Psicotrópicos em excesso

“Brasília Dopada” é uma série de reportagens do Correio Braziliense, jornal diário do DF, que aborda o aumento do uso de psicotrópicos pelos moradores da Capital. A seguir,  alguns tópicos que chamam atenção:

. No ano passado, Secretaria de Saúde do GDF distribuiu 7,2 milhões de doses de antidepressivos;

. Entre 2015 e 2016, o consumo de medicamentos antipsicóticos em Brasília cresceu 53,4%;

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Superproteção pode adoecer as crianças*

Pais superprotetores passam aos filhos, consciente ou inconscientemente, a ideia de que eles são vulneráveis e fracos e que não podem sobreviver sem os genitores. Por generalização, as crianças crescem acreditando que sempre precisarão de cuidadores poderosos e que são incapazes de viver por conta própria. Esse manejo parental equivocado pode desenvolver nelas a dependência e prejudicar a construção do autossuporte, isto é, a confiança do indivíduo nele mesmo. Pessoas com fraco autossuporte são avessas a correr riscos, a experimentar novidades e mesmo a enfrentar situações que lhes pareçam ameaçadoras. São inseguras, excessivamente medrosas e tendem a não se considerarem capazes de cuidar delas mesmas; exageraram na percepção de risco e têm medo de perder apoio e aprovação, o que lhes dificulta expressar discordância de outras pessoas. Podem ser adultos predispostos a desenvolverem quadro de depressão. Ou seja: são pessoas pouco adaptadas à vida, repleta de adversidades e situações incontroláveis e desafiadoras.

Mães que exageram na proteção, nos cuidados para evitar que os filhos se machuquem ou sofram acabam causando-lhes sofrimentos talvez evitáveis, na medida em que perturbam o desenvolvimento normal dos filhos a ponto de, em alguns casos,  causarem de transtornos psicológicos sérios, entre eles o Transtorno de Personalidade Dependente (TPD). Antes de prosseguir, justifica-se uma explicação resumida do que seja transtorno de personalidade, reproduzindo trecho do DSM-IV-TR: “Um transtorno de personalidade é um padrão duradouro de experiência interior e de comportamento que se desvia marcadamente das expectativas da cultura do indivíduo; é disseminado e inflexível; tem início na adolescência ou no começo da idade adulta; é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento e incapacitação” (APA, 2000, pág. 629).

Especificamente sobre Transtorno de Personalidade Dependente, esse manual de doenças mentais da Associação Americana de Psiquiatria explica: “é um padrão de comportamento submisso e pegajoso, relacionado a uma necessidade excessiva de ser cuidado” (APA, 2000, pág. 685).  Outras características de pessoas portadoras desse transtorno são: baixa autoestima (principalmente como consequência de não confiarem em si ou não se perceberem capazes de fazer e/ou tomar decisões corretas, isto é, de não se sentirem valorosas); insegurança quase sempre generalizada para situações em que precisem escolher ou realizar algo sozinhas;  autoimagem distorcida, tendendo a sentirem-se feias, esteticamente e no sentido mais amplo; pessimismo e medo de separação, inicialmente da mãe e/ou pai e posteriormente de outras pessoas a quem atribuam importância e sobre quem seja depositada confiança como fonte de proteção.

O Transtorno de Personalidade Dependente manifesta-se na adolescência ou no início da idade adulta e o indivíduo deve apresentar pelo menos cinco dos seguintes sintomas em diferentes contextos e espaços para receber diagnóstico de TPD, de acordo com o DSM IV: a) dificuldade  em  tomar decisões cotidianas sem aconselhamento e reasseguramento dos outros; b) necessidade de que as outras pessoas assumam a responsabilidade pela maior parte das áreas importantes de sua vida;  c) dificuldade em expressar discordância; d) dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas por conta própria; e) chegar a extremos para obter cuidados e suporte; f) ficar desconfortável e desamparado quando sozinho; g) procurar urgentemente outra fonte de apoio quando um relacionamento importante termina; h) preocupação irrealista sobre o medo de deixar de receber cuidados de alguém.

Obviamente que esse funcionamento emocional e comportamental compromete tantos as relações pessoais quanto as laborativas, levando o sujeito a evitar posições de responsabilidade e comando no trabalho e a sentir muita ansiedade diante de situações que exijam tomada de decisão. Um funcionamento psicoemocional tão alterado e limitante pode, consequentemente, levar ao desenvolvimento associado de outros transtornos, como transtorno de humor (transtorno afetivo bipolar e depressão) e transtorno de ajustamento, entre outros.

