Sobre Crianças com transtorno de conduta

Os transtornos de conduta podem se manifestar com diferentes configurações: restrito ao contexto familiar (comportamentos agressivos e/ou desafiador apenas contra membros da família); transtorno de conduta não socializado (quando criança tem dificuldade relacional, isto é, não se integra a grupos de outras crianças); transtorno de conduta socializado (quando agressividade e/ou comportamentos desafiadores ocorrem na relação com os grupos nos quais estão inseridos, como colegas de escola) e transtorno desafiador de oposição, também conhecido por TOD (Transtorno Opositor-Desafiador).

Os comportamentos observados em uma criança que justificam o diagnóstico de transtorno de conduta incluem: níveis excessivos de brigas ou intimidação; crueldade com animais ou outras pessoas; destruição grave de propriedades; comportamento incendiário; roubos, mentiras repetidas; faltar aulas ou fugir de casa; ataques de birra frequentes e graves; comportamento provocativo desafiador e desobediência grave e persistente (CID 10, 2007).

Transtorno de conduta na infância sem as necessárias intervenções ou sem intervenções eficazes pode evoluir, embora não necessariamente, para um transtorno de personalidade antissocial na vida adulta. E o que é transtorno de personalidade?  De acordo com o DSM-IV é um m padrão duradouro de experiência interior e de comportamento que se desvia marcadamente das expectativas da cultura do indivíduo; é disseminado e inflexível; tem início na adolescência ou no começo da idade adulta; é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento e incapacitação. Ou seja, se a criança não for devidamente orientada e tratada poderá persistir nos erros e sofrer muito, além de causar sofrimento a muitos (principalmente aos pais).

O Transtorno de Personalidade Antissocial (também chamado de sociopatia) é marcado pelo contraste entre o comportamento adotado pelo sujeito e as regras socais predominantes. Os critérios de diagnósticos para o enquadramento de uma pessoa como antissocial são as que seguem (CID 10, 2007, pág. 199):

  1. indiferença insensível pelos sentimentos alheios;
  2. atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito por normas, regras e obrigações sociais;
  3. incapacidade de manter relacionamentos, embora não haja dificuldade em estabelecê-los;
  4. muito baixa tolerância à frustração e um baixo limiar para descarga de agressão, incluindo violência;
  5. incapacidade de experimentar culpa e de aprender com a experiência, particularmente punição;
  6. propensão marcante para culpar os outros ou para oferecer racionalizações plausíveis para o comportamento que levou o paciente a conflito com a sociedade.

Seja em terapia seja no ambiente familiar, o recomendável no manejo adequado desses casos de comportamento alterado é a firmeza; firmeza nos comandos, na imposição de limites, no cumprimento da palavra dada, mas também no bom exemplo, e demonstrando preocupação genuína com o bem estar da criança. Ou seja: os adultos devem se orientar pelo amor, senso de justiça e imparcialidade (quando houver outras crianças envolvidas). Devem recorrentemente clarificar, esclarecer, informar, orientar a criança em relação às condutas desajustadas dela e às implicações envolvidas. Quando se trata de criança inteligente, esclarecer as razões das regras, explicar os motivos dos limites impostos, clarificar quanto ao porquê das regras e normas pode funcionar muito bem, se o adulto usar de argumentação capaz de fazer a criança enxergar sentido nas regras. Mesmo assim, em muitos casos haverá reincidência, o que exige persistência e paciência por parte dos pais e cuidadores.

Além disso, a minha experiência clínica com esses casos mostrou-me que as crianças querem que alguém lhes dê limite, desejam ser orientadas – o que lhes alivia, inclusive, da ansiedade. Isso porque ao agir com agressividade e desrespeito às regras, elas estão em desequilíbrio interno e externo. Percebendo-se em atrito com os outros, a criança fica ansiosa e alterada. Sofre. Inconscientemente, deseja adaptar-se ao meio e ficar bem. Assim, com esse desejo interno inconsciente, essas crianças tendem a gostar de adultos firmes, que sabem lhes impor limites sem arbitrariedade. Além da percepção de haver sentido, parece acontecer uma barganha velada e interna: em contrapartida à frustração imposta e à negação da vontade delas, ao receber afeto dos adultos-referência, percebem-se recompensadas. Ou seja: agir com firmeza, mas também carinho, com amor e atenção é fundamental. Nunca funcionará apenas punir. Menos ainda demonstrar desamor, indiferença.

