Incoerência e outras dificuldades de relacionamentos

Quando alguém pensa ou sente algo, mas não expressa isso adequadamente, isto é, quando a forma de pensar ou os autênticos sentimentos não se refletem nas  ações da pessoa, diz-se que ocorre incoerência. O aprendizado dessa atitude ou reação pode dar-se por três caminhos: 

a)    Observação e imitação do ato de dissimular de alguém;

b)    Punição para expressão verdadeira de sentimentos;

c)     Recompensa para expressão não-verdadeira de sentimentos e pensamentos;

d)    Mecanismos inconscientes de defesa. 

Essa prática é fonte de grande sofrimento e desentendimento entre as pessoas. Exemplificando: no caso de uma pessoa sensível e generosa é doloroso para ela perceber que as pessoas consideram-na alheia à dor dos outros, excluindo-a de situações de ajuda coletiva. Outro exemplo: se uma pessoa  gosta de conversar e de estar sempre na companhia de outras, mas age rotineiramente de modo rude ou agressivo, sem se dar conta disso, irá afastar as pessoas e se sentirá muito isolada, sem se dar conta de que foi a causa do próprio isolamento. É necessário que essa incoerência entre pensamentos, sentimentos e ações, quase sempre inconsciente, seja mostrada à pessoa, se ela própria não estiver percebendo a dissonância entre seus atos e sua personalidade e seus anseios autênticos.   

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Depressão por fatores externos e resiliência

Algumas pessoas entram em processo depressivo após ser submetidas a situações de grande estresse. Outras, mesmo passando por situações idênticas resistem sem alterações duradouras no estado de humor. Sem entrar na análise profunda das diferentes causas da depressão, pode-se afirmar que uma pessoa submetida à situação de estresse (profissional ou emocional) e que tolera melhor as circunstâncias opressoras, vencendo a “crise” sem lesões severas é um indivíduo resiliente. Entre muitas conceituações para o termo, pode-se explicar a resiliência como sendo o equilíbrio entre tensão e habilidade de lutar além do aprendizado adquirido até o momento de se deparar  com graves obstáculos e sofrimentos. O indivíduo sem resiliência é como um ser de vidro, que se quebra ao ser submetido a pressões e situações estressantes. Em outra comparação, semelhante a uma bexiga de borracha, que suporta ser enchida de ar e após ser esvaziada volta à forma anterior, uma pessoa resiliente resiste a pressões sem “estourar”.  Dicas para aumentar a capacidade de resiliência*

 . Mentalizar seu projeto de vida, mesmo que não possa ser colocado em prática   imediatamente. “Focar” em um propósito específico reduz o sentimento de vitimização;. Aprender e adotar métodos práticos de relaxamento e meditação;

. Praticar esporte para aumentar o ânimo e a disposição física e mental; os exercícios   aumentam a produção de endorfinas e testosteronas que, consequentemente,    proporcionam sensação de bem-estar;

. Aproveitar parte do tempo para ampliar os conhecimentos, pois isso aumenta a   autoconfiança;

. Transformar-se em um otimista incurável, visualizando sempre um futuro bom;. Assumir riscos (ter coragem);

. Tornar-se um “sobrevivente” repleto de recursos no mercado profissional;. Separar bem quem você é e o que faz;

. Usar a criatividade para quebrar a rotina;

. Examinar e refletir sobre sua relação com o dinheiro;

. Permitir-se sentir dor, recuar e, às vezes, enfraquecer, para em seguida retornar ao    estado original.   

* Dicas do Dr. Alberto D’Auria, ginecologista e superintendente de Saúde Ocupacional do     Hospital e Maternidade São Luiz.  

Livro-poema de Jorge Ponciano: crônicas de uma “vida gestáltica”

“São sete horas da noite. Sentado em minha cadeira, espero, como sempre, com uma ligeira ansiedade, a chegada do primeiro cliente. Já se vão 35 anos desde que conclui meu doutorado sobre “grupos”, e mesmo assim, nunca estou completamente despreocupado, porque nada no grupo desta semana será semelhante ao grupo da semana passada.” É com esta simplicidade que Jorge Ponciano inicia um dos capítulos do livro Ruídos: contato, luz, liberdade – um jeito gestáltico de falar do espaço e do tempo vividos. A obra reúne crônicas, relatos, pequenas histórias repletas de reflexões, pensamentos e vivências orientadas ora pela sabedoria de quem é genuinamente gestaltista.      

