O resgate da mitologia

Existe uma espécie de preconceito generalizado contra os pensamentos não-científicos, especialmente contra os métodos filosóficos especulativos e o pensamento mítico.Porém, o estudo da Mitologia não pode ser visto com um interesse meramente histórico. A Mitologia Grega é a base do pensamento ocidental e guarda em si a chave para o entendimento de nosso mundo, de nossa mente analítica e de nossa psicologia. Ao se comparar a Mitologia Grega com as demais mitologias (africanas, indígenas, pré-colombianas, orientais, etc) descobre-se que há entre todas elas um denominador comum. Algumas vezes estaremos frente aos exatos mesmos deuses, apenas com nomes diferentes, sem que exista nenhuma relação histórica entre eles. Este material comum a todas as mitologias foi descoberto pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung e foi por ele denominado de “Inconsciente Coletivo”. O estudo deste material revela-nos a mente humana e seus meandros multifacetados. Como foi dito, os mitos são atemporais e eternos e estão presentes na vida de cada Ser Humano, não importa em que tempo ou em que local. O estudo da Mitologia torna-se então essencial a todo aquele que pretende entender profundamente o Ser Humano e sua maneira de ver o mundo. Os deuses tornam-se forças primordiais da natureza psíquica humana e readquirem vida e poder. Nota-se a sua utilização no cotidiano em cada pequeno detalhe. A existência real dos deuses mitológicos antigos em todas as suas roupagens étnicas reafirma em última instância a idéia de divindade em si: através dos deuses encontra-se a “idéia de Deus” e, através dela, Deus em toda sua misteriosa ambigüidade. A Mitologia transfere o conhecimento humano de um plano meramente materialista (científico) para um plano psíquico vivo (Inconsciente Coletivo) e deste, para um derradeiro plano espiritual. O desafio está em realizar a verdadeira “religião” (religação) do mundo externo ao mundo interno, do concreto ao abstrato, do material ao espiritual, do mortal ao imortal e eterno.

Escrito pelo médico e psiquiatra  Bernardo de Gregório


Breve explicação sobre psicoterapia junguiana*

* Pronuncia-se “iunguiana”

A psicoterapia junguiana ou Psicologia Analítica (conhecida, ainda, pelo termo Psicologia dos Complexos) foi criada pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung**, discípulo de Freud, com o qual rompeu em face de divergências intelectuais. Na verdade o rompimento ocorreu mais por objeção de Freud a alternativas conceituais encontradas por Jung para determinadas concepção freudianas. Freud queria Jung como seguidor e não como reformador de suas idéias psicanalíticas.

Chamada em alemão de “Psicologia Profunda” (Tiefenpsychologie), esta proposta de psicoterapia visa principalmente a conquista da individuação, isto é, a transformação do indivíduo em  um ser pleno, íntegro e autônomo. O Inconsciente Coletivo é uma das idéias básicas da teoria de Jung, assim como os arquétipos, entre eles o mais elevado, o si-mesmo e os que dele derivam: animus/anima, sombra, e idéias arquetípicas. Para Jung, arquétipos são algo como “imagens primordiais” que se originam de uma constante repetição de uma mesma experiência por sucessivas gerações; funcionam como “centros autônomos” que tendem a produzir, em cada geração, a repetição e a elaboração dessas mesmas experiências.

Os terapeutas junguianos têm por método de trabalho a análise de sonhos, a partir da interpretação/associação de cada indivíduo acerca de elementos míticos universais das mais variadas origens. Também aproveitam conteúdos religiosos e manifestações do inconsciente via arte e Imaginação Ativa, técnica desenvolvida por Jung. A Imaginação Ativa parte do pressuposto de que, assim como ocorre com os sonhos, os conteúdos “criados” pela pessoa em processo de imaginação refletem conteúdos internos, por vezes inconscientes. Ativa por ser diferente da passiva. Nesta, a pessoa apenas imagina, “visualiza” mentalmente, podendo expressar verbalmente ou não o conteúdo “criado” imaginativamente. Na imaginação Ativa o indivíduo interage com esses conteúdos criados, por vezes  tomando o lugar deles, isto é, assumindo a configuração de diferentes partes de si mesmo e dando voz a esses conteúdos. Acaba acontecendo um diálogo da pessoa com coisas internas dela mesma e isso tem o poder de favorecer e/ou ampliar a compreensão dos conteúdos, possibilitando a elaboração saudável de vivências, experiências ou percepções. Ocorre, então, o que se chama de ressignificação. Outros processos criativos também têm esse poder de conduzir o indivíduo a um mergulho no interior de si mesmo para buscar o “tesouro” interno que promove o autoconhecimento e a compreensão de verdades universais do psiquismo. Daí porque a pintura, a modelagem, o desenho, a dança e a música, entre outras, são possibilidades de acesso a conteúdos inconscientes.

