Entrevista

PATERNIDADE NA ADOLESCÊNCIA – uma entrevista com especialista no tema

O psicólogo Jorge Lyra é fundador do Instituto Papai, que desenvolve ações destinadas a orientar jovens e adultos quanto a dificuldades relacionadas à sexualidade e vida reprodutiva, e um dos coordenadores da ONG, que trabalha também com prevenção às Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST/Aids) e violência de gênero.

Psicologia em Pauta (PP): Como está hoje o projeto “Paternidade adolescente: construindo um lugar”, onze anos depois de iniciado?

Jorge Lyra (JL): Este projeto tornou-se um Programa intitulado “Homens e saúde pública” e junto com outros Programas, projetos e profissionais uma ONG, o Instituto Papai. Nesse sentido, entendemos que desde o nosso lugar de ONG, de sociedade civil organizada não nos cabe fazer atendimento à população; esta é uma tarefa do Estado, dos governos. Por isto, hoje em dia nossa maior preocupação é a influência em políticas publicas. Neste último ano (2007) não temos feito as oficinas diretamente com os jovens pais. Durante os anos de 2005-2007 desenvolvemos um projeto de pesquisa-ação em Recife, São Paulo e Florianopolis, e particularmente em Recife no serviço de saúde público com o qual mantemos parceria visando a incorporação do serviço do grupo de jovens pais dentro do Hospital, um Núcleo do Programa de saúde do adolescente – PROSAD do Centro de Saúde Amaury de Medeiros – CISAM, hospital escola da Universidade de Pernambuco – UPE (hospital de referência do sistema de saúde estadual), com a proposta de que os profissionais dessa Instituição desenvolvam as ações daqui pra frente. Por outro lado, temos atuado junto à população (homens e mulheres) para esclarecer e fazer formação–articulaçao política para exigir seus direitos, como por exemplo, o direito à saúde. No período 2006/2007 desenvolvemos a campanha “Pai não é visita“, pelo direito de ser acompanhante.

PP – Quais são as conquistas obtidas nesse período e principais descobertas do trabalho com esse segmento da sociedade? JL – Em 1997, fundamos o Instituto PAPAI. Constituiu-se, então, uma equipe que vem sedimentando e ampliando a proposta original, estabelecendo ricas parcerias, produzindo novos projetos e concretizando produtos. Inicialmente, o PAPAI tinha como tema principal a paternidade na adolescência e como programa principal de ação o Programa de Apoio ao Pai. Hoje, além da paternidade na adolescência, dois outros temas de interesse orientam pesquisas e ações em nossa instituição: a prevenção de DST e AIDS e a violência de gênero. Ao longo desses anos, mantivemos como meta central: promover uma revisão do modelo machista e dos processos de socialização masculina em nossa sociedade, incentivando a participação jovem e masculina nos campos da saúde, sexualidade e reprodução.Particularmente com os jovens pais desenvolvemos uma metodologia de trabalho em parceria, principalmente, com dois espaços: hospitais e unidades da rede pública de saúde de Recife. Nos hospitais públicos a estratégia metodológica que empregamos para abordar os jovens pais é o convite (corpo-a-corpo), passando pelos diferentes setores do hospital: Programa de Saúde do Adolescente; Pré-natal para as grávidas adolescentes, maternidade e setor de saúde da mulher, egressos, puericultura e pediatria. Também promovemos nesses hospitais reflexões acerca da importância da participação do pai no acompanhamento de pré-natal e principalmente no parto e pós-parto, dentro da proposta de humanização do parto.

No caso das Unidades de Saúde, realizamos parceria com o Programa Saúde da Família e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, principalmente este último, para fazermos uma busca-ativa dos jovens pais, através do acompanhamento em visitas domiciliares realizadas pelos agentes de saúde nos bairros próximos à unidade de saúde.

Acionamos também outras instituições que lidam, direta ou indiretamente, com os adolescentes na tentativa de ampliar o raio de ação do trabalho, entre elas: as escolas, as creches, as igrejas, os grupos comunitários organizados, os serviços jurídicos, as ONGs, as Forças Armadas, ou seja, toda a rede comunitária disponível.

