Livros

Por que herança maldita?

A seguir, mais referências históricas sobre a formação da política e talvez da dinâmica psicológica do brasileiro (do ponto de vista macro), também extraídas do livro “1808”, citado no post anterior:

A corte portuguesa no Brasil era entre 10 e 15 vezes mais gorda do que a máquina burocrática americana nessa época (1808). E todos dependiam do erário real ou esperavam do príncipe regente algum benefício em troca do ‘sacrifício’ da viagem. ‘Um enxame de aventureiros, necessitados e sem princípios, acompanhou a família real’, notou o historiador John Armitage. No Rio de Janeiro, a corte portuguesa estava organizada em seis grandes setores administrativos – chamados de repartições. Os responsáveis por essas repartições passariam para a história como símbolos de maracutaia e enriquecimento ilícito” (pág.76).

Outro trecho revelador do livro, que nos soa tão atual e não surpreende a quem conhece as “alianças” nefastas entre veículos de comunicação e representantes do poder:

“Para fugir à censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, era publicado em Londres. Seu fundador, o jornalista Hipólito José da Costa, nasceu no Rio Grande do Sul e deixou o Brasil quando tinha dezesseis anos. Formou-se em Coimbra e morou dois anos nos Estados Unidos. Voltou para Lisboa e foi preso em 1803 por integrar a maçonaria. Processado pela Inquisição, fugiu para a Inglaterra em 1805 onde criou o Correio três anos mais tarde. “Hipólito era um Englêsh que escreveu o historiador americano Roderick J Barman, referindo-se aos liberais que no Parlamento britânico defendiam os direitos individuais e a limitação dos poderes do rei. ‘Acreditava numa constituição equilibrada e justa, num Congresso forte, em liberdade de imprensa e religião, no respeito pelos direitos individuais.’ O mesmo Hipólito que defendia a liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, Dom João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado numero de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Segundo o historiador Barman, por esse acordo, negociado pelo embaixador português em Londres, Dom Domingos de Sousa Coutinho, a partir de 1812 Hipólito  passou a receber uma pensão anual em troca de críticas mais amenas ao governo deDom João, que era um leitor assíduo dos artigos e editoriais da publicação. ‘O público nunca tomou conhecimento desse acordo’, afirma o historiador. De qualquer modo, Hipólito mostrava-se simpático à Coroa portuguesa antes mesmo de negociar o subsídio. ‘Ele sempre tratou Dom João com profundo respeito, nunca questionando sua beneficência’, registrou Barman. O Correio Braziliense, que não apoiou a Independência brasileira, deixou de circular em dezembro de 1822. Hipólito foi nomeado pelo imperador Pedro I agente diplomático do Brasil em Londres, cargo que envolvia o pagamento de uma nova pensão pelos cofres públicos” (pág. 53).


Ainda hoje o jornal Correio Braziliense, do DF, recorre a essa, digamos assim, estratégia econômica, e manipula notícias quando lhe interessa não afetar os interesses do governo local. Não é diferente com a revista Veja e a Rede Globo – quem não se lembra do episódio da bolinha de papel na careca do Serra, durante a campanha eleitoral, um espetáculo de manipulação por parte da Globo, maculando ainda mais a já enlameada imagem do Jornal Nacional.  Não cito os demais veículos, mas nem por isso eles são isentos dessas práticas indecentes em nome do jornalismo. De acordo com Fernando Morais, autor do livro-reportagem Chatô, o rei do Brasil,  o criador do grupo Diários Associados, do qual faz parte o Correio Braziliense, maior jornal impresso da Capital, Assis Chateaubriand, recorreu a chantagens e artifícios condenáveis ao longo da construção do grupo e no exercício do que ele considerava “jornalismo”. Na verdade, o que ele fazia e muitos veículos praticam atualmente é corrupção.  O que os dois jornais têm em comum? Apenas o nome, do qual Chateubriand se apropriou, em 1960, quando inaugurou o seu, já que o de Hipólito havia saído de circulação em 1823, tendo existido por 15 anos: de 1808 a 1823.

Esses são os antecedentes psicológicos, sociais  e políticos da nossa gente. Essa é a herança moral que o Brasil herdou de Portugal.  São as raízes que explicam muito do comportamento dos brasileiros. A construção de uma nova realidade, de uma nova cultura é exercício contínuo e demorado, mas há que NÃO se perder as esperanças de um dia sermos um povo decente e de equilibrarmos o desenvolvimento intelectual ao moral e podermos viver em um país justo.

 

Fonte: GOMES, Laurentino. 1808 – Como Uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

 

 

Livros

Pessoas que mentem e fogem de si mesmas

“Costume arraigado no inconsciente humano, em decorrência dos hábitos doentios do passado, a mendacidade (falsidade) também resulta dos processos insalubres da educação doméstica, especialmente nas famílias atrabiliárias (coléricas; relativo a atrabílis, que deriva de  bílis negra, à qual se imputava a melancolia, o mau humor, a hipocondria), caracterizadas por desajustes de vária ordem.

A família é o laboratório onde se forjam os valores morais edificantes, mediante as contribuições valiosas do amor e da disciplina, corrigindo-se condutas enfermiças e  trabalhando-se valores espirituais  que devem predominar na natureza de cada um dos seus membros.

O que não se conseguir em formação da personalidade nos anos infanto-juvenis, no seio doméstico, muito mais difícil se apresentará ao longo dos outros períodos, em impositivos de reeducação.

Por essa razão, é mais fácil e proveitoso criar-se hábitos morigerados (bons costumes) e saudáveis na infância, quando se insculpe o aprendizado no cerne do ser, do que mais tarde, quando o comportamento já conduz fixações destituídas de equilíbrio e de ética.

Entre os vícios que florescem nos clãs desajustados, a mendacidade ocupa papel de relevo, em razão da falta de compostura dos seus membros em relação à verdade.

O desrespeito ao correto e veraz, a desconsideração pela maneira como os fatos acontecem extravasam em referências adulteradas, em comentários desairosos (indecoroso, vergonhoso) que primam pelo cinismo das conclusões.

Perdendo-se os parâmetros em torno dos acontecimentos, mente-se com muita naturalidade, investindo-se na imaginação exacerbada e tornando-se impossibilitado de proceder  a qualquer narrativa conforme o sucedido.

Da mentira pura e simples à perfídia (traição, deslealdade) é somente um passo, assim como da permanente  máscara  de hipocrisia afivelada ao fingimento  sistemático, torna-se um costume habitual.

Prolongando-se esse comportamento, as suas vítimas (os mentirosos) desajustam-se e atormentam-se em razão da falta de dimensão da verdade negligenciada. Tanto se acostumam com a maneira incorreta de agir, que se fazem incapazes de manter a serenidade, o equilíbrio quando estão no grupo social em que se movimentam.

No íntimo sabem discernir  o certo do errado, compreender que laboram em campo de alto risco, qual seja o da mentira, em razão de ser facilmente descobertos. No entanto, a astúcia, que também é uma remanescente ancestral da evolução, ilude-os, estimulando-os à utilização de novos argumentos totalmente injustificáveis.

Dessa forma vivem conflitos emocionais que se agravam com a sucessão do tempo, em razão do medo constante de serem desveladas as suas mazelas, sendo levados ao ridículo que merecem, mas se negam reconhecer. (…)

O ser humano educado e evoluído espiritualmente é veraz em todos os momentos, assumindo as responsabilidades da sua conduta, mesmo quando experimentam dissabores e angústias. O compromisso com a verdade não lhe permite negligenciá-la, aceitando o suborno da fantasia que se dilui como névoa ao sol da realidade.

