Personalidade borderline

O outro é  totalmente bom ou  totalmente mau, totalmente positivo  ou totalmente negativo, ou seja: há uma alternância na idealização e desvalorização das outras pessoas, podendo essa avaliação ser aplicada a si mesmo e frequentemente alternando os  indivíduos (ou ele próprio) de um grupo para outro. Isso é o funcionamento básico do indivíduo com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB).

Otto Kenberg  buscou caracterizar os pacientes borderlines  sob a perspectiva analítica e usando uma abordagem combinada de psicologia do ego e relações de objeto, criou a expressão ORGANIZAÇÃO DE PERSONALIDADE BORDERLINE aplicado a um grupo de pessoas que apresentavam padrões característicos de fragilidade de  ego, operações defensivas primitivas e relações objetais problemáticas. “Ele observou uma série de sintomas nesses pacientes, incluindo ansiedade livre flutuante, sintomas obsessivos compulsivos, fobias múltiplas, reações dissociativas , preocupações hipocondríacas, sintomas conversivos, tendências paranoides, sexualidade perversa polimorfa e abuso de substâncias” (Gabard, 2006, p. 321).

O conceito de borderline se modificou ao longo dos tempo, após sucessivos estudos.  Já foi chamado de “personalidade limítrofe”. Inicialmente esse constructo  era tido pelos teóricos  como “esquizofrenia pseudoneurótica”. “personalidade como se”  e por fim “estado borderline. Inicialmente o termo referia-se  a indivíduos que não pareciam nem neuróticos  nem psicóticos, mas estavam em algum lugar intermediário entre essas duas alterações do funcionamento.  Em 1967, Otto Kenberg elaborou o conceito de Transtorno Organização de Personalidade Borderline (OPB) , que vem a ser  maneiras duradouras  de sentir, pensar e se comportar, experimentar a si mesmo e aos outros  de enfrentar realidades desagradáveis.  Na visão de Kenberg, pacientes com OPB tendem a “usar formas drásticas e imaturas de lidar com impulsos e emoções (por exemplo, comportamentos como manobras pungentes e defensivas tais como a negação de realidades óbvias” (O’ Donohue,  2010, p. 164). Eles não são psicóticos, mas podem  se tornar cognitivamente mais desorganizados  do que a  maioria das pessoas, principalmente em situações de estresse, e ter dificuldade em manter visões equilibradas de si mesmas e de outras pessoas, classificando suas representações em totalmente boas ou totalmente más.

Outros sintomas comuns nesses casos incluem um intenso  medo de abandono, raiva intensa e irritabilidade. Automutilação e comportamento suicida são comuns nesses indivíduos. Comportamento impulsivo é comum, incluindo: abuso de substâncias, alcoolismo, transtorno alimentar, sexo de risco ou indiscriminado com múltiplos parceiros, gastar dinheiro e dirigir com imprudência.

Pessoas com TPB agem impulsivamente buscando alívio imediato para sua dor emocional. Entretanto, a longo prazo, as pessoas com TPB sofrem de uma crescente vergonha e culpa que seguem esse tipo de ação e isso pode dar início a um ciclo patológico: a pessoa com TPB sente dor emocional, se engaja em um comportamento impulsivo para aliviar a dor, sente vergonha e culpa por suas ações, sente dor emocional por conta dos sentimentos de vergonha e culpa e então experimenta uma maior compulsão por se engajar em um comportamento impulsivo para aliviar a nova dor. Com o passar do tempo e a evolução do transtorno, o comportamento impulsivo pode se tornar uma resposta automática em resposta a dor emocional.

Pessoas com TPB podem ser muito sensíveis ao modo como os outros as tratam, sentindo intensa alegria e gratidão diante do que percebem como expressões de bondade e intensa tristeza e raiva ao que entendem ser uma crítica ofensiva. Manipulação psicológica para obter carinho é considerada uma característica comum de TPB.

O DSM-IV define o TPB como sendo “um padrão disseminado de instabilidade das relações interpessoais, da autoimagem e dos afetos e impulsividade marcante,  que se inicia no início da idade adulta e está presente em diversos contextos (APA, 2000, p. 706).

No entanto, Kenberg advertiu que os sintomas descritivos não eram suficientes para um diagnóstico definitivo, que é necessária uma análise estrutural sofisticada.

A título de ilustração, o seriado Sessões de Terapia, do canal GNT ( 3ª temporada), tem um personagem com esse transtorno: a Bianca Cadore, interpretado por Letícia Sabatella.

Fontes:

  1. O’ Donohue, W. Transtornos de Personalidade em Direção ao DSM-V: Roca, SP, 2010.
  1. Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. Gabard, Glen O. – 4ª edição, SP, 2006 (p. 426-428).
  2. DSM-IV, APA, 2000.

