TDAH: uma técnica usada com criança

No ano passado (2009) eu precisei de uma história infantil que expressasse para meu paciente de 6 anos de idade a idéia de ansiedade e que mostrasse o quanto ele perdia deixando de aproveitar as boas coisas do presente para viver sempre se projetando no futuro.Erro comumente cometido por muitos adultos também. Em resumo, a ansiedade de meu pequeno guerreiro roubava a felicidade dele porque ele estava sempre querendo passar correndo para a próxima coisa. Perambulei por livrarias e busquei algo já pronto, mas não encontrei. Então resolvi mobilizar minhas habilidades em redação e arrisquei eu mesma escrever uma história, sem ter a pretensão de ser escritora, claro. Aproveitei para introduzir na história elementos significativos para meu pequeno paciente, que adorava lutas, mistérios, guerreiros e cavernas. O resultado é o que se segue e devo adiantar-lhes que a técnica foi bem eficiente. Pedi à mãe dele que lesse um pedaço da história a cada noite. Queria desenvolver/treinar domínio dele sobre a própria ansiedade, começando por ter que esperar até o dia seguinte para saber como a história continuava. Depois pedia a ele que me contasse a história no consultório. Foi maravilhoso perceber que ele memorizava os nomes dos personagens, se identificava com um deles (meu propósito) e entendia muito bem a mensagem da leitura. Ele é realmente uma criança especial e me ensinou muito. Foi levado ao meu consultório com diagnóstico psiquiátrico de TDAH. Como a mãe não queria que ele tomasse Ritalina, decidiu colocá-lo em terapia. Decisão acertada porque o garoto evoluiu muito bem e livrou-se do sofrimento de sentir-se menosprezado, errado, inadequado, imprestável, não apenas na escola, mas também em todos os espaços. Ele estava  com baixa autoestima e a um passo de sofrer  depressão infantil. Na verdade, não se tratava de um caso típico de TDAH, mas sim de uma criança  acima da média em inteligência que estava sendo submetida a profundo sofrimento devido ao despreparo de profissionais da escola e até dos pais, embora fossem muito amorosos com ele. Em muitos casos não basta amar. Foi esse mesmo paciente que me fez enxergar a semelhança entre o processo terapêutico e a letra da música da Vanessa da Mata, que você pode ouvir clicando no link MINHA HERANÇA UMA FLOR.

Voltando à história, o texto completo está postado na página HISTÓRIAS e o título é A Gruta dos Guerreiros.

Vestibulanda criativa

Vejam que interessante:

“Vestibular da Universidade da Bahia cobrou dos candidatos a
interpretação do seguinte trecho de poema de Camões:

‘Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer ‘.

Uma vestibulanda de 16 anos deu a sua interpretação :

‘Ah, Camões!, se vivesses hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão.
Compravas um computador,
consultavas a Internet
e descobririas que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo!’

A Vestibulanda ganhou nota DEZ, pela originalidade, pela
estruturação dos versos, das rimas insinuantes e também, foi a
primeira vez que, ao longo de mais de 500 anos, alguém desconfiou
que o problema de Camões era apenas falta de mulher.”

Fonte:  Blog Utilidades Públicas

Morte, perdas e viver o luto

O luto deve ser considerado um  processo normal e esperado, quando ocorre  rompimento de um vínculo. Quando o luto decorre da morte de pessoa querida, tradicionalmente é entendido a partir de suas fases:

. Entorpecimento

. Busca e saudade

. Desorganização e desespero

. Reorganização

E envolve tarefas:

. Aceitar a realidade da morte

. Vivenciar o pesar

. Ajustar-se a um meio no qual o falecido não mais se encontra

. Retirar energia emocional e reinvesti-la em outra relação.

Segundo Maria Helena Pereira Franco, por se tratar de fenômeno complexo, o luto deve ser enxergado a partir de cinco dimensões:

  1. Dimensão intelectual do luto: marcada por confusão, desorganização, falta de concentração, intelectualização, desorientação e negação.
  2. Dimensão emocional: choque, entorpecimento, raiva, culpa, alívio, depressão, irritabilidade, solidão, saudade, descrença, tristeza, negação e ansiedade, confusão e medo.
  3. Dimensão física: alterações no apetite, visão borrada, alterações no sono, dispnéia, palpitações cardíacas, exaustão, boca seca, perda do interesse sexual, alterações no peso, dor de cabeça, choro e mudanças no funcionamento intestinal.
  4. Dimensão espiritual: sonhos, perda da fé, aumento da fé, raiva de Deus, dor espiritual, questionamento de valores, sentir-se traído por Deus, desapontamento com membros da igreja.
  5. Dimensão social do luto: perda da identidade, isolamento, afastamento, falta de interação e perda da habilidade para se relacionar socialmente.