Mas a análise dos sonhos, o meio de “interpretar” e compreender os “comunicados” ou alertas do inconscientes costuma ser o recurso preferido da maioria das pessoas que buscam entender-se com o próprio inconsciente. Traumas, lembranças dolorosas, experiências recalcadas ou reprimidas são trazidas para o consciente, para a instância racional do psiquismo a partir da análise de sonhos, por meio de associações que o próprio sonhador faz com os elementos sonhados. Também são considerados por alguns terapeutas junguianos como instrumento de compreensão do psiquismo do paciente alguns conhecimentos antigos da humanidade como o Tarô, a Astrologia e a numerologia, entre outras.

De um modo geral, a psicoterapia junguiana  funciona melhor com  pessoas imaginativas, criativas, de alguma forma artísticas, por ser muito requintada e elaborada. Mas isso não quer dizer de elevada bagagem intelectual, ao contrário: por vezes uma pessoa excessivamente culta e de muito desenvolvimento intelectual acaba por recusar certos conceitos e procedimentos da psicoterapia junguiana por ter  subjugado ou reprimido sua dimensão não-racional, em decorrência de sucessivos aprendizados e treinos comportamentais dentro da visão cartesiana ou apoiada no método científico. Por outro lado, pessoas intelectualmente pouco desenvolvidas, mas de grande sabedoria intuitiva podem apresentar excelentes resultados.

** Pronúncia correta: Carl “Iung”

Quando o animus se impõe a mulher sofre

Veja a descrição de uma mulher dominada pelo animus, a contraparte masculina que há em todas as pessoas do sexo feminino. É o lado interno , oculto da personalidade da mulher. O animus é um parceiro, mas não pode “dominar”. Deve estar  reconhecido e “integrado” de modo a não apossar-se do ego da mulher. O mesmo vale para os homens em relação à anima, obviamente com manifestações emocionais e comportamentais diversas das inspiradas pelo animus.

Uma mulher dominada pelo animus mostra-se pouco doce, sem a suavidade feminina. Outros aspectos observados:

. Os pensamentos e as opiniões apresentam elevada carga emocional que a controlam, mas atenção: COM ACENTO INTELECTUAL.

. Ideias e opiniões são transmitidas na maioria dos casos com energia emocional de um indivíduo arrogante e prepotente, o que perturba a adaptação ao mundo, os relacionamentos e as pessoas do convívio social e pessoal se sentem obrigadas a construir  “escudos” protetores para entrar em contato com uma mulher dominada pelo animus. Ou seja, as pessoas mantêm-se em postura defensiva e desconfortável na presença dessa  mulher e de qualquer mulher com problema com o animus.

. Por mais que essa mulher queira ser receptiva e doce não consegue porque o ego está sujeito a invasões demolidoras que a impedem de ser amável e gentil. Obviamente que essa “invasão” é inconsciente.

. Em vez de ser receptiva e íntima, ela sempre se mostra propensa a permanentes atritos, sendo dominada por impulsos inconscientes de PODER e CONTROLE, algo típico dos homens e menos comum nas mulheres.

. O animus é uma personalidade não-congruente co o ego;  é “outra” personalidade.

. Mulheres sob o domínio do animus tendem a atacar, ainda que seja apenas pela crítica mordaz da qual quase sempre nem se dá conta.

. Humores e caprichos penetram no inconsciente e  a pessoa é “arrastada” por eles de roldão; o controle dos impulsos é mínimo. Não há o menor domínio também sobre pensamentos e afetos.

Se você se reconheceu nessa descrição, está com problemas na relação com seu animus, o que provavelmente tem-lhe causado sérias dificuldades de interrelacionamentos, na vida pessoal e no trabalho. Será necessário um trabalho de reconhecimento do seu animus de forma a integrá-lo, a tê-lo como aliado. Análise de sonhos são muito eficazes nesse intuito. É difícil descrever isso sem exemplos comprometedores, então nem tentarei.

Referência bibliográfica: JUNG, O MAPA DA ALMA (Murray Stein).