A instabilidade da conduta, no entanto, em relação aos acontecimentos do cotidiano, a falta de ponderação e recato em referência aos fatos como são em verdade, dão lugar à perda da autoestima e, consequentemente, da saúde emocional.

Não se encorajando a enfrentar  os desafios existenciais que se lhe acumulam no íntimo como efeito da mendacidade, disfarçam e negam o conflito que sofre com novas arremetidas da imaginação.

O desenvolvimento intelecto-moral saudável é estruturado nos alicerces da realidade, no convívio com os pensamentos elevados e as programações edificantes de contínua vigilância moral, propiciando-se renovação de atitudes que facultam estímulos salutares para a evolução. (…)

Ser veraz, então, se lhe desenha  na mente como adequada condição de pessoa inteligente que opta pelo que é lícito e real, em vez das tulmutuadas fugas para a mentira e a hipocrisia.”

(…)

Fonte: VITÓRIA SOBRE A DEPRESSÃO, de Joana de Angelis e Divaldo Pereira Franco. Editora Leal, Salvador (BA), 2010, Série Psicológica – páginas 17 a 19.

Leia também neste blog

Viver Mentindo

Sobre Hipocrisia

Fuga do autoconhecimento



Livros

Fuga do autoconhecimento

Transcrevo um trecho esclarecedor do livro Os Parceiros Invisíveis, obra imprescindível para todos que se percebam com dificuldade em interrelações, sobretudo em relacionamentos amorosos. Esclarece sobre a força das projeções do animus e da anima, as contrapartes masculina e feminina, existentes na mulher e no homem, respectivamente.

“O conhecimento mais elementar de si mesmo é algo a que a maioria das pessoas resiste com a máxima determinação. Em geral, somente quando nos achamos num estado de grande sofrimento ou confusão, e somente quando o autoconhecimento nos oferece uma saída, é que nos dispomos a arriscar nossas estimadíssimas idéias a respeito daquilo que sentimos ser quando postos diante da verdade, e , mesmo assim, muitas pessoas preferem viver uma vida sem sentido a ter de passar pelo processo, não rato desagradável, que as leva ao autoconhecimento. Além disso, há alguns aspectos existentes em nós que são mais difíceis de conhecer do que outros. Por exemplo, a personalidade da sombra, que se forma com características indesejadas e não desenvolvidas, que poderiam ter-se tornado parte da consciência, mas que foram rejeitadas (em vez de integradas). A sombra há muito foram reconhecidas pela Igreja Católica ‘Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero’, exclamou Paulo de Tarso, angustiado com a sua sombra*. Não é coisa inacreditável para nós que haja um lado mais escuro da nossa natureza, porque a religião muitas vezes já no-lo mostrou, embora, mesmo neste caso, haja uma impressionante conspiração dentro da maioria de nós, no sentido de prestar um serviço silencioso à nossa natureza mais obscura, ainda que evitando encará-la em suas peculiaridades. Assim, a nossa sombra frequentemente se apresenta óbvia para outros, mas continua desconhecida para nós. Muito maior é nossa ignorância acerca dos componentes masculinos e femininos existentes dentro de nós, que escapam à nossa atenção, por serem completamente diferentes do que nossa consciência conhece a respeito de nós. Por esse motivo Jung denominou a integração da sombra usando o termo a peça-aprendiz no processo de tornar-se inteiro, e chamou a integração da anima e do animus de obra-prima”Sanford, pág. 16.

A dificuldade de buscar o autoconhecimento e realizar processo analítico que conduza ao contato e à integração da  sombra é mais frequente em pessoas de elevada capacidade e bagagem intelectual. Isso ocorre  porque esses indivíduos costumam ser intelectualmente arrogantes, alimentam postura de autosuficiência quando , na verdade, estão se sabotando, isto é, recorrendo à propria inteligência como mecanismo de defesa para essa fuga. Há também os que preferem se refugiar na religiosidade,  supondo que lhes basta seguir diretrizes da igreja e, não raro, se submeter a autopunições ou repressões de todo tipo para sentirem-se salvas. pagam preço alato para nada!

* 12 Rom, 7,19

SANFORD, John. Os Parceiros Invisíveis. São Paulo (SP): Paulus,2007

Livros

A irreversibilidade da maternidade e da paternidade

Em momento de rara lucidez a produção do programa da Ana Maria Braga (Mais Você) levou ao estúdio uma pessoa que realmente tinha algo a dizer, o psiquiatra Fábio Barbirato. O assunto era o comportamento violento de jovens. O médico explicou o que nós terapeutas temos vontade de gritar pelas ruas naqueles caminhões de música baiana: “a responsabilidade de educar e orientar seu filho é sua e não pode ser transferida para ninguém, nem para a babá, a professora, diretora da escola ou  terapeuta. Taqmbém não funciona pedir ao pediatra um remedinho pra curar ele das condutas indesejáveis.” É isso, esses jovens que tocam fogo em índio, agridem professores ou outros jovens nas ruas, shopping centers ou saída de boates fazem isso porque para eles faltou pai e mãe orientando, dando limites. Pais da classe média para cima erram mais nesse aspecto por dois motivos.  Primeiro: acreditam que conseguem suprir ausências e omissões deles com presentes, concessões de todo tipo e confundindo amor com permissividade. Segundo motivo: distanciamento de Deus e da noção de respeito ao próximo – o que, obviamente, não têm como ensinar aos filhos, uma vez que essa diretriz não existe dentro deles.

Assista à ENTREVISTA.

Você que é pai ou mãe: Ninguém pode substituir você nessa função. Essa atribuição não pode ser delegada a ninguém, nem mesmo à avó da criança.

Bom, mas não vou me estender no comentário. Fábio Barbirato escreveu um livro e as ideia dele podem ser lidas em “A Mente do Seu Filho: Como Estimular as Crianças e Identificar os Distúrbios Psicológicos na Infância”. O livro aborda as causas de transtornos como agressividade, birra e timidez, e indica como avaliar quando eles são normais e quando devem ser tratados.

A negligência de homens e mulheres no cuidado com os próprios filhos revolta a nós psicoterapeutas porque constatamos em consultório que a maioria absoluta dos transtornos mentais e dificuldades psicoemocionais e comportamentais das pessoas que nos procuram, adultos e crianças, têm origem no ambiente familiar, em decorrência do “manejo” de pais e mães equivocados ou de outros adultos (i) responsáveis. E se uma babá perversa causa desajuste psicológico numa criança, ainda assim a responsabilidade é dos pais.

Há poucas coisas na vida que são irreversíveis. Ser pai e mãe é a principal. Resolveu ter filho? O resultado dessa decisão  é para sempre. Então faça direito. Se não sabe como, procure descobrir. Se não quisesse essa responsabilidade deveria ter comprado um bebê de plástico. Já existem alguns no mercado que são cópias fieis de bebês vivos. Só que ninguém tem o direito de se esquecer que esses últimos fazem cocô, choram, pedem comiga, companhia e educação.  A irreversibilidade de ser  pai e mãe só perde em importância para o oposto disso: a morte, isto é, matar uma pessoa.

Fabio Barbirato é psiquiatra, professor de psiquiatria infantil (PUC-Rio) e de medicina (Souza Marques). Ex-presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil do Rio de Janeiro, atualmente é responsável pelo setor de psiquiatria infantil da Santa Casa de Misericórdia.

