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Síndrome do Pânico: compreensão e tratamento

Carmelita G. Rodrigues, Psicóloga Clínica

O transtorno do pânico vem sendo diagnosticado com relativa freqüência entre pessoas de diferentes faixas etárias e nível sócio-econômico. Afeta um grande número de pessoas, causando grande sofrimento. A boa notícia é que há tratamento eficaz para esse problema que tanto desestrutura a vida das pessoas.

A Síndrome do Pânico, manifestação física e psicológica de intensa apreensão, temor ou terror que surge sem causa aparente e em forma de ataques súbitos. Investigando a origem desse transtorno pela ótica da Gestalt-terapia, é possível afirmar que o pânico se desenvolve a partir de experiências de desamparo, real ou imaginário, em que o sujeito vivencia o conflito interno entre situações ao mesmo tempo intolerantes e indispensáveis. Diante do impasse, o organismo recorre a mecanismos de defesa, buscando preservar a sobrevivência, e desenvolve a neurose do pânico.

A crescente incidência de casos pode ter relação com o modo de vida contemporâneo, em contextos de individualismo, competitividade exagerados e falta de compartilhamento de cuidados com as crianças, comum em décadas atrás. É o que sugere Mário Eduardo Costa Pereira (2003).

Pesquisas recentes e a experiência clínica mostram que em muitos casos só o uso de remédios não leva à remissão completa dos sintomas. Embora os medicamentos apresentem eficácia na redução das crises, em muitos casos os pacientes continuam apresentando sintomas de ansiedade, medo de novos ataques, necessidade de apoio externo e dependência do suporte médico mesmo após anos de tratamento.

Um ataque de pânico ocorre repentinamente em situações normais do cotidiano e sem a existência de risco real, isto é, vem do nada e sem motivo. O DSM-V, edição de 2002, classifica ataque de pânico como Transtorno de Ansiedade, caracterizado por período de intenso medo ou desconforto, freqüentemente acompanhado de sentimentos de catástrofe iminente e desejo de escapar. Os ataques têm início súbito e aumentam rapidamente, atingindo um pico após 10 minutos, aproximadamente.

Os sintomas físicos dos ataques de pânico são: palpitações; sudorese; tremores ou abalos; sensação de falta de ar ou sufocamento; sensação de asfixia; dor ou desconforto torácico; náusea ou desconforto abdominal; calafrios ou ondas de calor; tontura ou vertigem. Eles ocorrem associados a sintomas emocionais: desrealização ou despersonalização (sentir-se como sendo irreal ou estranhar a si mesmo como se fosse outra pessoa); medo de perder o controle ou de enlouquecer; medo de morrer e presença de parestesias (sensações de formigamento, dormência, picada ou queimadura).

O Transtorno de Pânico freqüentemente se manifesta associado a outro transtorno de ansiedade, a agorafobia. Além disso, as pessoas que sofrem de Síndrome do Pânico alteram significativamente seus comportamentos e rotinas de vida em função do medo de sofrer novos ataques, o que em muitos casos acaba por afetar a auto-estima e resultar em outro transtorno associado, a depressão.

As sensações físicas e emocionais são tão intensas que, aos olhos das pessoas que vivenciam o ataque e das que o observam, parece insensato aceitar terem vindo do nada. Sem encontrar uma razão para seus poderosos sentimentos, quem sofre o ataque de pânico começa a pensar em infarto do coração, tumores cerebrais ou colapsos mentais, entre outros males. (Baker, 2000).

O questionamento freqüente é “por que o pânico se manifesta em algumas pessoas e em outras não?” De acordo com Kipper (2004), uma das suposições é que haja uma vulnerabilidade neurofisiológica inata (constitucional) que, associada à exposição crônica de situações psicologicamente estressoras, redundaria em crises de pânico. Manfro (2004) também menciona uma suposta vulnerabilidade constitucional subjacente ou diátese para ansiedade, herdada geneticamente e expressa de forma variável ao longo da vida.

A inexistência de explicações neurofisiológicas ou neuroquímicas definitivas leva a suposições diferentes, conforme a orientação teórica predominante na análise. Contudo, nas hipóteses psicológicas, há uma tendência a se aceitar que as reações de pânico ocorrem quando o organismo se defronta com eventos estressores ou traumáticos que de alguma forma contenham ameaça de desamparo e desproteção e o sujeito fracassa nos esforços de elaborar essas vivências ameaçadoras.

A angústia provocada pelas crises e o medo de novos ataques levam ao insistente questionamento “por que aconteceu justamente naquele momento?”. Uma resposta parcial para essa dúvida vem da observação clínica de muitos especialistas e de estudos teóricos: os ataques parecem ter “gatilhos” que provocariam as primeiras crises de pânico, situações como morte ou doença de cônjuge, separação conjugal, gravidez, perda de um bebê, sair de casa, começar em novo emprego, operação ou  doença incapacitante, muito estresse no trabalho e graves problemas financeiros, entre outros. Todas essas situações, em essência, podem ser consideradas estressoras e a “pressão” oriunda delas pode irse acumulando até se manifestar de forma abrupta e inesperada, detonando um ataque de pânico.

A partir da classificação do pânico como um tipo de neurose, conforme DSM-V, e da  concepção gestáltica de neurose como sendo o acúmulo de “gestalten inacabadas”, conclui-se que a Síndrome do Pânico  é uma neurose desenvolvida quando o indivíduo vivencia situações de necessidades autênticas interrompidas ou não-satisfeitas; quando é submetido a sucessivas interrupções no fluxo natural de alternância entre figura e fundo. Repetidas vezes o indivíduo apresentaria dificuldade de ajustamento entre o organismo e seu meio frente a determinadas situações para ele consideradas estressoras.

No transtorno do pânico, o organismo recorre ao funcionamento neurótico como forma de recuperar o equilíbrio perdido na relação conflituosa entre o indivíduo e seu meio. O impacto da divergência entre imperativos sociais e pessoais é determinante no surgimento da neurose:

De acordo com a teoria da Gestalt, diante da impossibilidade de satisfazer uma de suas necessidades e realizar bom contato ou de poder evitar o contato, o organismo se vê obrigado a recorrer a estratégias que assegurem sua integridade e sua sobrevivência. Essas estratégias são as chamadas resistências ou Mecanismos de Bloqueio do Ciclo de Contato.

Essa concepção da gênese da neurose origina-se do pressuposto de que organismo e meio são partes de um todo, numa relação de reciprocidade em que um modifica o outro. Para funcionar em equilíbrio, o organismo necessita dessa relação de trocas com o meio externo, que ocorre na fronteira de contato.