Busquemos, então, compreender como o manejo excessivamente protetivo da mãe ou do pai (ou de avós que assumem a guarda) pode levar a essas alterações no desenvolvimento das crianças. Na perspectiva comportamental, a premissa básica para a dependência é a de que o comportamento dependente é ou será recompensado. Essa visão coloca a dependência na classe dos comportamentos aprendidos a partir da relação com as figuras parentais, podendo generalizar-se para relacionamentos interpessoais subsequentes.  Ou seja: se ao buscar ajuda e apoio para fazer alguma coisa a criança for sempre recompensada, ela poderá desenvolver o hábito de repetir esse comportamento, e não apenas com os pais, mas também em outras interações (O’Donohue, 2010). O contrário disso é: se, em vez de ser recompensada por sempre buscar apoio e ajuda a criança for orientada a confiar em si mesma e a tentar fazer sozinha, sendo confirmada ao obter êxito ou apenas por tentar, ela tende a desenvolver autoconfiança e autonomia.

Gabbard (2006) nos dá uma explicação psicodinâmica: “Um padrão global de reforço dos pais para a dependência ao longo de todas as fases do desenvolvimento tem maior probabilidade de operar nos fundamentos de pacientes com TPD. O desenvolvimento da personalidade dependente pode ocorrer a partir da associação entre independência/autonomia à perda de afeto: agir por contra própria pode levar a criança a temer estar sendo desleal com os pais ou cuidadores, que podem deixar de amá-la; claro que tudo em nível inconsciente e resultante de possíveis distorções na compreensão infantil dos eventos ou efetivamente de equivocados discursos dos adultos. Explicando melhor: “muitos dos pacientes com transtorno de personalidade dependente cresceram com pais que, de uma forma ou de outra, comunicavam que a independência era carregada de perigo. Eles podem ter sido sutilmente recompensados por manter lealdade a seus pais, que pareciam rejeitá-los diante de qualquer movimento em direção à independência” (Gabbard, 2006, pág. 438). Corroborando a percepção de Gabbard, um estudo de Baker (1996) sobre ambiente familiar encontrou que famílias de pacientes com transtorno de personalidade dependente apresentavam pouca independência nos comportamentos das crianças e alto controle parental.

O comportamento controlador dos pais, por sua vez, pode ser decorrente de alterações psicoemocioais próprias, cujas manifestações levam a projeções e outros mecanismos psicológicos de defesa. Por trás do impulso para controlar pode estar, por exemplo, a projeção – dos próprios medos e da própria insegurança. Indivíduos controladores são, quase sempre, inseguros e agem evitando o desconhecido, o novo e qualquer coisa que ameace a ilusória sensação de segurança. A necessidade de querer controlar meio ambiente, circunstâncias e pessoas a sua volta não raro aparece de mãos dadas com outra alteração psicológica: uma forte rigidez comportamental, isto é, a dificuldade para lidar com mudanças, seja na forma de pensar, agir e até em relação a disposição de objetos, escolha de percursos e localidades conhecidas e eleitas como adequadas ou com as quais o indivíduo já se acostumou. O indivíduo desenvolve a crença disfuncional de que se ele estiver no controle das situações, ele ficará bem, na medida em que saberá se movimentar nos eventos, dos quais ele acredita conhecer os estímulos (ambientais e respostas comportamentais dos “controlados ”). Obviamente que isso é uma percepção equivocada que precisa ser desconstruída, a partir de clarificações e reelaborações, tanto cognitivas quanto emocionais.

Na prática clínica, não é raro deparar-nos com pais que incutem nos filhos medo do mundo e das pessoas a ponto de eles começarem a apresentar pânico de escuro, de ficarem sozinhos em casa, de irem à escola e até mesmo de brincarem com outras crianças. Ao enxergarem a alteração nos filhos, buscam ajuda quase sempre antes de se darem conta de que as crianças apenas refletem respostas e comportamentos deles próprios. Ao se investigar o caso, a dinâmica familiar e o manejo dos adultos explicam grande parte dos temores, receios e da insegurança das crianças. Ou seja: adultos com alterações psicológicas não reconhecidas ou não tratadas, como por exemplo, portadores de síndrome de pânico, histeria e mesmo TPD, tendem a errar por excesso, principalmente nas tentativas de controlar invasivamente os passos dos filhos, no anseio mais profundo de evitar neles o sofrimento que vivenciam internamente.