A Mente do Seu Filho tem uma coautora: Gabriela Dias, mestre em psiquiatria e saúde mental pela UFRJ e especialista em saúde mental e desenvolvimento infantil pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Silvia coordena o Programa de Avaliação e Atendimento ao Pré-Escolar do setor de psiquiatria infantil na Santa Casa de Misericórdia do Rio. É também professora da Faculdade de Medicina Souza Marques.

Para quem gosta do estilo, o livro pode ser adquirido também no formato e-book, isto é, em versão eletrônica. Particularmente não gosto; prefiro sentir a textura e o cheiro do papel; coisa de quem já passou dos 40, talvez.

Livros

Homossexualismo na adolescência

Será lançado em São Paulo, no próximo dia 18, o livro Uma Outra Verdade, do psicólogo Claudio Picazio. Sem apelar para explicações fáceis nem recorrer a julgamentos de valor, ele responde às dúvidas mais comuns feitas por pais e educadores sobre homossexualidade na adolescência. O objetivo é transmitir ao leitor informações claras e diretas, eliminando o “achismo” e o senso comum, ajudando a combater, assim, qualquer forma de discriminação.

A noite de autógrafos será na Loja das Artes, que fica na Av. Paulista, 2073 – São Paulo (SP), das 18h30 às 21h30.

O livro, segundo o autor, nasce da necessidade de se esclarecer algumas questões que ainda geram dúvidas e, consequentemente, preconceito por parte de pais e educadores. “Quando pais e professores conseguem entender a questão, percebendo que a homossexualidade não é desvio e sim uma outra verdade da expressão da nossa sexualidade, tudo fica mais claro, tornando mais fáceis a quebra do preconceito e a formação de um novo paradigma”, afirma Picazio.

Explicando o que é preconceito e homofobia, por exemplo, Picazio apresenta dados recentes sobre a homossexualidade. Segundo pesquisas feitas por organizações que lutam pelos direitos homossexuais e entidades de direitos humanos, a cada três dias, uma pessoa é morta simplesmente por ser homossexual. Além disso, o Brasil é campeão mundial em crimes contra homossexuais. “O triste é constatar que essa violência começa em casa. Muitos pais rejeitam e até expulsam do lar filhos e filhas que não correspondem ao comportamento e ao desejo sexual esperado. A violência física e psicológica torna-se a estrutura de um estigma fragilizado. São enormes a vergonha e o preconceito internalizados em um gay que conviveu com essa atitude familiar”, diz.

O índice de suicídios na adolescência é três vezes maior no caso de homossexuais. “Em minha experiência clínica, atendi um casal de pais cujo filho cometera suicídio e havia deixado um bilhete com os seguintes dizeres: ‘Desculpa pai, mãe, não quero decepcionar vocês. Sou homossexual e isso magoaria muito vocês. Beijos’. Nenhum pai, nenhuma mãe, acredito, gostaria de ver essa cena; mas, infelizmente, profetizam tal ação quando dizem alto e bom som que prefeririam um filho morto a um homossexual.”

Claudio Picazio é formado pela Universidade São Marcos (SP). Especialista em sexualidade humana e em violência doméstica e abuso sexual infantil pelo Instituto Sedes Sapientiae. Psicólogo clínico desde 1983, atende adolescentes e adultos e oferece terapia a casais homo e heterossexuais. Também desenvolve grupos de estudos e de pais. Foi consultor do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação no projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE). Atuou no projeto Tecer a Vida, do Unicef, onde deu supervisão a profissionais da instituição e da rede pública que atendiam adolescentes e adultos soropositivos (primeira geração), visando à reintegração familiar. É cofundador da Atos, oscip que atua na diminuição da vulnerabilidade social, e autor dos livros Diferentes desejos: adolescentes homo, bi e heterossexuais e Sexo secreto – Temas polêmicos da sexualidade, ambos das Edições GLS.

Texto: Resenha da editora

Livros

Psico-oncologia: Caminhos e perspectivas

Livro da editora Summus mostra a importância da psico-oncologia no tratamento de pacientes com câncer. O tema é abordado por meio de três diferentes referenciais teóricos: psicanalítico, fenomenológico e sistêmico. Além disso, apresenta trabalhos realizados com crianças e adultos com câncer, familiares e profissionais de saúde. Destinado a psico-oncologistas, estudantes, pesquisadores e profissionais de saúde.

A psico-oncologia é uma área ampla e multidisciplinar que ainda impõe crescentes desafios a pesquisadores, profissionais de saúde e organizadores de serviços hospitalares. Partindo dessa premissa, o livro Psico-oncologia – Caminhos e perspectivas (288 p., R$ 59,90), lançamento da Summus Editorial, organizado pela psicóloga Carmem Maria Bueno Neme, apresenta a experiência prática dos autores e discute resultados de pesquisas de ponta. A obra oferece estudos e relatos de experiências desenvolvidas em hospitais, apontando uma diversidade de métodos, técnicas e aportes teóricos que refletem diferentes práticas e estilos dos profissionais e demonstra o crescimento e a riqueza da psico- oncologia. “Atualmente, ela pode ser vista como uma área sólida e consistentemente estabelecida, embora ainda aberta a futuros desenvolvimentos na pesquisa, na prática e na realização de serviços”, complementa a organizadora.

A psico-oncologia surgiu da necessidade de oferecer ao paciente com câncer um modelo de atenção integral – biopsicossocial – capaz de melhorar sua qualidade de vida, aumentar sua sobrevida e as possibilidades de reversão da doença, fortalecer seus recursos e modos de enfrentamento da doença e dos tratamentos, além de atender também às necessidades dos familiares e dos profissionais de saúde envolvidos. Segundo a organizadora, a especialidade representa hoje ampla área de estudos e de atuação profissional. Entre os objetivos, diz ela, estão à prevenção do câncer, o tratamento e a assistência integral ao paciente oncológico e os seus familiares, a formação de profissionais de saúde e a realização de pesquisas que possibilitem a sistematização dos conhecimentos produzidos e conduzam a novas informações.

Organizado em três grandes temas, dividido em oito capítulos, o livro é uma referência essencial para profissionais e estudantes de medicina, psicologia, serviço social e enfermagem. Em linguagem acessível, os autores abordam questões atuais e relevantes na psico-oncologia, com aspectos inéditos em três perspectivas teóricas: psicossomática psicanalista, fenomenologia e sistêmica. “Profissionais e pesquisadores que vêm construindo a psico-oncologia no Brasil e no mundo apontam diferentes aspectos que permeiam a trajetória de todos os envolvidos, desde o diagnóstico até o controle da doença ou sua terminalidade”, afirma a psicóloga.

Ao longo da obra, os autores apresentam o relato completo de um serviço de psico-oncologia criado e desenvolvido em um hospital de Bauru, interior de São Paulo, retratando procedimentos práticos dos profissionais.  Eles mostram também trabalhos realizados com crianças, envolvendo mães e familiares, com mulheres, relacionado à conjugalidade, e com profissionais de saúde. A obra inclui ainda dois capítulos voltados à avaliação psicológica e o histórico da psico-oncologia no Brasil, destacando caminhos, resultados e desafios da prática.

Resultado de um projeto iniciado há dezesseis anos, o livro traz importantes diferenciais em relação a outras obras publicadas sobre o tema. Os autores registram iniciativas como a atuação do psicólogo hospitalar com doenças na infância, estudos clínicos de casos sobre mulheres com câncer de mama, de útero e de ovários, câncer infantil e os significados da doença para a família, vivências de mães de crianças com câncer quando morrem companheiros de tratamento e o contato com a morte de pacientes no serviço de oncologia hospitalar, entre outras questões.