Para os teóricos da Gestalt, o ser humano é essencialmente biológico e tem impulso natural em direção ao equilíbrio. Com essa tendência para a auto-regulação organísmica os indivíduos estariam sempre buscando formas de permanecer em homeostase. A neurose seria a via alternativa a que o organismo recorre, numa situação adversa ou ameaçadora, para manter a homeostase. Esse objetivo, no entanto, não é atingido por completo: o estado neurótico seria uma homeostase falsa, um ardil provisório que acaba se perpetuando.

Fritz Perls (1988) afirma que do ponto de vista da Gestalt-terapia, a pessoa em estado de neurose não é  uma pessoa que teve um problema no passado, mas uma pessoa que tem um problema no presente:

“O neurótico (…) é uma pessoa que se engaja cronicamente em se auto-interromper, que tem um sentido de identidade inadequado (e, portanto, não pode distinguir adequadamente entre si mesmo e o resto do mundo), que tem meios inadequados de auto-suficiência, cuja homeostase psicológica não funciona, e cujo comportamento surge de esforços mal dirigidos para a aquisição de equilíbrio. (…) O neurótico acha difícil participar completamente do presente –  seus negócios inacabados do passado estão em seu caminho.” (PERLS, 1988, p.76).

Tratamento – Para a Gestalt-terapia, tratar uma neurose implica em restituir a integração da pessoa, trabalhando as interrupções de contato utilizadas para evitar ou suportar o conflito entre necessidades internas e imposições do meio. A interrupção do contato, embora possa funcionar como estratégia de sobrevivência e de defesa do ego, pode também impedir a mudança, o crescimento e a integração do Self.

Com base nesse pressuposto, a Gestalt-terapia acredita que somente por meio da vivência intensa, do contato pleno com tudo que é temido ou gerador de conflito é possível fortificar o ego, integrar o Self e produzir crescimento.

Nas sessões psicoterápicas é propiciado ao cliente  oportunidade para ele reconhecer e lidar com as experiências inacabadas. Segundo Perls (id.) o terapeuta deve lidar com cada um dos mecanismos neuróticos à medida que eles aparecem. Cada um deve ser integrado pelo paciente e transformado numa expressão de si mesmo:

“Na terapia temos que restabelecer a capacidade do neurótico de discriminar. Temos que ajudá-lo a descobrir o que ele é e o que ele não é; o que o gratifica e o que o contraria. Temos de guiá-lo para a integração; ajudá-lo a encontrar o próprio equilíbrio e o limite entre ele e o resto do mundo. É simples dizer ‘seja apenas você mesmo’, mas para o neurótico, milhares de obstáculos lhe barram o caminho. (Idem, p.56).

Pesquisadores que sucederam Perls sugeriram caminhos para desconstruir cada um dos mecanismos de defesa, entre eles, Jorge Ponciano Ribeiro (1997) e os Polsters (2001). Essas  propostas estão expostas neste blog, na página “+ Letras”, no post Mecanismo de Bloqueio de Contato.

Uma das técnicas da Gestalt-terapia para restabelecer o contato do indivíduo com ele mesmo e a sua capacidade de interagir de forma saudável com o meio externo é a ampliação da consciência. “O ‘conscientizar-se’ fornece ao paciente a compreensão de suas próprias capacidades e habilidades, de seu equipamento sensorial, motor e intelectual” (Perls, 1988, p.77).

Essa ‘conscientização’ ampliada significa experienciar, no presente, uma situação inacabada ou um trauma; significa focalizar o evento como figura no aqui e agora, perceber as reais emoções e os sentimentos genuínos envolvidos e, apreendendo o fato sob uma ótica mais realista, dar a ele novo significado. Pode-se obter com isso que esse evento deixe de ser figura e passe para o fundo da configuração total, a vida do paciente.

Perls (1988) destaca o aspecto terapêutico do paciente experienciar a si mesmo, dar-se conta de seus gestos, de sua respiração, da sua voz, de suas expressões faciais e dos pensamentos. Quanto mais ele se der conta de si mesmo mais aprenderá sobre o que é seu si-mesmo. Esse estar “consciente” (aware) ou o dar-se conta de algo que lhe ocorre interna e externamente está contido na sentença “agora eu percebo conscientemente”. O agora tem o poder de nos manter no presente e nos fazer perceber que nunca é possível uma experiência exceto se no presente. O eu é usado para desenvolver o sentido de responsabilidade pelos próprios sentimentos, pensamentos e sintomas.

Outro propósito da Gestalt-terapia é promover a integração entre as polaridades, ou seja, a aceitação de que além de bonzinhos podemos ser também mauzinhos; solidários, mas também egoístas; passivos e combatentes; ativos e preguiçosos; que certas reações, sentimentos e emoções são inerentes à condição humana, inclusive com função de auto-preservação, como a raiva que nos ensinam a reprimir. O processo de identificação com a polaridade alienada é fundamental para o resgate do funcionamento saudável e da integração do Self.

A técnica da cadeira vazia (hot-seat) consiste em colocar o cliente sentado e à sua frente uma cadeira vazia na qual, imaginativamente, estará sentado um personagem qualquer a quem o paciente deve se dirigir. É uma vivência útil para resolver situações inacabadas, nas quais a pessoa não consegue estabelecer contatos satisfatórios nas suas inter-relações devido à existência de sentimentos como raiva, mágoa e ressentimento, conscientes ou não.

A cadeira vazia é uma espécie de psicodrama imaginário em que o paciente ora assume seu próprio papel, ora o papel da outra pessoa em questão, sentando-se na cadeira vazia e representando a pessoa à qual deseja falar algo ou dela obter resposta, explicação ou qualquer outra fala que proporcione o fechamento da gestalt aberta.  É uma técnica muito usada também em trabalhos de despedida, nos processos de “dizer adeus”, seja a alguém que já morreu ou afastou-se definitivamente do paciente.

Outra intervenção terapêutica usada por gestalt-terapeutas é o trabalho com sonhos. “Perls sugere que sonhos são mensagens existenciais que podem nos ajudar a compreender quais são as situações inacabadas que carregamos conosco, o que nos falta em nossas vidas, o que evitamos fazer e como evitamos e nos desapropriamos de partes nossas” (Fadiman, 2002, p.145).