Se a negligência nos cuidados parentais é prejudicial ao desenvolvimento das crianças, o manejo invasivo não é menos nocivo. Pode soar exagerado para algumas pessoas que uma mãe ou um pai alcance esse grau de equívoco, chegando a adoecer os filhos com excessos patológicos, mas a experiência clínica prova o contrário. É mais comum do que se imagina, inclusive.

Adotados os cuidados necessários (e limitadores da descrição) para evitar risco de quebra de sigilo profissional, seguem dois exemplos clínicos úteis à compreensão do exposto. Primeiro, o de uma mãe que se negou a perceber os próprios erros e, o segundo, dos bons resultados de uma intervenção dura junto a um pai, que compreendeu o exposto e atendeu prontamente às sugestões de mudança, embora elas indicassem direção totalmente oposta a que os genitores vinham tomando a vida toda. Vale mencionar que, no contexto terapêutico e até mesmo familiar e/ou amigável, a dureza excessiva nas colocações e a pressa em clarificar as coisas como elas são em verdade devem ser bem medidas e pesadas, levando-se em conta que muitas pessoas simplesmente não dão conta de enxergar falhas ou erros na maternidade ou paternidade. É recomendável ir com muito tato e cuidado, principalmente na entrevista com mãe de perfil controlador ou que tenha, ela própria, transtorno de personalidade dependente, transtorno de personalidade narcisista ou outra alteração psicoemocional grave ou moderada. Ela pode fazer projeção inconsciente e se sentir ameaçada pelo discurso da psicoterapeuta ou do amigo/parente bem-intencionado.

O primeiro caso: a mãe levou seu filho adolescente para uma entrevista psicológica com vistas a início de processo terapêutico. Ele tinha dezesseis anos e vinha apresentando condutas agressivas, na fala da mãe, principalmente com ela. Irritabilidade e impaciência, contou a mãe, também eram reações repetitivas. “Ele tem sido muito bruto comigo”, queixou-se, enquanto o filho expressava simultaneamente, em linguagem gestual, não concordar com ela. Essa mãe, ao longo da conversa, revelou-se extremamente controladora e invasiva, negando ao filho o direito a escolhas mínimas e agindo de forma a castrá-lo em todas as iniciativas de autonomia.

A psicoterapeuta chamou a atenção dela para isso e para a necessidade de ela começar a deixar o filho tomar as próprias decisões e a fazer escolhas, a transferir pra ele tarefas que ele já poderia fazer e que ela vinha assumindo, como lavar os próprios tênis, fazer o prato na hora da refeição (definindo por ele o que e quanto comer), escolher as roupas (no ato da compra e de se arrumar – ela insistia em continuar fazendo isso por ele, contou o adolescente), a ir visitar parentes sozinho, sair com amigos, tios,  primos ou pessoas de confiança sem a companhia dela, entre outras pequenas mudanças iniciais. Tratava-se de rapaz saudável, inteligente e perfeitamente capaz de aprender a se deslocar sozinho, então, foi sugerido que ela o ensinasse a andar de ônibus, para não depender dela nos dias da sessão, como também para outros compromissos, inclusive da escola.

Nesse caso, uma hipótese psicodinâmica para as reações dele: ao se sentir tolhido, controlado e exageradamente cerceado o tempo todo por essa mãe, o adolescente começou a sentir raiva e a expressar essa emoção por meio de comportamentos agressivos com a genitora. E, embora soe estranho, pode-se considerar essa reação como sendo saudável e com potencial para salvá-lo do transtorno de personalidade dependente. As reações do rapaz, em linguagem verbal e gestual, às intervenções da psicóloga que o entrevistou indicavam ter havido compreensão correta do quadro e acerto nas intervenções, mas infelizmente, o paciente não retornou para a segunda sessão. A mãe explicou, posteriormente, em contato telefônico, que não tinha concordado com as coisas que a psicóloga tinha dito e que o filho dela não seria atendido novamente por aquela profissional. Ele voltou para a fila de espera (órgão público de saúde com enorme demanda em atraso) e não houve mais notícias dele. No entanto, é possível que ele consiga mobilizar sua capacidade autodefensiva e escape dos equívocos dessa mãe castradora, salvando-se da superproteção patológica dela. Ou, quem sabe, em algum momento a mãe se lembre das intervenções propostas e do que foi-lhe explicado sobre respeito à necessidade de autonomia do filho e ela consiga mudar o próprio manejo com ele.

