Histórias

METÁFORAS E ANALOGIAS NA PRÁTICA PSICOTERÁPICA

Histórias, contos e parábolas são excelentes ferramentas de trabalho na prática psicoterápica, pelo poder que as metáforass e as analogias têm de comunicar algo de modo subliminar.

Abaixo estão transcritas algumas histórias extraídas de um antigo livrinho do Barão de Macaúbas, um médico, pedagodo, educador e fundador do Ginásio Baiano, na Bahia, no século XIX. O livro do qual rretirei as histórias abaixo foi editado em 1867. O conteúdo continua atual e será de grande utilidade em sala de aula ou mesmo em consultório de psicoterapia.

O PEQUENO MIGUEL

Miguelzinho era um menino muito interessante, inteligente e tão vivo que fez os pais dele o mandarem para a  escola muito pequenino ainda, quando era ainda da altura de uma  mesa.

No primeiro dia de aula fazia uma bonita manhã. O sol brilhava no céu e os passarinhos cantavam nas árvores. Este menino não amava muito seus livros, porque era ainda muito pequeno; era um tolinho que só queria brincar.

Se ele fosse maior, eu suponho que ele haveria de ter mais juízo. Porém, ainda gostava mais de vadiar do que de ir para a escola.

Certo dia, no caminho da escola, ele viu uma abelha voando ora sobre uma flor, ora sobre outra flor. Então, Miguelzinho disse a ela:

“Linda abelha, você quer brincar comigo?”

A abelha respondeu: “Não. Eu não sou vadia nem preguiçosa. Tenho que andar pelas flores, buscando material para fazer minha cera e o meu mel.

Mais adiante, o menino encontrou um cachorrinho e disse a ele:

“Cãozinho, você quer brincar comigo?”

O cãozinho respondeu: “Não. Eu não sou vadio nem preguiçoso. Tenho que vigiar a casa do meu dono. E devo ir depressa para lá, antes que algum ladrão entre lá e roube alguma coisa.”

Então o pequeno Miguel viu um passarinho em um palheiro, puxando umas palhinhas com o bico. E o garoto disse: “Passarinho, você quer brincar comigo?”. O passarinho respondeu: “Não. Eu não sou vadio nem preguiçoso. Devo catar minhas palhinhas e meus gravetinhos para fazer meu ninho.” E voou, indo embora.

Depois, Miguelzinho viu uma formiga e disse: “ Formiguinha, você quer brincar comigo?”. Mas a formiga respondeu: “Não. Eu não sou vadia nem preguiçosa. Tenho que ajudar minhas irmãs a cortar e carregar folhas para o formigueiro para não morrermos de fome quando chegar o tempo da chuva.”

Então, Miguel pensou consigo mesmo: “Ora, se nenhum bichinho é vadio nem preguiçoso, também os meninos não devem ser vadios, nem preguiçosos.” E seguiu depressa e com vontade para a escola e aprendeu muito bem a lição. A professora dele ficou muito satisfeita ao ver a dedicação de Miguel nas aulas e disse que ele era um menino muito valioso que haveria de ser um homem de bem.

A MOSCAZINHA

Em certa ocasião uma mosca pequena estava pousada juntamente com sua mãe na parede de uma chaminé. Perto da chaminé havia uma grande panela, um caldeirão, cheio de água fervendo.

A mosca-mãe precisou se separar da mosca-filha para ir tratar de alguns assuntos longe dali. Então, ela disse à filha antes de partir:  “Minha filha, você precisa continuar neste lugar onde está. Não saia daqui, não se afaste deste lugar até eu voltar.

_ Por que mamãe?  A mosquinha perguntou.

_ Porque, tenho medo que você voe para perto daquele poço fervente. Respondeu a mãe.

_ Mas por que eu não devo chegar perto dele? Insistiu a mosquinha imprudente.

_ Porque você pode cair dentro do poço fervente, minha filha.

_ E por que eu cairia dentro Del, mamãe? Insistiu a mosca-filha.

_ Eu não posso lhe explicar isso agora. Apenas acredite em mim, confie na minha experiência de vida e faça o que eu estou lhe ordenando, pois é para o seu bem. Portanto, fique quietinha aqui onde está até eu voltar. Pude ver outras vezes que sempre que uma mosca se aproxima daqueles poços ferventes, de onde você pode ver que sobe muito vapor, ela cai dentro para nunca mais sair. É isso que eu tenho observado acontecer. Então, prste atenção no que estou lhe recomendando: não se afaste daqui durante a minha ausência.

E a mosca-mãe, acreditando que a filha iria obedecê-la,  partiu, voou para resolver os assuntos necessários .