Escrevi mais sobre animus e anima no post NOSSAS DIFICULDADES PARA VIVER O AMOR ROMÂNTICO.

Senador Requião e sua sombra

Brasileiro é mesmo uma coisa sui generis. Ignora realidades sociais sérias, brinca com coisa importante, foge da busca do conhecimento, supervaloriza a diversão e o lazer, seja cultivando apego exagerado ao futebol e Carnaval ou rendendo audiência e, em conseqüência, milhões de reais a empresas de TV com programas sem qualidade como Big Brother e novelas. Vejam: durante muito tempo reinou a mais absoluta indiferença ou ignorância sobre o fenômeno bullying, embora ele esteja presente bem perto de todos nós, dia-a-dia. Agora, todos resolveram mostrar  “conhecimento” sobre o fenômeno. Mas, que pena, fazendo chacota, como personagens das novelas globais, ou usando inadequadamente o termo como o senador Roberto Requião (PMDB-PR). Ontem (segunda-feira), essa criatura que tem chancela de representante do povo ficou “irritadinho” com um repórter ao ser questionado se ele iria abrir mão da pensão vitalícia pelo exercício de governador do Paraná (UM DISPARATE VERGONHOSO). Tomou violentamente o gravador do repórter Victor Boyadjian, da Rádio Bandeirantes, levou para o gabinete e lá apagou o cartão de memória, deletando as falas dele na entrevista e todo o trabalho do jornalista. Não bastasse isso, ainda foi para o Twitter escrever asneiras em linguagem de adolescentes: “Acabo de ficar com o gravador de um provocador engraçadinho. Numa boa, vou deletá-lo.” E continuou: “Jornalistas querem transformar entrevistas em bullying. Censura não, respeito, sim”. Que tal vocês, parlamentares de baixo valor, entenderem melhor o sentido de RESPEITO  e respeitarem  nossa Nação e nosso povo! Meu Deus, que tipo de representantes estamos colocando nesse nefasto Congresso! A sociedade não pára de se surpreender com a falta de preparo e má-fé dos supostos “legisladores” e “representantes do povo”. Eles até representam o baixo nível intelectual da maioria da população, permitam-me a sinceridade. Mas daí a se autorizarem a perpetuar a involução do povo, vai grande distância. Em vez disso deveriam estar lutando para garantir a elevação do nível educativo do povo. Caro senador, o senhor não foi, até o momento, vítima de bullying. Bullying é muito mais sério do que uma abordagem corajosa de um repórter tentando pressionar um parlamentar por conduta admirável e respeitável. Não é apenas a ele que deve desculpas, mas também aos brasileiros, por representá-los tão mal e, quiça, à Vida, por ser tão INADEQUADO nas funções públicas para as quais ganhou mandato. ODEIO GENTE QUE QUER MAMAR NAS TETAS DOS COFRES PÚBLICOS.  E que ainda se sente no direito de cobrar respeito ou cumprimento da Constituição em benefício próprio, como uma certa procuradorazinha do MPDFT que não vale o que os gatos enterram, presa por inúmeras iniquidades e que anda sonhando com aposentadoria por invalidez  (da decência). Os achaques da Guerner e do Requiãom são a mais clara demonstração de sombra constelada. Escrevi mais sobre o arquétipo Sombra em NOSSA SOMBRA e EFEITO SOMBRA, FILME IMPERDÍVEL.

Leia matéria sobre o ATAQUE DE REQUIÃO.

Matéria sobre DÉBORA GUERNER.

Maitê Proença e Deus

A crônica abaixo, escrita pela atriz Maitê Proença, é emociontante. E reveladora. Me fez pensar sobre os recentes casos de suicídio cometidos por Cibele Dorsa e Gilberto Escarpa. Não posso deixar de supor que faltou-lhes aliança com Deus, ensinamentos corretos sobre as questões do espírito e da responsabilidade com a Vida. Filha de pais ateus, Maitê quase teve o mesmo fim, como tantas pessoas que passam por duras provações, mas são salvas por forças Superiores, quando há, talvez, um conhecimento interior, inconsciente, talvez de vidas passadas, da existência do Numinoso e da nossa responsabilidade para com a Vida. Acredito que todos os pais deveriam saber sobre Deus e ensinar sobre Deus a seus filhos, pois quando os cuidados deles falharem, haverá o socorro do pai MAIOR. E o filho saberá em quem se apoiar. Quando isso não existe, facilmente são aprisionados por  ”falsos-deuses”: as drogas. Sim, estou atribuindo o suicídio dessas personalidades ao uso de drogas e ao sentimento de vazio e insignificância que elas provocam, à desestruturação do psiquismo e da saúde como um todo. O uso de drogas é estratégia de fuga para quem, infelizmente, não aprendeu a se apoiar na fé.