O segundo exemplo é o de uma mocinha de dezessete anos que teve um episódio de “travamento”, nas palavras dela. O pai busca por psicoterapia após um episódio em que a adolescente não conseguiu executar uma tarefa na qual ela era (e ainda é) muito boa. “Eu simplesmente travei; não consegui me mexer, fazer nada, entrei em pânico”, explicou à psicoterapeuta. O pai, temendo o pior, trata de buscar ajuda para a filha, a quem ele considerava muito talentosa e por quem ele tinha zelo exagerado, a ponto de ir todos os dias falar com o professor da garota para saber como ela tinha-se saído na aula e de cobrar dela excelência em todos as tarefas, chegando ao cúmulo de autorizar o professor, na frente dela, a ser rigoroso. Essa conduta incomodava enormemente a adolescente, mas ela não se opunha por desconhecer os próprios limites e os do pai e por temer desagradá-lo. Esse comportamento invasivo na escola dela se somava a muitos outros (que preciso omitir para preservar anonimato) e era adotado também com a outra filha e em relação também à esposa, que corroborava com os exageros do marido na educação das filhas.

Nesse segundo caso, a explicação plausível para tanta proteção pode ser tanto o amor paterno legítimo quanto uma autocobrança exagerada em acertar como pai, além da projeção dos próprios medos. Mas, diferentemente do outro caso, esse pai agiu com humildade e concordou em avaliar a possibilidade de ter errado por excesso. Na segunda sessão ele pediu para conversar novamente com a psicoterapeuta e contou ter refletido sobre as explicações e intervenções propostas pela profissional e disse ter refletido e se lembrado de situações que confirmavam a hipótese de manejo excessivamente controlador e superprotetor por parte dele; admitiu ter compreendido melhor atitudes do passado, entre elas o fato de ter chegado a mudar de profissão, com o intuito de se dedicar integralmente à família; admitiu ter “pecado por excesso ”,  nas palavras dele, e citou experiência de relativo abandono por parte dos próprios pais.

Segundo ele, após conversar com a esposa, ambos reconheceram os equívocos e colocaram-se integralmente dispostos a fazer o que fosse necessário para corrigir os erros deles e a garantir a felicidade das filhas. Reforçava essa decisão perceber que a outra filha também apresentava dependência deles para realizar quase tudo. Graças à necessária sofisticação psicológica e ao apoio da família, a paciente evoluiu rapidamente e surpreendeu os pais e a psicoterapeuta com mudanças de atitudes e até de visual, entre outros sucessivos e importantes avanços ao longo do processo de autodescobrimento e construção de si mesma.

Muito amorosos, entre si e com as filhas, esses pais apoiaram-se um no outro para lidar com o necessário e relativo afastamento das adolescentes, inclusive para descobrir outros focos de trabalho, outras metas de vida, embora continuassem muito próximos das filhas e disponíveis para ajuda-las, sem excessos.

Uma mãe que não consegue esperar que o filho sinta sede ou fome e vive atrás da criança oferecendo-lhe bebida ou comida invade o tempo da criança e a necessidade de compreensão sobre o próprio funcionamento organísmico. Impede, inclusive, o aprendizado de autoconhecimento, que deve começar cedo, pelas demandas do corpo. Ou: a que decide a hora, a quantidade e o que deve ser comido pelo filho, mesmo quando ele já é adolescente e está apto a desempenhar essa tarefa, apresenta comportamento invasivo e controlador. Mães que não permitem aos filhos aprender a fazer escolhas, seja entre o que vestir ou calçar, comer ou beber, dizer sim ou discordar, entre tantas outras situações, rouba-lhes o direito de aprender, inclusive, que toda ação é seguida de uma consequência, boa ou ruim conforme o contexto. Mães superprotetoras deixam de incentivar os filhos a construírem a própria individualidade, a se descobrirem como pessoas eficazes. Mães, pais, avós ou quaisquer cuidadores/educadores que hajam desse modo limitante e castrador não entendem que a tarefa deles é ensinar as crianças a sobreviverem na ausência deles, adultos, isto é, a serem independentes e autônomos.