Porém, mal a mãe se afastou, a filha logo começou a zombar dos conselhos e disse consigo mesma: “essa gente velha anda sempre cheia de medos. Tudo bobagem, caduquices! Minha mãe não pode me privar do inocente prazer de voar pela vizinhança daquele poço. Que mal há nisso?! Por acaso eu sou alguma tola que não sei me cuidar? Ora eu hei de me divertir muito voando ao redor daquele poço! E minha mãe rabugenta há de ver se eu não consigo me sustentar no ar sem cair no poço!

E pensando assim foi logo voando para perto do caldeirão com água fervendo, de onde saía grande quantidade de vapor. Mal a mosquinha teimosa se aproximou do caldeirão sentiu-se sufocada pelo vapor quente e caiu dentro do caldeirão de água fervente. E morreu, claro! Foi cozinhada pela água quente! Virou sopa de mosca.

_Ai! Disse ela, antes de dar o último suspiro. E ainda teve tempo de pensar: “como são infelizes os filhos que não ouvem os conselhos dos pais e não obedecem às ordens da mãe, do pai e nem dos irmãos mais velhos!

HENRIQUE, PEDRO E JOAQUIM

Havia numa escola três menino chamados Henrique, Pedro e Joaquim.

HENRIQUE

Henrique era um menino talentoso, que amava muito seus livros e estudava com tanto gosto e dedicação que chegou a ser um dos melhores da sala de aula. A mãe dele, ao receber elogios das professoras e ficar sabendo que ele era muito aplicado, bom estudante e estimado pelos mestres, enviou para ele um delicioso bolo inglês, bem grande e enfeitado de balas coloridas. Ele recebeu o presente na escola, como uma surpresa. A mãe esperava que ele se divertisse dividindo o presente saboroso com os amigos.

Quando o pequeno Henrique recebeu o delicioso bolo, na secretaria da escola, ficou muito contente e, não tendo paciência de esperar por uma faca enfiou o dedo no bolo e tirou logo um pedaço com as mãos e assim foi comendo o bolo até a sineta tocar chamando para a sala. Acabada a aula,  Henrique voltou correndo para o local onde estava o bolo e continuou a comer sem parar. E como era muito guloso, guardou o resto na mochila e voltou pra casa comendo o bolo. Entrou no quarto e continuou se empanturrando até a hora de dormir.

No dia seguinte o pobre garoto amanheceu muito pálido, enjoado e com piriri. Nem conseguiu almoçar antes de ir para o colégio. Chegando lá, ficou amuado no canto, quieto como bicho assustado. Os colegas estranharam e dizieam: “Como Henrique está estranho hoje, era sempre tão animado  e alegre; hoje parece triste e doente”.  Alguém contou: “Ontem ele recebeu  um enorme bolo inglês de presente e comeu  tudo sem dar nem um pedacinho a ninguém. Deve ter adoecido de tanto comer bolo. À noite, em casa, Henrique teve febre alta e caiu de cama. Foi levado ao hospital, tomou remédio muito amargo e precisou ficar sem sair de casa muitos dias porque a diarréia demorou a passar.  Após alguns dias de cama, Henrique ficou bom e voltou à escola. A mãe, decepcionada com a gula do filho, avisou a ele que nunca mais lhe daria presente algum para comer. Também a partir daquele episódio, no colégio Henrique passou a ser chamado de “comilão”.

Pedro

Pedro era um menino muito econômico que não gostava de dar aos outros nada do que era dele. Um dia, ele escreveu para a mãe uma cartinha carinhosa, muito bonita e muito limpa, não tinha um só borrão nem erro. A mãe dele ficou tão satisfeita que no mesmo dia preparou para ele um delicioso pudim. Ela esperava que ele levasse o bolo para a escola e dividisse com os colegas, por isso fez um pudim grande. Mas  Pedro teve o seguinte pensamento: “eu não quero ficar doente, comendo muito pudim de uma vez como fez o tolo do Henrique com o bolo inglês. Vou guardar meu pudim por muito tempo.” E refletindo assim, levou o pudim para o quarto, comeu um pedaço e trancou o resto em um baú.  O pudim era tão grande que o garoto mesquinho quase não podia subir as escadas com ele.

Todos  os dias,  Pedro ia escondido comer o pudim guardado no quarto. Comida um bocadinho e guardava o restante. Apesar do pudim ser enorme, Pedro não tinha ânimo de levar sequer um pedaço para os amigos da escola nem da rua. Assim continuou ele a comer o pudim por alguns dias. De tão grande, o pudim nunca acabava.

Uma noite, após sentir o cheiro da iguaria, os ratos fizeram um buraco no baú e entraram lá. Roeram toda a roupa de Pedro e comeram grande parte do pudim, que já estava azedo e cheio de bolor; não prestava mesmo para mais nada. Pedro foi obrigado a jogar fora o que sobrou e fez isso com  grande pesar. O caso se espalhou na escola e todos começaram a chamar Pedro de o sovina.