Em Gestalt-terapia não se interpreta o sonho; o que se faz é trazê-lo de volta à vida e revivê-lo no presente, como se estivesse ocorrendo aqui e agora. O paciente é orientado a vivenciar todo o sonho ou uma parte muito significativa dele, tornando-se a pessoa, o objeto, a coisa ou a sensação integrante do sonho. Com esse exercício, o paciente pode ter insights, tornar-se aware quanto a aspectos não-compreendidos, revelados pelo inconsciente por meio do sonho.

A viagem de fantasia, técnica usada pela Gestalt-terapia para facilitar o contato do paciente com lembranças, traumas, conflitos e sentimentos relacionados a interrupções do contato, é muito semelhante ao trabalho com sonhos. Esse recurso terapêutico possibilita o contato com conteúdos reprimidos que impedem o avanço no processo de autoconhecimento e de mudança do paciente.

Assim, tratar a neurose do pânico a partir do enfoque e de técnicas da Gestalt-terapia é restituir a integração da pessoa, trabalhar as interrupções de contato utilizadas para evitar ou suportar o conflito entre necessidades internas e imposições do meio. Com a elaboração e re-significação das experiências traumáticas, a desconstrução dos mecanismos de bloqueio de contato, o  restabelecimento do fluir natural entre  figura/fundo e a recuperação da capacidade do indivíduo de fazer contato consigo mesmo e com o meio é restituída a propensão inata do ser humano de ter auto-regulação organísmica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Baker, R. (2000). Ataques de Pânico e Medo. Rio de janeiro: Vozes.

Fadiman, J. e Frager, R. (1986). Teorias da Personalidade. São Paulo: Harbra.

Ginger, S. e Ginger A. (1995). Gestalt Uma Terapia do Contato. São Paulo: Summus. Guyton, A. (1993). Neurociência Básica – Anatomia e Fisiologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Knapp, P. (2004). Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed.

Kipper, L. C. et al. (2004). Tratamento do paciente com transtorno do pânico: o papel da psicoterapia psicodinâmica. Revista Brasileira de Psicoterapia,  06 (01), 53-64.

Manfro, G. & H., Elizeth & Shinohara, H. (2004). Transtorno de Pânico in: Knapp, P. Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed,  página 217-225.

Pereira, M. E. C.(2003). Psicopatologia dos Ataques de Pânico. São Paulo: Escuta.

Perls, F. et Hefferline, R. et Goodman, P.(1997). Gestalt-terapia. São Paulo: Summus.

______, Fritz. (1988). A Abordagem gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro: Ed. LTC ( 2ª edição).

Polster, E. e M. (2001). Gestalt-terapia Integrada. São Paulo: Summus.

Ribeiro, J. P. (1997). O Ciclo do Contato. São Paulo: Summus Editorial.

Artigo postado em 08.11.08

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Construção cultural de doença mental e justificativas para a exclusão do doente mental

Bruna Lira de Luca; Carmelita Gomes Rodrigues, Fernanda Daltro, Rosemary Borges (supervisão de José Bizerril Neto, antropólogo e professor universitário)

A loucura, desrazão ou insanidade, a destituição dos direitos dos portadores de enfermidades da mente e as alternativas para contornar esse grave problema social tem sido, ao longo de séculos, motivo de discussões, análises e teorizações. Erros vêm substituindo outros no trato com a questão e na busca pelas abordagens e soluções corretas. Desde a conceituação a práticas terapêuticas social e moralmente condenáveis, muitos têm sido os equívocos cometidos e os tormentos impostos ao doente mental. O que é, afinal, a doença mental? Quais parâmetros têm sido utilizados na delimitação e exploração desse tema? Qual é o lugar social do doente mental? A exclusão social tem funcionado mais como terapêutica, como “proteção” para os membros da sociedade ou não passa de instrumento para assegurar a ordem social vigente? São questões para as quais este estudo busca respostas.

CAUSAS DA DOENÇA MENTAL

“O conceito de enfermidade, seja física ou mental, implica emdesvio de alguma norma claramente definida. No caso de enfermidade física, a norma é a integridade estrutural e funcional do corpo humano. Assim, apesar da conveniência da saúde como tal ser um valor ético, a questão o que é a saúde pode ser respondida em termos anatômicos e fisiológicos. Qual é a norma da qual o desvio é considerado doença mental? Essa questão não pode ser respondida facilmente, mas qualquer que seja a norma, podemos estar certos de uma coisa: essa deve ser estabelecida em termos de conceitos psicossociais, éticos e legais Por exemplo: noções tais como “repressão excessiva”, e “agindo de acordo com um impulso inconsciente” ilustram o uso de conceitos psicológicos para julgar a assim chamada “saúde” ou “doença mental”. (…) Em resumo, quando alguém fala de doença mental, a norma à qual o desvio é comparado é um padrão psicossocial e ético. Contudo, medicamento é procurado em termos de medidas médicas que – se espera e se supõe – são livres da vasta gama de valores éticos. Desse modo, a definição e os termos nos quais se procura a cura da perturbação diferem bastante. O significado prático desse dissimulado conflito entre a alegada natureza da falha e a cura real só dificilmente poderia ser exagerado. (…) Já que as intervenções médicas são designadas para curar somente problemas médicos, logicamente é absurdo esperar que resolvam problemas cuja existência tem sido definida e estabelecida em bases não médicas” (Szasz, 1970:22).

O trecho acima é parte de um ensaio do psicanalista norte-americano Szasz, no qual ele critica o conceito de doença mental adotado pelas teorias e práticas psiquiátricas em que prevalece a analogia entre doença mental e doença corporal, uma concepção reducionista que confunde doença neurológica com problema existencial e interpreta a comunicação das pessoas com o mundo como sintoma de funcionamento neurológico. Szasz considera a Psiquiatria uma instituição essencialmente moral e política e um estratagema para evitar confrontações com os problemas sociais e os conflitos morais. Com essa prática perversa, essa ciência reduziria as vicissitudes da vida a doenças mentais. O psicanalista acusa as intervenções psiquiátricas nesses moldes de funcionarem, em muitos casos, como tirania política disfarçada de terapia.

Após a Segunda Guerra Mundial, segundo Luiz Fernando Dias Duarte (1993), reações ao reducionismo biomédico comprometido com a idéia de “doença mental” começam a ganhar força e se consolidam com enfoque no psicológico e no social. A primeira forma se apoia, sobretudo, na Psicanálise e a segunda, na crítica social às conseqüências do capitalismo e ascensão do industrialismo. A compreensão das perturbações orgânicas e/ou comportamentais é subordinada aos condicionamentos sociais. Surge, então, uma nova expressão em oposição a esse reducionismo biomédico: distúrbio ou aflição psicossocial, que contempla a ação concomitante e recíproca dos condicionamentos sociais e das dinâmicas psicológicas.