Do mesmo modo, uma mãe que tenha a expectativa de ter no filho ou na filha alguém a lhe obedecer eternamente os comandos e a depender dela para as mínimas coisas, recorrendo à alegação de estar sendo protetora, ou aquela que espere realizar por meio do filho ou da filha o que sonhou para si comete grave equívoco e precisa analisar a origem do próprio comportamento controlador e das suas projeções inconscientes.

Por fim, deve-se ressaltar que o bom senso nas condutas protetivas e educadoras dos pais aplicam-se, inclusive no âmbito da espiritualidade, não sendo recomendável ou  mesmo inadmissível que pais extrapolarem os limites da maternidade/paternidade para fazer imposições fundamentalistas contra essa ou aquela escolha religiosa dos filhos, tão somente por ser divergente em relação à orientação filosófico-doutrinária deles. Ao obrigar, coercitivamente, os filhos a seguirem os próprios passos, pais abusivos ou apenas equivocados correm o risco de, além de prejudicarem experiências com potencial para serem redutoras de ansiedade, afastarem-nos  de uma saudável aliança com o Numinoso e bloquearem neles a construção de livre e construtiva jornada espiritual.

Referências

Baker, Jeffrey D., Capron, Earl W. & Azorlosa, J. (1996). Family environment characteristics of persons with histrionic and dependente disorders. Journal of Peresonality Disorders.

CID-10 – Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento, Descrições Clínicas e diretrizes diagnósticas. (2007). Ed. Artmed (RS).

Gabard, Glen O. *2006). Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica (4ª ed.). Artmed, Porto Alegre (RS).

O Donohue, Katherine A. Fowler & Lilienfeld, Scott. (2010). Transtornos de Personalidade em direção ao DSM-V. Ed. Roca, SP.

*Artigo publicado na Revista Mistérios da Psiquê (2017), da Editora Mythos, edição 6/março, pág. 40.

Para quem preferir, a seguir o link da Revista :

Mistérios da Psiqué/Superproteção pode adoecer as crianças

Povo desonesto ou gente injustiçada?

O povo brasileiro é realmente desonesto? Tenho pensado sobre isso e, fazendo observações empíricas, começo a desconfiar dessa crença. Talvez seja mais apropriado considerar que o clima geral de desonestidade reinante, de desrespeito quase que generalizado a regras, com as pessoas levando a sério máximas do tipo “achado não é roubado”,  “quem rouba de ladrão tem cem anos de perdão ” ou  “eu quero é me dar bem” (Lei de Gerson) possa ser mais corretamente atribuído principalmente a dois fatores: a avassaladora má distribuição de renda e a percepção de impunidade.

Nesse segundo caso, até o Supremo Tribunal Federal tem decepcionado a Nação… o que dizer de sucessivos alvarás de soltura e permissões para políticos bandidos cumprirem prisão em suas casas ou autorizações judiciais (algumas expedidas do exterior) para transgressores da Lei aguardarem resultado de recursos e julgamentos em liberdade? E os crimes comuns sem penalidades? A crescente onda de violência  urbana e de desrespeito ao patrimônio (privado e público)? Para coroar esse estado de coisas absurdas, causa revolta a recente divulgação da boa vida dos corruptos que fizeram delação premiada. Como assim?! Corromper, desviar milhões de dólares de dinheiro público, superfaturar licitações, enganar a torto e a direito, pagar/aceitar propina, causar a morte de muitos por omissão do Estado (corrupção na Saúde Pública mata pessoas) e ficar livre, leve e solto pra usufruir de rico patrimônio adquirido às custas de crimes? Que influência pedagógica essas punições-premiações apresentam?

 

Enquanto o País está mergulhado numa forte crise econômica, parlamentares, magistrados, presidente e ex-presidentes seguem mantendo benesses de alto custo para os brasileiros. A saúde agoniza sem dinheiro, a segurança pública fugiu ao controle do Estado, a fome leva milhões a comer de lixeiras e o desemprego arrasta milhares para as ruas, mas ainda assim pagamos comitivas ao exterior para ex-presidenta (além de quatro assessores pagos mensalmente com dinheiro do povo), auxílio telefone, auxílio creche e auxílio moradia a deputados (eles ganham muito pouco, tadinhos!) e damos isenção fiscal a empresas gigantescas, entre inúmeros outros desmandos. Somos campeões em conceder benefícios injustificáveis. Opa! Nós, não: nossos representantes admiráveis! Nossos probos líderes!

