Costumes medievais no serviço público brasileiro: herança maldita

“O Príncipe (Dom João VI), acompanhado por um Secretário de Estado, um camareiro e alguns oficiais de sua Casa, recebe todos os requerimentos que lhe são apresentados; escuta com atenção todas as queixas, todos os pedidos dos requerentes; consola uns, anima outros…. A vulgaridade das maneiras, a familiaridade da linguagem, a insistência de alguns, a prolixidade de outros, nada o enfada. Parece esquecer-se de que é senhor deles para se lembrar apenas de que é o seu pai”. O texto em aspas é de Henry L’Évêque, descrevendo o ritual do beija-mão, prática trazida da corte portuguesa para cá.

Um costume medieval, o beija-mão era o momento em que os habitantes do Brasil aproximavam-se do rei para expor seus problemas e pedir favores. Pelo sistema de governo dessa época (monarquia absoluta), essa era a única forma de expressão/representação da vontade dos súditos. Tudo estava submetido à vontade do rei, desde a concessão de um cargo público até a licença para estabelecer uma manufatura.

O sistema de governo mudou por aqui há muito tempo mas prevalece o costume das pessoas de esperarem favores, não mais do rei, mas do Estado, representado por presidentes, governadores, diretores, políticos com influência no governo, etc. Assim, contratam-se familiares e apadrinhados com altos salários, pessoas pleiteiam vaga no serviço público não para trabalhar, mas para terem um salário mensal… Esses costume somado à impunidade aplicada aos que não produzem resulta no atual estado de coisas no serviço público brasileiro: greves reivindicando direitos sem ter havido cumprimento dos deveres!!

E que me perdoem aqueles que rezam por essa cartilha, mas precisamos de reforma séria no nosso serviço público.

Em tempo: Obviamente essa modesta especulação sobre a ineficiência dos serviços públicos no nosso país não chega nem perto de todos os fatores envolvidos no processo.