Nosso Lar e a Psicologia

Alguém chegou ao meu blog  digitando nos buscadores a seguinte expressão:  “relação do filme Nosso Lar com a Psicologia”.  Então resolvi escrever sobre o tema, mesmo sabendo que provavelmente essa pessoa não lerá. A psicologia está relacionada a todas as coisas ligadas à Vida. No caso do filme em questão, do diretor Wagner de Assis,  que estreou no dia 3 de setembro, um importante elo de convergência entre a produção cinematográfica e a Psicologia é a noção de psicossomática. Insistimos em consultório no efeito de pensamentos disfuncionais e emoções desequilibradas como fator de adoecimento do corpo e da alma. Mas a produção tem muitos conteúdos analisáveis por psicólogos sociais, psicólogos sistêmicos e, claro, os de base analítica. A Psicologia  Junguiana, de modo especial,  não nega a dimensão religiosa das pessoas. Ao contrário: parte de nossa formação é em mitologia,  alquimia, simbologia e religiões comparadas. Todas áreas que buscam a compreensão da dinâmica do psiquismo humano. Carl Jung chegou a pesquisar manifestações mediúnicas, tendo como sujeito de suas observações uma prima.  Foi o suficiente para que ele sempre demonstrasse muito respeito pelas práticas mediúnicas. Ao longo de sua história, o que pode ser constatado em suas biografias (incluindo MEMÓRIAS, SONHOS E REFLEXÕES, e um lançado mais recentemente, CARTAS, do próprio Jung,) percebe-se que ele sempre esteve imerso em vivências e reflexões sobre a vida em todas as suas dimensões, incluindo, claro, a espiritual.  Como psicóloga junguiana, e possivelmente por força da sincronicidade – conceito de Jung –  atraio ao meu consultório muitos pacientes espíritas e  de outras vertentes religiosas. Pessoas com demanda de compreender e organizar sua relação com o numinoso.  O nosso código de ética veda práticas proselitistas quanto a política e religiões . Não podemos sugerir nem conduzir pacientes para esta ou aquela prática religiosa e obviamente respeito essa diretriz, inclusive por entender que esta escolha deve ser do próprio paciente. Mas em absoluto vou abster-me de acolher o discurso de uma pessoa que em sessão relate uma experiência religiosa. Ao contrário: juntos,  avaliamos a força disso nas emoções e no comportamento dela, o significado disso para a existência dela.  Mas não nego que reforço esse movimento de busca de apoio na religiosidade, no numinoso, qualquer que seja a concepção  que meu paciente tenha de Deus. Entendo como fundamental a aliança entre criatura e Criador como fonte de equilíbrio, redução de ansiedades e  organização interna.  O filme Nosso Lar mostra algo que percebemos na prática clínica:  a  dificuldade para se atingir a individuação (evolução espiritual, na concepção religiosa),  a resistência em rever concepções e comportamentos cronificados que causam ao próprio sujeito enorme sofrimento. Processo terapêutico, assim como todo o nosso caminhar nas muitas existências, é processo de mudança, de evolução. Algo bem difícil, que exige muito empenho e toda ajuda possível do  Alto. A personagem Elisa, do filme, é exemplo disso. O percurso de vida do personagem principal, André Luis, idem.  Na verdade, percebo passos avançados em pacientes que percorrem esse caminho recorrendo simultanemente às duas formas de apoio: a religiosidade e a psicoterapia. E uma coisa não exclui nem substitui outra. Um amigo paranormal e psicólogo contou-me que, certa vez , questionou ao Guia Espiritual com o quala se comunica sobre o que competia a Deus e o que era esfera da Psicologia . A resposta foi algo como: “Deus cuida do espírito; a Psicologia deve cuidar das emoções e das coisas da mente, assim como aos médicos compete cuidar do corpo”. A Entidade defendeu a importância da interdisciplinaridade ou até multidisciplinaridade na abordagem de dificuldades psicoemocionais-espirituais-sociais das pessoas. Psicólogos e pessoas analisadas conhecem bem a  verdade que há no que o filme mostra: para  toda ação há uma reação correspondente; somos inteiramente responsáveis pelas coisas que nos acontecem; é nossa escolha seguir a luz ou as sombras. E aí entramos em outro aspecto piscológico-espiritualista: o conceito de sombra. Para a Psicologia Analítica são aspectos de nosso ser, do nosso psiquismo, partes integrantes de nossa personalidade recusadas por força de convenções sociais e religiosas, coisas consideradas negativas. Mas a sombra não deve ser vista apenas como algo negativo, tampouco como algo a ser negado. Pelo contrário. Veja: se o personagem do filme, André, tivesse percebido seus aspectos sombrios, entre eles a arrogância, o orgulho, o autoritarismo, a raiva contida, entre outros, e os  tivesse “integrado”, em vez de ignorá-los, não teria adoecido nem cometido tantos erros com a família e com outras pessoas. Não teria cometido suicídio inconsciente nem ido parar, após a morte do corpo, no Vale dos Suicidas.  Em resumo, o filme Nosso Lar, cujo títilo é o mesmo do livro que o inspirou, tem muito conteúdo psicológico. Este texto ficaria enorme se eu tentasse abordar todos eles.

