Religião é…

PARA SE PENSAR

Maurício Neubern*

Uma religião que ensina a intolerância não é uma religião.  É uma forma de cultivar a violência.

Uma religião que se diz dona da verdade , não é uma religião. É um caminho lamentável de cultivo da vaidade.

Uma religião que ensina a apontar os defeitos  alheios, não é uma religião. É uma forma moralista de controle social.

Uma religião que prega a violência anão é jamais uma religião. É uma maneira de manipulação a serviço de tiranos.

Uma religião que se interesse  pelo poder, não é uma religião. É um caminho certo para as sombras.

Uma religião que, enfim, que se propõe a massagear o ego não é uma religião. É um modo de se esquecer de Deus.

Quem busca uma religião não tem tempo para nada  disso. A única guerra santa que existe é entre nossa luz e nossa ignorância, travada no palco de nossa alma.

Para quem a busca, o único ensino que existe é o amor.  A única violência que existe é o desapego. O único poder que existe é a entrega. O único poder que existe não nos pertence. A única atitude que existe é a compaixão. E a única pessoa que existe é o Divino, que habita em todos os corações.

Fonte: PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE, Maurício S. Neubern. Ed. Diamante, Belo Horizonte, 2013, pág. 307.

*Maurício Neubern é Doutor em Psicologia (UnB/2003) e Professor  Adjunto do Departamento de Psicologia Clínica/Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília.

 

livro MN

Precisamos de médicos estrangeiros ou gestores públicos competentes?

O povo brasileiro precisa de médicos estrangeiros ou isso é apenas mais uma das estratégias do tipo “faz-de-conta-que estamos-fazendo-nossa-parte” do governo brasileiro? Quais os reais motivos de os nossos médicos não querem trabalhar no interior do país?  “Os médicos cansaram de levar calote de prefeitos porcaria”. É uma das afirmações corajosas do  deputado federal Luiz Mandetta (DEM/MS) em discussão sobre a proposta de contratação e entrada de médicos estrangeiros no Brasil para suprir falta de profissionais no interior do Brasil. Uma fala corajosa e lúcida que vale a pena ser ouvida.

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Quando o deficit de atenção é dos pais e não das crianças

No embalo das críticas ao DSM-V, que amentou o intervalo de idade para o aparecimento dos primeiros sintomas de TDAH de 7 para 12 anos, a matéria abaixo reflete o pensamento de muitos psicólogos e bons psiquiatras que atendem pais desesperados com os comportamentos desajustados dos filhos. Vela a pena ler.

“Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?

TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.

Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.

Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam oDiagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.

Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.

A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.

E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.

A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.

Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.

Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.”

Fonte:  Psycholoogy Today

Lançada a quinta versão do DSM-V

A quinta edição do DSM-V está lançada, mas as críticas são mais contundentes agora. A maior é a falta de comprovação científica para elaboração das categorias adotadas. O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH – National Institute of Mental Health) já havia anunciado que não continuaria a usar o DSM, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Saúde Mental, editado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), como referencial. Com a publicação oficial na nova versão,  o coordenador da edição anterior, o psiquiatra Allen Frances*, afirmou no blog dele que a a publicação do DSM-5 é um momento triste para a psiquiatria e um risco para os pacientes. “Minha recomendação para os médicos é simples: não use o DSM-5 – não há nada oficial sobre isso, nada de especialmente útil nele, e todos os códigos necessários para o reembolso já estão disponíveis gratuitamente na Internet ou no DSM-IV. Novos códigos entrarão em vigor em outubro de 2014 – e estes serão gratuito online. Gastar US $ 199 sobre o DSM-5, um elefante branco,não faz sentido.”

O psiquiatra também se dirige aos paciente e os aconselha a tomarem muito cuidado e se informarem: “ Diagnóstico psiquiátrico pode ser um ponto de partida na sua vida levando a um grande bem, se correto, ou a um grande estrago, se errado. Tome tanto cuidado em “comprar”/aceitar um diagnóstico quanto você tem ao comprar uma casa ou um carro. Torne-se consumidores plenamente informados, experientes o suficiente para desafiar os médicos que fazem chamadas de diagnóstico rápido ou questionável. Nunca aceite um diagnóstico ou tomar comprimidos que são prescritos após uma breve avaliação.”