Em outro capítulo, Ponciano descreve em detalhes uma sessão de gestalt-terapia em grupo; obviamente sem identificar os participantes nem trair o segredo profissional. A descrição é de grande valor tanto para os profissionais de psicologia quanto para pessoas que desejem ter uma idéia sobre “isso de fazer terapia em grupo”, no caso, sob a orientação gestáltica.      

Em outra historia, uma das inúmeras e deliciosas reminiscências contidas no livro, ele revela, com a mesma simplicidade sábia que permeia toda a obra, seus conflitos e dúvidas quanto à eutanásia, e conta o sofrimento vivido ao acompanhar o envelhecimento, adoecimento e morte do cãozinho de estimação. Desnudando suas incertezas, encerra o texto admitindo que continua sem saber se tomou a decisão certa quanto a mandar sacrificar ou não o “grande amigo”. E admitindo-se aberto –  como sempre esteve – a mais um aprendizado, pergunta aos leitores: “O que você acha? Você o sacrificaria?”     

No mesmo texto, o autor nos convida a penar sobre a velhice e afirma: “a velhice não deveria ser imobilizante. Imobilizante é viver sem ideal, sem uma crença, sem esperança, sem estar enamorado de si mesmo, com medo de não ser aceito, transformando os pensamentos dos outros em regras de autocontrole, com medo dos riscos de aceitação, do amor, da realidade; enfim, de colocar  a mão na massa na construção real do hoje, no aqui e agora de cada dia.”       Ruídos: contato, luz, liberdade é, além de tudo o que já foi dito, um poema! Poesia dedicada à Natureza, aquela que é verde, amarela, vermelha, azul, a de flores, ventos, montanhas, bichos e águas… e à natureza masculina&feminina, yin&yang, animus&anima que há dentro de cada um de nós, homens ou mulheres – ou melhor: simultaneamente homem e mulher. 

Livro: RUÍDOS: CONTATO, LUZ, LIBERDADEum jeito gestáltico de falar do espaço e do tempo vividos.Autor: Jorge Ponciano RibeiroEditora: Summus Editorial; São Paulo-SP, 2006 

Postado por Carmelita Rodrigues, em 14.02.08

Por que os homens traem?