Em psicoterapia, intervenções no contexto familiar são de importância crucial. Certo dia, ao conversar com uma avó que acompanhava o neto no acompanhamento terapêutico e que se queixou das confusões dele na escola e em casa, comecei a explicar sobre a importância de os adultos terem autoridade e muita firmeza com crianças com transtorno de conduta. E afirmei:  “Os professores que eles mais gostam são os mais duros com eles”. Nesse momento o menino, de 9 anos, sorri com cara de quem foi pego no flagra, olha para mim e em seguida para a avó e diz:  “É mesmo”. A avó também ri discretamente, acenando concordância com a cabeça porque ela – explicou-me depois – conhecia os professores a quem ele respeitava e de quem gostava.  Expliquei-lhe também que ela deveria tomar cuidado para não cair nas armadilhas dele, não se deixar manipular. Eles ficam medindo força o tempo todo. E testando os adultos. Ela sabe bem disso.

Aos poucos, têm-se que ir ensinando a criança a respeitar as regras, a cumprir normas que as demais cumprem, a respeitar as outras pessoas e até os animais – da mesma forma que ela quer ser respeitada. Isso terá que ser feito várias vezes, quantas vezes forem necessárias, incansavelmente deve-se mostrar que a vontade dela não pode prevalecer sobre o direito das outras pessoas. E deve-se, ainda, tomar cuidado para não “premiar ” a criança fora de hora – o que irá confundir-lhe as ideias.

Aqui relacionei apenas algumas dicas de como lidar com crianças com transtorno de conduta. Não quero dar a entender que seja algo fácil, mas tampouco devem os familiares se desesperarem ou desistirem de cuidar da criança ou deixarem de ajudá-la a vencer as inatas inclinações para o erro.  Afinal, nossos filhos, como todos nós, têm por desafio e meta de vida a evolução.

Fontes:

  1. CID-10 – Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento, Descrições Clínicas e diretrizes diagnósticas. Ed. Artmed, 2007
  2. Transtornos de Personalidade em Direção ao DSM-V. William O Donohue, Katherine A. Fowler, Scott O. Lilienfeld. Ed. Roca, 2010.
  3. DSM-V, APA, 2000.

 

 

Volta, Freud! Volta Piaget!

Fato da vida real:
Domino calmo; dia de visitar a família. Aninha, de 7 anos, desfila pela casa sacudindo no ar uma nota de 5 Reais. Eu acho estranho e …
_ De quem é esse dinheiro, Aninha?
_ Meu.
_ Quem te deu?
_ Eu achei.
_ Achou onde?
_ Achei, tia (já brava).
Desconfiada, prossigo com a investigação…
_ Você não pegou da minha bolsa, né?
Ela me fuzila com o olhar e faz pose de indignação (mão esquerda na cintura e corpo curvado pra direita) e diz!
_ Eu ia pegar dinheiro da sua bolsa, tia?
Adorei a indignação dela: revela brio e vergonha na cara. Nesse momento, Felipe, de três anos… eu disse três anos de idade, intervém em defesa da irmã:
_ Mas tia, tem dinheiro na sua bolsa?
Percebo a armadilha e fico calada. Ele insiste:
_ Tem dinheiro na sua bolsa, tia? Tem ou não? (ele adora essa colocação incisiva, tem ou não, vai ou não, quer ou não; não permite embromação)
Ataco de Tio Patinhas e respondo:
_ Tem não, Felipe.
_ Então?! A Aninha não pegou da sua bolsa!
PERPLEXIDADE!!
Só me resta elogiar a inteligência dele e reforçá-lo:
_ Você é muito inteligente, Felipe! Ele sorri e fica feliz, mas eu continuo perplexa. Porque o episódio põe por terra a teoria de Piaget sobre Desenvolvimento Infantil. De acordo com esse grande pesquisador, o pensamento hipotético dedutivo e o raciocínio lógico só ocorrem na fase do Estágio Operatório Formal, que começa por volta dos 12 anos de idade!!