Se precisarmos considerar o luto a partir da ótica dos Cuidados Paliativos, nos casos em que o fenômeno deixou de ser “luto normal” e passou a ser Luto Complexo, com viés de patologização, devemos entender os diversos fatores que o compõem:

Fatores psicológicos

. A natureza e o significado, únicos relacionados à perda específica

. As qualidades individuais da relação que se finda

. O papel que a pessoa com morte iminente ocupa no sistema familiar e social

. Os recursos de enfrentamento do enlutado

. Idade do enlutado e da pessoa à morte

. Questões não resolvidas entre o enlutado e a pessoa à morte

. A percepção individual sobre o quanto foi realizado em vida

. Circunstâncias da terminalidade

. Percepção do senso de controle

. Perdas secundárias

Fatores sociais

. Isolamento

. Dificuldade de estabelecer e manter relações significativas

. Nova identidade social

Fatores fisiológicos

. Controle de sintomas

. Alimentação

. Descanso e sono

. Autonomia

. Qualidade de vida gral

Fatores espirituais

. Relação espiritualidade e luto

. Questionamento do sistema de crenças prévio: parte do processo do luto

Há muitos outros aspectos a serem considerados quanto ao tema, quer o interessado seja um profissional de saúde ou pessoa em luto ou prestes a perder ente querido  (nestes últimos casos, a leitura vai ajudar na compreensão e, possivelmente, na ressignificação da experiência). Assim, seria útil a leitura de todo  texto de Maria Helena Pereira Franco, cujo título é “Luto em Cuidado Paliativo, Parte IV do livro Cuidado Paliativo (páginas 559 a 5570), editado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (2008)(Cremesp).

Postado por Carmelita Rodrigues

Assédio moral deve ser denunciado

Uma pessoa submetida repetidas  vezes a atitudes perversas do chamado “assédio moral” pode desenvolver gastrite, doenças cardiovasculares, dor de cabeça  freqüente, temores, absenteísmo, diminuição da produtividade, irritabilidade, culpa, ansiedade e até, em alguns casos, ideação suicida, além  de prejudicar gravemente a autoestima. Em resumo: causa profundo sofrimento, com graves conseqüências biopsicossociais.

A reação das vítimas de assédio moral, fenômeno tão antigo quanto o trabalho,  varia de pessoa para pessoa, dadas as singularidades e subjetividades de cada um, o que implica dizer que a mesma prática hostil pode levar uma pessoa ao adoecimento em um caso e, em outros casos, as vítimas podem ser mais resistentes. De qualquer forma, a prática é danosa para as empresas e para os trabalhadores. E pode ocorrer tanto no plano vertical (de um líder sobre um subordinado) quanto no plano horizontal (entre colegas de trabalho de mesmo nível).

No entanto, muitas vezes essa forma de agressão é confundida com atos decorrentes do estresse; com uma situação de conflito ou com uma agressão pontual. O que caracteriza, de fato, o assédio moral é a sistematização da prática, isto é, o abuso de poder  ou a ação abusiva entre pares cometida sucessivas vezes.

As intervenções psicológicas podem ser preventivas ou corretivas. Como correção cabe estimular a denúncia. Igualmente útil é a adoção de acompanhamento funcional e avaliações baseadas na ética e na disseminação de informações que visem dissolver atritos  entre a equipe de trabalho e melhori do clima organizacional.

As intervenções preventivas se caracterizam pelo trabalho  interdisciplinar com a colaboração de profissionais de saúde e gestores. Escutar o empregado que se desligou da empresa pode apontar manifestações do fenômeno. A integração dos novos funcionários e o treinamento dos líderes pode evitar essa prática abusiva.

Postado por Carmelita Rodrigues

PROVA, PROVÃO, CAMISA DE FORÇA DA EDUCAÇÃO

O livro  Prova, Provão, Camisa de Força da Educação*, de Hamilton Werneck, questiona  a eficácia dos sistemas de avaliação que, embora antigos na maioria dos casos, continuam sendo usados nos dias atuais. Comparando professores com alguns estereótipos de animais, demonstra a impropriedade e ineficiência de determinadas posturas de professores na hora de avaliar seus  alunos.

