas e comumente quer se livrar delas. Em contrate, os traços que constituem o diagnóstico de transtorno da personalidade obsessivo-compulsivo do DSM-IV (Tabela 19.1) são padrões de comportamento que duram a vida toda e que podem ser ego-sintônicos. Esses traços não provocam necessariamente estresse nos próprios pacientes e podem até mesmo ser considerados altamente adaptativos. De fato, os estudos de médicos sugerem que certas características obsessivo-compulsivas contribuem de forma significativa para o sucesso de um médico. A devoção constante ao trabalho, típica das pessoas obsessivo-compulsivas, também leva a um grande sucesso em outras profissões, além da medicina, nas quais é essencial a atenção ao detalhe. Entretanto, o sucesso na esfera do trabalho com frequência tem um alto preço para elas. As pessoas significativas para elas frequentemente acham difícil viver com elas e frequentemente as estimulam a procurar um psiquiatra ou psicólogo.

Embora as distinções entre TOC e TPOC no DSM IV-TR sejam claras e úteis, existe alguma controvérsia com respeito à extensão da sobreposição entre essas duas entidades diagnósticas. Os sintomas de natureza obsessivo-compulsiva também foram relatados como ocorrências transitórias durante o tratamento psicanalítico de pacientes com TOC. Entretanto, estudos empíricos indicam que uma ampla gama de transtornos da personalidade podem ocorrer em pacientes com TOC. Em um estudo, menos da metade dos pacientes com TOC preencheram os critérios de TPOC. De fato, o diagnóstico caracterológico mais comum nessa amostra era o de um transtorno da personalidade misto com padrões  esquivos, dependentes e passivo-agressivos. Num estudo (Baer et al., 1990) que avaliou 96 pacientes com TOC, apenas 6% tinham um diagnóstico de transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva no Eixo II. (…)

O próximo post vai tratar da compreensão psicodinâmica do TPOC

Fonte: Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. Gabard, Glen O. – 4ª edição, SP, 2006 (p. 424).

Psicoterapia online no Brasil ainda é inviável?

A psicoterapia online é prática ainda vetada no Brasil, sob alegação do Conselho Federal de Psicologia (CFP) de que ainda faltam pesquisas e estudos científicos que comprovem a efetividade desse serviço. Vale registrar que essa modalidade de atendimento já é permitida nos EUA e em países da Europa. No meu ponto de vista, o que falta no Brasil não é comprovação da eficácia da psicoterapia online, mas mecanismos mais confiáveis de punição para os maus profissionais que abusassem da permissão para realizar esse serviço. Também considero insatisfatória a atuação do CFP como mecanismo regulador da prática da psicologia no Brasil. A exemplo disso o fato de que até hoje a cartilha de credenciamento contém informações de uma resolução antiga, de 2005,  já revogada por outra de 2012. Se não conseguem sequer atualizar algo tão simples, como confiar que a autarquia possa acompanhar com eficiência as transformações sociais e a qualidade dos serviços de psicologia? E essa crítica, creiam-me, tem mais um caráter de alerta do que de oposição gratuita ao CFP.  Outro fator que talvez inviabilize esse serviço no momento:  a impunidade generalizada que assola nosso país, em todos os setores. A fraca noção de moralidade e a ampla sensação de impunidade põe, realmente, em situação de vulnerabilidade possíveis pacientes de maus terapeutas que desejem se esconder na cortina do anonimato e da distância para fazer um trabalho nocivo, em vez de ajudar. Bom, críticas a parte, ao estudar sobre isso, fui em busca de informações sobre a qualidade dos serviços de internet no Brasil e me deparei com os fatos que se seguem:

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) produz relatórios mensais sobre a qualidade dos serviços das empresas de telefonia (móvel e fixa) no Brasil, mas não faz considerações sobre se é ruim ou boa, se melhorou ou piorou; apenas apresenta os dados na internet e distribui aos veículos de comunicação. O relatório de dezembro de 2013 é o mais recente neste momento (junho de 2014), e registra qualidade satisfatória para os serviços de banda larga no DF e na maioria dos Estados, excetuando-se o Maranhão, Mato Grosso, Pernambuco e a Bahia, em relação à banda larga, o tipo de conexão recomendada para atendimentos psicoterapêuticos online. Sem a avaliação crítica da Anatel, buscou-se conseguir alguma informação que respondesse à pergunta, mas a resposta não foi encontrada. No entanto, uma avaliação técnica mais apurada, o que se afasta dos objetivos deste estudo, pode ser obtida junto à União Internacional de Telecomunicaçães (UIT), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), que produz estudo anual sobre acesso e utilização das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) em todo o mundo; aqui no Brasil o documento recebe da Anatel o nome de “Medindo a Sociedade de Informação”. O relatório de 2011 mostra ser crescente o acesso da população às Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) em todo o mundo, “impulsionada por uma queda constante nos preços dos serviços de telefonia e de internet banda larga” (UIT, 2011). Àquela época, o Brasil estava na 64ª posição do ranking, logo abaixo da Bósnia-Herzegovina. A República da Coreia era, então, a economia mais avançada do mundo em TICs, seguida pela Suécia, Islândia, Dinamarca e Finlândia (idem anterior). Mas a classificação é abrangente e vai além do acesso à internet.

PARA SABER MAIS:

UIT: Medindo a Sociedade de Informação

ANATEL: QUALIDADE DA BANDA LARGA