E agora, José?! Volta Freud. A teoria dos grandes mestres está ficando obsoleta.

Estudando a maconha a sério

Um dia inteiro de estudos e discussões sobre a maconha!  O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo vai realizar em junho próximo o evento MACONHA: UM SIMPÓSIO BASEADO EM EVIDÊNCIAS.  

Entre os temas abordados recortei cinco:

  1. Neurobiologia da maconha e dos canabinoides, efeitos no cérebro e na cognição.
  2. Cognição e déficit de memória em usuários de maconha.
  3. Alterações estruturais e funcionais relacionadas ao uso de cannabis: aspectodsd de neuroimagem.
  4. Tratamento farmacológico de dependentes de maconha: o que sabemos hoje.
  5. Abuso de maconha, genética e esquizofrenia: reflexões sobre neurodesenvolvimento, psiquiatria, saúde pública e impacto na sociedade.

Acesse o link acima e veja a programação completa e os nomes dos profissionais que irão abordar os temas do simpósio, organizado pelo Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do IPq/USP.

SERVIÇO

Data: 04/06/2016

Horário: das 8h às 17h

Local: Anfiteatro Instituo de Psiquiatria/USP

 Programa completo, preços e inscrições: http://grea.org.br/grea-midia-032.php – Telefones: 11 26617891/8046 – E-mail: grea@usp.br 

Conhecer a si mesmo para evoluir

Livro de importância fundamental: Autodescobrimento – uma busca interior, de Joanna d Ângelis e Divaldo Franco. As ideias nele expostas,  em estilo claro e objetivo, convergem indiscutivelmente para a mesma direção dos conceitos de Carl Jung. Quando fala de evolução do espírito, Joana está defende o mesmo conceito junguiano de Individuação do sujeito. Não sei quem inspirou quem; o que importa são os ricos esclarecimentos à luz da Espiritualidade acerca da Vida, da eternidade do espírito, da marcha evolutiva da humanidade, da nossa necessidade de autoconhecimento e de lutar contra quaisquer mecanismos de fuga e resistência ao autodescobrimento e amadurecimento ,do Si-mesmo. Um trecho que exemplifica:.

“Nunca será demasiado propor-se elevação moral e renovação espiritual do ser humano, autor do próprio destino, considerando-se que, de acordo om aquilo que aspira e faça, proporcionará a si mesmo, hoje ou mais tarde, o resultado das suas escolhas. Introspecção, alegria, reflexão, cultivo de ideias superiores, oração  constituem terapias avançadas, com os seus efeitos vibracionais positivos, em favor de quem os mantenha, produzindo saúde pela recomposição do equilíbrio psicológico” (pág. 38). A obra contém algumas explicações sobre psicossomática, como por exemplo: a agressividade contida (impulsos de violência sob rude controle), pode ser causa de artrite reumatóide e d outras formas de artrite. Mais: vinganças disfarçadas voltam-se contra o organismo físico e mental de quem as alimenta produzindo úlceras.   Leitura super recomendada.

autodescobrimento - G

As pessoas vão gostar mais de você se…

Na mesma direção do que propõe o post anterior, destaco  orientações que podem ser úteis na interação social. Elas foram postada no site de Larry Kim, um palestrante com formação em Engenharia e fundador da WordStream, uma empresa de marketing na internet.

  1. Use o nome da pessoa

Vamos encarar: somos todos grandes narcisistas e amamos o som do nosso próprio nome. Saiba nomes e fazer bom uso deles. Sempre use o nome de um indivíduo em uma conversa. Um clássico do famoso livro de Dale Carnegie, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, bate nessa tecla e funciona.