Texto: resenha da editora Summus (para quê refazer o que está bem feito?)

Livros

PROVA, PROVÃO, CAMISA DE FORÇA DA EDUCAÇÃO

O livro  Prova, Provão, Camisa de Força da Educação*, de Hamilton Werneck, questiona  a eficácia dos sistemas de avaliação que, embora antigos na maioria dos casos, continuam sendo usados nos dias atuais. Comparando professores com alguns estereótipos de animais, demonstra a impropriedade e ineficiência de determinadas posturas de professores na hora de avaliar seus  alunos.

As analogias mostram, então, o professor macaco, que se compraz em  ridicularizar os alunos; o professor serpente-venenosa, cuja especialidade é elaborar armadilhas nos testes e provas; o professor carrasco, que em vez de ensinar, destrói a confiança e motivação dos alunos, quando não os exclui do processo educativo.

A comparação com o joão-de-barro e o castor são elogiosas: joão-de-barro é um pássaro que constrói algo e sempre em sintonia com o meio ambiente, o que o faz, por exemplo, analisar a posição em que o vento bate mais forte para decidir de que lado fazer a porta de sua casinha, de forma a proteger melhor os filhotes. Semelhante a isso, o professor joão-de-barro observa o contexto que envolve seus alunos, “sente o vento” e constrói algo em seus corações e suas mentes.

O castor, animal que enfrenta baixas temperaturas do inverno enquanto escolhe árvores e prepara diques é apontado pelo autor como exemplo de trabalho intenso, desafio a adversidades e harmonia com o meio ambiente, características também de alguns persistentes e dedicados professores que acreditam na possibilidade de transformação de realidades indesejáveis. O professor abelha é elogiado pelo trabalho dedicado e acompanhamento dos alunos, mas criticado pela mesmice e falta de criatividade nas avaliações.

O professor leão é associado à fera que assusta, ruge nos corredores e salas de aulas como se estivesse ameaçando os alunos tal  qual faziam ferozes leões que ameaçavam cristão aprisionados nos coliseus romanos, verdadeiros espetáculos circenses de atrocidade e coerção.

O pavão é usado pelo autor para caracterizar o professor que está preocupado em elitizar, que elabora questões fazendo citações pomposas de autores badalados  por “intelectuais”. Esse tipo de professor, segundo o autor, exige complexidade quando deveria recorrer a instrumentos mais simples e objetivos que privilegiassem o saber ler e escrever, a organização de idéias, capacidade de expressar-se com clareza e solidez de argumentação.

Para o autor, o professor bicho-preguiça é aquele que,  seja por cansaço decorrente de longas jornadas de trabalho ou por desgaste na vida familiar, é lento e dorme acordado, permitindo aos alunos “colarem”   durante as avaliações, além de negligenciar em várias situações.

Ao mesmo tempo em que critica, conclama à reflexão e interage com os leitores propondo-lhes exercícios de aquisição e fixação de nova mentalidade sobre o ato de educar, Werneck apresenta sugestões de como os alunos poderiam ser avaliados de forma mais construtiva e eficaz. Um dos mecanismos propostos por ele para averiguar o aprendizado é o oposto do que vem sendo feito: em vez de se considerar as respostas dos alunos, aconselha uma análise do grau de conhecimento deles por meio de perguntas feitas por eles.

Discussões e debates realizados em grupos é, segundo o autor, outra forma de o professor avaliar o quanto cada aluno assimilou ou conhece sobre o conteúdo ensinado. Avaliar pela síntese verbal, pelas sínteses grupais e observar o rendimento em tarefas seqüenciais são outras formas de medir a aprendizagem adquirida, entre outras propostas do livro, que não se opõe inteiramente ao uso de provas, mas defende que elas não sejam instrumentos coercitivos e sim, mecanismo de orientação para uma busca útil de conhecimento (ou busca por conhecimento util!) e uma forma de feedback para o professor.

Prova, Provão, Camisa de Força da Educação é obra que não pode deixar de ser lida por todos que desejem trilhar o caminho da educação e da pedagogia ou que já estejam atuando nessas áreas. Leitores que se proponham a interagir com o autor vão perceber quão difícil é lembrar-se de professores que se enquadrem nos tipos professor joão-de-barro e castor. Por outro lado, como é fácil relacionar aqueles  que marcaram nossa lembrança como carrascos, serpentes enganadoras, ferozes leões (e leoas!), pavões, abelhas e bicho-preguiça!

A favor dos pontos de vista do autor entram aspectos como a necessidade de se reconhecer que nossas escolas não têm construído cidadãos, preparado bons profissionais nem tampouco proporcionado sabedoria para obtenção daquilo que mais almejam as criaturas humanas: a felicidade.

Ao contrário, temos reproduzido modelos de ensino que interessam apenas aos detentores do poder, defensores do status quo e, sobretudo, a uma estrutura voltada para a produção de proletários resignados e maus eleitores. Por que poucos  querem ser professor ou professora nos dias de hoje? Apenas reflexo das irrisórias remunerações? Ou o modelo de formação escolar adotado e imposto aos alunos produz nesses aversão desde os primeiros anos de escola? Quem deseja imitar o que lhe desagrada?

Contra  os modelos propostos por Werneck destaca-se o fato de que a resistência humana a mudanças é algo tão arraigado que amealhar adeptos das idéias demandaria tempo enorme. Além disso, metodologia de avaliação tão subjetiva pressupõe que as pessoas agem sempre movidas pela boa fé e com honestidade, o que não é necessariamente verdadeiro.

Outra fator contrário às sugestões do autor, também decorrente do caráter subjetivo das avaliações propostas, seria a dificuldade de o Estado controlar a qualidade dos processos educativos, considerando-se que sempre haverá diferenças quantitativas e qualitativas nos níveis de dedicação, boa fé, preocupação com o bem-estar real do ser humano, empenho, capacidade de análise crítica e domínio de conteúdo, entre outros aspectos,  por parte dos professores e corpo diretivo das escolas.

Postado por Carmelita Rodrigues

____________________________________________________________

*WERNECK, Hamilton, Prova, Provão, Camisa de Força da Educação. Petrópolis (RJ): Vozes, 2002.

Livros

Psicologia e Cuidados Paliativos

“Cabe sempre destacar que as ações da Psicologia em Cuidados Paliativos não se restringe ao paciente, mas devem incluir a família,  como parte da indivisível unidade de cuidados, mesmo que estes tenham que ser observados em sua especificidade. Além dessa unidade de cuidados, a Psicologia também se propõe a atuar junto à equipe multiprofissional, uma vez que esta necessita manter a homeostase nas suas relações e encontrar vias de comunicação que permitam a troca e o conhecimento, a partir de diferentes saberes.”

O trecho acima é do livro Cuidado Paliativo, editado pelo Cremesp, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, do artigo de Maria Helena Pereira Franco, que nesse mesmo livro escreveu também sobre o tema “Luto em Cuidados paliativos.

Trata-se de primorosa coletânea de artigos sobre cuidados paliativos envolvendo diferentes áreas da saúde. Além da Psicologia, há a análise sobre a relação entre esse tema e a Fisioterapia, a Nutrição, Farmácia, Odontologia, Enfermagem e Assistência Espiritual.