As analogias mostram, então, o professor macaco, que se compraz em  ridicularizar os alunos; o professor serpente-venenosa, cuja especialidade é elaborar armadilhas nos testes e provas; o professor carrasco, que em vez de ensinar, destrói a confiança e motivação dos alunos, quando não os exclui do processo educativo.

A comparação com o joão-de-barro e o castor são elogiosas: joão-de-barro é um pássaro que constrói algo e sempre em sintonia com o meio ambiente, o que o faz, por exemplo, analisar a posição em que o vento bate mais forte para decidir de que lado fazer a porta de sua casinha, de forma a proteger melhor os filhotes. Semelhante a isso, o professor joão-de-barro observa o contexto que envolve seus alunos, “sente o vento” e constrói algo em seus corações e suas mentes.

O castor, animal que enfrenta baixas temperaturas do inverno enquanto escolhe árvores e prepara diques é apontado pelo autor como exemplo de trabalho intenso, desafio a adversidades e harmonia com o meio ambiente, características também de alguns persistentes e dedicados professores que acreditam na possibilidade de transformação de realidades indesejáveis. O professor abelha é elogiado pelo trabalho dedicado e acompanhamento dos alunos, mas criticado pela mesmice e falta de criatividade nas avaliações.

O professor leão é associado à fera que assusta, ruge nos corredores e salas de aulas como se estivesse ameaçando os alunos tal  qual faziam ferozes leões que ameaçavam cristão aprisionados nos coliseus romanos, verdadeiros espetáculos circenses de atrocidade e coerção.

O pavão é usado pelo autor para caracterizar o professor que está preocupado em elitizar, que elabora questões fazendo citações pomposas de autores badalados  por “intelectuais”. Esse tipo de professor, segundo o autor, exige complexidade quando deveria recorrer a instrumentos mais simples e objetivos que privilegiassem o saber ler e escrever, a organização de idéias, capacidade de expressar-se com clareza e solidez de argumentação.

Para o autor, o professor bicho-preguiça é aquele que,  seja por cansaço decorrente de longas jornadas de trabalho ou por desgaste na vida familiar, é lento e dorme acordado, permitindo aos alunos “colarem”   durante as avaliações, além de negligenciar em várias situações.

Ao mesmo tempo em que critica, conclama à reflexão e interage com os leitores propondo-lhes exercícios de aquisição e fixação de nova mentalidade sobre o ato de educar, Werneck apresenta sugestões de como os alunos poderiam ser avaliados de forma mais construtiva e eficaz. Um dos mecanismos propostos por ele para averiguar o aprendizado é o oposto do que vem sendo feito: em vez de se considerar as respostas dos alunos, aconselha uma análise do grau de conhecimento deles por meio de perguntas feitas por eles.

Discussões e debates realizados em grupos é, segundo o autor, outra forma de o professor avaliar o quanto cada aluno assimilou ou conhece sobre o conteúdo ensinado. Avaliar pela síntese verbal, pelas sínteses grupais e observar o rendimento em tarefas seqüenciais são outras formas de medir a aprendizagem adquirida, entre outras propostas do livro, que não se opõe inteiramente ao uso de provas, mas defende que elas não sejam instrumentos coercitivos e sim, mecanismo de orientação para uma busca útil de conhecimento (ou busca por conhecimento util!) e uma forma de feedback para o professor.

Prova, Provão, Camisa de Força da Educação é obra que não pode deixar de ser lida por todos que desejem trilhar o caminho da educação e da pedagogia ou que já estejam atuando nessas áreas. Leitores que se proponham a interagir com o autor vão perceber quão difícil é lembrar-se de professores que se enquadrem nos tipos professor joão-de-barro e castor. Por outro lado, como é fácil relacionar aqueles  que marcaram nossa lembrança como carrascos, serpentes enganadoras, ferozes leões (e leoas!), pavões, abelhas e bicho-preguiça!

A favor dos pontos de vista do autor entram aspectos como a necessidade de se reconhecer que nossas escolas não têm construído cidadãos, preparado bons profissionais nem tampouco proporcionado sabedoria para obtenção daquilo que mais almejam as criaturas humanas: a felicidade.