incoerências dos usuários de drogas

No prédio onde funciona meu consultório, na Asa Sul de Brasília,  há uma  lan house. A dona é a Rosa, uma flor de pessoa –  permitam-me usar uma metáfora bem pobre, mas pertinente. Rosa veio contar-me meio chorosa que ficou impressionada com o filme NOSSO LAR, do diretor Wagner de Assis,  que estreou no dia 3 de setembro. O que assustou minha amiga foi a ideia de que ela fosse, após a morte, parar no Vale dos Suicidas.  Rosa  é fumante; consome uma carteira de cigarros por dia e não foi difícil para ela deduzir que essa prática é uma forma de “suicídio  inconsciente”, conforme expressão usada pelos personagens de Nosso Lar e um dos temas centrais do filme que, obviamente fui ver para entender melhor as queixas de Rosa e porque já havia mesmo planejado assistir. Pagamos para ver tantas porcarias americanas; por que não prestigiar nosso cinema? Mais ainda quando se trata de tema inusitado e instigante como a “Vida depois da Vida”. Mas não  é sobre o filme que quero falar neste post e sim de uma reflexão  que o filme provocou em mim: a autodestruição. Não apenas a cometida  por fumantes e pessoas que alimentam fortes emoções negativas como raiva, rancor, orgulho ferido, etc.,  mas principalmente a efetivada por usuários de drogas. Escrevo isto e vou já me preparando para as “pedradas” que receberei em seguida. Isso porque dos mais de 250 posteres que publiquei   até hoje há  três que suscitam de modo contundente o desejo das pessoas de se manifestarem. São eles:

BRASILEIROS PEDEM A VOLTA DO REGIME MILITAR,

CONTRA A LEGALIZAÇÃO DA MACONHA

e USAR DORGAS É COVARDIA FRENTE À VIDA .

Nos que falam das drogas fui atacada duramente. Os internautas dos comentários agressivos não me devem desculpas porque, como se aprende no filme Nosso Lar, desculpas só cabem quando a outra parte se sente ofendida e não  é o caso. Eles não me ofenderam. Eles despertaram em mim compaixão, pelo modo equivocado como defendem as drogas. Pude perceber que usuários de drogas SACRALIZAM AS DROGAS, elegem-nas suas divindades. A ponto de não admitirem que ninguém se posicione contra o uso delas. Estão dominados pelo vício. Escravos que são da dependência química sequer percebem que uma pessoa ao destacar os malefícios do uso de drogas não os está atacando, condenando ou coisa parecida, mas apenas defendendo a vida deles. Se sentem agredidos, recriminados e partem com veemência em defesa do “deus” droga, dono de suas vidas. Ouvi a seguinte frase de uma pessoa querida , após defender que ele se desvencilhasse das drogas e do álcool,  “você não respeita as escolhas dos outros”. Penso diferetne. Entendo que usar drogas não é escolha nem estilo de vida; é vício; é dependência química.  A essas pessoas talvez fosse bem útil assistir ao filme.

E há ainda uma coisa que me deixa perplexa: quando me refiro a pessoas que sacralizam as drogas (no caso das que eu conheço), não estou me referindo a pessoas ignorantes, sem cultura, insensatas, tampouco negligentes com a vida. Não. Estou me referindo a pessoas bem informadas, cultas, inteligentes, algumas bem evoluídas em  vários aspectos  e até generosas. Generosas com os outros, com os animais com o meio ambiente. Pessoas que filosoficamente e como prática de vida são ecologistas, incapazes de prejudicar o meio ambiente,  de poluir rios, mas que – pasmem  –  jogam lixo dentro de si mesmas. Adoecem o próprio corpo e a própria alma ingerindo porcarias que destroem a vida delas. Qual a explicação para tamanha incoerência. Estou em busca da resposta.

Cuidado com as palavras!

Quase sempre a forma como se diz algo é mais importante do que o conteúdo em si da mensagem. Transcrevo a seguir uma parábola que exemplifica bem isso:

“Certa vez, um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Ele acordou assustado e mandou chamar um sábio para que interpretasse o sonho.