  1. Sorria – de verdade!

Embora nós vivamos na era digital, em que cada vez mais se substitui a interação humana pela tecnologia, ainda somos animais sociais. Como seres humanos, nós usamos a interação social como ferramenta de feedback e fazemos muitas escolhas conscientes e subconscientes baseados na ideia de interação com os outros.
Quando alguém oferece um enorme sorriso repleto de autenticidade, uma certa felicidade é transmitida sem que se perceba. Há muitos estudos que mostram como o humor, positivo ou negativo, se espalha entre os indivíduos. Se a sua atitude positiva ilumina o dia de alguém, essa pessoa vai te amar por isso.

  1. Ouça (não apenas com os ouvidos)

É óbvio que as pessoas vão gostar mais de você se forem ouvidas por você. (…) Você pode mostrar que está ouvindo alguém através da linguagem corporal (posicionar o seu corpo e espelhando a sua posição), fazendo contato com os olhos, e a confirmação verbal (vamos falar mais sobre isso na próxima).

  1. Seja Verbal

A maioria dos livros de psicologia se referem a esta técnica como “escuta ativa”. A escuta ativa significa mostrar que está ouvindo ao repetir ideias e até sentenças inteiras que acabou de ouvir. Por exemplo:

Outro: Eu fui a um evento de degustação de cerveja impressionante no fim de semana; tive que provar uma tonelada de cervejas locais e de muitos estados.
Você: Você teve que experimentar um monte de cervejas diferentes, hein?
Outro: Sim, foi muito divertido. O meu favorito foi o XPTO.
Você: O XPTO foi o seu favorito?
Outro: Sim, tinha um gosto excelente.

Enquanto na forma de texto isso parece uma conversa estranha, na fala esse tipo de diálogo pode ajudar muito. Faz o outro indivíduo se sentir como se você realmente estivesse prestando atenção. Além disso, as pessoas gostam de ouvir suas próprias palavras ecoarem de volta para eles, é como se desse um tapinha no ego.

  1. Converse e prove que você está prestando atenção

Já discutimos o quanto é importante mostrar às pessoas que você está ouvindo. Ronco durante um discurso ou conseguir um olhar vidrado em seus olhos não renderá amigos. Para realmente mostrar a alguém que você está prestando atenção, tente mencionar um tópico que a outra pessoa falou antes. (…) Se sua amiga disser que irá pintar a cozinha com uma nova cor no fim de semana, pode perguntar-lhe na segunda-feira se ela gostou da nova cor.  Não precisa ser grandes coisas ou eventos de mudança de vida. Na verdade, às vezes pode ajudar mais diz mais você demonstrar interesse sobre pequenos acontecimentos na vida da outra pessoa.

  1. Cumprimente e elogie com sinceridade

Como observado pelo famoso especialista em auto-aperfeiçoamento e já citado Dale Carnegie, as pessoas anseiam por apreciação autêntica. Isso é muito diferente de bajulação vazia, o que a maioria das pessoas são hábeis em detectar. Ninguém gosta de  puxa-sacos, e a maioria das pessoas não gosta de ser bajulada. O que as pessoas realmente querem é apreço sincero – serem reconhecidas e apreciadas por seus esforços. Além de dar às pessoas apreciação sincera é também importante ser generoso. As pessoas adoram ser elogiadas. É ótimo ouvir que você realizou bem um trabalho. Quando alguém fizer algo certo, diga-lhe isso; essa pessoa não se esquecerá.

  1. Critique com tato

Na mesma linha, ao mesmo tempo em que você deve ser generoso nos elogios, deve ser mesquinho com as suas críticas. As pessoas têm egos delicados, e até mesmo uma leve palavra de condenação pode ferir o orgulho de alguém. É claro que será necessário, por vezes fazer críticas, mas devem sempre ter um propósito e serem feitas com cuidado. Se alguém comete um erro, não critique essa pessoa na frente do grupo. Seja discreto, seja delicado. Considere a ideia de amortecer a crítica fazendo algo como um sanduíche – uma estratégia eficaz que consiste em fazer elogios antes e depois de uma crítica. Seu objetivo deve ser realmente fazer a outra pessoa reconhecer os erros sem você apontá-los. Outra estratégia para críticas de forma diplomática é começar por discutir seus próprios erros antes de seguir para os erros da outra pessoa. Em última análise, o objetivo é sempre ser gentil com as críticas e só fazê-las quando for verdadeiramente necessário.