“É típico de um homem moderno começar um casamento com uma imagem anímica projetada na esposa; ele somente começa a conhecer a esposa como mulher depois que a projeção começa a se esvanecer. Ele descobre que a ama  como mulher, que a valoriza e a respeita, ele sente a beleza de estar comprometido com ela e saber que ela está comprometida com ele. Um dia, porém, ele encontra outra mulher que capta a projeção da anima dele, e ele não conhece nada sobre anima e menos ainda sobre projeção; sabe apenas que essa “outra mulher” parece ser a essência da perfeição; uma luz dourada parece envolvê-la, e a vida torna-se excitante e ganha significado, sempre que ele está em sua companhia.”Nesse trecho, do livro WE – A Chave da Psicologia do Amor Romântico, Robert A. Johnson recorre à teoria junguiana para explicar a infidelidade masculina. Obviamente, grande parte do que é exposto aplica-se também às mulheres, mudando as projeções (na mulher, o objeto de projeção é o animus, a contraparte masculina que há nas mulheres). Aspectos culturais também promovem uma ou outra diferença psicológica e/ou comportamental na mulher, em comparação com o homem, mas o “caminho” é semelhante. À parte os casos de complexo materno, um homem enamora-se de uma mulher e por ela se sente atraído quando enxerga nela aspectos de sua personalidade feminina, de sua anima. Equivocadamente, ele tenta encontrar fora de si o que, na realidade, está dentro dele e que exige ser reconhecido, integrado. Sem a percepção consciente disso, alguns homens levam a vida inteira trocando de parceiras nessa busca, guiados por uma necessidade inconsciente.Um tipo de moralidade diz a ele que é preciso buscar  a paixão a qualquer custo; que ele tem o direito de se apaixonar e que a paixão é tudo que importa na vida. Cedo ou tarde a paixão devotada a uma mulher se esvai, migra para outra, que passa a ser o novo objeto de projeção. Se o compromisso dele for apenas de seguir a paixão, nunca conseguirá ser verdadeiramente fiel a alguém. Uma parte de si dirá ao homem que ele tem o direito de encontrar e estar com sua anima. Então,  ele vai buscar no corpo  e no jeito de ser da “outra mulher”, na qual ele julga ter encontrado sua “metade”, essa emoção que ele precisa sentir: a paixão.Até compreender que a busca da anima deve ser interna, que essa contraparte dele é uma entidade interna, uma sub-personalidade, esse homem vai orientar-se pela necessidade de se sentir “apaixonado”. O sentir-se “apaixonado” é a sensação ilusória de ter encontrado a parte complementar. Agindo assim, “acreditamos que temos o direito de seguir nossas projeções onde quer que elas nos levem e de buscar a paixão pela paixão, sem levar em conta os relacionamentos que se rompem, sem levar em consideração as pessoas a quem magoamos. Inconscientemente elegemos a paixão nosso bem mais elevado, a nossa principal meta na vida, e todos os demais valores são sacrificados pelo bem dela.” (Johnson, op.cit.pág. 142). É o que ocorre quando as pessoas se unem apenas pela paixão, por vezes motivadas por projeções de ambas as partes: o homem escolhe aquela mulher projetando nela sua anima; a mulher um homem projetando nele seu animus. São relações em que o compromisso é com a paixão. Mas outra dimensão do homem mobilizado pela paixão, outro tipo de moralidade que há nele, dirá que é errado trair a esposa e enveredar por um caminho que arruinará o casamento e toda uma vida formatada em torno desse relacionamento importante. Ele vai racionalizar que é preciso cuidar do casamento, do amor pela esposa, da relação que o alimenta, dá-lhe segurança e estabilidade.Entra em ação o conflito entre forças arquetípicas e a moralidade de compromisso, uma moralidade por vezes considerada anacrônica, fora de moda. Mas “por trás de cada ideal de moralidade existe algo que merece ser examinado: um conjunto de valores humanos. Esse valores não são fabricados arbitrariamente a partir do nada, eles vêm de algum lugar das profundezas da psique humana e atendem a necessidades humanas genuínas. Cedo demais a moralidade torna-se um sistema social superficial, um fóssil calcificado a fixar regras arbitrárias, inteiramente desligado das verdadeiras necessidades das pessoas. Mas podemos olhar além da artificialidade e descobrir quais as reais necessidades que esse sistema atende” (op. cit.).As relações amorosas se deterioram quando, erroneamente, supomos que a paixão é o ingrediente essencial para manter uma relação. Na verdade, à luz da teoria junguiana, Johnson explica que os ingredientes essenciais para um relacionamento são afeto e compromisso. Johnson afirma, ainda, que a lealdade e o compromisso são também arquétipos da estrutura humana, tão necessários quanto o alimento e o ar. A moralidade de compromisso decorre dessa necessidade por relacionamentos estáveis, sinceros e duradouros. Para evitar o desmoronamento de relações significativas é necessário, então, parar de fazer projeções de anima e animus nos cônjuges, viver a relação com as pessoas enxergando-as e amando-as como elas são na realidade. A contraparte (anima, no caso do home; anumus, no caso das mulheres) deve ser buscada interiormente. E deve ser devidamente integrada. Como isso ocorre? O caminho mais seguro e mais fácil é recorrendo à psicoterapia. Embora, algumas pessoas mais treinadas em processos de auto-ajuda possam, também, obter grandes avanços a  partir de leituras, algumas já recomendadas neste blog, e da prática de imaginação ativa.

Livro: WE – A Chave da Psicologia do Amor Romântico, Autor: Robert A. JohnsonEditora: Mercuryo, São Paulo, 1987.

Postado por Carmelita Rodrigues, em 13.02.08

Nossas dificuldades no amor

Por que os relacionamentos homem-mulher freqüentemente fracassam ou são permeados de muito sofrimento, frustrações e até crimes contra a vida? Uma resposta possível entre tantas é: por causa das expectativas, das exigências impossíveis de serem atendidas. Para nós ocidentais a experiência do amor romântico é um complexo conjunto psicológico, uma combinação de ideais, crenças, valores, atitudes, anseios e expectativas, por vezes contraditórias, existentes em nosso inconsciente e que se manifestam em forma de emoções, sensações e comportamentos. Mesmo sem nos darmos conta, por ser fenômeno resultante de forças inconscientes, predeterminamos como deve ser nosso relacionamento com o parceiro ou a parceira, o que devemos sentir e em que deve resultar a relação. Fazemos projeções inconscientes e com base nelas cobramos dos nossos parceiros a realização de nossos anseios mais profundos.

Quase sempre essas expectativas levam à elaboração de um “contrato” unilateral. O outro raramente concorda ou sequer está a par das cláusulas desse “instrumento”. Não que as partes ajam de má fé; como já foi dito, é algo inconsciente. E mesmo quando o compromisso é “assinado” pelas duas partes ocorrem desentendimentos.