Joaquim

Havia no mesmo colégio do Henrique e do Pedro outro menino, com o nome de Joaquim. Um dia, a mãe deu a ele duas grandes caixas de doces e biscoitos. Ele mereceu o presente porque era um garoto muito atencioso, gentil e querido de todos na escola.

Quando Joaquim recebeu o presente, guardou numa grande sacola, levou para o colégio no dia seguinte, reuniu lá os colegas e repartiu com todos os doces e biscoitos, guardando para ele apenas alguns biscoitos para comer no dia seguinte. Depois foi brincar com os amigos no intervalo das aulas. Quando estavam todos brincando alegremente, chegou perto deles um velhinho, do lado de fora da grade do colégio.

O velho era magro, tinha a barba comprida e andava guiado por um cachorrinho amarrado pelo pescoço com uma cordinha, que o pobre velho segurava, com as mãos trêmulas.

Logo que os meninos o avistaram, correram todos para perto dele. Joaquim percebeu que duas lágrimas corriam pelo rosto do velhinho e sentiu grande aperto no coração porque sentiu que o velho estava muito triste. Então perguntou ao homem:

_ Por que você está chorando?

E o velhinho respondeu:

_ Eu choro porque estou com fome e não encontro ninguém que me dê alguma coisa para comer;  já é tarde e até agora não achei quem tivesse pena de mim e me desse uma esmola ou um bocado de comida. Neste mundo não tenho mais ninguém que me ame a não ser este cãozinho, que me guia pelas ruas, evitando que eu me perca. Eu não posso trabalhar porque sou cego. Se eu enxergasse, não  sofreria tanto porque apesar de ser velho não sou preguiçoso e haveria de trabalhar ao menos para ter um pedaço de pão.

No mesmo instante o pequeno Joaquim, sem dizer um só palavra, saiu correndo dali e voltou dentro de alguns instantes trazendo os biscoitos que havia guardado para comer no outro dia. E deu os biscoitos ao velhinho.

Então, o velhinho ficou muito agradecido e disse: “Oh, meu menino! Como você é bom! Deus há de lhe recompensar por essa esmola, dando-lhe felicidade.”

E Joaquim ficou mais satisfeito do que se tivesse comido seus biscoitos. Depois dessa ação, os colegas de Joaquim concordaram em dar a ele o título de generoso. E todos passaram a chamá-lo de Joaquim, o generoso.

Dizei-me agora, amiguinhos,  qual desses três meninos era o melhor? Henrique, Pedro ou Joaquim?

A CIGARRA E A FORMIGA

Uma cigarra, tendo cantado por todo o verão, achou-se em miséria no inverno, com a chegada das chuvas. E como não tinha o que comer, foi à casa da formiga, sua vizinha, pedir emprestado algum alimento, a fim de não morrer à míngua, de não morrer de fome, prometendo devolver tudo depois na exata medida. Deu sua palavra de honra que faria o pagamento.

Ora, a formiga vizinha tinha o defeito de não ser prestativa, de ser sovina. Assim, depois de ouvir a súplica da cigarra. Disse:

_O que tu fazias no tempo de estiagem, quando não chovia?

_ Eu, minha vizinha,  respondeu humildemente a cigarra, ocupava-me a cantar de dia e de noite para divertir quem passasse por mim. Espero que isso não te desagrade.

A formiga replicou:

_Então tu cantavas! Pois agora dance!.

E a pobrezinha da cigarra que já estava muito fraca de fome, caiu ali mesmo e morreu.

Essa história ensina mais de uma coisa: que não devemos ser imprevidentes nem preguiçosos, como a cigarra, nem cruéis para com os desgraçados, como a formiga, mas sejamos trabalhadores, para termos com que sustentar a nós e a nossa família, e com que dar esmola aos necessitados.

Aplicando essa história aos homens, podemos considerar o verão como a mocidade ou a idade da força, e o inverno, como a velhice. E o conselho da fábula se resumirá a isso: trabalhe enquanto é moço para ter como bem viver na velhice. E quando tivermos feito nossas provisões com  um trabalho constante e honesto, se um imprudente ou preguiçoso vier nos dizer “perdi meu tempo e agora morro de fome” não devemos deixá-lo sem socorro, porque embora ele seja culpado das próprias dificuldades, nós também seríamos culpados.

Devemos, ao contrário, dar-lhe alguma esmola e dizer com doçura, se ainda houver tempo:

_ Seja mais ajuizado e pense no futuro, amigo, cante menos e trabalhe mais.