Os encontros são realizados na forma de oficinas, ao estilo sala de espera, a partir de uma abordagem psicossocial. Focalizando os seguintes temas: vivências da paternidade; relações parentais e relações conjugais; corpo e processos corporais; reprodução humana, anticoncepção e aborto; momentos gestacionais e futuro parto; paternidade, parentalidade e cuidado infantil; sexualidade masculina – entre desejos e necessidades; paternidade – entre desejos, direitos e compromissos; o lugar do trabalho na vida dos homens; vulnerabilidade e prevenção de DST/Aids.

Apresento alguns aspectos do perfil dos pais jovens com os quais temos trabalhado:

. A maioria das parceiras deles (ou seja, 53%) estava em processo de gestação;

. Filhos além da gestação – 58 % do total desses jovens pais já tinha pelo menos um filho, além da gestação; . Idade gestacional – gira entre 3 e 9 meses;. Estado civil – a grande maioria (78% deles) estava vivendo em união consensual;. Origem – a maioria (86%) nasceu na Região Metropolitana de Recife e apenas 4,5% nasceu em cidade fora do Nordeste.. Escolaridade – 41,7% ainda não tinha completado o nível fundamental. Apenas 1 tinha feito somente a alfabetização e apenas 1 tinha concluído curso de nível superior.. Cor/raça – recentemente incluímos a categoria raça-etnia em nossos registros, por considerar a importância desse debate no contexto da saúde e de políticas nacionais. Assim, utilizando ocritério da auto-classificação, temos um registro de 61 % que se classificam como pardos, 28% que se classificaram como brancos e 10 % como pretos. Apenas um pai se classificou como indígena.Uma vez me perguntaram, a partir da nossa experiência, quais seriam os anseios mais comuns que os adolescentes enfrentam ao saber que serão pais? E eu respondi: eles enfrentam o mesmo medo que qualquer pai “de primeira viagem” enfrenta, a despeito da idade: o medo do desconhecido. Como é uma experiência nova na vida desses homens jovens, o medo de não ser bem-sucedido e a dificuldade de lidar com uma situação inesperada são muito, muito fortes. Porém, estamos falando de uma experiência múltipla e diversa. Não existe um único “formato” de experiência que poderíamos definir como “experiência típica” dos pais adolescentes.Existem aqueles que ainda abandonam a garota e não querem assumir o compromisso de ser pai. Porém, existem outros que nos procuram exatamente para compartilhar com outros pais (mais ou menos experientes) suas duvidas e questões.

E quais seriam, então, os melhores resultados, em termos de impacto, de nossas ações? Bem, o melhor resultado do Instituto PAPAI tem sido tornar VISÍVEL a paternidade na adolescência. Há treze anos (se eu me basear na primeira pesquisa que fiz sobre o tema em 1994), quando começamos esse trabalho, pouco (ou quase nada) se falava sobre a paternidade na adolescência. Hoje, felizmente, este tema passou a fazer parte da pauta de diferentes veículos da mídia e a receber atenção de órgãos governamentais e não-governamentais. Estamos, pouco a pouco, quebrando esse verdadeiro “muro de silêncio”.

Temos desenvolvido importantes e felizes parcerias com organizações não-governamentais, buscando levar nossa experiência para outros grupos, em outras cidades e outros países. Uma dessas parcerias, eu diria que a mais produtiva delas, tem sido o Projeto H. Junto com a ECOS (de São Paulo), Salud y Género (do México) e a excelente coordenação do Instituto Promundo, que produz uma série de 5 cadernos temáticos e um vídeo. No caderno específico sobre paternidade e cuidado apresentamos mais algumas das nossas reflexões sobre e a partir de nossa experiência.

Em relação ao exercício da paternidade temos chegado à conclusão de que é necessário construir mensagens mais positivas. Quando falamos em paternidade responsável, por exemplo, estamos pressupondo que a paternidade em si é irresponsável e que a dimensão da responsabilidade é seu único ou principal eixo. Paternidade não é obrigação. Ela pertence à ordem do desejo, à dinâmica do direito e implica em compromissos.