  1. Evite dar ordens – faça perguntas

Ninguém gosta de ser mandado. Então, o que você faz quando precisa que algo seja feito? A verdade é que você pode obter o mesmo resultado com uma pergunta ao invés de mandar. O resultado pode ser o mesmo, mas o sentimento e a atitude do indivíduo podem variar muito, dependendo da sua abordagem. Você pode substituir “Eu preciso desses relatórios esta noite. Traga-os o mais rápido possível” por “Você acha que poderia me enviar esses relatórios ainda esta tarde? Seria de grande ajuda“. Fará muita diferença.

  1. Seja uma pessoa real, não um robô

As pessoas gostam de perceber caráter e autenticidade. Enquanto a doutrina de negócios clássico destaca a importância de uma postura de macho alfa (ombro para trás, queixo para cima, forte aperto de mão), é fácil não fazer muito sucesso com ela.
Em vez disso, tente ser ao mesmo tempo confiante e respeitoso. Alguns especialistas sugerem que se pode demonstrar cooperação ao ser apresentado a alguém pisando na direção da pessoa e ao mesmo tempo dobrando-se ligeiramente para a frente, formando suave arco com o corpo. Tais gestos podem ajudar a causar boa impressão sobre você.

  1. Torne-se um especialista em Storytelling

As pessoas adoram uma boa história; e grandes histórias exigem contadores de histórias sofisticados. Contar histórias é uma forma de arte que exige compreensão da linguagem e ritmo. Domine bem a tradição oral de contar histórias e suas chances de sucesso vão aumentar expressivamente.

  1. O toque físico

Essa é um pouco complicada; eu hesito até em mencionar isso porque, obviamente, precisa ser feito com muito critério. No entanto, tem sido demonstrado que o contato físico muito sutil torna os indivíduos mais conectados a você. Um grande exemplo é tocar suavemente o braço de alguém (com a mão esquerda) enquanto dá as mãos (com a mão direita) – é uma ótima maneira de terminar uma conversa. Nem todo mundo vai se sentir confortável com essa estratégia, e se isso não é para você, tudo bem.

  1. Peça conselhos

Pedir conselhos a alguém pode ser um tanto quanto surpreendentemente, uma grande estratégia para levar as pessoas a gostarem de você. Pode demonstrar que você valoriza a opinião da outra pessoa e a respeita. Todo mundo gosta de se sentir necessário e importante. Quando você faz alguém se sentir melhor sobre si mesmo, essa pessoa certamente vai acabar gostando de você por isso.

  1. Evite os clichés

Vamos encarar: a maioria de nós não gosta de pessoas chatas. Em vez disso, nós gostamos do inusitado, do exclusivo, às vezes até do bizarro. Um grande exemplo de situações em que é importante evitar clichês é em entrevistas. Ao invés de repetir o “prazer em conhecê-lo” na conclusão de uma entrevista, adicione algum tipo de variação para torná-lo memorável, mesmo que de forma pequena. “Foi um verdadeiro prazer aprender mais sobre a [empresa]” Experimente algo como “eu realmente gostei de falar com você hoje”. Você não tem que reinventar a roda – basta ser você mesmo.

  1. Faça perguntas

Fazer perguntas pessoais – sobre suas vidas, seus interesses, suas paixões – é uma maneira infalível de ganhar pontos. As pessoas são egocêntricas – elas gostam de falar de si mesmas. Se você faz perguntas que levem as pessoas a falarem sobre si, vão sair da conversa pensando que você é legal. Mesmo se a conversa realmente não der à outra pessoa uma razão para gostar de você, o interlocutor irá pensar melhor sobre você inconscientemente.