Mais humano será esse procedimento do que o da formiga, que, ao repelir a pobre cigarra, somou o insulto à negativa de ajuda. “Pois bem, dança agora” é uma resposta que revela maldade de um coração e certamente não deve ser tomado como modelo de ação.

O ASSEIO

As crianças devem se acostumar a ser organizadas e higiênicas desde o começo da vida. É muito difícil corrigir os hábitos de desordem e porcaria adquiridos na infância e mocidade. Se tais hábitos são tolerados nos primeiros anos, tornam-se, na fase adulta, causas de muitos sofrimentos e desgostos, tanto para os autores dos comportamentos  quanto para quem convive com as pessoas desorganizadas e afeitas à sujeira. Na  história a seguir, um exemplo disso:

Ana Rita era uma menina de 12 anos de idade que vestia luto fazia alguns anos, devido à perda sucessiva de algumas pessoas da família. Vestia, como costume de décadas atrás, apenas roupa preta. Nessa época, ela adquiriu o mau hábito de, sempre que acabava de escrever, limpar as penas de escrita na saia do vestido. Pelo fato da vestimenta ser preta, as manchas da tinta não apareciam.

Tão enraizado estava esse costume nela que Ana não tinha mais consciência dele, fazia-o sem se dar conta. Nem conseguia passar sem limpar as penas no vestido toda vez que escrevia.

Certa tarde ela estava toda vestida de branco, com um lindo vestido de cambraia, para ir ao batizado de  uma primimha. Porém, na hora de sair, seu pai lhe pediu para escrever um bilhete. Como de costume, limpou a pena com todo cuidado na saia do seu rico vestido.

No momento em que ia entrar no carro o pai mostrou-lhe que o vestido dela estava com  muitas manchas, grandes e feias, justamente na frente do vestido. Foi, então, que Ana Rita percebeu o que tinha feito e com muita tristeza não pode ir ao batizado da priminha, a quem tanto amava.

Com o incidente, Ana Rita prometeu a si mesma que nunca mais, dali em diante, voltaria a limpar a pena no vestido. Mas apesar de toda a atenção e cuidado , no desejo ardente de corrigir o mau hábito, lá uma vez ou outra, sem perceber, repetia o gesto: limpava a pena no vestido e era obrigada a trocar de roupa, porque não estando mais de luto, já não usava roupas pretas.

A formiga e a abelha

Aconteceu que um tamanduá foi parar justo no formigueiro a que pertencia aquela formiga má, que tão cruel havia sido com a cigarra. Conforme impulsiona a natureza dos tamanduás, ele comeu todas formigas, menos a dita formiga, que a custo se salvou muito maltratada e com  uma perna quebrada.

Ora, essa formiga, se achando só e desamparada, estava para morrer de fome quando avistou de longe um cortiço de abelhas. Coxeando, para lá se dirigiu na esperança de obter algum socorro.

Chegando na colméia, aproximou-se da porta de entrada e logo veio ao encontro dela a abelha encarregada da sentinela, que lhe disse:

_ O que  queres aqui, formiga?

_ Ah, minha boa irmã, respondeu a formiga, quão desgraçada sou eu! Um tamanduá deu em meu formigueiro, comeu todas as minhas companheiras, não escapando nenhuma além de mim, por rara felicidade, mas com esta perna quebrada. Desde que essa desgraça aconteceu, tenho vagado ao acaso cheia de dores e sem nada achar para comer até este momento. E, perdendo já toda esperança, avistei este belo palácio; arranjei ânimo e disse comigo mesma: “naquele palácio moram minhas irmãs abelhas. Elas são trabalhadoras, industriosas e, portanto, ricas e  generosas. Estou certa de que me valerão, dando-me alguma gota daquele precioso mel, que só elas sabem fabricar. Vim, pois, para cá me arrastando, sabe Deus com que dificuldade. Oh, tende piedade de minha miséria; dai-me uma esmola.

_ Não foi você, disse a abelha, que trataste com tanta dureza aquela pobre cigarra, que morreu de fome porque você lhe negou o socorro de uma migalha?

_ Ah, minha boa senhora! Você sabe disso? Exclamou triste a formiga.

_ Sim, aquela cigarra era minha amiga e minha comadre, respondeu a abelha.

_ Por piedade, minha irmã, perdoe-me e não se vingue. Quão arrependida estou agora dessa minha falta de caridade. Perdão; piedade.

_ Não se assuste, continuou a abelha, tranqüiliza-te que eu não v ou te imitar no mal. Entra, serve-te do nosso mel à vontade; e aprende a ser mais compadecida dos desgraçados.

A formiga entrou, serviu-se de quanto mel quis e não saiu de lá sem que primeiro a caridosa abelha lhe curasse a perna quebrada.