O primeiro capítulo da Parte 4 desse  fabuloso livro de 690 páginas explora o tema ESPIRITUALIDADE, MORTE E LUTO. Veja o seguinte trecho exemplar do valor dessa obra indispensável aos estudiosos de diferentes áreas do saber: “Ao lidar com questões espirituais de nossos pacientes devemos estar atentos às diversas formas de violência espiritual que podem ser cometidas por profissionais, familiares e sacerdotes. Segundo Purcell, o abuso espiritual é caracterizado pelo ato de fazer alguém acreditar numa punição de Deus ou na condenação eterna por ter falhado em alcançar uma vida adequada aos olhos de Deus. Existem diferentes intensidades e formas de abuso espiritual, algumas tão sutis que se encontram nos alicerces de nossa cultura judaico-cristã. (…) Impedir o paciente de expressar suas necessidades espirituais assim como o proselitismo são formas comuns de violência contra o paciente terminal.”

Eu, Carmelita,de modo particular  acrescento: “é violência contra todos os nossos pacientes”. Ninguém pode negar a dimensão religiosa e/ou espiritualista de seus pacientes só por ter a limitação intelectual de nada saber sobre religiosidade ou espiritualidade. Se meu paciente pode falar de uma experiência vivida durante o Carnaval, porque não vou acolher a experiência religiosa dele? Cabe ao psicólogo ampliar seus conhecimentos e estudar/vivenciar as diferentes religiosidades.

Sugiro a leitura completa da obra e para ampliar minha argumentação de que o livro é excelente, aconselho a clicar no link abaixo, onde pode-se ler o índice da obra e ter uma idéia mais ampliada do conteúdo.

Veja índice completo de CUIDADO PALIATIVO.

Postado por Carmelita Rodrigues

Livros

Arquétipo do Puer, Arquétipo do Senex

 

Um livro para nos ajudar a pensar e compreender a dinâmica de duas polaridades humanas: o arquétipo da eterna criança (Puer) e a do velho (Senex). Não faz muito tempo, a cultura ocidental desprezava a infância e a juventude, superestimando a fase adulta e as supostas virtudes da velhice. Mudou o sistema político-econômico, o capitalismo ganhou força e expansão (com o efeito colateral dele, o consumismo exacerbado) e o eixo de valorização mudou também: passou a ter apreço maior o novo, o jovem e a potencialidade produtiva (ou consumista) dessa fase. O livro Puer-Senex – Dinâmicas Relacionais, lançado pelo Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul (IJRS), aborda essa temática, analisando os reflexos das duas posturas extremistas. A seguir, a resenha da própria autora, Dulcinéa da Mata Ribeiro Monteiro: 

“Vivências do tempo-puer e do tempo-senex acontecem ao longo de toda nossa vida, sem se circunscreverem a alguma idade específica. A tessitura destes fios psicológicos e arquetípicos – Puer e Senex – plasmam significados que nos desenvolvem e nos alimentam criativamente nas mais diferentes situações existenciais. Podemos, numa análise da cultura atual, dizer que saímos de uma época de dominância dos aspectos negativos do Senex: rigidez, autoritarismo e caímos na outra polaridade, o cultivo exacerbado dos valores do Puer: eterna juventude e beleza física, falta de limites e de autoridade, pressa, hedonismo entre outros. Toda unilateralidade é um sinal de barbárie, afirma Jung, e a atual Sociedade do Espetáculo o confirma. Daí a necessidade de resgatarmos o significado arquetípico do Senex. Nosso objetivo neste volume é ampliar o horizonte de compreensão deste eixo relacional tão vital no desenvolvimento psicológico nas várias situações e fases da vida por nos colocar no eterno ciclo das mudanças e aprendizagens que o nosso peregrinar neste tempo-vida exige que façamos, e sempre. Assim, nos descobrimos na delícia e na dor do nosso processo de individuação ou de descoberta e atualização de nossas potencialidades no apelo para o nosso Self.”

 

 

 

 

Livros

Gentileza

A palavra gentileza deu origem ao termo inglês gentleman, que
significa cavalheiro, homem gentil. É também a raiz da noção latina da palavra gentilis (aquele que pertence a uma família). Portanto, ser gentil é algo que surge de um movimento interno, da predisposição para o bem, reforçada pela influência externa, em geral da família. Ser gentil depende do conhecimento, da boa educação que promova uma constante transformação interior; mas também se manifesta como impulso natural e espontâneo de pessoas simples, generosas e sábias. Viver em grupo, co-habitar espaços exige docilidade da alma, exige boa vontade,
gentilezas. As pessoas gentis, ainda que não percebam isso, demonstram preocupação com a felicidade do outro, anseiam por um ambiente coletivo de bem-estar. A gentileza está por trás do grande ensinamento de Jesus Cristo, presente também em outras grandes expressões filosóficas de inspiração divina: “não faça ao outro o que não gostaria que lhe fizessem” ou, em outras palavras: faça aos outros o que desejar que seja feito a você. “Gentileza” é também o título do livro  de Gabriel  Chalita. Na descrição da editora Gente, o livro “é um convite para que a poesia das palavras se transforme na poesia da ação.” O próprio autor comenta sua obra na seguinte descrição: “Foi pensando na importância da delicadeza nos relacionamentos e em como essa postura estimula o bem-viver e a felicidade entre as pessoas que escrevi o livro Gentileza.”
Postado por Carmelita Rodrigues, em 29.06.08

Livros

Vade-mécum de Gestalt-terapia

Um trabalho voltado para as necessidades dos profissionais e clientes de psicoterapias; instrumento para a compreensão dos conceitos e orientações sobre a prática, clínica ou em outros espaços, da Gestalt-terapia; ferramenta para pesquisadores. VADE-MÉCUM DE GESTALT-TERAPIA, Conceitos Básicos é tudo isso. E é bem mais do que isso, além de ser mais um precioso esforço de Jorge Ponciano para tornar a abordagem gestáltica e a Gestalt-terapia compreendidas, conhecidas, corretamente utilizadas e reconhecidas em todas as suas complexidades e, paradoxalmente, simplicidade. O livro aprofunda a compreensão dos conceitos e faz paralelos com o uso prático deles, funcionando como instrumento de trabalho imprescindível. Temos no Brasil poucas obras de autores brasileiros dedicadas a clarificar a compreensão da abordagem gestáltica e enriquecimento da psicologia humanista; dos poucos existentes, a maioria é de Ponciano, que conhece bem essa demanda e faz mais um esforço para preencher a lacuna. A linguagem metafórica amplia a possibilidade de compreensão, respeitando os potenciais e bagagens intelecto-psicoemocionais de cada leitor, sobretudo no momento de relacionar teoria e prática clínica. Veja como os 28 conceitos foram abordados no livro lendo trechos de três deles:

Auto-regulação organísmica: “O instrumento de manutenção da vida é a auto-regulação do organismo no mundo e a partir dele. Por intermédio dos comportamentos moleculares e molares, cada ser se auto-regula conforme a necessidade do próprio organismo, aqui e agora. (…) Sem tergiversar, o corpo apresenta aquilo que precisa para um funcionamento adequado e um equilíbrio estável; entretanto, estamos acostumados a ver nossos corpos desrespeitados ou a desrespeitá-los, obrigando-os a funcionar com sobrecarga física, emocional e espiritual. (…) Somos biopsicossocioespirituais e auto-regular-se é não perder a perspectiva dessa quádrupla dimensão humana. Cada uma dessas dimensões tem necessidades próprias que, embora juntas, formam um sistema auto-regulador que distribui os diversos apelos ou necessidades organísmicas, de tal modo que num comportamento vicário, organicamente inteligente, o sistema mais saudável tenta satisfazer um menos saudável, para que o organismo, como um todo, possa funcionar a contento. É o que chamamos função holísitica dos sistemas. Temos de recordar que, às vezes, a própria doença é uma forma precária de auto-regulação e também o caminho que o organismo encontrou para se proteger de um mal maior.” Pág. 56-57.