Viver sem mentir

Encontrei em um livro  algo que sempre pensei e repeti para explicar minha aversão a mentiras e qualquer tipo de falseamento da verdade:

 “Só vemos Jesus usar expressões veementes quando se dirigiu aos hipócritas, aos sacerdotes, aos escribas e às autoridades venais que escorchavam o povo. Nunca, porém,  vemos o sublime Mestre abatendo o ânimo dos pecadores.” (Trecho do livro NAS PEGADAS DO MESTRE, de Vinícius, Ed. FEB, RJ, 1982, p. 205). Em Psicologia Analítica trabalhamos com o conceito de “Sombra” (aspecto de nossa personalidade negado por ser considerado indesejável ou negativo – equivale, em certa acepção, aos nossos pecados, em termos religiosos). A Sombra é um aspecto de nosso Eu profundo, do nosso Si- Mesmo que precisa ser integrado (e nunca negado como pregam alguns preceitos religiosos). Negar a própria sombra é fugir da evolução, da individuação; é acovardar-se na mentira e no fingimento; é postergar ação que necessariamente terá que ser adotada, cedo ou tarde. O espírito é eterno e o sentido da vida é a evolução. Fugir desse propósito é causa de doenças e muitos sofrimentos, impostos a si mesmo e às pessoas do nosso convívio. É também medida improfícua. Transcrevi o trecho acima, que reflete ensinamento do Evangelho de Jesus, para explicar que Deus (ou o Numinoso) não espera de nós a negação de nossas limitações, de nossos pecados, ao contrário. Deseja Ele que, em  reconhecendo nossa Sombra, possamos integrá-la e evoluir, atingir a individuação (o que equivale a alcançar a salvação, em termos religiosos). Somos todos formados por polaridades: somos o Bem e o Mal, o Certo e o Errado, a Luz e a Sombra… entre outras. Quando Jesus sapecou fogo na figueira que lhe negou alimento ou quando teve um acesso de fúria e expulsou os vendilhões do templo, Ele estava agindo como um ser humano, embora fosse (e seja) Ele incalculavelmente mais evoluído que qualquer um dos homens que já viveu na Terra. Isto é, Ele estava sendo invadido pela Sombra e demonstrando sua natureza humana (posto que estava encarnado como homem). Ora, se Ele, que é Perfeito, reconhece e acolhe seus aspectos sombrios, porque teríamos nós, imperfeitos em demasia e longe da individuação, que negar nossas polaridades indesejadas? Não. O caminho da hipocrisia, do fingir algo que não se é ou não se faz, é atraso na caminhada evolutiva; é fraqueza a ser combatida. Além disso, se vivo uma felicidade falsa e  me contento com isso, apregoando ao mundo que “sou feliz”, sou isso ou aquilo, mesmo sem o ser,  posso eu reclamar de Deus a verdadeira felicidade sem nada fazer para alcança-la? Ou posso reivindicar status de alma evoluída sem me esforçar na conquista da verdadeira evolução? Posso enganar a mim mesma e talvez a alguns poucos incautos, mas nunca à Vida. De modo geral é o medo da Verdade, o receio de olhar nas águas profundas de si mesmo o que faz as pessoas se esquivarem de psicoterapia analítica – a ponto de chegarem a somatizar doenças. Em verdade, sou forçada dia a dia  a reconhecer a coragem que tem cada um dos meus pacientes de análise: estão à minha frente com plena disposição para despir-se das ilusões sobre si mesmos, desejando reformar-se e, modificando a si mesmos, refazer trajetos e rever escolhas. Não raro precisam admitir terem perdido muito tempo com ilusões. Mas o consolo quanto ao tempo perdido é que cada um só faz o que consegue; só vai aonde pode, só enxerga longe quando está pronto para ver. Cada um tem seu próprio tempo e sua própria capacidade. Sou impulsionada rotineiramente a reconhecer e expressar que pacientes de análise são pessoas admiravelmente CORAJOSAS. Já ouvi de uma paciente a seguinte frase “às vezes eu saio daqui (do consultório) cambaleando, sangrando com o que você me disse ou com algo que eu percebi; dói, mas eu sei que é uma dor necessária e quando ela passa surge algo incrivelmente novo em mim, me percebo mais forte e mais autêntica”. É certamente algo emocionante de se ouvir. E gratificante. Porque é a obtenção da meta: o autoconhecimento e a autotransformação a partir da ampliação da consciência. Finalizando, apenas desejei expressar neste texto minha aversão a todo tipo de mentira e, ao contrário, minha absoluta e incomensurável admiração pelas pessoas que conseguem viver em verdade.  

Holanda reconhece: legalizar maconha foi erro

A Holanda constatou ter sido um grande erro legalizar a maconha e a prostituição e iniciou ações de reparação dos danos. E aqui no Brasil tem gente fazendo passeata pela legalização dessa droga. A seguir,  uma matéria da revista Veja, escrita por Thomas Favaro, detalhando esse engano.

