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Família funcional, criança saudável

Inspirada no texto do filósofo Carlos Adriano Ferraz, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), preciso novamente falar da importância que os pais e as mães têm para os filhos, não apenas do ponto de vista da sobrevivência, mas principalmente da saúde mental.

Ele afirma em texto publicado no Jornal da Cidade Online: “Uma família funcional não precisa do Estado. A família é uma das derradeiras resistências aos avanços do Estado sobre as vidas individuais.”

Minha prática clínica como psicóloga de crianças e adolescentes numa unidade pública de saúde (e de adultos no consultório particular) corrobora a veracidade dessa afirmação. Percebemos com clareza que as crianças são sequeladas pela falta de funcionalidade das famílias, quando não da ausência de um núcleo familiar estruturado para lhes assistir o período de desenvolvimento infantil.

Sendo mais direta: crianças cujos pais e mães são responsáveis, presentes, comprometidos com o desenvolvimento dos próprios filhos dão conta de educa-los, acompanhar o crescimento/desenvolvimento psicoemocional deles sem precisarem de psicólogos, psiquiatras e/ou medicamentos do governo.  

Muitos dos transtornos que levam as crianças às unidades de saúde mental têm origem na falta de funcionalidade das famílias, desde o Transtorno Opositor-Desafiador (TOD) à Depressão, passando por outros como Transtorno de Ansiedade e o Antissocial.

Obviamente alguns indivíduos chegam à fase adulta com sintomas dessas alterações, senão com elas agravadas. E, obviamente também, não se pode negar a força influenciadora do meio social, principalmente da escola, sobre o manejo das famílias, mesmo as funcionais. Tampouco seria correto negar a existência de alterações psíquicas e psicoemocionais de  causalidades diversas das mencionadas aqui, com origem/causa mais profunda. 

Em reunião de trabalho no início do isolamento social ouvi a preocupação de alguém da nossa chefia  ao afirmar, com a certeza de um tolo, que os transtornos das crianças que atendíamos estariam agravados com o isolamento. Para mim e  colegas  que conhecem a dinâmica e a gênese  das alterações na saúde dos nossos pacientes isso soou como uma sandice.  Protestei, explicando que poderia ocorrer o contrário: elas retornarem à rotina mais saudáveis do que antes porque estavam recebendo atenção e cuidados de quem realmente lhes interessa, os próprios pais.

Claro que há deploráveis exceções, como os menores cujos pais nunca entenderam  a necessidade de dedicação e renúncia envolvidos na maternidade e na paternidade. Nesses casos haverá sempre transferência de responsabilidades para  escolas e serviços de saúde, ou para outros parentes. E essas famílias também confirmam a afirmação inicial: necessitam do Estado porque são disfuncionais.

Neste período de isolamento social tenho visto cenas que exemplificam bem o porquê, a partir da comparação com o oposto,  de tantas crianças adoecidas das emoções e dos comportamentos. Antes da pandemia, raros eram os pais e as mães que víamos dando atenção aos seus filhos, fazendo coisas simples como testar receitas culinárias, desenhar e/ou recortar figuras, fazer colagens, jogar entretenimentos simples (dominó, Ludo, quebra-cabeças, etc.), ler,  assistir a bons filmes juntos, moldar argila ou massinha colorida,  passear de bicicleta, patinete ou simplesmente andar de mãos dadas, como tenho recorrentemente visto no meu bairro, que dispõe de amplos espaços abertos.

Mais fácil será continuar esse saudável convívio com as crianças após o isolamento, já que espaços públicos estarão liberados, como parques, ruas de lazer, clubes e circos, entre tantas outras opções. Quem não sabe o valor que tem um piquenique no parque embaixo de uma árvore, rodeados de uma imensidão  verde? E, por que não, até de um piquenique no fundo do quintal ou no meio da sala? Coisas diferentes e criativas despertam o interesse das crianças, fazem-nas sorrir e ter confiança nos adultos que cuidam delas. Além de enriquecerem o vínculo e as memórias afetivas.    

Numa leitura mais ampla sobre os efeitos do bom desenvolvimento das crianças, pode-se afirmar que fortalecer o futuro do nosso País envolve também recusar qualquer produto televisivo e/ou ação político-social,  governamental ou não, que esconda estratégias de enfraquecimento das famílias  e os valores ético-morais que lhes dão consistência e força. Pense: a quem interessa desconstruir as famílias e criar indivíduos dependentes do Estado? A quem deseje controlar os indivíduos e a sociedade!

Minha expectativa é de que essa dolorosa crise causada pela COVID-19 deixe como resultado positivo o fortalecimento dos núcleos familiares e a descobertas dos pais sobre o que realmente tem mais valor para seus filhos: presentes caros? Ou uma hora na companhia deles? E do que realmente as crianças precisam: exagerada permissividade para compensar ausência e atenção? Ou muitos “nãos” orientadores sobre limites e necessidade de autorrespeito, respeito aos outros e aos diretos coletivos?