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Um sobrado abandonado?

“Furnarius rufus é o nome científico da ave popularmente conhecida como João-de-barro. O processo de construção da casa dessa peculiar ave é feito em conjunto pelo macho e pela fêmea, que usam como material principal o barro úmido, e também uma mistura de esterco misturado com palha. O casal faz centenas de viagens em busca da matéria prima. Em geral, essas casinhas tem cerca de 30cm de diâmetro, e sua parede tem 5cm de espessura, e para construí-la, o casal vai amassando o material e fazendo pequenas bolas com auxílio das patas e do bico. Um grande diferencial é que a porta da casa é feita do lado oposto a chuva e vento os especialista ainda não sabem como os pássaros têm essa noção.”

 

 

Foto: Carmel Gomes

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Respeito à crença religiosa do outro

Há muitos aspectos admiráveis em Singapura, um país asiático novo, mas que preserva tradições milenares dos povos asiáticos. Dentre as que mais me impressionam, cito a boa convivência entre as diferentes religiões. Coexistem em clima de paz e respeito mútuo budistas, induístas, taoístas, muçulmanos e cristãos. Obviamente que existem leis regulando essa relação social, entre elas a proibição para pregação em público e/ou perturbando a ordem pública e desrespeito a cultos religiosos. Vi o térreo de um bloco residencial transformado em templo muçulmano, mas para tanto, o espaço foi cercado por um tecido em forma de muro. Aquelas pregações em ônibus, metrô ou a céu aberto e aos berros, principalmente em rodoviárias ou outros espaços de grande circulação de pessoas, que ocorrem no Brasil são proibidos em Singapura. Tudo para que as pessoas se sintam respeitadas na sua escolha religiosa. É comum (como mostra imagem 1) as pessoas colocarem pratinhos com oferendas aos ancestrais ou a divindades nos corredores e nos alpendres dos prédios residenciais, do lado de fora dos apartamentos. Os vizinhos respeitam e cada um pode vivenciar a própria relação com Deus pelo caminho que lhe convier. Nos centros comerciais (vide foto 2) as pessoas expõem pequenos altares com oferendas. As religiões orientais têm a reencarnação como verdade; apesar disso, em Singapura, se um cristão católico ou evangélico discordar disso, ninguém irá lhe ameaçar para que mude o pensamento (os cristãos kardecistas também são reencarnacionistas e compartilham preceitos filosóficos muito semelhantes aos dos budistas). Esse respeito à escolha religiosa do outro reflete o grau de civilidade e talvez também de evolução espiritual de um povo. No Brasil, ao contrário disso, predomina uma quase selvageria: cada religião reivindicando para si o monopólio da aliança com Deus, como se Este fosse insignificante e pequeno para caber num só modelo filosófico-religioso.  Se alguém encontra uma oferenda aos ancestrais ou a divinades, destrói, chuta e chinga, dizendo que é “macumba”. É comum verem-se imagens de Nossa Senhora sendo quebradas e chutadas por fiéis de igrejas evangélicas, que se opõem à adoração da Mãe de Jesus como divindade, justificando isso com uma tosca interpretação de  suposto trecho do Evangelho. Não quero aqui argumentar contra o sentido dessa interpretação tendenciosa e equivocada, posto ser outro o foco do meu humilde texto. Mas não posso deixar de mencionar também as grotescas perseguições aos seguidores de religiões e cultos afros, às imagens de suas divindades e os rituais deles. Os equivocados autores de tais absurdos sequer param para avaliar o que há de ignorância e visão obtusa nesse desrespeito. Não atentam para o fato de que são meros repetidores de um ranço católico (mesmo no caso dos evangélicos) cuja a origem remonta ao período da escravidão, quando os negros trazidos da África era obrigados a negar suas crenças religiosas e abster-se de adorar as divindades dos cultos africanos,  perversamente associados a “coisas do demônio”. O caminho escolhido para reprimir a fé dos africanos e seus descendentes foi o da opressão, inclusive ao incutir medo endemonizando entidades e práticas africanas. O que chamam de sincretismo, ao meu ver, é na verdade o resultado da opressão imposta aos africanos em relação à religiosidade deles.  Um festival de absurdos até hoje repetidos na associação, por exemplo, da imagem de Iemanjá a “coisa do capeta”. Quanta ignorância! A atual legislação brasileira contra a intolerância religiosa não dá conta de conter a bestialidade de pseudos líderes religiosos e seus seguidores e ainda se vê, aqui no DF, para citar um exemplo concreto, gente quebrando ou incendiando estátuas representativas de orixás, na Praça dos Orixás,às margens do Lago Paranoá. Essa prática é crime desde 1997, de acordo com a Lei 9.459/97, que prevê cadeia  e multa para os crimes de discriminação ou preconceito religiosos. Apesar disso, e mesmo decorridos 11 anos de aprovação dessa lei, ainda são comuns abusos e desrespeito ao direito individual de vivenciar a fé e a religiosidade. Enxergo isso como uma clara demonstração de atraso cultural e intelectual. Em Singapura, quem desrespeita as leis pode ser condenado a pena de morte (em crimes graves, como tráfico de drogas), ser preso, pagar multa ou levar uma surra de  varas, castigo chamado de caning. Pixação e vandalismo, por exemplo, são punidos por caning. Nos anos 90, debochando das leis locais, o americano Michael Fay foi condenado a  levar seis varas de bambu nas costas por ter feito um grafite numa estação do metrô de Singapura. O governo local não achou graça na brincadeira; considerou como vandalismo (por ter sido feito sem autorização, claro): ele foi preso e punido.  Após intervenção do governo dos EUA, a pena foi reduzida: quatro varadas. Isso  lhe parece muito rigor? Para os singapurianos,  é ordem e tem o apoio popular. É também uma forma eficaz de combater a impunidade dos transgressores às leis. Num pais onde as leis realmente são cumpridas, todos podem vivenciar em paz suas práticas religiosas. Por essa e outras motivações, imagine  quanta gente iria apanhar de varas nas costas e na bunda se aqui fossem aplicadas leis vigentes em alguns países orientais? Será que não temos sido muito permissivos? Qual a medida do bom senso? Certamente não é o excesso de ‘tolerância” que temos no Brasil. Preconceitos racial, religioso ou étnico talvez ainda estejam sendo punidos com muita brandura e/ou imunidade por aqui.