Awareness: “O estar consciente de que se está consciente, não como um ato cognitivo apenas, mas como algo integrador e transformador. É um momento de síntese emocional, no qual parte e todo, figura e fundo se transformam em parte-todo, figura-fundo, desaparecendo o objeto na subjetividade emocional do sujeito. Awareness é um momento de encontro com minha totalidade, buscada sempre pelas mais variadas formas de ampliação de consciência. (…) Awareness é um caminho de mudança, um processo de integração harmoniosa pessoa-mundo, de tal modo que fica na pessoa a sensação de fim de linha, de chegada de uma longa e difícil viagem e, sobretudo, uma sensação de completude, de um chão fecundo em que as sementes já podem germinar. Estar reflexivamente consciente de si mesmo no mundo é ter encontrado respostas de cujas perguntas pouco ou nada se sabia.” Pág. 75-76.

Bloqueio de contato: “A essência do bloqueio é sua consciência administrativa, ou seja, tenho consciência de que a experiência que vivo, aqui-agora, é insuportável; quero me livrar dela e uso meios claros para bloqueá-la. Procuro e encontro argumentos emocionais e os introduzo na minha experiência a fim de me livrar das sensações ou pensamentos insuportáveis, bloqueando conscientemente a sensação de contato interior comigo mesmo. (…) Palavras mestras na arte de ser terapeuta: delicadeza, ternura, cuidado. Ninguém se bloqueia porque quer ou por teimosia, pois até o querer se bloquear já é algo que nos diz onde a pessoa se encontra. Assim, quando identificamos algo a que chamamos bloqueio (afinal, o que a pessoa está fazendo é apenas se auto-regular, se auto-ajustar) precisamos de toda nossa perícia para entrar na casa protegida do cliente. Se abrirmos portas e janelas, porque assim pensamos ou sentimos que deva ser, podemos dar entrada a ventos e tufões que o cliente não tem nenhuma condição de enfrentar. Os bloqueios e as resistências do cliente precisam contar com uma amorosa proteção do terapeuta, pois eles não estão ali sem motivos. Bloqueios e resistências são forças de pessoas que, momentaneamente, perderam a confiança em seu poder pessoal e só com muito cuidado, isto é, ao se sentirem cuidadas e aceitas pelo que são e como estão, poderão recuperar seu poder pessoal de estar na vida de maneira saudável e sem medo. Atrás de todo bloqueio há um medo, mas não é o bloqueio que deve ser objeto de cuidado, e sim os componentes envolvidos nesse medo, que impedem a pessoa de se expressar, de sorrir e de viver como verdadeiramente é.” Pág. 81-82.

Sobre o autor: Jorge Ponciano Ribeiro é graduado em Filosofia e Teologia; mestre e doutor em Psicologia pela Universidade Pontifícia Salesiana de Roma; tem formação em Psicanálise e Psicologia Analítica de Grupo e em Gestalt-terapia; fez dois pós-doutorado na Inglaterra; tem quarenta anos de magistério superior; é fundador e presidente do Instituto de Gestalt-terapia de Brasília (IGTB) e autor de vários livros, incluindo: Do Self e da Ipseidade; Ruídos: contato, luz, liberdade; Gestalt-terapia de curta duração; O Ciclo do Contato; Gestalt–terapia: o processo grupal e Gestalt-terapia: refazendo um caminho.

Vade-mécum de Gestalt-terapia – Conceitos Básicos

Autor: Jorge Ponciano Ribeiro

Editora Summus, São Paulo, 2006

Livros

Livro-poema de Jorge Ponciano: crônicas de uma “vida gestáltica”

“São sete horas da noite. Sentado em minha cadeira, espero, como sempre, com uma ligeira ansiedade, a chegada do primeiro cliente. Já se vão 35 anos desde que conclui meu doutorado sobre “grupos”, e mesmo assim, nunca estou completamente despreocupado, porque nada no grupo desta semana será semelhante ao grupo da semana passada.” É com esta simplicidade que Jorge Ponciano inicia um dos capítulos do livro Ruídos: contato, luz, liberdade – um jeito gestáltico de falar do espaço e do tempo vividos. A obra reúne crônicas, relatos, pequenas histórias repletas de reflexões, pensamentos e vivências orientadas ora pela sabedoria de quem é genuinamente gestaltista.      

Em outro capítulo, Ponciano descreve em detalhes uma sessão de gestalt-terapia em grupo; obviamente sem identificar os participantes nem trair o segredo profissional. A descrição é de grande valor tanto para os profissionais de psicologia quanto para pessoas que desejem ter uma idéia sobre “isso de fazer terapia em grupo”, no caso, sob a orientação gestáltica.      

Em outra historia, uma das inúmeras e deliciosas reminiscências contidas no livro, ele revela, com a mesma simplicidade sábia que permeia toda a obra, seus conflitos e dúvidas quanto à eutanásia, e conta o sofrimento vivido ao acompanhar o envelhecimento, adoecimento e morte do cãozinho de estimação. Desnudando suas incertezas, encerra o texto admitindo que continua sem saber se tomou a decisão certa quanto a mandar sacrificar ou não o “grande amigo”. E admitindo-se aberto –  como sempre esteve – a mais um aprendizado, pergunta aos leitores: “O que você acha? Você o sacrificaria?”     

No mesmo texto, o autor nos convida a penar sobre a velhice e afirma: “a velhice não deveria ser imobilizante. Imobilizante é viver sem ideal, sem uma crença, sem esperança, sem estar enamorado de si mesmo, com medo de não ser aceito, transformando os pensamentos dos outros em regras de autocontrole, com medo dos riscos de aceitação, do amor, da realidade; enfim, de colocar  a mão na massa na construção real do hoje, no aqui e agora de cada dia.”       Ruídos: contato, luz, liberdade é, além de tudo o que já foi dito, um poema! Poesia dedicada à Natureza, aquela que é verde, amarela, vermelha, azul, a de flores, ventos, montanhas, bichos e águas… e à natureza masculina&feminina, yin&yang, animus&anima que há dentro de cada um de nós, homens ou mulheres – ou melhor: simultaneamente homem e mulher. 

Livro: RUÍDOS: CONTATO, LUZ, LIBERDADEum jeito gestáltico de falar do espaço e do tempo vividos.Autor: Jorge Ponciano RibeiroEditora: Summus Editorial; São Paulo-SP, 2006 

Postado por Carmelita Rodrigues, em 14.02.08

.Página Principal, Livros

Alquimia, psicoterapia e nossas dificuldades concretas

“O que torna a alquimia tão valiosa para a psicoterapia é o fato de suas imagens concretizarem as experiências de transformação por que passamos na psicoterapia”. A frase é de Edwuard F. Edinger, no livro Anatomia da Psique – o Simbolismo Alquímico na Psicoterapia. É uma obra fundamental para terapeutas junguianos e todos que se proponham entender a realidade da psique. Nela, a analogia entre psicoterapia e processos alquímicos, grande pilar das descobertas de Carl Jung, é explicada minuciosamente, explorando em detalhes cada um dos sete principais processos alquímicos: calcinatio, solutio, coagulatio, sublimatio, mortificatio, separatio e coniuntio.