Gostaria de dizer que, nos dias de hoje, cuidar de um filho não é uma tarefa fácil, principalmente se considerarmos as questões econômicas pelas quais passam a maioria dos países latino-americanos. Além disso, não podemos negar que, embora o conceito de maturidade seja questionável e de difícil definição, alguns jovens (talvez a maioria!) não estão preparados para cuidar de uma criança. Decididamente, não consideramos que a gravidez e o tornar-se mãe ou pai na adolescência sejam a melhor opção para todo e qualquer adolescente. Contudo, a gravidez e a paternidade podem propiciar a alguns pais adolescentes benefícios emocionais substanciais, caso consigamos superar a ótica de vigilância e punição que orienta nosso olhar sobre a sexualidade dos adolescentes.

PP: Qual o maior engano cometido em uma “leitura” superficial do tema?

JL: Considerar que é um problema a priori sem conversar com os/as adolescentes, o que leva à condução de ações alarmistas e negativistas da experiência da vida reprodutiva nesta época da vida.

PP: A paternidade pode ser considerada resultado da influência erotizadora dos meios de comunicação ou mais do distanciamento dos pais, que não podem, não sabem ou não querem acompanham o desenvolvimento dos filhos?

JL: A gravidez, maternidade e paternidade não podem ser vistas como doenças, seja na adolescência ou em qualquer outra fase da vida. Assim, não é possível falar da relação entre sintomas e causas. Ou seja, não se pode definir precisamente por que acontece a gravidez na adolescência. Não existe um único motivo para a gravidez na adolescência, assim como não existe um único motivo para qualquer gravidez. Às vezes, a jovem pode engravidar por livre e espontânea vontade e inclusive com o apoio dos pais. Pode também engravidar por falta de informação sobre como fazer sexo sem engravidar. A gravidez pode também acontecer por abuso ou violência sexual. Nesse caso, no Brasil, é permitida, por lei, a interrupção da gravidez em hospitais públicos do país. Porém, é necessário que a menina tenha apoio suficiente, após o abuso, para tomar as providências a tempo, pois a interrupção da gravidez deve ser feita até doze semanas de gestação. As situações e motivos são vários e devem ser ouvidos e discutidos, a partir de uma postura de respeito pelo adulto responsável por ajudar aquele ou aquela jovem a crescer, sem promover atitudes repressivas e preconceituosas, mas acreditando no diálogo e na aprendizagem mútua.

Além disso, mesmo compreendendo que a gravidez na adolescência pode gerar obstáculos aos planos de estudo e trabalho, não podemos esquecer que há gravidez que pode ser estruturante e não necessariamente percebida como um problema pelos jovens. Cada caso é um caso, e o desenlace depende da capacidade interna de cada um para lidar com a questão, da maneira como foram educados, dos valores sociais da época, e principalmente do apoio familiar e/ou dos profissionais. Apoiar a adolescente que engravida e seu parceiro não significa estimular a gravidez entre adolescentes; significa criar condições para que esse processo não resulte em problemas físicos e psicossociais para o casal.

Como envolver o homem jovem no cuidado infantil?Em países como Brasil, Camarões, Jamaica, Suécia e Uganda têm sido desenvolvidas importantes iniciativas com o objetivo de promover maior participação dos pais e futuros pais no cuidado dos filhos. Por meio dessas iniciativas tem-se buscado estimular o compromisso dos pais no cuidado dos seus filhos, estimulando uma revalorização do cuidado e despertando o desejo dos homens em proteger seus filhos.Em primeiro lugar é preciso reconhecer que nem todo pai é ausente e irresponsável. E, embora a gravidez aconteça no corpo da mulher, a responsabilidade e o prazer pela gestação, parto e cuidado do filho é um direito do casal. Assim, não é o caso de forçar para que o rapaz assuma a paternidade, fique com a moça ou mesmo que a apoie no caso de interrupção da gravidez. Muitas vezes, os garotos sofrem e se preocupam quando recebem a notícia da gravidez, embora nem sempre o demonstrem. A conversa, o apoio, o respeito ao limite emocional da moça e do rapaz é o melhor meio de ajudar ambos a superarem, da maneira mais adequada para cada um, os obstáculos sociais que podem ser gerados pela gravidez nessa fase da vida.

Estudos e também nossa experiência com jovens vêm mostrando que os estereótipos sobre o adolescente e a gravidez na adolescência, entre outros, não podem ser generalizados indiscriminadamente. Há pais adolescentes que se envolvem e se comprometem, tanto com suas crianças quanto com as mães dessas crianças.