Quanta diferença entre o procedimento da formiga e o da abelha! Aquela cruel e avara, nega uma migalha, que bastaria para salvar a cigarra. A abelha, franqueia a colméia à formiga, deixa-lhe servir-se de mel à vontade, levando a bondade ao ponto de curar o ferimento na perna da visitante.

JACINTO

Os pais de um menino chamado Eduardo eram muito ricos; e este confiando na grande riqueza dos pais que haveria de herdar, nunca estudava suas lições e desprezava o trabalho. Na vizinhança de Eduardo vivia jacinto, que ao contrário daquele, era um menino muito pobre, mas muito esforçado e tinha grande habilidade para fazer cestos.

Um dia, enquanto Eduardo estava pescando à beira do mar, Jacinto se ocupava em cortar cipós para  fazer cestos, foram ambos capturados por piratas, que os levaram para seus navios e faziam planos de vender os dois garotos como escravos.

Enquanto iam navegando pelo mar afora, iniciou-se violento temporal que atirou o navio sobre os rochedos de uma ilha desconhecida.

Todas as pessoas que estavam na embarcação morreram, exceto os dois garotos, os quais, como que por milagre, chegaram a uma terra habitada por  selvagens.

Então, Jacinto pensou que poderia agradar àquele povo trabalhando e fazendo alguns bonitos cestos. Pensando assim, pegou seu canivete, cortou alguns cipós e os trançou fazendo belo cesto. Muitos dos nativos da ilha, homens, mulheres e meninos, vendo Jacinto ocupado em fazer o cesto, aproximaram-se dele e ficaram olhando com grande curiosidade como ele trabalhava e cantava alegremente.

Quando o cesto foi acabado, jacinto o deu ao líder do grupo e todos ficaram desejando possuir um cesto igual. Jacinto foi logo conduzido a uma linda cabana cercada de árvores frutíferas, onde podia viver tranquilamente e em abundância de tudo. Nesse ambiente agradável, Jacinto passava os dias a fazer cestos.

Eduardo foi também convocado para fazer cestos, mas era tão estúpido, preguiçoso e ignorante, que os nativos não tiveram paciência para aturá-lo. Deram-lhe  uma grande surra e de certo teriam-no  matado se Jacinto não tivesse interferido a favor de Eduardo, pedindo para lhe pouparem a vida. Cedendo aos pedidos de Jacinto, os nativos não mataram Eduardo, mas despiram-no das roupas finas, que deram para Jacinto,  e obrigaram Eduardo a vestir as roupas humildes deste. Além disso, fizeram de Eduardo criado de Jacinto, tendo por obrigação cortar os cipós para a trançagem dos cestos.

Essa história mostra que, em toda parte, as pessoas laboriosas sempre encontram quem os estime e proteja, enquanto os preguiçosos e ignorantes passam uma vida miserável e sem estima.

você não satisfez seu desejo de comer, da mesma forma que esse ser bruto a que você tinha a obrigação de vigiar?  Então você quer aplicar-lhe um castigo não merecido. Se esquece do que ensina a razão e a sua própria consciência.

Crispim ficou  muito triste com o acontecido e também muito envergonhado diante da explicação do pai.

Na verdade, que culpa tinha a pobre vaca de ter entrado no jardim e comido as plantas se achou o portão aberto e ninguém lhe impediu de entrar? Se Crispim soubesse cumprir o dever dele não teria abandonado a vaca só pelo prazer de comer algumas jabuticabas. A lição dessa história é que deve-se aprender a sacrificar alguns prazeres para cumprir os deveres e não cometer nunca a desonra de abandonar o posto de trabalho que nos é confiado.

Fonte: Segundo Livro de Leitura para uso da Infância Brazileira. Borges, Abílio Cesar (Barão de Macahubas). BA, 1867.

______________________________________________

A história abaixo eu mesma escrevi ao me deparar com a necessidade de trabalhar a ansiedade de uma criança de seis anos de idade. Sem pretensões literárias, o meu desafio foi produzir uma ferramenta de trabalho por não ter encontrado no mercado algo que atendesse à minha demanda.

A Gruta dos Guerreiros

História infantil para intervenção com crianças (redução da ansiedade)

Mateus é um garoto inteligente, bonitinho e tem um sorriso que parece um sol brilhando! Ele é muito querido pela família dele, pelo pai, pela mãe, a irmã, pelos tios e tias, os avós.  Na escola também muitos gostam de Mateus porque ele é “um amor de criança”. Os vizinhos acham que Mateus é “fofinho” e “gentil”.

Tudo está indo bem na vida desse menino especial. Só há um probleminha que atrapalha as coisas: ele é um garotinho ansioso. Você sabe o que é ser ansioso? É ser uma pessoa que tem ansiedade! Ora, mas o que é ter ansiedade? Ah, para entender o que é a ansiedade, para saber o que é ser um  garoto ansioso, você precisa prestar atenção na história da viagem do Mateus. Escute, então!