Jung demonstrou que o simbolismo alquímico era, em grande parte, produto da psique inconsciente. Assim, as imagens alquímicas fornecem base objetiva para abordagem de sonhos e outros materiais inconscientes. “Vi logo que a psicologia analítica coincidia de modo bastante singular com a alquimia. As experiências dos alqumistas eram, num certo sentido, as minhas próprias experiências, e o mundo deles era, num certo sentido, o meu” (Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões, ed.2005, pág. 181).

Para clarificar essa analogia de forma simplificada, facilitando a compreensão de todos que tenham interesse pelo tema, tomo por exemplo neste curto texto o processo alquímico da sublimatio. Obviamente, a leitura do livro do Edinger ampliará consideravelmente a compreensão do que tento explicar aqui, embora trate-se de leitura densa e a obra não funcione como aqueles livros de auto-ajuda.

Em alquimia, a sublimatio é a operação que transforma o material em ar por meio de sua elevação e volatilização. Originado do latin sublimis, o termo sublimação significa “elevado”. É um processo de elevação por meio do qual uma substância inferior se transforma, se eleva em movimento ascendente.

Edinger afirma que todas as imagens oníricas que lembram movimento para cima, como escadas, elevadores, alpinismo, montanhas e voar, entre outras, pertencem ao simbolismo da sublimatio; podem estar indicando uma permanência maior nesse estado e ta dificuldade para viver no plano concreto.

Ao lidar com problemas concretos, precisamos ficar “acima” deles, nos elevar. Recorremos a nossa bagagem espiritual, intelectual e vivências pessoais para enxergá-los “de cima”, e portanto, por um anglo maior, com visualização ampla de possibilidades, interligações e implicâncias.

O problema reside em permanecer “no alto”, em não descer para resolver o problema! Poetas, filósofos, intelectuais, artistas, educadores e outros pensadores realizam com freqüência esse movimento ascendente e costumam enxergar aspectos que os outros não vêem. Mas, infelizmente, dominados por intricados complexos e forças arquetípicas, desenvolvem uma dificuldade em fazer o movimento de volta, a descida para o “estado sólido”, o mundo fora das nuvens, menos belo e mais duro, pouco agradável e nada poético, mas necessário. Essa espécie de fixação no estado de sublimação costuma resultar, no mundo concreto, em sérias dificuldades financeiras e na incapacidade de formar patrimônio material, necessário à segurança e ao bem-estar no mundo atual.

Veja o que diz Edinger sobre isso (in Anatonia da Psique, 2005, pág. 136):

“A sublimatio é uma ascensão que nos eleva acima do emaranhado confinador da existência terrestre, imediata, e de suas particularidades concretas, pessoais. Quanto mais alto nos elevamos, tanto maior e mais ampla nossa perspectiva, mas, ao mesmo tempo, tanto mais distantes ficamos da vida real e tanto menor a nossa capacidade de agir sobre aquilo que percebemos. Tornam-nos expectadores magníficos, mas impotentes.”

Um amigo de grande bagagem intelectual contou-me que tem muita facilidade para visualisar as questões nas suas múltiplas abrangências e para planejar, elaborar ações ideais. E, ao mesmo tempo, enorme dificuldade para realizar as ações planejadas. No plano pessoal, provavelmente ele deve ver com clareza as causas de suas dificuldades concretas, onde erra e o que deveria fazer para livrar-se dos problemas. Mas a simples compreensão do que deve ser feito não o ajuda. Isso porque será necessário conseguir “descer” do estado de sublimação e submeter-se ao mundo real e enfrentar as necessidades concretas.

A sublimatio pode, também, ter significado de purificação. Num estado de contaminação inconsciente, matéria e espírito que foram misturados devem ser purificados pela separação: “Nesse estado impuro, o espírito deve primeiro buscar sua própria natureza e verá tudo que pertence à carne e à matéria – o concreto, o pessoal, o que é movido pelo desejo – como o inimigo a ser superado. Toda a história da evolução cultural pode ser considerada como um grande processo de sublimatio, no qual os seres humanos aprendem a ver a si mesmos e ao mundo. A filosofia estóica foi vasto esforço para ensinar os seres humanos a atingirem o alvo estóico da apathia por meio da superação das paixões que aprisionam à terra. O idealismo de Platão, bem como todos os sistemas idealistas posteriores, se esforçam por apresentar a vida em termos de formas eternas e idéias universais, com o objetivo de suplantarem a irritante sujeição humana às contingências da matéria.” (Idem, pág. 143).

Ficar acima das coisas, ver a si mesmo com objetividade é chamado em psicologia de “dissociar” e nisso reside o perigo da sublimatio. Quando levada a extremo, esse estado psíquico poderá ser patológico, isso porque a dissociação é fonte de consciência do ego, mas também causa de doença mental.

Se o movimento ascendente eterniza, conduz rumo ao divino, o movimento descendente personaliza. E o ideal é que esses dois estados se combinem, dando origem a outro processo alquímico: a circulatio. A Tábua de Esmeralda de Hermes diz o seguinte sobre a circulatio: “ela ascende da terra para o céu e desce outra vez para a terra, e recebe o poder do que está em cima e do que está em baixo. E, assim, terás a glória de todo o mundo. Desse modo, toda a treva fugirá de ti.”

No plano psicológico a circulatio é fundamental, porque promove o trânsito entre todos os aspectos do ser, incluindo suas polaridades opostas, levando ao equilíbrio de forças conflitantes.

Em psicoterapia junguiana, para lidar com a fixação em estado de sublimtio trabalha-se com sonhos e exercícios de imaginação ativa, entre outros recursos, para promover a consciência acerca dos elementos subjacentes à permanência maior nesse estado psíquico e para “esvaziar” os complexos, de modo a desarticular a dominação dessas forças sobre as ações do paciente. O psicoterapeuta vai se esforçar por desenvolver no paciente a capacidade de fazer circulatio, de realizar movimentos de ascensão e de descida, de subir para o camarote e assistir do alto, mas, em seguida, descer para o palco da própria vida e atuar.

Postado por Carmelita Rodrigues, em 04 de janeiro de 2008

Livros

Despertando para o inconsciente

Uma manhã, como de hábito, uma mulher entrou em seu carro para ir trabalhar. Durante o trajeto de alguns quilômetros, sua imaginação começou a elaborar uma grande aventura. Via-se como uma mulher simples, vivendo em épocas passadas, entre guerras e cruzadas. Tornou-se heroína, salvando seu povo por meio de lutas e do sacrifício; depois, encontrou-se com um príncipe nobre e forte, que por ela se apaixonou.

Com a mente consciente assim totalmente ocupada, ela dirigiu o carro por várias ruas, passou por semáforos, sinalizou corretamente nos momentos certos e chegou em segurança ao estacionamento do seu local de trabalho. Voltando à realidade, percebeu que não era capaz de se lembrar do trajeto percorrido. Não se lembrava de um único cruzamento, de uma única entrada à direita ou à esquerda. Assustada, perguntou-se: “Como pude percorrer todo esse trajeto sem me dar conta? Onde estava minha mente? Quem dirigia enquanto eu sonhava? Mas fatos semelhantes já haviam acontecido antes, de forma que mudou o rumo dos eus pensamentos e entrou no escritório.