LUGAR SOCIAL DO DOENTE MENTAL

Paradoxalmente, o doente tem assistência do Estado para ser cidadão, mas é a própria assistência que lhe priva dos direitos individuais e o exclui do convívio social. No Ocidente, o enfermo mental, segundo Joel Birman (1991), é um cidadão não devidamente reconhecido pelo Estado, o que tem como conseqüência a privação e a negação da cidadania desses enfermos. Essa destituição de direitos tem produzido, ao longo dos anos, uma “dívida social”, devido à imposta exclusão social dos enfermos mentais. Birman atribui aos movimentos sociais da área de saúde mental a incumbência de resgatar a condição de cidadania aos doentes mentais. O assunto tem sido, há anos, tema de debates acerca da assistência psiquiátrica e do movimento antimanicomial.

As causas dessa “condição negativa de cidadania” seriam conjunturais ou estruturais? Birman argumenta que essa destituição “estabeleceu-se estruturalmente na tradição cultural e histórica do Ocidente quando, num lance decisivo, o campo da loucura foi transformado no campo da enfermidade mental, na aurora do século XIX” (Birman, 1991:73).

Ainda segundo Birman (1991), apoiado nas idéias de Foucault, atribuir ao louco o estatuto social de enfermo garantiu-lhe o direito à assistência e ao tratamento sob a proteção do Estado, mas autorizou também a sua exclusão social e a destituição da cidadania plena. Esse paradoxo estrutural da constituição histórica da doença mental estabeleceu-se no Ocidente com o advento da Revolução Francesa: “Foram esse modelo assistencial e essa racionalidade naturalista da medicina moderna, tributários do discurso do Iluminismo, que caucionaram a retirada provisória ou definitiva dos denominados direitos sociais do campo da loucura, com a única exceção de que, como enfermos mentais, os loucos teriam direito de ser cuidados medicamente e ser protegidos pelo Estado” (Birman, 1991:74).

EXCLUSÃO DOS ENFERMOS MENTAIS

No final do século XVIII, a assistência aos chamados na época de “alienados” passa por uma reorganização legal. Na Inglaterra, instituições privadas de beneficência recebem apoio do Estado para exercer função de restituidoras da sanidade e retificadoras de desvios morais. O Retiro, instituição comandada pelo quacre Samuel Tuke, se fortalece e conquista stauts de modelo com as concessões da nova legislação. Na França, a nova ordem social decorrente da Revolução Francesa cria ambiente favorável ao trabalho tido como “revolucionário” de Pinel em Bicêtre. Surgem, assim, dois “mitos” na história dos asilos de loucos. A primeira se destaca por experimentar o afastamento do centro urbano e proporcionar aos doentes mentais um ambiente de proximidade e integração com a natureza, aliado à moral cristã. A segunda, tornou-se célebre por ter “libertado” os loucos de correntes e proporcionado a eles “liberdade vigiada”. No entanto, Michel Foucault (1987) faz contundentes críticas aos modelos de recuperação das duas instituições:

“A operação, tal como era praticada no Retiro, ainda era simples: segregação religiosa para fins de purificação moral. A que é praticada por Pinel é relativamente complexa: trata-se de operar sínteses morais, assegurar uma continuidade ética entre o mundo da loucura e o da razão, mas praticando uma segregação social que garanta à moral burguesa uma universalidade de fato e que lhe permita impor-se como um direito a todas as forma da alienação” (Foucault, 1987: 488).

Mais recentemente, Sérvulo A. Figueira (1978), analisando o conceito de doença mental a partir da relação entre sintomas e ordem pública, afirma que o comportamento psicótico se opõe ao que se considera ordem pública, especialmente a parte que governa as pessoas, em virtude delas estarem na presença física imediata uma da outra. E acrescenta: “grande parte do comportamento psicótico é, antes de mais nada, um fracasso em acatar regras estabelecidas ou reforçadas por algum grupo encarregado de avaliar, julgar ou policiar” (Figueira, 1978:12).

A justificativa para a exclusão social do doente mental é, quase sempre, a necessidade de ensinar a eles regras e condições de convívio social ou de proteger os “normais” de ações insanas. Para Birman (1991), trata-se da imposição de um tratamento moral:

“Instalado forçosamente na periferia do espaço social, nos confins do espaço urbano, nos limites da cidade e da razão, o louco como um não sujeito e como um quase sujeito seria ativamente convertido em sujeito da razão e da vontade, mediante as técnicas de sociabilidade asilar impostas pelo tratamento moral. Somente dessa maneira poderia a figura assujeitada da doença metal ser restaurada na condição de sujeito do contrato social, após ter sido submetido à força ao treinamento moral e ao aprendizado das regras básicas que regulariam as trocas sociais individualizadas” (Birman, 1991:75).

A família tem importância e participação cruciais tanto na exclusão social dos doentes mentais quanto nos processos de cura e reintegração. A opção por uma instituição asilar nem sempre é motivada pelo desejo de “livrar-se do problema”, do “estorvo” ou “motivo de vergonha”. Considerando-se os casos em que as relações de afetividade e responsabilidade são verdadeiras, o afastamento – temporário ou não – do doente pode significar falta absoluta de alternativa, havendo circunstâncias como falta de estrutura física e financeira para atender às necessidades do enfermo e existindo até risco de vida face à insanidade grave e descontrolada. No estudo “Manejo Comunitário, Saúde Mental e Experiência da Pessoa” (Caroso, Rodrigues e Almeida-Filhos, 1998:71) os pós-graduandos em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul destacam o papel da família e das redes de parentesco no processo de reconhecimento e tratamento das doenças mentais:

“Ele (o processo) se opõe ao modelo desenvolvido pela medicina tradicional, segundo o qual a doença é pensada como um fenômeno preponderantemente orgânico e, sendo assim tratada, desvincula-se dos condicionamentos sócio-estruturais, o que em algumas situações dificulta a reinserção social do doente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No Ocidente, a preocupação dos Estados e dos profissionais a serviço deles parece estar menos relacionada ao real estado psicossomático do indivíduo, seus direitos e suas necessidades, e mais com o tipo de relação que ele mantenha com os demais membros da sociedade. Isso significa dizer que os interesses coletivos do Estado têm sido privilegiados em detrimento dos interesses dos doentes mentais. A sociedade adoece as pessoas e, em a doença se manifestando publicamente, as exclui, punindo-as por terem deixado de se “enquadrar” nas exigências, necessidades e nos modelos coletivos. Em seguida, tenta recuperá-las recorrendo aos mesmos instrumentos ou mecanismos de controle que as adoeceram. Tão paradoxal quanto o afastamento do doente mental do convívio social para adequá-lo ao espaço social do qual fazem parte é a utilização de técnicas igualmente opressoras e semelhantes às causas do distúrbio. No entanto, apesar de se aceitar os questionamentos contrários à exclusão social dos enfermos mentais como sendo racionais e humanitários e reconhecer os reais direitos a tratamento social e terapêutico digno, não se pode ignorar as também reais necessidades das pessoas ditas normais, que não podem ter as vidas expostas à insanidade ameaçadora dos doentes. Qual é, então, a solução? Como tratar a questão sem incorrer em exageros ideológicos ou equívocos sociais? Essa reflexão apenas aponta a necessidade de se continuar analisando a questão em busca de respostas e soluções de consenso.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIRMAN, Joel. “A Cidadania Tresloucada” in Reforma Psiquiátrica e Cidadania – 43ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Rio de Janeiro, 1991.

CAROSO, Carlos; RODRIGUES, Núbia; ALMEIDA-FILHOS, Naomar. “Manejo Comunitário em Saúde Mental e Experiência da Pessoa” in Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, URGS, 1998, volume 9, 63-83.

DUARTE, Luiz Fernando Dias. “A Outra Saúde” in Antropologia e Saúde Urbana, Salvador-BA, 1993, 83-89.

ELIADE, Mircea. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

FIGUEIRA, Thomas S. Ideologia e Doença Mental: Ensaio sobre a Desumanização Psiquiátrica do Homem, RJ, Zahar Editores, 1970, 2ª edição.

FOUCALT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica, São Paulo, Perspectiva, 1987.

MINAYO, Maria Cecília de Souza; ALVES, Paulo César (organ.). Saúde e Doença: um olhar antropológico, Rio de Janeiro, Editora Fioruz, 1994.

 

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Garotos mal criados*

 

“Foram os melhores dias da minha vida, pude fazer o que quis, na hora que quis.” A menina, que ficou fora de casa por três dias e cuja mãe foi à delegacia e aos jornais dando-a como desaparecida, não pode ser vista como um caso isolado, curioso ou um motivo para discussões sobre o que está certo ou errado, como em um julgamento público ou num debate sobre o lance duvidoso no futebol. Mas pode servir para uma ampla reflexão acerca da adolescência e das relações entre gerações.

A fala da jovem, que apenas enfatiza o discurso de toda a sociedade, revela-se como um pedido de gozo sem limites. Viver plenamente o presente, a concretização de suas vontades, cabendo aos outros apenas viabilizar e se subordinar a esses desejos. Esse é o anseio dominante, base da intolerância, violência, do individualismo, da ação imediata e irrefletida, marcas de nosso tempo.

Vivemos um momento de fascinação pela infância, pela tecnologia e pelo moderno que Paulo Freire chamaria de consciência mágica. É o oposto extremo à concepção de um século atrás em que não se via a criança como um ser propriamente dito, com desejos e dinâmica própria, mas como adulto em miniatura.

Na visão atual, totalmente oposta, a criança parece estar pronta. É representada em filmes e propagandas como nascida pronta, um ser completo, decidido, formado, maduro, o grande herói dos tempos modernos. Os adultos lhe dão prioridade absoluta, mas não conseguem ensinar uma relação saudável com as coisas mais prosaicas, como seriam alimentação e o vestuário. Rendem-se totalmente a valores e interesses do comércio; não conseguem valorizar o processo das conquistas, expresso por exemplo num livro, e abandonam as crianças às mídias totalitárias; entregam seus filhos (como a si mesmos) à lógica do TER , confundindo gente de bem com gente de bens. E depois surpreendem-se com seus filhos e com o s alheios, como se estes surgissem de explosões sem pé nem cabeça, fruto da televisão e das más influências. Mas se todos os erros de nossos filhos forem fruto das más influências, teremos de concluir que para os filhos de alguém as más influências são os nossos , e assumiremos, completamente, que nós não somos influência alguma. Certos estão os pais quando chamam seus filhos de mal criados.

Nossos filhos não são heróis nem vilões. E quem cria filhos fixados em uma idéia ou outra não os vê de verdade. Paga o alto preço de não ser reconhecido por eles porque primeiramente não os reconheceu. Nossas crianças e nossos jovens são seres com desejos e necessidades – a maior deles é serem reconhecidos e amados como são, não como os imaginamos. Eles existem como seres, mas estão em desenvolvimento, e nesse processo precisam de apoio, de empurrões e de padrões a serem seguidos, referências a serem superadas, ou seja, eles precisam de nós – e menos de nossos presentes materiais!

Maurício de A. Zomignani – Assistente Social ecoordenador do Fórum da Cidadania.

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A força dos mitos

 

Carmelita Rodrigues, Psicóloga Clínica

Carl Jung, o teórico da Psicologia Analítica (também chamada de Psicologia dos Complexos) entendia os mitos como metáforas para a manifestação dos arquétipos. Os mitos ou as forças arquetípicas que há neles influenciam o psiquismo humano na medida em que o indivíduo revivencia, reencena as experiências e os dramas universais retratados nos mitos.

Essas construções simbólicas têm relação com nossa realidade pelo caráter universal e atemporal. Os personagens dos mitos são figuras arquetípicas que apresentam características psicológicas e emocionais comuns a seres humanos das mais variadas origens e culturas, em diferentes épocas da história da humanidade.

Os mitos ajudam-nos a entender a história e as inquietações humanas e servem como instrumento psicoterápico. De acordo com a concepção junguiana, aspectos mitológicos contidos no inconsciente se manifestam para “protestar” quando há desequilíbrio entre a atuação do consciente e a do inconsciente, isto é, quando o indivíduo se orienta mais pela razão do que por necessidades autênticas da alma ou, ao contrário, privilegiando o inconsciente em prejuízo do racional.

Essas manifestações, forças compensatórias para esse desequilíbrio, são expressas por meio de símbolos, que são a linguagem do inconsciente e funcionam como “pontes” de ligação entre essas duas instâncias da psique humana. Sonhos, expressões artísticas e até sintomas de neurose são exemplos de compensação, de pontes para se alcançar e compreender as reivindicações ou os alertas do inconsciente.