É Sexta-feira! Chegou o feriado! Quatro dias de folga na escola! Quatro dias em que papai e mamãe não precisam ir trabalhar. Que maravilha! A família aproveita o feriado longo e decide viajar. Decidem ir para Caracol, uma cidadezinha que fica um pouco longe da casa deles. Para chegar a Caracol é preciso dirigir por seis horas, mais ou menos. Não é muito perto, mas vale a pena ir! É lá que fica a Gruta dos Guerreiros e a praia das areias mais brancas do mundo! Para Mateus essa cidade tem outra coisa maravilhosa: é lá que mora o primo Lucas! Os dois adoram brincar e conversar juntos!

São oito horas da manhã. A família já arrumou tudo e já pode “pegar a estrada”, começar a viagem! O pai de Mateus vai dirigindo. A mãe, vai no banco da frente. Atrás vão Mateus e a irmã dele, a Luisa. Estão todos animados! Eles sabem que vão precisar parar na estrada para comer, ir ao banheiro, descansar um pouco, “esticar as pernas”! E mesmo tendo saído cedinho de casa só devem chegar em Caracol no finalzinho do dia, lá pelas cinco horas da tarde.

Que coisa boa é viajar! Todos estão muito alegres, mas Mateus está muito ansioso! Ele só pensa no encontro com o primo, na gruta e na praia. Está com muita pressa de chegar! Mateus gosta muito de ir à casa do primo Lucas; gosta quando todos vão juntos à praia e eles dois e a irmã ficam catando conchinhas. Ele e o Lucas também brincam na areia, correndo, se escondendo nas pedras grandes e fingindo que são guerreiros lutando contra monstros.

O carro segue viagem passando por muitas coisas diferentes. Algum tempo depois que a viagem começou, a mãe de Mateus pede ao marido para parar o carro numa lanchonete.

_ Não, não vamos parar! Grita Mateus. Assim não vamos chegar logo!

_ Nós precisamos parar, Mateus. Nós precisamos comer alguma coisa. E sua irmã quer ir ao banheiro. Explica com firmeza e doçura a mãe de Mateus.

Eles avistam uma lanchonete à beira da estrada. Era um lugar bonito, com muitas plantas e coisas diferentes. Tinha  até um enorme aquário com muitos peixes coloridos. Tudo para divertir os fregueses. Havia também um esquilo! Muito fofo e mansinho. E como ele não parava quieto, o nome dele ficou sendo Serelepe. Esse esquilinho danado gostava de se exibir para os viajantes e às vezes chegava bem perto das pessoas.

Luisa, a irmã de Mateus, adorou a lanchonete! Se divertiu olhando os peixinhos – tinha um que se parecia com o Nemo – aquele peixinho do filme que passou no cinema! Comeu coisas gostosas, tomou suco de cajá. “É cheirosinho, esse suco! Humm, que delícia!”, ela disse.

E o Mateus? Ah, Mateus não gostou de nada. Mastigou rápido o pão de queijo e nem deu bola pro esquilo. Queria mesmo era ir logo embora! Queria se encontrar logo com o primo, brincar, conversar… Mateus estava tão ansioso para chegar à casa do primo que nem estava aproveitando a viagem. Ele não olhou para as árvores bonitas, não viu os cavalos nem os bois que pastavam à beira da estrada. Mateus também não viu um lindo tucano que atravessou a estrada por cima do carro.

_ Que lindo!! Olha, olha mamãe! O bico dele é vermelho! E grande!! Gritou Luisa, saltando de alegria.

Mateus também não viu um lindo veadinho e seu filhote brincando de pique-pega na  grama verde. Eram tantas coisas bonitas aparecendo à beira da estrada que o pai de Mateus começou a dirigir mais devagar – “Para que todos apreciem a paisagem”, ele disse.

Luisa viu bem o tucano, os veadinhos, os bois, as vacas, as árvores, as flores, os papagaios  que voavam em bando e fazendo muito barulho! A menina estava aproveitando a viagem. Estava aproveitando tudo mesmo! Estava até se divertindo com a cara emburrada do irmão. Ela disse:

_ Você tá com uma cara engraçada, Mateus!

Luisa também gostava do primo Lucas e da praia, mas até chegar lá muitas coisas maravilhosas podiam ser vistas e ela queria aproveitar tudo. Cada coisa na sua vez! Cada coisa na sua vez.

O pai de Mateus e Luisa continua dirigindo tranqüilamente.. De repente, todos ficam surpresos e a mãe das crianças grita:

_ Nossa! Olha só pra isso!