Outra crítica importante é contra o alargamento dos espectros, dando margem para o enquadramento de número maior de pessoas na condição de “doentes”, e consequentemente aumentando o risco de consumo desnecessário de medicamentos.

Leia MAIS CRÍTICAS

*Allen Frances é Professor Emérito da Universidade de Duke e ex-Presidente do Departamento de Psiquiatria; foi presidente da Task Force DSM IV;  é o autor de “O Resgate do Normal” e “Fundamentos do diagnóstico psiquiátrico.”

Dor crônica e fibromialgia: relação com abuso sexual na infância

De a cordo com o livro Handbook of Child Sexual Abuse, dor crônica é queixa frequente entre adultos que relataram ter sofrido abuso sexual na  infância. E  o distúrbio pode variar de leve a incapacitante. A relação entre dor crônica e abuso sexual  a infância foi estabelecida a partir de muitos estudos feitos nos Estados Unidos, cujos resultados estão reunidos e apresentados nessa obra.

Duas síndromes aparecem com frequência nos estudos: fibromialgia e Síndrome do Intestino Irritável. O tratamento é um desafio e na maioria dos casos, os pacientes podem levar muitos anos até obterem alívio ou remissão dos sintomas.

O capítulo 3 do citado livro foi escrito por Kathleen Kendall-Tackett, e na introdução ela afirma que  homens e mulheres que sofreram abuso sexual na infância muitas vezes têm a saúde pior, em comparação com pessoas que não sofreram  esse tipo de violência. Além disso, os efeitos  podem só se manifestar na vida adulta ou, se começarem ainda na infância, durarem muito tempo após o abuso ter terminado. 

Outras experiências adversas também podem ter efeitos de longo prazo, incluindo maus tratos na infância (violência física), negligência (deixar a criança passar por privações e necessidades traumáticas, como sede, fome, medos ou muitas quedas, entre outras), uso abusivo de substâncias tóxicas e atividade criminosa por parte dos pais.

Em termos de terapia, sem ímpetos tendenciosos, me vejo inclinada a supor que a melhor forma de lidar com essas queixas seja a psicoterapia de base analítica, posto que em muitos casos a pessoa pode não se lembrar do abuso, ou seja, esse conteúdo pode estar recalcado ou reprimido. No entanto, sei que existem outras propostas de tratamento, como algumas terapias corporais, das quais conheço bem pouco e ignoro se a remissão dos sintomas  seria apenas temporária (alívio sintomático) ou se poderiam promover também algo semelhante a “cura”.

No caso da Síndrome do Intestino Irritável, com experiência de abuso sexual na infância, testemunhei a remissão completa dos sintomas, conforme relatado em outro post, a partir de processo terapêutico relativamente curto, cerca de um ano e meio.  Isso foi possível a partir do famoso RRE da técnica psicanalítica: Relembrar, Reviver, Elaborar.

A torcida dos especialistas e profissionais de saúde é para que, a cada dia, mais pessoas tomem conhecimento da gravidade que tem o  abuso sexual e outras violência cometidas contra as crianças.

Postado por Carmelita Rodrigues

Fonte: Handbook of Child Sexual Abuse: Identification, Assessment and Treatment. Editado por Paris Goldyear-Brown, 2012, Ney Jersey (EUA)

DSM-V vai nascer morto?

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) , o maior financiador de pesquisa em saúde mental do mundo, anunciou que rejeita a quinta versão do DSM-V, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Saúde Mental, editado pela poderosa APA, a  Associação Americana de Psiquiatria. O anúncio está sendo feito duas semanas antes do lançamento da nova versão do manual. 

No comunicado, o diretor NIMH,  Thomas Insel, diz que “os pacientes com transtornos mentais merecem algo melhor”.