– Que desgraça, senhor! – exclamou o sábio – Cada dente caído representa a perda de um parente de vossa majestade!

– Mas que insolente! gritou o sultão. – Como se atreve a dizer tal coisa?!

Então, ele chamou os guardas e mandou que lhe dessem cem chicotadas. Mandou também que chamassem outro sábio para interpretar o mesmo sonho.

O outro sábio chegou e disse:

– Senhor, uma grande felicidade vos está reservada! O sonho indica que ireis viver mais que todos os vossos parentes!

A fisionomia do sultão se iluminou, e ele mandou dar cem moedas de ouro ao sábio. Quando este saía do palácio, um cortesão perguntou ao sábio:

– Como é possível? A interpretação que você fez foi a mesma do seu colega!!! No entanto, ele levou chicotadas, e você, moedas de ouro!

Respondeu, então, o sábio:

– Lembre-se sempre, amigo, tudo depende da maneira de dizer as coisas…

Esse é um dos desafios em nossos relacionamentos. Desafio para as lideranças, para os educadores, para todos nós: a maneira de dizer as coisas, porque as palavras têm força, têm poder. Elas podem gerar felicidade ou desgraça, moedas de ouro ou chicotadas, paz ou guerra. A verdade deve ser dita, mas a forma como é feita pode fazer toda a diferença.”

Formação de compromisso: sintomas

O sintoma fala mesmo àqueles que não sabem ou que não querem ouvi-lo”. Para a Psicanálise, o sintoma é uma formação de compromisso, isto é: “um certo arranjo entre o desejo inconsciente, as normas e permissões culturais e as possibilidades reais de satisfazer um desejo”. É o resultado de um emaranhado de forças conflitantes inconscientes.

São representações de conflito entre conteúdos recalcados (desejos inconscientes) e exigências defensivas. O sintoma é a solução encontrada pelo sujeito para mediar o conflito entre os elementos, cuja satisfação é censurada, e a defesa, que visa manter a integridade do indivíduo diante do perigo do desejo proibido.

Para solucionar o conflito, a formação de compromisso entra em ação. Nesse sistema, o que foi recalcado pode ser admitido na consciência, pois se apresenta de tal forma descaracterizado que não apresenta risco. É uma forma de reconciliação entre a oposição dessas tendências.

O retorno do desejo, do conteúdo recalcado pode ser manifestado pelo deslocamento, pela condensação, pela conversão, entree outras possibilidades, evocando o material que não pode ser realizado por via direta. Assim, nessa relação com as pulsões, o sujeito se utiliza de defesas para direcioná-las de modo socialmente aceito, ou seja, submetido à Lei. “O sintoma é, então, definido como a realização de uma fantasia de conteúdo sexual, ou seja, representa, na totalidade ou em parte, a atividade sexual do sujeito provinda das fontes das pulsões parciais, normais ou perversas” (DIAS, M.G.L.V. O sintoma: de Freud a Lacan. Psicologia em Estudo).

Um exemplo concreto: uma mulher, separa há um mês, desmaia e é internada com dor generalizada nos membros inferiores. Para a psicóloga do hospital ela relata que desmaiou após almoçar costela, que era o prato preferido do ex-marido. Ele confessou a ela que estava vivendo com outra mulher durante uma refeição em que a paciente comia costelas. A dor e o desmaio é formação de compromisso, manifestada em forma de conversão (transtorno dissociativo).

Sobre depressão

As teorias psicodinâmicas acerca do funcionamento psíquico nos casos de depressão pressupõem que existe um jogo de forças psíquicas em que algum aspecto da experiência ou da relação da pessoa com o mundo é rejeitado. Ou seja: situações críticas e intensamente emocionais podem desencadear processos depressivos em função de algo reprimido ou recalcado. Um exemplo concreto: nos casos de depressão pós-parto, quase sempre havia um conteúdo interno que escondia ou controlava a depressão. Então, exposta a uma experiência impactante (a de se perceber mãe ou se deparar com um ser frágil e dependente que saiu de dentro de si), essa estrutura se desorganiza e o processo depressivo eclode na mulher. Tentar resolver esse e outros tipos de depressão apenas com remédios ou com livros de autoajuda é como querer impedir o rompimento de uma represa tapando o buraco aberto com a mão: não demora e tudo vai por água abaixo.  Casos de pânico têm dinâmica semelhante: determinados eventos funcionam como “gatilho” para o início do transtorno. A boa notícia é que nos dois casos o bom funcionamento do psiquismo pode ser recuperado e a pessoa pode voltar a ter vida normal.

a mulher