Homem e mulher desenvolvem o lado sentimental de modo diferente; a experiência de envolvimento amoroso tem para as mulheres nuances sutis que os homens vivenciam de forma diversa devido a inúmeros fatores. Um forte impedimento para o amor romântico construtivo é a predominância de valores patriarcais, em detrimento dos aspectos femininos do ser humano. Em essência, homem e mulher tem o yin e o yang (masculino e feminino), são compostos por animus e anima em suas essências. E essas duas partes de cada um devem estar integradas. Caetano Veloso cantou: “ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino”. Não somente não fere, como faz dele um ser completo, melhor.

Orientados pelo anseio de completude e vivendo num mundo de dominação patriarcal em que a força e as virtudes do feminino foram subjugados, a maioria dos homens busca na mulher o seu lado feminino perdido, os valores femininos da vida e suas tentativas para vivenciá-los por meio da mulher. Igualmente influenciadas pela versão patriarcal da realidade, as mulheres buscam nos homens valores masculinos. Muitas gastam toda a vida alimentando sentimento de inferioridade em relação ao homem ou competindo com eles para se sentirem em pé de igualdade. Em que pode resultar o relacionamento entre um homem em conflito com sua anima, plenamente dominado pelo animus, e uma mulher igualmente distanciada de seu animus, tomada apenas pela anima?

Freqüentemente, nesses casos ou naqueles em que apenas uma das partes está sem a integração da sua dimensão complementar, há uma busca equivocada de plenitude no outro, na noção fantasiosa de que existe perdida por aí uma alma gêmea, uma banda de si que está desgarrada e, se for encontrada, irá completar o sentido da vida. Na verdade, essa parte oposta está dentro de cada um e a sensação de completude só ocorre quando acontece a aceitação e a integração do masculino com o feminino dentro de cada um de nós.

Há um princípio alquimista que diz: “só o que está separado pode ser devidamente unido.” Coisas e pessoas “misturadas” de forma confusa terão que ser desembaraçadas, separadas e identificadas antes de serem unidas em novo elemento. A separatio “dá ensejo à existência consciente; é a separação entre sujeito e objeto, entre o eu e o não-eu” (Edinger, 2005).

Esse é o objetivo maior da psicoterapia: separar conteúdos, sentimentos, valores confusos e todos os emaranhados do psiquismo, abrindo caminho rumo à individuação, à busca da totalidade do ser. Posteriormente, neste espaço, ampliaremos essa visão do homem integrado com seu lado feminino e da mulher com sua dimensão masculina num texto sobre o livro Parceiros Invisíveis, do escritor John A. Stanford.

LEIA TAMBÉM NOS DESENTENDIMENTOS AMOROSOS ESCOLHA ENTRE A ESPADA E A HARPA


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

. Edinger, Edward F. Anatomia da Psique: O Simbolismo Alquímico da Psicoterapia. São Paulo, Editora Cultrix, 2005.

. Johnson, Robert A. Imaginação Ativa (Inner Work): como trabalhar com sonhos, símbolos e fantasias. São Paulo, Editora Mercuryo, 2003.

. ________ We: A Chave da Psicologia do Amor Romântico. São Paulo, Editora Mercuryo,1989.

. Jung, C. Gustav. Psicologia e Religião. Petrópolis. (RJ), Ed. Vozes, 1984.

. ________ Memórias, sonhos e Reflexões. São Paulo, Ed. Nova Fronteira, 2005.

. Stein, Murray.Jung, o Mapa da Alma. São Paulo, Editora Cultrix, 2006.

USP desenvolve software para auxiliar no tratamento contra Aids

Tecnologia a serviço da saúde: o Grupo de Pesquisas em Bancos de Dados do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, juntamente com o Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde (PNDS/AIDS), desenvolveu um software que ajuda os médicos de todo o Brasil a saber quais drogas devem ser ministradas na formulação de coquetéis anti-HIV. O programa localiza as mutações genéticas do vírus e indica a quais medicamentos o vírus está resistente. Essas regras são conhecidas como o “algoritmo brasileiro”. O HIV é um vírus com alta taxa de mutação, o que facilita o surgimento de resistência ao coquetel de drogas ministrado aos portadores da doença. O teste e complexo e precisa ser feito de forma individualizada, a partir do seqüenciamento de dois genes do vírus. Cerca de 500 médicos foram capacitados para a análise dos resultados do teste e o PNDS/AIDS desenvolveu uma rede com 14 laboratórios em todo o País. Leia mais informaçõees sobre esse software na Agência USP de Notícias.