De acordo com Inse, o  NIMH vai “re-orientar sua pesquisa para longe de categorias do DSM. Daqui para frente iremos apoiar projetos de pesquisa que olhem além das categorias atuais; ou que subdividam as categorias atuais, para que se comece a desenvolver um sistema melhor”.

Muitas empresas, instituições e profissionais de saúde mental já criticavam a quarta versão, o DSM-IV, e o recusavam como referencial. Apesar disso, a publicação ainda tem grande peso e costuma orientar  muitas diretrizes e decisões envolvendo saúde mental. Mas não havia a abstenção do também poderoso NIMH.

Como vai ficar esse caldeirão de divergências, só esperando para ver.

Papel de mãe

DOIS CASOS CLÍNICOS ESCLARECEDORES SOBRE A FUNÇÃO DE MÃE

1. Menina de 8 anos, deprimida e com perda total dos cabelos. Causa: medo de a mãe morrer ; a garotinha falava pouco, não sorria; não sabe ler ou escrever; não consegue contar até 30; sequer sabe os dias da semana; aparente caso de Deficiência Mental leve, mas análise clinica e psicoteste de nível mental mostraram o contrário: a menina é normal, apenas é pobremente estimulada/ensinada. Contexto: a mãe tinha desmaios histéricos, perfeitamente evitáveis, na frente dos filhos; família mora em uma chácara e mulher cria os filhos como se eles pudessem crescer e se desenvolver sozinhos tal qual ocorre com filhotes de galinha e de outras fêmeas. Isso é uma MÃE NEGLIGENTE.
2. Adolescente de 14 anos que não falava nem interagia com as pessoas; desmotivado para tudo; discurso e comportamento semelhantes a quadro de Deficiência Mental; agarrava-se à mãe na conversa como se ainda estivesse ligado a ela pelo cordão umbilical; dependência total da mãe para tudo. Novamente análise clínica e teste mostraram o contrário (ele tem inteligência acima da média). Contexto: mulher separada do pai da criança, excessivamente dedicada ao filho único; sempre se antecipava às necessidades do garoto (sequer esperava ele descobrir que sentia sede e já aparecia com copo d’água); fazia por ele coisas que ele já deveria saber fazer sozinho, como servir-se às refeições ou escolher as próprias roupas. Isso é uma MÃE INVASIVA.
OBS: Nos dois casos, feitas as adequadas intervenções, inclusive no contexto familiar, os prejuízos no desenvolvimento estão sendo reparados e ambos estão apresentando excelentes resultados, voltando para o padrão de normalidade.
Então, o segredo é o equilíbrio; é estar saudável para transferir isso aos filhos.

O adjetivo ‘super’ associado ao substantivo ‘mãe’ é coisa perigosa; há o risco de ser sinônimo de “mãe invasiva”. Mãe NÃO PRECISA ser super em nada; do contrário, o filho ou a filha será MENOS em quase tudo. Mãe precisa apenas ser uma mulher normal, equilibrada, feliz, capaz de amar e cuidar dos filhos na medida certa, sem excessos típicos de super-heróis. Afinal, só precisa de herói quem é fraco ou está em desvantagem. Então, a boa mãe é aquela que faz de seu filho (ou de sua filha) um ser autônomo e hábil para a vida, capaz, inclusive, de viver sem ela.

Por outro lado, sim, mãe precisa cuidar, ajudar os filhos no desenvolvimento deles em todas as dimensões: orgânicas, psico-emocionais, intelectuais, sociais e espirituais. A mãe deve ser a primeira professora de uma criança (e o pai, idem).

Mesmo em se tratando de uma pessoa de baixa escolaridade, sempre há algo que ela pode e deve ensinar, mesmo sendo coisas elementares do dia-a-dia,  por pouco que sejam os ensinamentos, o maior será o de que uma pessoa precisa aprender, ter curiosidade, desejar entender sobre as coisas… a criança sentirá a importância de aprender e buscará informar-se e aprender por variados caminhos.