Bom, você já percebeu que esta história não termina aqui; ela continua. Mas não hoje! Agora é hora de dormir e de aproveitar outras coisas boas. Por exemplo, você deve aproveitar o soninho bom chegando… aproveitar esse cheirinho dos lençóis,  suas roupas macias e cheirosinhas, essa caminha boa! O conforto da sua casa; a proteção dos seus pais; o carinho da mamãe, lhe contando esta história (SE A LEITORA NÃO FOR A MÃE, SUBSTITUIR); você pode dormir bem gostoso sabendo que você é muito amado e protegido, FULANO (dizer nome da criança com segurança e clareza).

………………………………………………………………………………………………………….

Ontem nós paramos a história no ponto em que a mãe de Mateus havia gritado: “Nossa! Olha só pra isso!”  Eles tinham visto alguma coisa interessante! Luisa bateu palmas de alegria; o pai de Mateus disse “Que maravilha!”

E Mateus? Bem, o garoto ficou triste: eles acabavam de avistar um circo! Um circo!! Você conhece alguma criança que não gosta de circo? Todas  gostam. E Mateus também gosta de circo, mas ficou triste, achando que causa do circo eles iriam demorar mais ainda para chegar à casa do primo. Que menininho ansioso!

_Vamos ao circo, papai, vamos, por favor, vamos!!  Luisa pede ao pai.

_ Claro, meu bem! Todos querem ir ao circo? Então vamos ao circo!

_ Não. Eu não quero ir…

_ Mateus! O que é isso? Você adora circo, por que não quer ir? Pergunta a mãe, sem entender o garoto.

_ Quero chegar logo, quero brincar com o Lucas…

_ Mateus, filho, nós vamos chegar lá e você vai brincar muito com seu primo, mas antes vamos aproveitar que  o circo está no nosso caminho e nos divertir. Assim nossa viagem fica mais divertida, querido.

_ Tá bom… Ele concorda meio sem querer, mas continua ansioso. Mateus não sabe aproveitar uma coisa de cada vez.

A família estaciona o carro e compra os ingressos. Como o show seria só à noite, os pais decidem que é melhor passar a noite ali mesmo, naquela pequena e agradável cidade. Procuram uma pousada para dormir, guardar as malas e o carro. No início da noite vão assistir ao espetáculo e depois vão jantar em um pequeno restaurante do lugar. Finalmente, voltam para a pousada e dormem. Que noite agradável! Quanta diversão! Quantas coisa boas estão fazendo antes de chegar a Caracol!

Acordam cedo, tomam delicioso café da manhã, pagam a conta e seguem viagem. Quase duas horas depois chegam à casa de Lucas. Quantas novidades as crianças tinham para contar! Luisa não pára de falar. Está muito feliz, muito alegre com a viagem.

_ Lucas, vamos à praia?

_ O sol já está quente, Mateus, é melhor deixar pra amanhã. Iremos todos juntos, meu amor. Explica a mãe de Mateus, com muito carinho.

_ Ah, mãe! A gente usa protetor solar… Ele inisite.

_ Não, Mateus. Praia só amanhã.

_ Ah, não! Então a gente pode ir na Gruta dos Guerreiros… vocês prometeram que a gente ia lá…

_ É, boa idéia, Mateus… eu também quero ir lá. Então iremos todos à gruta, mas antes precisamos almoçar… Quem fala firme desta vez é a  mãe do Lucas.

_ Ah, não! Por que a gente sempre precisa fazer alguma coisa antes? Pergunta Mateus, muito inteligente, ansioso para ver a gruta. Todos riem dele.

_ Porque cada coisa tem sua hora, meu filho. Só por isso. Tudo tem sua hora. Explica  o pai de Mateus. “Você não pode comer uma banana antes dela ficar madura e amarelinha – porque é dura e tem gosto ruim! Você não pode comer um delicioso pernil antes de assá-lo no forno! Nem pode ser homem antes de  ser uma criança. E de aproveitar bem a vida de criança, curtindo todas as coisas que puder, uma de cada vez.” Concluiu a explicação com paciência.

O almoço, que Mateus não queria esperar acontecer, estava uma delícia! Tão gostoso que todos repetiram o prato. E a sobremesa?! Bananas caramelizadas com sorvete de amora!  Hummm, bom demais!! Mateus até se esqueceu, por instantes, da gruta.

Depois do almoço, quando alguém sugeriu que fossem descansar um pouco, o menino protestou!

_ Ah, não! A gente tem que ir agora, senão fica de noite, fica escuro…

Desta vez o garoto estava certo: não dava para fazer nada antes, nem tirar uma soneca. E lá se foram eles conhecer a Gruta dos Guerreiros.

