Castrati: para agradar a Deus ou ao diabo?

Você sabe o que era um castrati? Uso o verbo no passado porque suponho que essa monstruosidade tenha sido abolida. Castratis eram meninos castrados com o propósito específico de manterem a voz fina para cantar em corais de igrejas e nos palácios dos reis. As mulheres não tinham permissão para cantar nas igrejas, o que deixava o coral desfalcado de sopranos. O papa Sixtus V teria dado permissão para usar meninos castrados nos corais das igrejas da Península Ibérica através de uma Bula Papal, após ficar impressionado com a beleza do canto dos eunucos árabes (na Arábia os escravos encarregados de proteger o harém do sultão eram castrados para não haver envolvimento sexual com as mulheres do soberano; a prática era adotada também na China e na Índia). O representante máximo da “santa igreja”, supostamente um representante de Cristo, Aquele que pregava o amor e a igualdade entre as pessoas, que ensinou “ama a teu próximo como a ti mesmo” e “não faze ao outro aquilo que não gostaria que fizessem a ti” não tinha espírito cristão suficiente para se colocar no lugar dos castrados e opor-se a essa coisa hedionda. Em vez disso, admirou e adotou a prática na igreja comandada por ele! Esses falsos cristãos teriam realmente acreditado que Deus apreciaria o gesto? Que se regozijaria com a beleza dos meninos flagelados em nome d’Ele? Tortura em nome de Deus! Os meninos eram recrutados entre filhos de camponeses e artesãos ou em orfanatos. A castração era feita na infância, para manter o timbre de voz intacto (na adolescência, como se sabe, as mudanças hormonais provocam a mudança de voz). Alguns dos castratis ficavam famosos como cantores, mas eram “homens estragados” pela maldade humana. Alguns mantinham a ereção, mas não em todos os casos. A cirurgia de extração dos testículos, feita de modo rudimentar por barbeiros autorizados, eliminava a produção de testosterona, tendo como conseqüência, além da voz fina, os quadris largos, bumbum arredondado e ausência de pelos, além, claro, da ausência de desejo erótico por mulheres (salvo raras exceções).
Quer saber um pouco mais sobre essa prática monstruosa?
“Depois de removidos, os genitais eram submetidos a um tratamento para preservá-los em salmoura – como se fossem pepinos em conserva –, eram colocados numa vasilha e devolvidos ao dono, que precisava apresentá-los aos superiores no palácio, comprovando a castração. A vasilha com a genitália podia ser solicitada durante uma inspeção, ou sempre que o funcionário fosse promovido. Esta exigência gerou um mercado paralelo de genitais removidos. Em caso de perda ou furto – não era raro um eunuco roubar e destruir o “precioso” do rival, para impedir o avanço de sua carreira – era preciso substituí-lo, pedindo emprestado a outro eunuco ou recorrendo a cirurgiões inescrupulosos que coletavam genitais extirpados para alugá-los ou vendê-los a preços que podiam chegar a 50 taéis.” (Fonte: http://historia.abril.com.br/)
Um detalhe sobre o papa Sisto V: integrou os tribunais da Inquisição; papa de abril de 1585 a agosto de 1590. Devido à exagerada severidade, criou a imagem de cruel e despertou o ódio dos seus súditos. Compreendendo que o povo romano não faria uma estátua em sua memória, mandou erigir, ele mesmo, uma estátua de si e afixá-la no Capitólio, templo romano. O povo de Roma não demorou a demolir a estátua.
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Seres desprezíveis