E como se não bastassem as misérias causadas pela impunidade, alguns corruptos impunes  seguem atuando claramente contra o povo brasileiro. Se agarram com unhas e dentes aos farrapos de poder que lhes restam, se unindo para ganhar força, para assegurar a manutenção de privilégios, aprovando leis que escravizam os trabalhadores brasileiros, que usurpam direitos conquistados ao preço de muitas lutas em movimentos organizados. Para eles, os vermes do poder, vale toda sorte de absurdos para manter o Brasil na lama da roubalheira de poucos sobre milhões.

E para conseguir colocar a cara na rua ou na TV, os larápios recorrem a toda sorte de confusão conceitual: plutocracia por democracia; corrupção por prática empresarial; demagogia por interesse social, propaganda enganosa (paga com dinheiro público) por necessária divulgação de atos governamentais… sem contar as recorrentes falácias para disfarçar iniquidades. E como se nada estivesse acontecendo, ainda gravam propaganda eleitoral gratuita repetindo a mesma fórmula-besteirol de sempre! Não têm mesmo vergonha na cara!

Então, diante de todos esses absurdos, o que pode restar de confiança na Justiça brasileira? E na política, na polícia ou em outras instituições reguladoras da ordem pública?  Por esse viés, chego à elucubração de que a má distribuição de renda, associada à falta de esperança de que as coisas vão melhorar ou que a justiça far-se-á, pode levar as pessoas a buscarem compensações, a permitirem-se minimizar a sensação de perdas cometendo delitos ou transgressões; algo como: “sou roubado por todos os lados, por que não fico esperto e aprendo a me virar?” ou “todos são desonestos, por que não posso cometer um errozinho?”  Ou seja: será mesmo que somos em maioria e primordialmente desonestos ou estamos psicológica e eticamente confundidos pelos maus exemplos das nossas equivocadas lideranças? Que não se despreze o  poder do Inconsciente Coletivo. Mas obviamente que existem pessoas moralmente mais rígidas que são refratárias a tais mecanismos, provavelmente  inconscientes.

Toda essa gama de maus feitos se mantém graças ao fraco senso crítico de um povo com pouca educação. E o que dizer/pensar do fanatismo de alguns “letrados” que persistem defendendo o indefensável? Estamos indo mal. E como miséria pouca é bobagem, longe daqui, mas não muito, loucos/perversos ameaçam desencadear mais uma guerra intercontinental… enquanto nossos líderes de meia pataca seguem brincando de fazer política.

 

 

Dá pra fazer psicoterapia pela internet?

Sim, é possível fazer psicoterapia pela internet, mas o serviço ainda não é permitido no Brasil. O Conselho Federal de Psicologia (CFP), autarquia que regula o trabalho dos psicólogos brasileiros, ainda não regulamentou o serviço, que já existe legalmente em outros países.  Atualmente no Brasil são permitidos apenas alguns serviços psicológicos pela  web, como orientação psicológica (limitada a 20 atendimentos),  processos de seleção de pessoal, supervisão para psicólogos, entre outros, conforme consta na  Resolução 011/2012.  Mas a psicoterapia, ainda não.  E o CFP tem lá suas razões para ser tão cauteloso! Por exemplo: aqui é a Terra da Impunidade; as leis no Brasil são desrespeitadas sob a chancela de  uma incrível e generalizada frouxidão moral;  e os transgressores  da Lei raramente são punidos. Exatamente o contrário do que ocorre em outros países onde a psicoterapia online é praticada, como Canadá e Estados Unidos, mas também onde as pessoas temem errar e causar danos a terceiros antevendo risco real de punições duras. Considerando-se a  concreta possibilidade de uma intervenção psicológica infeliz causar sérios prejuízos ao psiquismo de uma pessoa,  fazer psicoterapia pela internet é algo que exige cuidados – e nem estou destacando o risco de quebra de confidencialidade, que  pode ser considerada uma desvantagem, mas não o maior dos problemas.