Quando chegaram na entrada da gruta…

Bem, o resto da história só amanhã. Agora é hora de dormir. E como ontem, você pode aproveitar esse momento gostoso antes de adormecer… sentir esse cheirinho dos lençóis, sentir a maciez do pijaminha, macio, cheirosinho… que delícia estar nessa caminha limpa, fofa, nessa casa segura… se sentir protegido por seus pais. Mamãe está aqui e ama você… papai ama muito você. Durma bem gostoso, se lembrando das coisas boas de hoje e sabendo que você é muito querido, é nosso filho amado e protegido, FULANO (dizer nome da criança com segurança e clareza. Podem ser acrescentadas frases e sentimentos de afeto e aconchego).

………………………………………………………………………………………………

Ontem nós paramos a história quando Mateus, os pais dele, a irmã, o primo e a mãe do Lucas chegaram à entrada da Gruta dos Guerreiros.

_ Porque o nome é Gruta dos Guerreiros, mãe? Lucas perguntou

_ Não sei filho, talvez guerreiros tenham morado aqui.

_ Ainda tem algum guerreiro lá dentro? Vestido de preto, com espada comprida e armas secretas? Era Mateus perguntando curioso. Todos riram, mas ninguém respondeu a pergunta do garoto.

Ao chegarem na entrada, acharam meio escuro e ficaram assustados! Os adultos e as crianças sentiram um pouco de medo. Todos temos um pouco de medo de lugares desconhecidos e escuros. Mas eles estavam com um guia, que os chamou.

_ Vem pessoal, não tem perigo! Podem entrar!

Eles entraram. E viram um lugar fantástico! Fazia frio lá dentro. Era escuro, mas dava pra ver que havia um pequeno rio. Eles caminharam para perto dessa água. Então olharam para cima e viram que do teto desciam pedaços de gelo, em forma de cristais brilhantes. E pingava água deles…  lindo! Havia uns buracos na rocha, formando “bocas de caverna”, como se fossem cavernas “entradas secretas”. Em algumas partes das paredes as rochas tinham contornos de animais, como se fossem esculturas naturais; formavam um urso, um golfinho e uma raposa.

Mateus sentiu medo quando um morcego saiu de um buraco e voou para fora da gruta. “Ainda bem que ele foi embora”, o garoto pensou. Ele estava sentindo um pouco de medo, então apertou a mão do pai. “Não tenha medo, Mateus, estou aqui com você, segurando sua mão. A mãe de Mateus segurava na mão de Luisa e a mãe de Lucas cuidava dele.

Caminharam mais para o fundo da gruta, para chegar mais perto do riozinho de águas tranqüilas. Depois, todos se sentaram em um pequeno barranco e ficaram olhando a gruta, em silêncio, observando o rio e todas as coisas que havia lá… ouvindo os barulhos suaves… sentindo o cheiro das rochas molhadas… Mateus ficou encantado! Não sabia que uma gruta pudesse ser tão bonita por dentro. Havia muita paz naquele momento.

Depois de alguns minutos, a mãe de Mateus convidou: “Que tal se agora formos àquele parque de diversão, aquele da roda gigante vermelha? E de lá, podemos ir a uma pizzaria.”

_Oba!! Foi a resposta de todos.

Mas Mateus pediu:

_ Mãe, podemos ficar aqui mais um pouquinho?

_ Claro filho! Podemos! Não tá com pressa de ir ao parque?

_ Quero ficar mais um pouco aqui antes!

A mãe de Mateus percebeu a diferença: mesmo querendo ir ao parque e à pizzaria, ele entendeu que podia, antes, ficar apreciando toda a beleza daquele lugar! E quis aproveitar a felicidade daquele momento.

De lá eles foram ao parque e Mateus não ficou com pressa de sair de lá pensando na  pizzaria. Quando estava na pizzaria, Mateus se lembrou da praia branquinha onde iria no dia seguinte, mas deixou para pensar nisso depois e se divertiu na pizzaria. Que maravilha! Ele havia aprendido a esperar, a aproveitar cada coisa boa enquanto ela está acontecendo! O “guerreiro” Mateus estava aprendendo a vencer uma grande inimiga: a ansiedade.

Carmelita Rodrigues

4 comentários sobre “Histórias

  1. Oi, Carmem, era assim que eu te chamava, lembra? Foi muito legal ler um comentário seu no meu blog e depois saber que vc largou a vida de jornalista para ser uma psicóloga. Tenho boas lembranças do primeiro dia que te vi no Conjunto Nacional, acho que te pedi um cigarro, ou foi o contrário (ainda não parei de fumar, acredita?) Separado pela segunda vez, uma filha de 16 anos, enfim, muitos beijos pra você, dê notícias. Marcelo

  2. oi, gostaria de marcar uma consulta, eu e meu filho tem dtah..ta uma guerra..
    não to conseguindo lidar.. com isso ele ja 12 anos..não aguento mais..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s