Ao contrário, temos reproduzido modelos de ensino que interessam apenas aos detentores do poder, defensores do status quo e, sobretudo, a uma estrutura voltada para a produção de proletários resignados e maus eleitores. Por que poucos  querem ser professor ou professora nos dias de hoje? Apenas reflexo das irrisórias remunerações? Ou o modelo de formação escolar adotado e imposto aos alunos produz nesses aversão desde os primeiros anos de escola? Quem deseja imitar o que lhe desagrada?

Contra  os modelos propostos por Werneck destaca-se o fato de que a resistência humana a mudanças é algo tão arraigado que amealhar adeptos das idéias demandaria tempo enorme. Além disso, metodologia de avaliação tão subjetiva pressupõe que as pessoas agem sempre movidas pela boa fé e com honestidade, o que não é necessariamente verdadeiro.

Outra fator contrário às sugestões do autor, também decorrente do caráter subjetivo das avaliações propostas, seria a dificuldade de o Estado controlar a qualidade dos processos educativos, considerando-se que sempre haverá diferenças quantitativas e qualitativas nos níveis de dedicação, boa fé, preocupação com o bem-estar real do ser humano, empenho, capacidade de análise crítica e domínio de conteúdo, entre outros aspectos,  por parte dos professores e corpo diretivo das escolas.

Postado por Carmelita Rodrigues

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*WERNECK, Hamilton, Prova, Provão, Camisa de Força da Educação. Petrópolis (RJ): Vozes, 2002.

Psicologia e Cuidados Paliativos

“Cabe sempre destacar que as ações da Psicologia em Cuidados Paliativos não se restringe ao paciente, mas devem incluir a família,  como parte da indivisível unidade de cuidados, mesmo que estes tenham que ser observados em sua especificidade. Além dessa unidade de cuidados, a Psicologia também se propõe a atuar junto à equipe multiprofissional, uma vez que esta necessita manter a homeostase nas suas relações e encontrar vias de comunicação que permitam a troca e o conhecimento, a partir de diferentes saberes.”

O trecho acima é do livro Cuidado Paliativo, editado pelo Cremesp, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, do artigo de Maria Helena Pereira Franco, que nesse mesmo livro escreveu também sobre o tema “Luto em Cuidados paliativos.

Trata-se de primorosa coletânea de artigos sobre cuidados paliativos envolvendo diferentes áreas da saúde. Além da Psicologia, há a análise sobre a relação entre esse tema e a Fisioterapia, a Nutrição, Farmácia, Odontologia, Enfermagem e Assistência Espiritual.

O primeiro capítulo da Parte 4 desse  fabuloso livro de 690 páginas explora o tema ESPIRITUALIDADE, MORTE E LUTO. Veja o seguinte trecho exemplar do valor dessa obra indispensável aos estudiosos de diferentes áreas do saber: “Ao lidar com questões espirituais de nossos pacientes devemos estar atentos às diversas formas de violência espiritual que podem ser cometidas por profissionais, familiares e sacerdotes. Segundo Purcell, o abuso espiritual é caracterizado pelo ato de fazer alguém acreditar numa punição de Deus ou na condenação eterna por ter falhado em alcançar uma vida adequada aos olhos de Deus. Existem diferentes intensidades e formas de abuso espiritual, algumas tão sutis que se encontram nos alicerces de nossa cultura judaico-cristã. (…) Impedir o paciente de expressar suas necessidades espirituais assim como o proselitismo são formas comuns de violência contra o paciente terminal.”

Eu, Carmelita,de modo particular  acrescento: “é violência contra todos os nossos pacientes”. Ninguém pode negar a dimensão religiosa e/ou espiritualista de seus pacientes só por ter a limitação intelectual de nada saber sobre religiosidade ou espiritualidade. Se meu paciente pode falar de uma experiência vivida durante o Carnaval, porque não vou acolher a experiência religiosa dele? Cabe ao psicólogo ampliar seus conhecimentos e estudar/vivenciar as diferentes religiosidades.

Sugiro a leitura completa da obra e para ampliar minha argumentação de que o livro é excelente, aconselho a clicar no link abaixo, onde pode-se ler o índice da obra e ter uma idéia mais ampliada do conteúdo.

Veja índice completo de CUIDADO PALIATIVO.

Postado por Carmelita Rodrigues