Recentemente lançado no mercado, o aplicativo Fala Freud promete “Terapia online para quem não tem tempo para terapia – qualquer hora do dia ou da noite, direto do seu smartphone”. Só essa frase introdutória faz tremer qualquer conhecedor do assunto. Isso porque a mensagem inicial do site contém dois erros graves:  induzir os internautas ao erro de achar que farão psicoterapia pela internet e confundir os conceitos de “terapia” e “psicoterapia”. Aliás, omitir a diferença entre os significados dos dois termos pode até ser proposital, já que dificilmente os responsáveis pelo aplicativo ignoram a normatização do CFP sobre a interface psicologia e internet. Em nome da ética, da honestidade e em respeito à saúde mental/emocional das pessoas, caberia deixar as coisas muito claras, levando em conta os direitos e necessidades verdadeiros dos possíveis usuários e dos riscos envolvidos. O aplicativo pode até ser útil, propiciando acesso fácil entre as pessoas e os profissionais, mas daí a prometer  terapia a qualquer hora do dia pelo smartphone… há grande diferença. Quero deixar claro que não me oponho de todo ao serviço, mas convém entender bem quais sãos as vantagens, limitações, desvantagens e os riscos de se realizar psicoterapia ou outros serviços psicológicos fora de um consultório. O maior mérito do Fala Freud talvez seja o de trazer o tema para discussão e dar visibilidade à demanda por psicoterapia online.

Particularmente, sou uma entusiasta da psicoterapia online; que considero viável até mesmo no Brasil, desde que observados muitos aspectos, adotados certos cuidados e estabelecidos parâmetros que assegurem segurança à vida das pessoas, tanto dos profissionais quanto dos pacientes.  O artigo PSICOTERAPIA ONLINE: DEMANDA CRESCENTE E SUGESTÕES PARA REGULAMENTAÇÃO, escrito a partir dos dados coletados em uma pesquisa prática e em ampla revisão literária, é uma pequena colaboração nos esforços para se entender melhor essa vertente de trabalho psicológico surgida graças à disseminação da internet. A expectativa é a de que o tema continue a ser abordado em novas pesquisas acadêmicas, de mestrado ou de doutorado, de forma a que obtenhamos  informações suficientes para nortear a regulamente o serviço no Brasil.

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Painel para apresentar minha pesquisa na Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, na UFMG, em 2015

Criança mimada: adulto infeliz

Leandro Karnal não é psicólogo nem psicanalista, mas entende bem a psicodinâmica da superproteção parental e os efeitos da ausência de limites e da não-frustração no desenvolvimento infantil. Vale ouvi-lo.

Um trecho transcrito: “A primeira vítima de uma criança mimada é ela mesma, porque sendo mimada ela nunca vai ter tudo que ela acha que merece; e ela é um adulto infeliz; porque não teve nunca a ideia de ser enfrentada; e  como a vida vai enfrentá-lo muito, vai ser um adulto infeliz. Eu diria que nós devemos estabelecer limites, devemos estabelecer regras, não exatamente porque seja bom ou ruim para os pais, mas  por uma questão profunda de atenção aos filhos e aos alunos.”

Pais superprotetores: as consequências para a vida das crianças

Encontrei uma entrevista muito informativa sobre superproteção parental. Publicada no site Universo Escolar e reproduzida no site do Galois, apresenta esclarecimentos do educador João Luiz de Almeida Macchado sobre essa conduta invasiva de pais e mães que, não raro, projetam nos filhos os próprios medos. Muito útil para mães e pais que precisam compreender os efeitos desse manejo patológico  sobre o desenvolvimento dos filhos. Escrevi sobre esse tema em 2014, no post

“Superproteção parental pode adoecer filhos”

Para ler o conteúdo na íntegra clique no link abaixo:

ENTREVISTA

Tatuagens são inócuas?

Sem me posicionar ideologicamente sobre as tatuagens, posto aqui um vídeo com informações importantes sobre os estudos de um pesquisador acerca dos efeitos da tinta usada nas tatuagens sobre o organismo humano:

Vídeo:  AS CONSEQUÊNCIAS DE UMA TATUAGEM PARA O CORPO

E por que não me posiciono, o que faço frequentemente, sem receio das críticas, muitas vezes contundentes e até agressivas dos opositores aos meus pontos de vista? Porque quase nada sei sobre o assunto: não tenho tatuagens no meu corpo, embora ache algumas bem bonitinhas, e no momento tenho apenas um vago e disperso interesse pelo tema. Ocorre que as dúvidas  desse pesquisador alemão deveriam ser a preocupação de todas as pessoas interessadas no assunto, tendo ou não tatuagens. E pretendo que meu blog seja um disseminador de informações. Então, sugiro que vejam o vídeo porque o conhecimento liberta.