Foto 1

fullsizeoutput_414Oferendas de alimentos e incenso (insensário vermelho) no corredor, em reverência aos ancestrais; Singapura, 2018.

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Pequeno oratório na fachada de lanchonete, com oferenda de alimentos, em reverência à divindade cultuada pela família dos comerciantes.

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Templo induísta em Singapura

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Templo budista

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Outro templo budista em Singapura.

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Menos direitos individuais e mais direitos coletivos

Singapura, localizada no sudoeste asiático, é um lugar singular, onde predominam a ordem e o progresso. Isso mesmo, o que está escrito na nossa bandeira como lema nacional é, na prática, o que existe de verdade em Singapura. Este pequeno país, uma cidade-estado menor que o Vaticano e mais nova que Brasília, tem um IDH ( Índice de Desenvolvimento Humano) muito elevado: 0,925 (dados da ONU de 2015). Resumidamente, o IDH é um referencial de progresso a longo prazo, obtido a partir da medição de três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde.

Em Singapura não se vê mendigos, gente comendo em lixeiras nem sujeira nas ruas. Os idosos são saudáveis: é até difícil adivinhar a idade deles! As crianças, educadas, respeitadas e respeitosas; e também protegidas. As delegacias são vazias; o transporte coletivo é excelente; é um lugar seguro: pode-se andar tranquilo nas ruas sem o medo de ser assaltada ou agredida de qualquer forma: a violência urbana é inexistente.

As pessoas trabalham muito, o tempo todo; o comércio, por exemplo, não para aos domingo ou feriados e funciona até no período noturno; respeito é palavra de ordem nesta cidade, construída na maior parte sobre aterros. Respeito às tradições, à religiosidade do outro, às mulheres, aos idosos, às leis, ao patrimônio público.

Água potável é comprada da Malásia, apesar disso, não falta no dia a dia. Por que não? Chega-se a outra característica fundamental de Singapura: os serviços públicos funcionam! São vistas obras de manutenção e reparos diariamente em vários pontos da cidade. Há câmeras de vigilâncias por toda parte, o que assegura o combate aos delitos e às transgressões. Ou seja: não há impunidade para com qualquer um que desrespeite as leis e as regras locais. É um governo considerado linha-dura. E no primeiro momento tem-se vontade de apelidar o lugar de cidade-do-não-pode. Há muitas restrições, sim.

Depois, avaliando melhor o contexto, conclui-se que é muito bom do jeito que é; e admirável! Porque progresso só é possível onde há ordem; e que esta não pode existir onde predomine a impunidade e onde não se cobre disciplina e respeito aos direitos coletivos. Em Singapura, há uma perfeita noção de coletividade e as pessoas não reclamam das regras ou da rigidez do Estado (criticada por alguns estrangeiros); ao contrário: concordam com o modus operandi rigoroso do governo porque sabem, percebem na prática, que viver de forma disciplinada faz as coisas funcionarem e assegura bem estar a todos. Aliás, disciplina é um traço cultural dos orientais sobre o qual nós, brasileiros, deveríamos aprender mais.