“A Holanda é um dos países mais liberais da Europa. Comportamentos considerados tabu em muitos países, como eutanásia, casamento gay, aborto e prostituição, são legalmente aceitos pelos holandeses. Em Amsterdã, turistas podem comprar pequenas quantidades de maconha em bares especiais, os coffee shops, e escolher abertamente prostitutas expostas em vitrines, uma tradição da cidade. No passado, De Wallen, o bairro da Luz Vermelha, como é chamado nos guias turísticos, foi relativamente tranqüilo e apinhado de curiosos. Desde que a prostituição foi legalizada, sete anos atrás, tudo mudou. Os restaurantes elegantes e o comércio de luxo que havia nas proximidades foram substituídos por hotéis e bares baratos. A região do De Wallen afundou num tal processo de degradação e criminalidade que o governo municipal tomou a decisão de colocar um basta. Desde o início deste ano, as licenças de alguns dos bordéis mais famosos da cidade foram revogadas. Os coffee shops já não podem vender bebidas alcoólicas nem cogumelos alucinógenos, e uma lei que tramita no Parlamento pretende proibi-los de funcionar a menos de 200 metros das escolas. Ao custo de 25 milhões de euros, o governo municipal comprou os imóveis que abrigavam dezoito prostíbulos. Os prédios foram reformados e as vitrines agora acolhem galerias de arte, ateliês de design e lojas de artigos de luxo. A prefeitura está investindo na remodelação do bairro, para atrair turistas mais ricos e bem-comportados.

De Wallen é um centro de bordéis desde o século XVII, quando a Holanda era uma potência naval e Amsterdã importava cortesãs da França e da Bélgica. Nos últimos vinte anos, a gerência dos prostíbulos saiu das mãos de velhas cafetinas holandesas para as de obscuras figuras do Leste Europeu, envolvidas em lavagem de dinheiro e tráfico de mulheres. Boa parte dos problemas é conseqüência do excesso de liberalidade. O objetivo da legalização da prostituição foi dar maior segurança às mulheres. Como efeito colateral houve a explosão no número de bordéis e o aumento na demanda por prostitutas. Elas passaram a ser trazidas – nem sempre voluntariamente – das regiões mais pobres, como a África, a América Latina e o Leste Europeu. A tolerância em relação à maconha, iniciada nos anos 70, criou dois paradoxos. O primeiro decorre do fato de que os bares podem vender até 5 gramas de maconha por consumidor, mas o plantio e a importação da droga continuam proibidos. Ou seja, foi um incentivo ao narcotráfico.

O objetivo da descriminalização da maconha era diminuir o consumo de drogas pesadas. Supunham os holandeses que a compra aberta tornaria desnecessário recorrer ao traficante, que em geral acaba por oferecer outras drogas. Deu certo em parte. Apenas três em cada 1.000 holandeses fazem uso de drogas pesadas, menos da metade da média da Inglaterra, da Itália e da Dinamarca. O problema é que Amsterdã, com seus coffee shops, atrai “turistas da droga” dispostos a consumir de tudo, não apenas maconha. Isso fez proliferar o narcotráfico nas ruas do bairro boêmio. O preço da cocaína, da heroína e do ecstasy na capital holandesa está entre os mais baixos da Europa. “Hoje, a população está descontente com essas medidas liberais, pois elas criaram uma expectativa ingênua de que a legalização manteria os grupos criminosos longe dessas atividades”, disse a VEJA o criminologista holandês Dirk Korf, da Universidade de Amsterdã.

A experiência holandesa não é a única na Europa. Zurique, na Suíça, também precisou dar marcha a ré na tolerância com as drogas e a prostituição. O bairro de Langstrasse, onde as autoridades toleravam bordéis e o uso aberto de drogas, tornara-se território sob controle do crime organizado. A prefeitura coibiu o uso público de drogas, impôs regras mais rígidas à prostituição e comprou os prédios dos prostíbulos, transformando-os em imóveis residenciais para estudantes. A reforma atraiu cinemas e bares da moda para o bairro. Em Copenhague, na Dinamarca, as autoridades fecharam o cerco ao Christiania, o bairro ocupado por uma comunidade alternativa desde 1971. A venda de maconha era feita em feiras ao ar livre e tolerada pelos moradores e autoridades, até que, em 2003, a polícia passou a reprimir o tráfico de drogas no bairro. Em todas essas cidades, a tolerância em relação às drogas e ao crime organizado perdeu a aura de modernidade.”

Fonte original: Revista Veja Mudanças na vitrine:

Cito outros três textos nos quais o assunto  é abordado com vistas a esclarecimentos. Com respeito aos diferentes pontos de vista, com argumentação bem fundada, contra e a favor, civilidade, educação e bom senso, as pessoas poderão participar da construção de um caminho para a melhor compreensão do problema.

CONTRA A LEGALIZAÇÃO DA MACONHA

e

A CONTROVÉRSIA DA LEGALIZAÇÃO DA MACONHA

USO DA MACONHA E SITUAÇÃO NO URUGUAI

Leia também: Estudando a maconha a sério