Dá pra fazer psicoterapia pela internet?

Sim, é possível fazer psicoterapia pela internet, mas o serviço ainda não é permitido no Brasil. O Conselho Federal de Psicologia (CFP), autarquia que regula o trabalho dos psicólogos brasileiros, ainda não regulamentou o serviço, que já existe legalmente em outros países.  Atualmente no Brasil são permitidos apenas alguns serviços psicológicos pela  web, como orientação psicológica (limitada a 20 atendimentos),  processos de seleção de pessoal, supervisão para psicólogos, entre outros, conforme consta na  Resolução 011/2012.  Mas a psicoterapia, ainda não.  E o CFP tem lá suas razões para ser tão cauteloso! Por exemplo: aqui é a Terra da Impunidade; as leis no Brasil são desrespeitadas sob a chancela de  uma incrível e generalizada frouxidão moral;  e os transgressores  da Lei raramente são punidos. Exatamente o contrário do que ocorre em outros países onde a psicoterapia online é praticada, como Canadá e Estados Unidos, mas também onde as pessoas temem errar e causar danos a terceiros antevendo risco real de punições duras. Considerando-se a  concreta possibilidade de uma intervenção psicológica infeliz causar sérios prejuízos ao psiquismo de uma pessoa,  fazer psicoterapia pela internet é algo que exige cuidados – e nem estou destacando o risco de quebra de confidencialidade, que  pode ser considerada uma desvantagem, mas não o maior dos problemas.

Recentemente lançado no mercado, o aplicativo Fala Freud promete “Terapia online para quem não tem tempo para terapia – qualquer hora do dia ou da noite, direto do seu smartphone”. Só essa frase introdutória faz tremer qualquer conhecedor do assunto. Isso porque a mensagem inicial do site contém dois erros graves:  induzir os internautas ao erro de achar que farão psicoterapia pela internet e confundir os conceitos de “terapia” e “psicoterapia”. Aliás, omitir a diferença entre os significados dos dois termos pode até ser proposital, já que dificilmente os responsáveis pelo aplicativo ignoram a normatização do CFP sobre a interface psicologia e internet. Em nome da ética, da honestidade e em respeito à saúde mental/emocional das pessoas, caberia deixar as coisas muito claras, levando em conta os direitos e necessidades verdadeiros dos possíveis usuários e dos riscos envolvidos. O aplicativo pode até ser útil, propiciando acesso fácil entre as pessoas e os profissionais, mas daí a prometer  terapia a qualquer hora do dia pelo smartphone… há grande diferença. Quero deixar claro que não me oponho de todo ao serviço, mas convém entender bem quais sãos as vantagens, limitações, desvantagens e os riscos de se realizar psicoterapia ou outros serviços psicológicos fora de um consultório. O maior mérito do Fala Freud talvez seja o de trazer o tema para discussão e dar visibilidade à demanda por psicoterapia online.

Particularmente, sou uma entusiasta da psicoterapia online; que considero viável até mesmo no Brasil, desde que observados muitos aspectos, adotados certos cuidados e estabelecidos parâmetros que assegurem segurança à vida das pessoas, tanto dos profissionais quanto dos pacientes.  O artigo PSICOTERAPIA ONLINE: DEMANDA CRESCENTE E SUGESTÕES PARA REGULAMENTAÇÃO, escrito a partir dos dados coletados em uma pesquisa prática e em ampla revisão literária, é uma pequena colaboração nos esforços para se entender melhor essa vertente de trabalho psicológico surgida graças à disseminação da internet. A expectativa é a de que o tema continue a ser abordado em novas pesquisas acadêmicas, de mestrado ou de doutorado, de forma a que obtenhamos  informações suficientes para nortear a regulamente o serviço no Brasil.

eu-no-congresso-de-bh-2015

Painel para apresentar minha pesquisa na Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, na UFMG, em 2015