A principal queixa em relação a Singapura por parte de ocidentais e turistas apressados em criticar a cultura local é a de não haver respeito aos direitos individuais. A mim isso não parece ser uma verdade incontestável, e muito mais um discurso vazio de quem gosta de falácias. Entendo que ter boa educação, transporte coletivo de qualidade (o acesso de cadeirantes aos ônibus é uma coisa espetacular, é inclusão pra valer, não o faz-de-conta que temos no Brasil), segurança em todos os ambientes, boas escolas, respeito para com os idosos e com as mulheres, vida digna para todos, com pouca desigualdade social (não é comunismo, existem os ricos, sim, mas os não-ricos não são acintosamente excluídos, maltratados ou negligenciados nas necessidades básicas, como ocorre no Brasil) e segurança para ir e vir são aspectos muito pertinentes ao conceito de direito individual, e muito mais bem atendido do que em locais onde o excesso de liberdade individual provoca o caos (sabem a que lugar me refiro).

Entendo assim: o progresso passa pela ordem e não há ordem sem disciplina; o processo civilizatório visa, num sentido mais amplo, conduzir o ser à evolução. Sem evoluir, continuaremos a agir como primatas, nos orientando pelos instintos. Não estou menosprezando os seres primitivos, que fique claro, mas defendendo que cada espécie deve respeitar seu estágio evolutivo. Considerado a Teoria da Evolução, se não fizermos bom uso da razão, uma conquista dos seres de nossa espécie, estaremos atrapalhando a marcha natural do Universo ou desdenhando do propósito da Vida. A predominância dos interesses individuais sobre o bem coletivo é resultado de demandas primitivas, em que o ser se orienta mais pelo Princípio do Prazer, ignorando o Princípio do Dever, em termos psicanalíticos. Às crianças na primeira infância é permitido que hajam assim…

No Brasil, onde predomina a desordem e a falta de progresso, o contrário do nosso lema (mente quem diz que somos país em desenvolvimento; somos subdesenvolvidos mesmo), até membros do Poder Judiciário debocham das leis e da Justiça, institucionalizando a impunidade, o que leva à violência urbana a níveis inacreditáveis, a desigualdades e injustiças sociais elevadas e à muita violência urbana, entre outras mazelas. Enquanto isso, os direitos individuais dos transgressores, no entanto, são muito bem assegurados.

Um exemplo: são gastos milhões de reais, dinheiro que deveria ir para serviços públicos necessários ao coletivo, com o pagamento de Auxílio-reclusão, uma remuneração paga a dependentes dos presidiários. Ao invés de compensar o filho de um transgressor com dinheiro, o Estado brasileiro deveria desenvolver neles (no filho e no pai) a noção de dignidade e desejo de viver honradamente; e fazer das cadeias locais de correção de conduta e não escolas de bandidagem. É um remendo de estopa em tecido de seda porque aos legisladores e gestores públicos brasileiros não interessa o progresso do País e muito menos os direitos da minorias. Importa fingir que estão fazendo algo e assim justificar e manter os privilégios individuais deles. Com o tal auxílio, o Estado brasileiro se omite e incentiva o crime e o aumento da violência; falaciosamente em nome da defesa dos direitos individuais. Coisa de transgressor disfarçado, resumindo.

Não conheço pessoa de bem, proba e honrada, que vive sem transgressões às leis e trabalha honestamente, sem ferir o direito do outro, que defenda os tais “direitos individuais” em detrimento dos direitos da coletividade. Quem está sempre gritando por democracia e direitos humanos no Brasil atualmente são pessoas que respondem a processos na Justiça e desfrutam de inúmeros privilégios, na maioria pagos com dinheiro público. Será coincidência?!

Um País é um coletivo. Sem se respeitar isso, sem se priorizar interesses do Todo acima dos individuais não se tem progresso, desenvolvimento, não se pode ser uma democracia, mas ter-se-á  desordem urbana, uma anarquia, no sentido vulgar do termo. E é bom lembrar aos defensores dessa utopia que um regime anárquico só daria certo se as pessoas fossem igualmente evoluídas, condição inexistente na Terra no tempo atual. Então, pra concluir, quiçá nos tivéssemos no Brasil de hoje menos direitos individuais e mais respeito ao coletivo. Quem dera aprendêssemos a ser patriotas como os singapurianos.

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Vista aérea de Singapura, foto feita do alto da Roda Gigante (Singapore Flyer).