Acabo de ver a imagem de um político desonesto na tela da TV, arrolado inúmeras vezes em processos de improbidade administrativa. Ele ria um riso cínico… que figura patética, que sensação desagradável ele inspira: um misto de desprezo e piedade! Sim, tenho piedade das almas dos agentes públicos que desviam recursos públicos para benefício pessoal. O preço que irão pagar será tão alto! Eles supõem que tudo fazem às escondidas, no entanto, há uma multidão de olhos a lhes espreitarem, vendo tudo, e ouvidos captando cada palavra emitida em sussurro ou às escondidas (de uma dimensão que eles não conseguem enxergar). Nada fica impune. Eles parecem sorrir debochando da Justiça, do espírito pacífico e, quiça, da ingenuidade das pessoas de bem às quais eles prejudicam – mesmo tendo recebido delas aval para representá-las e a confiança de que agiriam em prol da coletividade. São patéticas criaturas! E ignorantes! Se lessem História saberiam que nada há de criativo na corrupção, na desonestidade. O que fazem nada tem de novo; nem mesmo a virtude da inovação suas ações possuem.  Roubar verba pública é prática  tão antiga! Fazer alianças espúrias para prejudicar os contribuintes, desviar dinheiro público para os próprios bolsos…tudo isso é tão primitivo, tão indigno de seres supostamente racionais. Os animais não prejudicam seus pares em benefício de si próprios de modo traidor, escuso. A competição entre os bichos é declarada, briga pela sobrevivência, nunca pelo acúmulo de posses –  posses  que pertencem a outrem. Nenhuma riqueza amealhada a custo do prejuízo de outras pessoas é lícita. Legítima apenas é a posse de bens conquistada pelo próprio trabalho, braçal ou intelectual. De que adianta a uma pessoa desfilar pelas ruas de Brasília com carro luxuoso, do ano, brilhoso e confortável ao extremo, se o modo como conseguiu o dinheiro para tal aquisição é indigno? E teve como resultado prejuízo grave a outras pessoas, como deixar idosos sem remédios, crianças sem merenda escolar, hospitais sem atendimento, ponte ameaçando cair e matar pessoas, viadutos e pistas mal feitos… De que adianta morar em um bairro considerado nobre, cujo metro quadrado seja o mais caro do país ou do mundo, se ao se deitar à noite sua consciência acuse ser uma posse desonesta, fruto de propina ou qualquer forma de iniquidade? De que vale dinheiro sem paz e sem saúde? Serve para comprar bolsas, sapatos de luxo, haras, viajar para o exterior, mas sem paz isso não tem valor; sem saúde desaparece o prazer da conquista.

Ouvi alguém dizer dia desses que o elevado preço dos imóveis em Brasília é consequência da lavagem de dinheiro obtido com diversos tipos de falcatruas, por gente de todo o país e até estrangeiros. Faz todo sentido…

Ainda que o corrupto e desonesto suponha não se sentir acusado pela própria consciência, ainda que não tenha percepção consciente de que agiu de modo ilegal, imoral e pense não haver autoacusação,  no plano insconsciente há essa percepção COM CERTEZA. E a cobrança virá, fatal e inexoravelmente. E se manifestará silenciosamente, paulatinamente, em forma de sintomas, de alterações na saúde, física e psicoemocional. Todo o mal que cada um fizer  será cobrado. A impunidade é uma utopia humana, tanto quanto a supervalorização do lucro, do dinheiro fácil. Não há impunidade eterna; por força de um mecanismo divino instalado dentro de cada um, a consciência, que perdura além da morte. Pobre de ti, criatura insana, que se regozija das vantagens amealhadas à custa do bem e dos direitos alheios.

Acrescento uma reflexão: a fórmula tão desejada para se viver bem e construir uma sociedade feliz existe há tantos séculos: os dez mandamentos! Se todos os cumpríssemos, como a vida seria melhor! Quantos agentes públicos e empresários ignoram as proibições lá inscritas, entre elas as que eles ferem com maior frequencia: não usar o nome de Deus em vão, não roubar, não matar, não cobiçar as coisas alheias, não levantar falso testemunho (e por extensão, não mentir)…

TUDO É QUESTÃO DE TEMPO,  tempo numa concepção mais alargada, além do que alcança a limitada compreensão de pessoas involuídas.

Suponho não ser lá muito cristão sentir desprezo pelos outros; Cristo nos ensinou a amar; mas ele era Santo; eu não o sou! A minha compreensão sobre certas coisas me livra da raiva e do ódio, mas nesses casos o que sinto é desprezo. E piedade – embora essa em menor intensidade.

Por que herança maldita?