O clarão é Deus

Maitê Proença

  Deus surgiu na minha vida aos 6 anos de idade, e chegou junto com o pecado. Filha de pais ateus, até então, eu não havia sido apresentada a uma coisa nem outra. Um dia colocaram-me num colégio de freiras no qual rapidamente fui atualizada sobre essas questões importantes da vida. Ali aprendi que algumas faltas eram mais graves que outras. Matar, por exemplo. Mas eu nunca matei ninguém… Ah, é? E, quando você caminha, o que acontece com todas aquelas formigas que vão sendo pisoteadas? Assustada, passei meses andando de cabeça baixa para evitar tamanho pecado. Trocaram-me de colégio.

Passou-se um ano, e surgiu o assunto da primeira comunhão. Você não vai fazer? Não sei, o que é isso? É para Deus te perdoar dos pecados. Ahn… Em casa, minha mãe tirava dúvidas a sua maneira: Deus é como Papai Noel, só existe para quem acredita nele. E ela sabia que eu já não acreditava. Assim, pulamos a primeira comunhão.”

(…)

Assim, fui percebendo que Deus não dava a mínima se a gente queria chamá-lo de Buda, Maomé, Oxalá ou Jesus. Deus não cabia numa caixinha, nem na minha compreensão, e isso de certa forma me confortava.

CONTINUE LENDO CLICANDO NESTE LINK

Medo de morrer

“Inteiramente despreparados, embarcamos na segunda metade da vida… damos o primeiro passo na tarde da vida; pior ainda, damos esse passo com a falsa suposição de que nossas verdades e ideais vão servir-nos como antes. Mas não podemos viver a tarde da vida de acordo com o programa da manhã – pois o que foi grande pela manhã vai ser pouco à tarde, e aquilo que pela manhã era verdade, à tarde se tornará mentira.” Carl Jung, in The Stages of Life –  Collected Works of CG Jung – 8, § 339.

Tenho ouvido muitas pessoas de meia-idade  se queixarem de estar com “medo de morrer”. Penso que, efetivamente, as pessoas na meia-idade estão morrendo,  em termos simbólicos, claro. É o começo compulsório da transformação, como ocorre à crisálida, que após envolver-se em si mesma,  ressurge transformada em ser alado, mais leve, mais colorido, renascida.

Encontrei um artigo lúcido sobre esse tema, do terapeuta Wanderley Oliveira:

“A crise existencial da meia-idade é um movimento natural da vida mental, no qual as feridas, traumas e assuntos pendentes na vida inconsciente emergem ao consciente para serem resolvidos.

Coincidentemente, essa crise ocorre em uma determinada faixa etária, entre os 35 e 55 anos, sendo possível também verificar-lhe a presença antes ou depois dessa idade.

Nessa etapa psíquica da vida, que muito se assemelha ao fenômeno biológico da ovulação feminina, a mente expurga no tempo certo o “óvulo” maduro e que necessita ser trabalhado, reconhecido pelo consciente, no intuito de organizar a vida mental.

É assim que vários assuntos que foram mal conduzidos durante a infância e a juventude regressam em forma de crise inesperada, levando a criatura às mais diversas e imprevisíveis alterações no seu mundo emocional e comportamental.

É questionada a vida profissional, a relação afetiva, os laços de parentesco, os objetivos pessoais, a forma de viver e sobreviver. E diante de todos os questionamentos a criatura talvez, pela primeira vez em sua vida, faça honestamente uma pergunta a si mesma: e eu, o que quero da vida? O certo e o errado começam a ser questionado pela pessoa. O que antes preenchia e dava motivação parece totalmente desconexo, fora de lugar. É um período de muita depressão, porque os conflitos que foram temporariamente negados regressam ou intensificam abruptamente. Nessa fase, muitas pessoas alcançam certa estabilidade financeira, os filhos já são independentes e muitas mudanças contribuem para deixar a criatura mais em contato consigo mesma, depois de muitos anos na luta pela sobrevivência e pelos deveres. Outros que não tiveram a mesma trajetória, chegam a essa idade com frustrações dolorosas em todas as áreas de sua vida e, por essa outra porta, também penetra a crise existencial com outros gêneros de angústia. LER MAIS.