Psicoterapia online no Brasil

Já está disponível no Repositório Institucional* da biblioteca da Universidade de Brasília (UnB)  a dissertação completa da minha pesquisa de mestrado sobre psicoterapia online realizada no Brasil. No estudo, foi abordada a psicoterapia realizada pelo Skype, ou seja, via internet em condição de sincronicidade, isto é, em que terapeuta e paciente estão simultaneamente conectados e se comunicando por meio de microfone e câmera. A psicoterapia online ainda é vedada no Brasil, exceto se realizada como parte de pesquisas autorizadas por um comitê de ética, e em situações eventuais, em observância a critérios da Resolução 011/2012 do Conselho Federal de Psicologia (CFP). A citada pesquisa é qualitativa e teve como foco principal a construção da aliança terapêutica em atendimentos realizados exclusivamente pela internet. Cinco mulheres, com idades variando entre 19 e 59 anos, participaram dos atendimentos de psicoterapia breve focal online, no período de 16 semanas. Foram usados dois questionários: o Inventário de Aliança Terapêutica (Working Alliance Inventory -WAI), que analisa a aliança terapêutica e seus componentes (foco na tarefa, congruência com objetivos e percepção de vínculo), e o Questionário de Avaliação de Sessão (SessionEvaluationQuestionnaire – SEQ), que avalia, a cada sessão, as dimensões profundidade, suavidade, positividade e mobilização.

*Repositórios institucionais são sistemas de informação que servem para capturar, armazenar, indexar, preservar e disseminar amplamente os resultados de pesquisa desenvolvidos por instituições de ensino e pesquisa em todo mundo.

Texto disponível do estudo ALIANÇA TERAPÊUTICA NA PSICOTERAPIA BREVE ONLINE

Postado por Carmelita Rodrigues, em 02/11/2014

Psicoterapia online no Brasil ainda é inviável?

A psicoterapia online é prática ainda vetada no Brasil, sob alegação do Conselho Federal de Psicologia (CFP) de que ainda faltam pesquisas e estudos científicos que comprovem a efetividade desse serviço. Vale registrar que essa modalidade de atendimento já é permitida nos EUA e em países da Europa. No meu ponto de vista, o que falta no Brasil não é comprovação da eficácia da psicoterapia online, mas mecanismos mais confiáveis de punição para os maus profissionais que abusassem da permissão para realizar esse serviço. Também considero insatisfatória a atuação do CFP como mecanismo regulador da prática da psicologia no Brasil. A exemplo disso o fato de que até hoje a cartilha de credenciamento contém informações de uma resolução antiga, de 2005,  já revogada por outra de 2012. Se não conseguem sequer atualizar algo tão simples, como confiar que a autarquia possa acompanhar com eficiência as transformações sociais e a qualidade dos serviços de psicologia? E essa crítica, creiam-me, tem mais um caráter de alerta do que de oposição gratuita ao CFP.  Outro fator que talvez inviabilize esse serviço no momento:  a impunidade generalizada que assola nosso país, em todos os setores. A fraca noção de moralidade e a ampla sensação de impunidade põe, realmente, em situação de vulnerabilidade possíveis pacientes de maus terapeutas que desejem se esconder na cortina do anonimato e da distância para fazer um trabalho nocivo, em vez de ajudar. Bom, críticas a parte, ao estudar sobre isso, fui em busca de informações sobre a qualidade dos serviços de internet no Brasil e me deparei com os fatos que se seguem:

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) produz relatórios mensais sobre a qualidade dos serviços das empresas de telefonia (móvel e fixa) no Brasil, mas não faz considerações sobre se é ruim ou boa, se melhorou ou piorou; apenas apresenta os dados na internet e distribui aos veículos de comunicação. O relatório de dezembro de 2013 é o mais recente neste momento (junho de 2014), e registra qualidade satisfatória para os serviços de banda larga no DF e na maioria dos Estados, excetuando-se o Maranhão, Mato Grosso, Pernambuco e a Bahia, em relação à banda larga, o tipo de conexão recomendada para atendimentos psicoterapêuticos online. Sem a avaliação crítica da Anatel, buscou-se conseguir alguma informação que respondesse à pergunta, mas a resposta não foi encontrada. No entanto, uma avaliação técnica mais apurada, o que se afasta dos objetivos deste estudo, pode ser obtida junto à União Internacional de Telecomunicaçães (UIT), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), que produz estudo anual sobre acesso e utilização das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) em todo o mundo; aqui no Brasil o documento recebe da Anatel o nome de “Medindo a Sociedade de Informação”. O relatório de 2011 mostra ser crescente o acesso da população às Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) em todo o mundo, “impulsionada por uma queda constante nos preços dos serviços de telefonia e de internet banda larga” (UIT, 2011). Àquela época, o Brasil estava na 64ª posição do ranking, logo abaixo da Bósnia-Herzegovina. A República da Coreia era, então, a economia mais avançada do mundo em TICs, seguida pela Suécia, Islândia, Dinamarca e Finlândia (idem anterior). Mas a classificação é abrangente e vai além do acesso à internet.

PARA SABER MAIS:

UIT: Medindo a Sociedade de Informação

ANATEL: QUALIDADE DA BANDA LARGA