A palavra símbolo tem origem no termo grego “symbolon” que significa marca, sinal de reconhecimento; está relacionada ao verbo grego symbállein que significa colocar junto, fazer coincidir, juntar. Expressa a idéia de união de iguais que foram separados e que, ao se reencontrarem, se reconhecem e se tornam um. Exemplo disso é o símbolo do peixe usado pelos primeiros seguidores de Cristo para se reconhecerem como “cristãos” e se protegerem de delatores: quando se encontravam, um fazia um risco curvilíneo e o interlocutor completava o desenho com outro risco curvilíneo, formando um peixe.

Jung enxergava a arte e a religião como expressões simbólicas da psique com forte potencial para a auto-regulação. E afirmava: “havendo o símbolo, a travessia é fácil”. Assim, a ausência da arte e da religião na vida de uma pessoa pode ser fator de desenvolvimento ou agravamento de

transtornos psíquicos.

A neurose, por exemplo, se desenvolve quando a atenção e a atuação do Ser ficam excessivamente direcionadas para imposições externas, em detrimento das necessidades inconscientes do mundo interior. Os sintomas neuróticos atuam como símbolos para indicar o que precisa ser mudado com vistas ao reequilíbrio do sistema psíquico.

Conquanto a compreensão dos símbolos seja necessária para a “interpretação” das mensagens do inconsciente, atribuir significado único a eles é transformá-lo em sinal. Na explicação de Jung, a diferença entre símbolo e sinal está no fato de que um sinal sempre aponta para uma idéia consciente e é sempre menos do que a coisa que quer significar. Um símbolo, ao contrário, é sempre mais do que representa à primeira vista e seu significado é individual, depende de quem o enxerga ou o experimenta.

Mesmo a “interpretação” de símbolos considerados “universais” deve ser vista sob a ótica da relatividade. Isso porque não se pode afirmar com segurança como determinado símbolo está sendo utilizado por determinada psique. Jung aconselhava a seus alunos: “estudem tudo sobre simbolismo, e esqueçam na frente do seu cliente”.

Os símbolos podem ser pessoas, lembranças, objetos ou situações. A percepção e elaboração de emoções expressas por eles esvaziam complexos, modificando paradigmas, alterando sentimentos e comportamentos e conduzindo à individuação, desafio e meta primordial da psicoterapia junguiana.

O politeísmo (ou o acolhimento das divindades mitológicas) na psicologia junguiana pode ser considerado uma recusa à predominância da consciência em detrimento dos processos inconscientes; defende o reconhecimento da existência desses processos e a percepção de que o equilíbrio psíquico depende da união desses opostos. Isso porque os vários “deuses” são simbologias dos diferentes arquétipos.

A arte e a religião podem ser instrumentos de “cura” na medida em que propiciem ao indivíduo condições de “contato” e compreensão de seus próprios símbolos. O reequilíbrio psíquico advindo do restabelecimento da vida simbólica pode possibilitar ao indivíduo a obtenção de energia necessária ao ego para que ele reconheça o que é genuinamente dele, o que lhe é imposto socialmente e o que advém de arquétipos e complexos.

Exemplo da relação entre mitologia e transtornos psíquicos é a neurose do pânico. De acordo com a mitologia grega, Pâ (do grego Panikon), um misto de homem e bode, habitava os bosques e provocava terror com sua aparência assustadora (tinha chifres na cabeça e pés de bode) e o hábito de aparecer de repente. Deriva daí o termo pânico em referência ao terror repentino. Protetor dos pastores e camponeses, Pã era uma divindade travessa, sensual e galanteadora, mas rejeitada pela sua feiúra.

Nessa associação entre pânico e um deus mitológico está presente a concepção junguiana de inconsciente coletivo e seu conteúdo, os arquétipos. O arquétipo de Pã é uma das manifestações do arquétipo Sombra, o núcleo do material reprimido da consciência. A Sombra é o lado escuro do indivíduo, o que não sabemos de nós. Inclui tendências, desejos, anseios, memórias, atividades imorais, passionais e inaceitáveis, experiências rejeitadas pelo indivíduo por serem consideradas incompatíveis com os padrões e ideais sociais.

O deus Pã assustava quem o ignorava. Assim, o pânico é um temor da sensualidade; reflete o medo que as pessoas reprimidas e controladas sentem de serem dominadas pela própria sensualidade. Mas essa sensualidade nem sempre está associada à energia de natureza sexual. Pode ser uma sensualidade relacionada à arte, a uma demanda da criatividade reprimida. Pode refletir o anseio do indivíduo para expressar-se por meio da arte. Ao contrário do que defendia Freud, Jung recusava-se a conceber a energia libidinal como sendo exclusivamente de natureza sexual.

Outro exemplo do uso dos mitos como recurso psicoterápico é a imagem da Grande Mãe, por trás da qual está o Complexo Materno. Pode ser simbolizada pela Terra, a primeira Mãe, segundo a mitologia grega ou, no caso dos cristãos católicos, pela Virgem Maria, uma substituição mais atual da deusa-mãe-protetora.

O Complexo de Salvador, outro exemplo, manifesta-se em comportamentos de bondade e solicitude desmedidos. Está, simbolicamente, relacionado ao um ser abnegado que salva os outros seres. Esse complexo psíquico desenvolve-se a partir de experiências dolorosas de abandono e desamparo na infância. Dominado por ele, a pessoa não consegue deixar de agir de modo prestativo e generoso, não importando o quanto isso seja destrutivo para ela própria ou para outros. Quando as características de bondade e solicitude não pertencem ao ego de modo integrado, elas tenderão a ir e vir, porquê têm raízes em um complexo autônomo sobre o qual o ego tem escasso controle. O resultado serão incoerências que não podem ser previstas nem explicadas.

No ocidente, o Complexo de Salvador é associado a Cristo, tido como o Filho de Deus que se sacrificou para salvar os homens. Antes de Cristo, porém, outras personalidades-símbolo também foram associadas à idéia salvacionista, como Ozires e Dionísio, da mitologia grega, que também morreram pelo povo. São símbolos arquetípicos existentes entre todos os povos e culturas, quer sejam simbolizadas de uma forma ou de outra, e que estão por trás do “Complexo de Salvador”.

Esses complexos citados são exemplos de como podemos pensar, sentir e agir movidos por “forças” inconscientes e altamente poderosas, provocando comportamentos aparentemente inexplicáveis. Técnicas como Análise de Sonhos e Imaginação Ativa, devidamente conduzidas, permitem-nos conhecer essas forças que por vezes nos dominam e “esvaziar” os complexos, dando-nos maior autonomia.