A seguir, mais referências históricas sobre a formação da política e talvez da dinâmica psicológica do brasileiro (do ponto de vista macro), também extraídas do livro “1808”, citado no post anterior:

A corte portuguesa no Brasil era entre 10 e 15 vezes mais gorda do que a máquina burocrática americana nessa época (1808). E todos dependiam do erário real ou esperavam do príncipe regente algum benefício em troca do ‘sacrifício’ da viagem. ‘Um enxame de aventureiros, necessitados e sem princípios, acompanhou a família real’, notou o historiador John Armitage. No Rio de Janeiro, a corte portuguesa estava organizada em seis grandes setores administrativos – chamados de repartições. Os responsáveis por essas repartições passariam para a história como símbolos de maracutaia e enriquecimento ilícito” (pág.76).

Outro trecho revelador do livro, que nos soa tão atual e não surpreende a quem conhece as “alianças” nefastas entre veículos de comunicação e representantes do poder:

“Para fugir à censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, era publicado em Londres. Seu fundador, o jornalista Hipólito José da Costa, nasceu no Rio Grande do Sul e deixou o Brasil quando tinha dezesseis anos. Formou-se em Coimbra e morou dois anos nos Estados Unidos. Voltou para Lisboa e foi preso em 1803 por integrar a maçonaria. Processado pela Inquisição, fugiu para a Inglaterra em 1805 onde criou o Correio três anos mais tarde. “Hipólito era um Englêsh que escreveu o historiador americano Roderick J Barman, referindo-se aos liberais que no Parlamento britânico defendiam os direitos individuais e a limitação dos poderes do rei. ‘Acreditava numa constituição equilibrada e justa, num Congresso forte, em liberdade de imprensa e religião, no respeito pelos direitos individuais.’ O mesmo Hipólito que defendia a liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, Dom João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado numero de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Segundo o historiador Barman, por esse acordo, negociado pelo embaixador português em Londres, Dom Domingos de Sousa Coutinho, a partir de 1812 Hipólito  passou a receber uma pensão anual em troca de críticas mais amenas ao governo deDom João, que era um leitor assíduo dos artigos e editoriais da publicação. ‘O público nunca tomou conhecimento desse acordo’, afirma o historiador. De qualquer modo, Hipólito mostrava-se simpático à Coroa portuguesa antes mesmo de negociar o subsídio. ‘Ele sempre tratou Dom João com profundo respeito, nunca questionando sua beneficência’, registrou Barman. O Correio Braziliense, que não apoiou a Independência brasileira, deixou de circular em dezembro de 1822. Hipólito foi nomeado pelo imperador Pedro I agente diplomático do Brasil em Londres, cargo que envolvia o pagamento de uma nova pensão pelos cofres públicos” (pág. 53).


Ainda hoje o jornal Correio Braziliense, do DF, recorre a essa, digamos assim, estratégia econômica, e manipula notícias quando lhe interessa não afetar os interesses do governo local. Não é diferente com a revista Veja e a Rede Globo – quem não se lembra do episódio da bolinha de papel na careca do Serra, durante a campanha eleitoral, um espetáculo de manipulação por parte da Globo, maculando ainda mais a já enlameada imagem do Jornal Nacional.  Não cito os demais veículos, mas nem por isso eles são isentos dessas práticas indecentes em nome do jornalismo. De acordo com Fernando Morais, autor do livro-reportagem Chatô, o rei do Brasil,  o criador do grupo Diários Associados, do qual faz parte o Correio Braziliense, maior jornal impresso da Capital, Assis Chateaubriand, recorreu a chantagens e artifícios condenáveis ao longo da construção do grupo e no exercício do que ele considerava “jornalismo”. Na verdade, o que ele fazia e muitos veículos praticam atualmente é corrupção.  O que os dois jornais têm em comum? Apenas o nome, do qual Chateubriand se apropriou, em 1960, quando inaugurou o seu, já que o de Hipólito havia saído de circulação em 1823, tendo existido por 15 anos: de 1808 a 1823.

Esses são os antecedentes psicológicos, sociais  e políticos da nossa gente. Essa é a herança moral que o Brasil herdou de Portugal.  São as raízes que explicam muito do comportamento dos brasileiros. A construção de uma nova realidade, de uma nova cultura é exercício contínuo e demorado, mas há que NÃO se perder as esperanças de um dia sermos um povo decente e de equilibrarmos o desenvolvimento intelectual ao moral e podermos viver em um país justo.