O principal problema dos garotos quanto à paternidade é, muitas vezes, a falta de apoio econômico e social para levar adiante a responsabilidade de educar e cuidar de seus bebês, tarefa insistentemente exigida socialmente, mas pouco apoiada. Outro problema também é a idéia de que homem não pode exercer com competência as atribuições do cuidado infantil.

É importante, porém, ter claro que nem todo pai adolescente é relapso e que nem toda experiência de paternidade é negativa para os jovens, como somos ensinados a pensar e a esperar. O mesmo se aplica às mães adolescentes. Para esses pais e mães adolescentes, é de fundamental importância fortalecer redes de apoio na comunidade.

Que ganhos o homem jovem pode ter?

Como dito acima, não se pode afirmar que uma criança criada sem o pai possa ter mais dificuldades que qualquer outra. Por outro lado, muitos estudos apontam benefícios de diversas ordens para o homem que exerce o cuidado infantil. Ao contrário da maternidade, que se define inicialmente em marcas e mudanças no corpo, a paternidade é, em maior medida, um conceito relacional, ou seja, a paternidade só existe para as pessoas a partir do momento que o bebê nasce. A maternidade, por sua vez, se estende da gestação à criação e educação dos filhos.

Assim é importante ampliar a aceitação do cuidado desempenhado pelo pai, expandindo seu papel junto aos filhos, fazendo com que os homens tenham mais facilidade em prover as necessidades das crianças e desenvolvam outros tipos de cuidado. Isso possibilitaria, por fim, benefícios para suas crianças e para ele mesmo. Os homens que desempenham mais tarefas de cuidado para com as crianças relataram uma grande satisfação na relação conjugal e em seu cotidiano.

PP: Que outros aspectos você considera importante destacar?

JL: É preciso entender o cuidado também do ponto de vista dos homens:

Como educadores/as, precisamos estar continuamente atentos para não reforçar preconceitos e estereótipos, através de nossos atos e palavras. Ao definirmos cuidado com base no referencial feminino, muitas vezes dizemos que os homens não cuidam ou não sabem cuidar. Antes, é preciso entender qual o significado que os homens dão ao cuidado e buscar reconhecer práticas de cuidado que já realizam em seu cotidiano, desconstruindo a noção de que cuidado é “coisa de mulher”, através de uma revalorização da experiência de cuidar de si e dos outros.

Gravidez não é sinônimo de maternidade:

Em geral quando se fala sobre gravidez pouco se fala sobre o pai. Os homens, principalmente os mais jovens, são vistos no contexto da gravidez como estranhos, intrusos ou, no máximo, como visitas. Não se pode esquecer que o pai tem direito de participar do pré-natal. Isso pode ser muito importante para ele, para sua companheira e para o bebê. Assim, é importante ampliar a aceitação do cuidado desempenhado pelo pai, expandindo seu papel junto aos filhos, fazendo com que os homens tenham mais facilidade em prover as necessidades das crianças e desenvolvam outros tipos de cuidado. Isso possibilitaria, por fim, benefícios para suas crianças e para ele mesmo. Ele não é apenas acompanhante de sua companheira, mas é também o pai da criança que vai nascer. Participar é fundamental, ser informado sobre como a gravidez está evoluindo e sobre qualquer problema que possa aparecer. Na época do parto, deve ser reconhecido como PAI e não como “visita” nos serviços de saúde; deve ter serviço facilitado para acompanhar sua companheira e o bebê a qualquer hora do dia. É importante que o pai vá com a mãe à consulta pós-parto para receber as informações e as orientações sobre contracepção e prevenção de doenças transmitidas em relação sexual e Aids. A participação dele durante a gravidez, o parto e pós-parto é um direito que deve ser exercido. É importante que o homem possa participar desde os primeiros dias do cuidado do bebê. Algumas coisas, certamente, ele não poderá fazer. Outras, a mulher também não poderá assumir, em função do próprio período de resguardo. Porém, ambos podem aprender juntos e ajudar-se mutuamente. Se, por um acaso, eles estão separados, podem negociar a divisão de atribuições e atividades.

Nem toda paternidade na adolescência é, por princípio, indesejável.