Fonte:  Larry Kim

 

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Confusão entre transtorno mental e falta de educação

Muitas das dificuldades das crianças e dos adolescentes que atendemos na unidade de saúde mental passam ao largo de um transtorno mental. São, sim, alterações de ordem psicológica, mas que não teriam surgido ou se agravado se as pessoas tivessem boa educação, bons modos e o mínimo de traquejo social. Obviamente que não se enquadram aqui as alterações comportamentais com traços de impulsividade cuja psicogênese são traumas mais contundentes e inconscientes, que acabam por abrir fissuras no psiquismo, onde se acumulam vasto material para complexos psicológicos que sabotam o direito de decisão do sujeito. Estou me referindo mais especificamente a crianças que são punidas e isoladas pelos coleguinhas na escola, ou a adolescentes que são hostilizadas rotineiramente e até mesmo adultos (pais, mães e avós) que não enxergam o efeito bumerangue das próprias atitudes e/ou palavras e que redundam em retaliação contra eles próprios.

Atendi um menino muito fofo de 8 anos de idade com queixa de agressividade na escola. Vou chama-lo aqui de Gui (nome fictício, claro). A avó contou que ele se sentia isolado, não tinha amigos na escola, que vivia brigando e não prestava atenção nas aulas. A investigação – nem tão profunda – revelou a dinâmica de tudo. Em casa, Gui só era criticado, punido e recebia noções de certo e errado muito confusas, como também as de limite. O garoto chegou na escola acreditando que podia fazer qualquer coisa e, em sendo rechaçado pelos demais, aprendeu a revidar agressivamente. Sentindo-se rejeitado, sofria e se desconcentrava fácil. Claro que essa dinâmica está aqui exposta de forma bem resumida, desconsiderando-se meandros importantes que exigiriam muito espaço. Bom, um olhar mais atendo levou à percepção de que Gui, na verdade, gostava de carinho e de elogios, mas que dava aos outros o oposto disso.

Fez muito sentido pra ele a ideia de que ele vinha recebendo daquilo que dava aos  outros. Assim, compreendeu que os colegas não gostavam da companhia dele porque ninguém gosta de ser agredido (e Gui agredia de diferentes formas: criticando, debochando, imitando-os sarcasticamente e até fisicamente dando tapas na cabeça). Esclareci como os coleguinhas gostariam de ser tratados, ampliei a explicação sobre a famosa frase crística “não faça ao outro o que não gostaria que o outro fizesse a você” e propus que ele se empenhasse em ser gentil e educado com todas as pessoas para verificar qual seria o resultado. Ele compreendeu e prometeu agir e reagir de forma diferente.

Sessão após sessão ele começou a entrar no consultório com uma expressão sempre melhor. E a expressar afetividade. Havia desaparecido a carranca desafiadora, o gesto de desconfiança à minha proposta de abraço (que com o tempo passou a ser iniciativa dele) e passaram a ser comuns as deliciosas gargalhadas durante as atividades em sessão. O feedback da avó, agora também sorridente, dava conta de que o garoto estava ótimo, “estava de parabéns “, não havia recebido mais reclamações dele por parte da escola e que até em casa ele estava diferente. Então, uma vez sozinhos no consultório, perguntei ao Gui certo dia.

_ E aí, Gui, como estão as coisas na escola?

_ Tudo bem… agora tenho muitos amigos lá!

Finjo espanto e pergunto?

_Mesmo? Que coisa boa… Isso é bom?

_ Ah, sim! Muito melhor.

_ E o que mudou? Foram as pessoas lá ou…

Ele me cortou e se apressou em dizer:

_ Ha, não…  fui eu que mudei; eu não brigo mais com ninguém nem bato mais neles… antes, eu passava pelos meus colegas na sala e batia neles…

Interrompo pra entender melhor:

_ Batia como?

_ Quando eles “tava sentado” (sic), eu passava e dava um tapa na cabeça deles ou um negócio assim na orelha (e fez com os dedos gesto reproduzindo um peteleco)…

Interrompo novamente:

_ Uai, e para quê você fazia isso?