 

Fonte: GOMES, Laurentino. 1808 – Como Uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

 

 

A história de Portugal e as mazelas que o Brasil herdou

A História, ao retratar o passado, explica muito do presente e pode fornecer indicações para o futuro. Isso vale para o macro e o micro. Muito do fracasso moral e social do Brasil decorre de uma herança maldita. Entender o contexto sócio-histórico e filosófico do Brasil colonial e Brasil-império facilita a compreensão do Brasil atual, suas mazelas e virtudes, de modo especial no aspecto político e respectivas implicações sociais.

Veja na análise abaixo, extraída do livro “1808”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes, uma descrição do “caráter” de Portugal, que explica, em parte,  a decadência de um País, de uma cultura, de um povo. Perceba que o que é dito sobre o país se aplica também às pessoas.

“A riqueza de Portugal era resultado do dinheiro fácil, como os ganhos de herança, cassinos e loterias, que não exigem sacrifício, esforço de criatividade e inovação, nem investimento de longo prazo em educação e criação de leis e instituições duradouras. Numa época em que a Revolução Industrial britânica começava a redefinir as relações econômicas e o futuro das nações, os portugueses ainda estavam presos ao sistema extrativista e mercantilista, sobre o qual tinham construído sua efêmera prosperidade três séculos antes. Baseava-se na exploração pura e simples das colônias, sem que nelas fosse necessário investir em infra-estrutura, educação ou melhoria de qualquer espécie. ‘Era uma riqueza que não gerava riqueza’, escreveu a historiadora Lilia Schwarcz. ‘Portugal se contentava em sugar suas colônias de maneira bastante parasitária.’ Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico Raízes do Brasil, mostrou que no Brasil colônia se tinha aversão ao trabalho. Segundo ele, o objetivo da aventura extrativista era explorar rapidamente toda a riqueza disponível com o menor esforço e sem nenhum compromisso com o futuro: ‘O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho’ (pág.24).

Portugal é, ainda, o mais atrasado dos países  que integram a União Européia. Já estava atrasado, em comparação com outros países europeus, na época da dominação napoleônica que motivou a transferência da corte para o Brasil, em 1808. Os historiadores têm explicações demográfica e econômica para isso e outras de ordem política e religiosa, como exemplificado no trecho abaixo,  do mesmo livro:

“De todas as nações da Europa, Portugal continuaria sendo, no começo do século XIX, a mais católica, a mais conservadora e a mais avessa às idéias libertárias que produziam revoluções e transformações em outros países. A força da Igreja era enorme. Cerca de 300.000 portugueses – ou 10% da população total do país – pertenciam a ordens religiosas ou permaneciam de alguma forma dependentes das instituições monásticas. Só em Lisboa, uma cidade relativamente pequena, com 200.000 habitantes, havia 180 monastérios. Praticamente todos os edifícios mais vistosos do país eram igrejas ou conventos. Por três séculos, a Igreja havia mantido submissos o povo, seus nobres e reis. Por escrúpulos religiosos, a Ciência e a Medicina eram atrasadas ou praticamente desconhecidas. Dom José, herdeiro do trono e irmão mais velho do príncipe regente, Dom João, havia morrido de varíola porque sua mãe, Dona Maria I, tinha proibido os médicos de lhe aplicar vacina. O motivo? Religioso. A rainha achava que a decisão entre a vida e a morte estava nas mãos de Deus e que não cabia à Ciência interferir nesse processo. A vida social pautava-se pelas missas, procissões e outras cerimônias religiosas. O comportamento individual coletivo era determinado e vigiado pela Igreja Católica. Para impedir o contato entre homens e mulheres durante os serviços litúrgicos, em meados do século XVIII foram erguidas grades de madeira que dividiam o interior de todas as igrejas de Lisboa. Portugal foi o último país europeu a abolir os autos da Inquisição, nos quais pessoas que ousassem criticar ou se opor à doutrina da Igreja, incluindo infiéis, hereges, judeus, mouros, protestantes e mulheres suspeitas de feitiçaria, eram julgadas e condenadas à morte na fogueira. Até 1761, menos de meio século antes da transferência da corte para o Brasil, ainda havia execuções públicas desse tipo em Lisboa, que atraíam milhares de devotos e curiosos” pág.21).