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Uma Prece e um Comprimido

Não há como negar, em situações extremas a maioria das pessoas recorre a um componente que não se encontra em clínicas, hospitais ou laboratórios. Em geral, isso acontece quando tudo parece muito complicado e os recursos materiais vão se escasseando. O que resta nesse momento é aquilo que pode virar o jogo a nosso favor: a Fé. Afinal, se a fé move montanhas, como diz o ditado, o que não será capaz de fazer com um obstáculo bem menor como uma célula?

A verdade é que o mundo avança em velocidade espantosa. Há internet em todo o Planeta, a nanotecnologia reduziu os equipamentos, os alimentos são controlados desde suas sementes. Estações espaciais orbitam nosso espaço e neste instante um médico pode estar fazendo uma cirurgia há quilômetros de distância de seu paciente – e não se trata de mediunidade, é pura ciência, tecnologia robótica.

Porém, a fé é algo que nem as mudanças comportamentais e tampouco a ciência com toda a sua evolução podem mudar. Ela viaja no tempo como uma espécie de DNA da humanidade. Está lá desde que o homem tem consciência de sua própria existência e, sobretudo, de sua finitude ou temporalidade. Sendo assim, ao contrário do que muitos defendem, a fé não é composta apenas por subjeções, pois ela pode ser percebida como resultado de estudos genuinamente científicos. O conhecimento é um elemento essencial para qualquer crença, foi necessário que o homem tivesse “consciência de sua própria mortalidade para criar um anseio orgânico pelo eterno”, escreveu o Dr. Herbert Benson, professor de Medicina de Harvard e autor do livro Medicina Espitirual.

Até que ponto casos de recuperação inexplicavelmente rápida podem ser creditados à fé não se sabe, mas a verdade é que montanhas continuam se movendo por aí. A medicina, sob o olhar atento de alguns observadores de mente mais aberta, acompanha esses movimentos e procura estudá-los na ânsia de compreender o que há por trás disso tudo.

Um dos pioneiros nos estudos científicos do potencial de cura pela fé, o Dr. Harold Koenig, reuniu ao longo dos anos resultados de pesquisas que demonstram que a fé religiosa não só é capaz de prevenir, como pode ajudar na recuperação de doenças graves.

“Durante as orações, esses pacientes controlam indiretamente suas doenças”, afirma o Dr. Koenig, acreditam que não estão mais sozinhos e que têm o apoio de Deus na batalha contra a doença. “ Isso protege do isolamento psicológico que os derrubaria antes mesmo que a doença o fizesse”. É evidente que isso pode ser encarado, pelos céticos, como mera auto-ajuda, mas esta auto-ajuda já não seria um importante fenômeno a ser estudado? Por quais mecanismos a vontade pode transformar o organismo doente?

Na pesquisa elaborada pelo também pioneiro no tema Dr. Herbert Benson, ele procura explicar a fisiologia envolvida na cura pela fé. Segundo seus estudos, de 60% a 90% das consultas médicas envolvem doenças relacionadas ao estresse – hipertensão, infertilidade, insônia e problemas cardiovasculares. Para ele, esses pacientes possuem um alto índice de noradrenalina e adrenalina, os chamados hormônios do estresse.

“Para praticar suas orações, a pessoa se coloca em estado de concentração. Isso desacelera os batimentos cardíacos, a respiração, e ela vai relaxando gradualmente. Conforme avança com orações repetitivas, reduz a velocidade de suas ondas cerebrais. De que outra forma se consegue esses efeitos no ser humano? Só com medicamentos. Sendo assim a oração, movida pela fé, atua indiretamente no bem estar e na recuperação”, afirma.

Mas não seria, segundo ele, apenas através das orações que se atinge esse estado, técnicas não religiosas como a meditação e o relaxamento, por exemplo, produziriam efeitos semelhantes “mas não oferecem o plus das orações que é o conforto espiritual”.

Na conceituada Faculdade Johns Hopkins, o clínico geral e psiquiatra Dr. Thomas A. Corson ministra um curso sobre “Fé e Medicina”. Ele afirma que esse tema avançará para todas as Universidades pelo mundo e vai ajudar a melhorar ainda mais a relação que já foi tão distanciada: médico-paciente. Aproximadamente 2/3 das universidades americanas já contam com a disciplina de saúde e espiritualidade em seus currículos e aqui no Brasil a Universidade Federal do Ceará foi a pioneira e várias universidades brasileiras já contam com cursos sobre o assunto como disciplina optativa.

É exatamente nessa direção que caminha o cirurgião paulista erradicado no Mato Grosso do Sul, Dr. Décio Iandoli Jr., palestrante internacional e autor, entre outros, dos livros “Fisiologia Transdimensional”, “Ser Médico e Ser Humano”, “reencarnação como Lei Biológica” e “Um Homem no Fundo do Espelho”. Dr. Iandoli é professor universitário, e é a favor da implantação dessa matéria nos cursos de Medicina. Defende que os pacientes não sejam encarados apenas como um mecanismo biológico que pode ser totalmente compreendido por uma somatória de exames e testes diagnósticos, eles devem ser compreendidos, como seres complexos cuja essência não pode ser medida ou registrada em um aparelho de tomografia ou num microscópio, mas pode ser sentida, percebida por alguém que lhe dê atenção. É preciso conhecer o paciente da maneira mais abrangente possível, dar a oportunidade de que ele lhe conte sua história, para que deixe de ser um corpo, e passe a ser uma pessoa, reduzindo o distanciamento que normalmente rege a relação médico-paciente nos dias de hoje. O ideal é que se desenvolva uma relação de confiança mútua onde haja respeito e o adequado estabelecimento dos papeis de cada um, qual seja, ao médico a tarefa de auxiliar e ao paciente a de buscar sua recuperação, se necessário e possível, rezem juntos, como recomenda o Dr. Koening, ou mesmo, que chorem juntos! Mas que se aproximem com um mesmo objetivo, encontrar a cura se ela existir, mas o conforto sempre, e ai temos uma poderosa ferramenta, a fé, por que não?

Dr. Décio acredita que a cura, de uma maneira ou de outra, sempre passa pela Fé, a crença e a confiança na cura, que são muitíssimo potencializadas pela religiosidade, mas “sempre acompanhada dos medicamentos e tratamentos receitados pelo médico”, como alerta o Dr. Dale A. Matthews, professor de medicina em Georgetown e autor do livro “The Faith Factor” – O Fator Fé: “a oração jamais poderá substituir os medicamentos, eles são complementares no tratamento. Ambos, médico e paciente, julgarão quanto é necessário de cada afirma Dr. Matthews”. Por isso a denominação “Terapias Alternativas”, tem sido substituída por “Terapias Complementares”, pelos médicos que estudam este assunto.