A gravidez e a paternidade podem propiciar a alguns pais (pai e mãe) adolescentes benefícios emocionais substanciais. Embora, de modo geral, pesquisadores e clínicos tendam a ver de forma negativa a gravidez na adolescência, há casais adolescentes que têm mostrado um bom desempenho na escola, vida familiar e cuidado para com a criança. Pesquisas em ciências humanas e sociais, desenvolvidas em diferentes países, destacam que a gravidez é vista por alguns jovens exatamente como uma transição para a tão desejada fase adulta, sendo o/a filho/a o motivo de reorganização social, de possibilidade de inserção no mercado de trabalho, abandono do “mundo das drogas” e do crime, entre outros.

Em diferentes países, a gravidez na adolescência tem sido considerada por parte dos profissionais de saúde e dos órgãos competentes um problema social, marcado por uma postura preconceituosa e um discurso geralmente alarmista, associado a aspectos negativos que podem ocorrer com a adolescente e seu bebê (abandono da escola, dificuldade para conseguir emprego, baixo peso dos bebês ao nascer etc.) e a adjetivos pejorativos associados à gravidez: não-planejada, indesejada, precoce, prematura. Esta postura reflete um receio social de que a maternidade e paternidade na juventude podem criar obstáculos ao crescimento econômico de países em desenvolvimento, gerando dificuldades adicionais para o governo desses países, já empobrecidos em função de políticas econômicas ainda pouco condizentes com as necessidades sociais de suas populações.

Também nos países desenvolvidos, os índices de gravidez são mais elevados entre jovens analfabetas ou com instrução mínima, e que teriam possibilidades quase nulas de escapar do ciclo da miséria, gerando conseqüentemente a manutenção e reprodução da pobreza e da falta de acesso à informação e educação. Além disso, muitos jovens deixam de estudar cedo, por falta de condições econômicas das famílias em mantê-los na escola. Pesquisas mostram que a gravidez na adolescência não é a principal causa de evasão escolar. Quando a gravidez acontece, a maioria das adolescentes de classes menos favorecidas já está fora das escolas, sem contar aquelas que nunca estudaram. Além disso, para a adolescente é muito mais prejudicial um acompanhamento pré-natal inexistente ou mal feito do que a gravidez propriamente dita. Contudo, é importante enfatizar que, cada vez mais, faz-se necessário discutir e problematizar a quem serve e qual é o impacto de ações repressivas e excludentes face à vida reprodutiva e sexual dos(as) adolescentes.

Apoiar é fundamental

Consideramos que existem dois momentos e formas de trabalhar com os(as) adolescentes: 1) a reflexão/discussão sobre a gravidez antes dela ter acontecido, e 2) o apoio quando a gravidez é confirmada, ou seja, o que nós (adultos/profissionais) podemos fazer quando eles(as) (adolescentes) já são pais e mães ou estão “grávidos(as)”. Dificuldades existem, mas podem ser minimizadas com uma rede de apoio adequada, uma prática que é incompatível se adotamos apenas a perspectiva da prevenção. Uma abordagem com caráter menos coercitivo possibilitaria, a nosso ver, formular programas mais adequados às necessidades enfrentadas pelos adolescentes, sem “preconceituar” a paternidade e a maternidade nessa fase como pura e simplesmente negativa, provocada, sempre e inegavelmente por irresponsabilidade dos jovens. Muitas vezes, mesmo quando um rapaz quer assumir um papel ativo como pai de seu filho, as instituições sociais – escola, família, unidades de saúde, ONGs, Forças Armadas e a sociedade em geral – ainda parecem recusar-lhe essa possibilidade.

Além disso, consideramos que a argumentação corrente no campo da prevenção da gravidez na adolescência pode seguir os mesmos caminhos tortuosos que marcam o início das campanhas de prevenção da Aids (aqui sim uma doença!). Ou seja: o do alarme e da criação de pânico na população a partir das palavras de ordem como “Aids mata!” Essa estratégia inadequada de sensibilização não favoreceu a reflexão por parte da população, não favoreceu que as pessoas – homens e mulheres, jovens e adultos – se posicionassem diante da experiência, da possibilidade ou não de contrair o HIV e pensassem que atitudes deveriam tomar para proteger a si e aos outros.