Enquanto isso, em 1807, no resto da Europa fervilhavam idéias revolucionárias, inovadoras, de progresso, arte, criatividade e ideais de independência – dos países e das pessoas.  Portugal, como tudo que fica estacionado, foi atropelado pela força do tempo, da evolução, das mudanças inexoráveis e inevitáveis.

 

Fonte: GOMES, Laurentino. 1808 – Como Uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

 

Um argumento a favor da adoção de crianças

Conheci ontem o filho adotivo de um casal amigo. Impressionou-me a semelhança física da criança com o pai NÃO biológico: olhos idênticos, sorriso igual e cabelo idem. A alegria do menininho com a chegada do pai foi uma festa para o coração do segundo! Então,  pus-me a meditar sobre adoção. Já fiz muitas reportagens sobre isso, conheci várias histórias e diferentes argumentos sobre o tema – favoráveis e contra o ato de adotar. Aos que se opõem à idéia vou manter o silêncio respeitoso. Aos que pensam  diferente, tendo vivenciado ou não a experiência, minha admiração pela consciência ampliada. E uma proposta de reflexão, que talvez faça sentido também para quem não gosta da idéia de criar uma criança gerada por outras pessoas: NÓS, SERES HUMANOS, SOMOS TODOS ADOTADOS! Isso mesmo: todas as pessoas são filhas adotivas. Porque o Pai, único e verdadeiro, é sempre Deus. A diferença entre crianças nascidas de pais biológicos ou acolhidas em adoção formal (e informal) está apenas no fato de que alguns pais adotam a criança DIRETAMENTE de Deus e outras, indiretamente, isto é, precisam de outros como  progenitores biológicos. Nenhum filho é propriedade dos pais; eles têm vida própria e propósito de vida a ser cumprido. Cedo ou tarde todo filho e toda filha parte para a própria caminhada,  independentemente de ter pais biológicos ou não.  A mulher que gera a criança, com a participação de um homem, não é a dona do ser que gera, tampouco quem fecundou o óvulo, nem tem maternidade ou paternidade nem um milésimo de medida a mais do que uma pessoa que adota. A criança biológica herda dos pais biológicos as características físicas dos pai. Mas quem deseja isso como prioridade, quem coloca isso como necessidade a ser satisfeita e condição sine qua non move-se PELA VAIDADE. E tanto  vaidade quanto  egoísmo são características que absolutamente não se coadunam com maternidade e paternidade.  Quem tem essa preocupação não está verdadeiramente motivado pelo desejo de cuidar de uma criança, mas preocupado consigo mesmo. Isso me conduz a outro ponto de vista pessoal: para ser mãe não basta ter útero e deixar um espermatozóide entrar em ação! Mais: nem toda mulher, apesar da capacidade reprodutiva em estado de excelência, está apta para ser mãe. E isso vale também para os homens, claro. É muito fácil ser reprodutor e reprodutora, mas ser boa mãe e bom pai é desafio cumprido com sucesso por bem poucos. Diante  disso sou a favor de controle rigoroso por parte do Estado diante do desejo de homens e mulheres de serem pais e mães. Tal qual ocorre na China. Lá o objetivo do controle é a  população numerosa. Em qualquer lugar deveria ser a responsabilidade com o ato de dar vida a um ser.  Parir para depois maltratar ou largar à própria sorte, ou pior ainda, criar deixando inúmeros e irreparáveis danos psicológicos é criminoso. Um crime que certamente a Justiça Divina pune, mas defendo que ainda em Terra deveria ser vigiado. Então, voltando ao tema inicial, uma criança adotada nem por um segundo deve sentir-se diminuída; nem os pais adotivos devem considerar suas paternidades ou maternidades menos lícitas, menos autênticas. De uma forma ou de outra todos os pais são pais adotivos.