O cirurgião paulista acompanhou alguns casos de curas inexplicáveis, onde exames que diagnosticavam uma determinada doença “incurável”, refeitos após os tratamentos complementares, simplesmente estavam normais. Kardecista, além de acreditar na reencarnação como processo de evolução, crê na intervenção mediúnica como ferramenta indutora de saúde. “De fato essa é uma das grandes certezas da minha vida, mas não podemos deixar de lembrar que estamos falando de duas condições, a espiritual e a física, que estão intimamente relacionadas, mas que fazem parte de duas dimensões diferentes de atuação. A oração e o passe, por exemplo, atuam no nível espiritual do paciente, que quase sempre são a causa dos problemas físicos. Porém, assim como para a alma não há nada melhor do que a oração, para os problemas físicos, nada melhor do que a medicina. Portanto, as técnicas científicas desenvolvidas pela medicina, devem ser aliadas ao fator Fé, sem dúvida, podem mudar o destino de uma pessoa.” Segundo a doutrina espírita, as orações abrem espaço mental para que forças espirituais possam atuar para auxiliar o paciente, e também, o médico, inspirando-o e conduzindo-o pelo caminho mais adequado para aquele caso. Mas o Dr. Décio reforça: “se me acontecer algo, reze por mim, mas, por favor, não deixe de me levar ao hospital. A espiritualidade faz a sua parte, mas temos que fazer a nossa também, não acredito em milagres, acredito sim que existem muitas coisas que não podemos explicar, mas que podemos perceber e usar em nosso benefício, e a fé é uma destas coisas”

Em seus 23 anos de medicina, Dr. Décio acompanhou casos cuja explicação mais convincente vem do plano espiritual. “Acompanhamos um caso de hipernefroma, um tipo agressivo de câncer no rim, já com metástases espalhadas pelo fígado, pulmões e cérebro, diagnosticado e tratado, sem sucesso, no Hospital Sírio Libanês em São Paulo, desenganado e desesperado, o paciente procurou o centro espírita que eu freqüentava. Ele não praticava nenhum tipo de religião e nunca havia desenvolvido sua espiritualidade, fez um tratamento complementar no centro espírita e, principalmente, mudou sua postura diante da vida e das pessoas, passando a preocupar-se com seu lado espiritual e com o desenvolvimento da sua fé. Com um prognóstico estabelecido de, no máximo, 1 ano de vida, após 2 anos resolveu voltar ao médico que diagnosticou a doença, e repetindo os exames constatou-se que todos os sinais haviam desaparecido. O médico e professor catedrático da USP, revisou todos os exames anteriores, inclusive a biópsia, e pode verificar que não havia erro, havia sim um “milagre”. O paciente está vivo até hoje.

Temas como espiritualidade e religião sempre foram tabu nos meios acadêmicos em especial na medicina. Ciência lógica, racional e objetiva, a medicina encarou por muito tempo esse assunto como sua antítese, uma condição ilusória, subjetiva e difícil de descrever, mesmo sabendo que Hipócrates, o pai da medicina ocidental, colocava a questão espiritual como fundamental para o sucesso de qualquer tratamento.

“Essa realidade está mudando, estamos avançando, evoluindo. Quanto mais próximos estivermos dos problemas espirituais de nossos pacientes, mais próximos estaremos da cura ou, pelo menos, da compreensão de seus males, sejam eles físicos ou espirituais” afirma o Dr. Décio.

O curioso é que as pessoas buscam sua fé apenas em situações extremas. “As enfermidades fazem com que as pessoas revejam valores, fiquem mais abertas e mais transparentes. O paciente moribundo é como um oráculo, pergunte e receberá respostas verdadeiras.” revela Dr. Iandoli.

Artigo escrito pelo Jornalista Paulo Cardoso de Almeida para a revista H&M

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17 comentários sobre “Artigos

  1. QUERIA RECEBER ARTIGOS INTERESSANTES. SOU ACADÊMICA DO CURSO DE SERVIÇO SOCIAL, DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS-MG.

  2. infelizmente não tenho como lhe ajudar, Norma: este blog é específico da área de Psicologia. Fiz exceção quanto a uma matéria sobre biopirataria por envolver ciência. Mas estou certa de que você descobrirá caminhos ideais.
    Um abraço,
    Carmelita

  3. loucura? o que é realmenbte ser louco ou ser sano? há mais loucos aparentemente sanos em meio a sociedade, essa mesma sociedade que exclui os doentes mentais, hipocrisia total e absoluta. Já percebeu quantos loucos andam no transito? o mundo precisa urgentimente de tratamento psicológico, especialmente para aqueles que se demominam sãos.

  4. Gostaria de parabenizar a psicóloga Carmelita pelo excelente texto sobre a Força dos Mitos! Muito bom mesmo! Também sou psicólogo clínico e estudante de mestrado. Gostaria de referenciá-lo na minha dissertação e, para tanto, preciso saber o ano em que foi escrito.
    Obrigado pela valiosa contribuição!
    Paiva

  5. sou estudante fcmscsp e meu tcc é sobre paternidade na adolescencia vç pode me ajudar com material sobre este tema te agradeço

  6. Carmelita sou Psicólogo clínico e Psicoterapeuta Breve e atualmente estou atendendo em meu consultório e por acaso navegando na net a procura de um artigo encontrei os seus.
    Parabens pelo trabalho prestado em seu blog.
    Um grande abraço.
    Sérgio J. Moura

    • Obrigada, Sérgio, pela visita e pelo incentivo. Você também atende em Brassília? Um comentário à parte: gosto muito do seu nome, por razões muito particulares. Abraço, Carmelita

      • Olá eu não atendo em Brasilia e sim no litoral de norte de São Paulo, Ilhabela conhece? Vamos manter contato.
        Abraços.

  7. Prezada Carmelita Rodrigues,

    Meu nome é Marilzete, moro em Brasília DF, estou sofrendo muito, estou com Sidrome do Pânico, me indicaram uma Psiquiatra, ela passou Sertralina, não melhoro. Estou apavorada mesmo, Queria saber se conhece algum psiquiatra que saiba tratar este transtorno, e que linha terapeuta posso fazer. Gostaria de saber se existe terapia para este caso. Meu telefone 61-96431883

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