O que o/a educador/a pode fazer? O educador tende a ser aquele que leva o conhecimento ao educando. Contudo, a educação pode ser pensada também como mútua aprendizagem, onde educador e educando estão em constante processo de descobertas. Cabe a quem educa criar espaços, mostrar alternativas e despertar o prazer pelo conhecimento. Não cabe a quem educa definir, no plano moral, o que é certo ou errado. Cabe a quem educa desenvolver a capacidade da escuta atenta e sem “pré-conceitos”.

É preciso primeiro ouvir a pergunta, para depois buscar respostas. No caso de ser informado de que um dos seus alunos ou alunas está “grávido”, procure conversar com ele/a e oferecer apoio. Essa ajuda pode ser fundamental para evitar transtornos no futuro. Apoiar um pai ou mãe adolescente não significa valorizar ou estimular a prática. Ao contrário não falar e não apoiar pode causar danos irreversíveis para aquele que precisa de ajuda. Devemos abolir o “NÃO DEVE” e “escutar” o desejo da adolescente, constituir um discurso que não seja nem negativo, nem moral, mas ético. Precisamos permitir que o/a adolescente assuma um lugar neste discurso e o sustente, por opção própria. Não é necessário apenas estabelecer condições sociais adequadas para essa população – oportunidades educacionais (e não apenas laborais), serviços de saúde específicos etc. É imprescindível desenvolver uma postura ética de respeito às jovens gerações, promovendo linhas de intervenção menos coercitivas e legitimamente apoiadas na escuta e no diálogo. A conversa, o apoio, o respeito ao limite emocional da moça e do rapaz é o melhor meio de ajudar ambos a superar, da maneira mais adequada para cada um, os obstáculos sociais que podem ser gerados pela gravidez nessa fase da vida. O apoio não fará com que a gravidez na adolescência aumente em número, contudo, certamente, contribuirá para diminuir os males físicos e psicossociais para o “casal grávido”.

Generalizações devem ser evitadas

Nem todo homem reproduz literalmente o modelo de masculinidade hegemônica (mais valorizado culturalmente). É importante que as pessoas em geral, e os educadores em especial, estejam, atentos para identificar no cotidiano e na fala desses homens jovens relatos de experiências que contradigam a norma. Do mesmo modo, é importante estar atento para perceber, principalmente no contexto do cuidado, que um mesmo comportamento desempenhado por uma mulher pode ser entendido como cuidado (ou devoção) e, quando um homem o desempenha, costumamos dar outros nomes (dever, obrigação). Assim, torna-se importante que o educador esteja, antes de tudo, preparado para ouvir, para entender como os homens percebem o cuidado e qual o lugar dessa dimensão em suas vidas.

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9 comentários sobre “Entrevista

  1. gostei muito, queria que me dissesse algumas causas da paternidade na adolescência, espero que me ajudes

  2. Oi, Henny. Posso citar algumas, mas não todas. Uma possível causa pode ser a falta de equilíbrio entre razão e emoção, o que faz com que o adolescente não tenha controle sobre seus impulso e acabe fazendo coisas que sabe não ser certo fazer (pelas consequências que advirão). Outra: desejo consciente (ou inconsciente) de evitar perder a pessoa supostamente amada (engravidar é visto como uma forma de manter a outra pessoa como namorado(a – ou torná-la marido/esposa). Mas acredito que o motivo mais frequente é a ausência do sentido de RESPONSABILIDADE, isto é, quando há falha no processo educativo de conscientizar o adolescente sobre seus deveres para com a própria vida e para com a vida de um ser que pode ser gerado a partir do ato sexual. Um(a) adolescente responsável é capaz de avaliar as consequências e colocar a preocupação com o futuro, os projetos de vida, as expectativas próprias e dos pais como coisas importantes a serem lembradas e defendidas e CONTER OS INSTINTOS E APELOS DO CORPO. Não se permite iniciar a vida sexual antes da hora adequada e tampouco faz isso ignorando as consequências.

    Acredito que pode ajudar muito nesse processo de construção da autorresponsabilização tanto uma boa educação em família quanto na escola.

    Espero ter ajudado.
    Abraço,
    Carmeltia

    • muito obrigada ajudaste- me imenso queria muito aprender consigo já que sou uma adolescente preciso de orientação da família e da sociedade espero que me ajudes sempre. muito obrigada

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