Cuidado com a fé cega

A base da fé deve ser a “veritas prima” (verdade primeira) e não o dogma. Do contrário, a quem serves? a Deus ou aos homens? A quem te interessa seguir e por quê? O que está por trás de tua fé cega? Questiona tuas crenças e avalia sempre o que é certo ou errado,o que é bom ou mal pelos ressultados que produz, levando em conta que o objetivo maior das religiões (formas de religar a criatura ao Criador) é sempre a salvação da alma, isto é, a evolução do espírito, que é eterno.  De que adianta ao um papa, bispo, diácono ou padre o poder que detém, às custas de enganosas filosofias e preceitos manipuladores, se em breve tempo o corpo dele perecerá inevitavelmente, como ocorrerrá aos demais homens? 

“Tesouros adquiridos pela mentira; vaidade passageira para os que procuram a morte (Provérbios 21,6).

“Mas, quando me pus a considerar todas as obras de minhas mãos e o trabalho ao qual me tinha dado para fazê-las, eis: tudo é vaidade e vento que passa; não há nada de proveitoso debaixo do sol.” Eclesiastes 2, 11.

A alma, imortal, se transformará em espírito errante se em vida corporificada tiver priorizado a vaidade e a hipocrisia. Alguém  protestará: “os dogmas são estabelecidos por ‘inspiração divina’, portanto expressam a vontade de Deus”. Eu perguntarei? Tens certeza disso? Acreditas tu que os líderes das igrejas humanas estão sempre ouvindo a voz de Deus e O obedecendo? E por que, então, autorizaram a “santa” inquisição e as Cruzadas? Por quais motivos mantém-se relutantes em aceitar as mudanças sociais e atualizar seus cânones? Por que demonizam o sexo, obra de Deus? Consegues imaginar que força de convencimento e poder  de propagação do Evangelho teria tido Paulo de Tarso se falasse a linguagem do século anterior a que vivia? Que direito têm as igrejas de ignorarem a marcha evolutiva da humanidade e atormentarem seus seguidores com diretrizes ultrapassadas, obsoletas e que os afastam da saúde e do bem-viver? Direito nenhum; motivações muitas, principalmente busca por segurança e manutenção do poder. Abre  teu olho, portanto, homem de fé  cega, e segue a Deus e ao Cristo somente. A ninguém mais entregues tua vida.

 

Escrevo essas coisas por causa do grande números de pessoas psicologicamente adoecidas em decorrência de supostos preceitos divinos apregoados por “falsos profetas”. Como é difícil restituir-lhes a saúde, a lucidez e o respeito à Vida e à Deus Verdadeiro. Falo dos falsos cristãos, tão hipocritas quantos os escribas e fariseus da época de Cristo.

Sobre o amor e o amar

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. (Carlos Drummond de Andrade)

Temer o amor é temer a vida e os que temem a vida já estão meio mortos. (Bertrand Russell)

Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la. (Carlos Drummond de Andrade)

É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado (Guimarães Rosa)

Ah! o amor … que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porque… (Carlos Drummond de Andrade)

O amor dói quando, sendo falso, nos embala com os sussurros da ilusão e nos aprisiona com as garras das projeções psicológicas. Há que se tomar cuidado com os poetas: eles estão quase sempre em sublimatio e querem nos manter nesse estado, braços dados com eles, no mundo das idéias, dos sonhos e da utopia. Com os pés fora do chão, somos tragados pelas ondas da fantasia. Perdemos tempo cultivando o falso amor e não percebemos quando o Amor Verdadeiro, aquele que nos acolhe nos mais íntimos e profundos anseios, aparece e nos oferece a felicidade. Este, concreto, real, presente, entregue a nós, cuidador e protetor, recebe nas mãos nosso coração e cuida dos nossos sentimentos como um guardião de jóia rara e valiosa; ou estátua de templo sagrado. Pés no chão e nem por isso sem o enlevo do amor, sorrimos e caminhamos com segurança e fé no futuro. O Amor Verdadeiro é irmão gêmeo da Verdade; inimigo incondicional da Mentira. O oposto do estado de sublimatio é o coaguatio, o estado exageradamente concreto, preso à Terra em sua materialidade. Quão triste seria a vida sem poesia! Então, que a poesia enriqueça e floreie nosso caminhar, sem contudo nos afastar do viver sensato, saudável e feliz. Amar não é permanecer nas nuvens; mesmo no amar há que se buscar o “caminho do meio”, dos budistas: nem tanto ao mar, nem tanto à terra OU, neste caso, nem tanto às nuvens, nem à terra.