_ Ah, porque me dava vontade…

_ E agora?

_ Não. Eu não bato mais em ninguém… eu entendi que isso dói… eu não quero isso,  e agora eles são tudo meus amigos…

Corrigidas as condutas agressivas (e ajudou muito os parentes fazerem as correções apontadas como necessárias no ambiente familiar), a criança passou a ser aceita, a sentir-se integrada e gostou de receber respostas positivas às reações positivas dele.

Com esse breve relato quis demonstrar que por falta de educação, orientação inadequada e fraco reforço nas boas condutas, o menino vinha comportando-se de forma a vingar-se do carinho que lhe faltava ou se expressando sem freios sociais. Sendo ele uma criança muito mais carente de reforço, afetividade e reconhecimento que a maioria, buscou compensar-se por meio de uma vingança inconsciente.

Claro que nem sempre será tão óbvio nem tão fácil assim, mas existem muitos casos com essa configuração ou algo semelhante. Outro exemplo: atendi uma adolescente de 14 anos que vinha sendo sucessivamente expulsa das escolas por atos de desrespeito e rebeldia contra colegas e professores. Neste caso, tratava-se também de pessoa muito inteligente, sensível e carente de afeto, reforço e reconhecimento, mas que não sabia como conseguir isso. Uma clarificação convincente e boa demonstração das causas motivacionais da agressão e dos  seus prováveis resultados, levaram-na a observar-se melhor e a reconhecer-se como a responsável pelas coisas ruins que lhe aconteciam. Propus uma atuação oposta ao que ela sempre fazia, quando ocorreu um incidente com uma professora: admitir o erro, pedir desculpas e prometer não repetir a conduta. Ela conseguiu fazer o proposto e o resultado foi incrivelmente motivador para  que ela revisse todas as próprias condutas na escola e passasse a ter experiências positivas, compensadoras e agregadoras no ambiente escolar – como também em família.

Mais dois exemplos: uma mãe que desrespeitava as pessoas com agressões verbais e xingamentos diante da menor contrariedade. A filha copiou isso, em casa e na escola;  sofreu as consequências e a mãe procurou ajuda. Em outro, a criança contava episódios de erros dos colegas de escola, a mãe ia à direção para denunciar,  reclamar da criança mencionada, mesmo quando não envolvia a própria filha. O resultado foi que a menina adquiriu fama de delatora, de fofoqueira e foi excluída das conversas e brincadeiras. A mãe, então, passou a classificar os comportamentos dos colegas da filha como discriminação racial (porque a filha era mulata), mas na verdade nada havia de discriminação. Eram apenas respostas aos equívocos de ambas. Mostrei isso à mãe da criança e à menina, mas em vez de tentar entender os colegas da filha e mudar suas próprias condutas, como também orientar adequadamente a menina, ela optou por tirar a garota da terapia.

Já presenciei várias atitudes de crianças que podem ser consideradas tão somente como falta de educação, muitas vezes resultantes da falta de autoridade parental e/ou falta de repertório ou conhecimento para intervir corretamente e ensinar a criança a se comportar bem. “Pitis”, birras, atrevimentos banais muitas vezes são confundidos com TDAH, deficiência mental e até mesmo transtornos mais graves. E em outros casos, a falta de educação dos pais e dos menores agrava um quadro de real alteração psicoemopcional ou psiquiátrico.

E claro que existe todo um contexto que favorece esse quadro de deseducação das crianças, como por exemplo ausência dos pais, excesso de programação televisiva mais voltada para audiência do que para a educação, omissão dos adultos responsáveis,  isolamento na educação das crianças (antes as mães compartilhavam com muitas outras pessoas o educar dos filhos, com tias, tios, vizinhas, amigas, etc), .

Então, pode-se questionar os graves efeitos da falta de valorização dos antigos ensinamentos sobre boas maneiras e bons modos e, até mesmo, da falta de coerção sobre veículos de comunicação em massa que veiculam qualquer coisa em qualquer horário. Não necessariamente censura, mas algum freio, algum parâmetro faz-se necessário.