Diante de sua mesa de trabalho começou a planejar as atividades do dia, quando foi interrompida por um colega que entrou furiosamente em seu escritório, atirando um memorando que ela fizera circular e vociferando por causa de detalhes do mesmo com os quais não concordava. Ela ficou pasma! A raiva do colega era francamente desproporcional às dimensões dos detalhes! Que tinha dado nele?

O rapaz, por sua vez, escutando a própria voz alterada, percebeu que estava fazendo uma tempestade em copo d’água. Confuso, murmurou uma desculpa e saiu. Chegando a sua sala, perguntou-se: Que deu em mim? De onde veio isso? Em geral não faço estardalhaço por tão pouco. Simplesmente não era eu!”

Sentiu que fervia de raiva e que, apesar nada ter a ver com o tal memorando, ainda assim a fúria se abatera sobre ele por causa daqueles pequenos detalhes. De onde vinha aquela raiva toda, exatamente, não sabia.

Se essas duas pessoas tivessem parado para pensar, talvez tivessem percebido que estavam sentindo a presença do inconsciente em suas vidas naquela manhã. De vários modos, nas idas e vindas do dia-a-dia, o inconsciente age sobre nós e através de nós. Às vezes, o inconsciente trabalha lado a lado com a mente consciente e assume o controle quando esta está concentrada em outra coisa. (…)

Outras vezes, o inconsciente elabora fantasias tão cheias de símbolos e imagens vivas que acaba por envolver totalmente a mente consciente, mantendo nossa atenção presa por um bom lapso de tempo. Fantasias de aventura, perigo, sacrifício heróico e amor. São exemplos primários de como o inconsciente invade a mente consciente e procura manifestar-se – por meio da imaginação, usando a linguagem simbólica de imagens carregadas de emoções.

Outra forma de sentirmos o inconsciente é por meio de uma onda emocional repentina, a euforia inexplicada ou a raiva irracional que invadem a mente consciente e a dominam. Essa onda emocional não faz sentido para a mente consciente, pois ela não a criou. (…)

O conceito de inconsciente é obtido pela simples observação da vida diária. Há um material contido em nossa mente do qual não nos apercebemos a maior parte do tempo. Algumas vezes nos surpreendemos com uma recordação, uma associação feliz, um ideal, uma crença que inesperadamente surge de um lugar desconhecido. Sabíamos que o carregávamos em algum lugar dentro de nós, desde há muito – mas onde? Numa parte desconhecida da psique, além dos limites da mente consciente.

O inconsciente é um universo maravilhoso, composto de energias invisíveis, forças, formas de inteligência – até personalidades distintas – que não são percebidas mas que vivem dentro de nós. Seu domínio é muito maior do que supomos; algo com vida própria e completa, toda sua, que corre paralelamente à vida comum do nosso dia-a-dia. O inconsciente é a fonte secreta de muito do que entendemos como nossos pensamentos, nossas emoções e comportamentos. Influencia-nos de forma poderosa, por não suspeitarmos de sua existência.

(…)

Algumas vezes, essas personalidades escondidas são embaraçosas e violentas e nos sentimos humilhados quando se revelam. Outras vezes, descobrimos que temos qualidades boas e poderes que desconhecíamos. Nos valemos de fontes escondidas que nos permitem fazer coisas que normalmente não faríamos, como por exemplo, nos expressarmos com clareza e inteligência inusitadas, comportando-nos com sabedoria, generosidade e compreensão, a ponto de nos surpreendermos: “Sou diferente do que pensava; tenho qualidades – tanto positivas quanto negativas – que não conhecia em mim.” Essas qualidades vivem no inconsciente, onde estão “longe dos olhos, longe do coração.

Somos muito mais do que o “eu” que conhecemos. A mente consciente só consegue concentrar-se, de cada vez, em uma única área limitada do nosso ser total. Apesar de todo o esforço par ao autoconhecimento, só uma pequena porção do vasto sistema de energia do inconsciente consegue ser incorporada à mente consciente ou atuar no nível consciente. Então temos de aprender como ir ao inconsciente e como ser receptivos às suas mensagens: é a única maneira de conhecermos as partes desconhecidas de nós mesmos.

Abordando o inconsciente, voluntária ou involuntariamente – O inconsciente manifesta-se por meio de linguagem simbólica. Não é somente por um comportamento involuntário ou compulsivo que sentimos o inconsciente. Ele dispõe de dois caminhos naturais para estabelecer uma ligação e conversar com a mente consciente: um deles é o sonho; o outro, a imaginação. Ambos são canais de comunicação altamente sensíveis eu a psique desenvolveu para que os níveis consciente e inconsciente possam conversar entre si e trabalhar em conjunto.

O trecho acima, retirado do livro Imaginação Ativa – Inner Work,de Robert A. Johnson, exemplifica parcialmente o conteúdo do livro, importante instrumento de compreensão de intervenções psicológicas da abordagem junguiana. Nele é explicada a relação entre o inconsciente e sua linguagem e do inconsciente e os Arquétipos, importante conceito desenvolvido por Carl Gustav Jung.

Na Segunda parte do livro é explicado o trabalho com sonhos, o método das quatro etapas (as associações, a dinâmica, as interpretações e os rituais). A objetividade das descrições fazem o trabalho assemelhar-se a um “manual’, tanto para a perfeita compreensão dos conceitos quanto a utilização deles na prática clínica ou individualmente (por quem já tenha certa habilidade para tal).

No capítulo sobre Imaginação Ativa é abordado de forma detalhada o segundo caminho de comunicação do inconsciente com a mente consciente. Aí se inclui a definição e as etapas desse processo psicoterápico (também são quatro: o convite, o diálogo, os valores e os rituais). É leitura recomendada pelos grandes mestres, como Moacir Rodrigues, notório psicólogo junguiano de Brasília.

▪ Robert A. Johnson é autor dos livros She, He e We, obras que traduziram para a linguagem popular os conceitos da Psicologia Junguiana.

▪ Imaginação Ativa – Inner Work: como trabalhar com sonhos, símbolos e fantasias, de Robert A. Johnson São Paulo, Ed. Mercuryo, 2003, pág. 09.

Livros

A Prática da Psicoterapia

Obra clássica de Carl Gustav Jung, A Prática da Psicoterapia* é um livro de indiscutível relevância, sobretudo para praticantes da Psicologia Clínica, mas também para todos que desejam aprofundar conhecimentos sobre psicoterapia e entender o pensamento de Jung. Para melhor exemplificar o conteúdo do livro, transcrevo alguns tópicos:

Aquilo que não está claro para nós, porque não o queremos reconhecer em nós mesmos, nos leva a impedir que se torne consciente no paciente, naturalmente, em detrimento dele.” Pág.06

O psicoterapeuta está arriscado a contrair infecções psíquicas não menos perigosas [do que as contraídas por médicos em hospitais]. Assim sendo, por um lado corre o perigo de envolver-se nas neuroses de seus pacientes; por outro, ao procurar proteger-se contra a influência destes sobre si, pode privar-se do exercício do efeito terapêutico.” Pág. 16.

A causa da neurose é a discrepância entre a atitude consciente e a tendência inconsciente.” Pág.17

A fantasia é a atividade espontânea da alma, que sempre irrompe quando a inibição provocada pela consciência diminui ou cessa por completo, como no sono.Durante o sono, a fantasia manifesta-se em forma de sonho, mas mesmo acordados continuamos sonhando subliminarmente, e isso principalmente devido aos complexos recalcados ou de algum modo inconscientes.” Pág. 54

A retirada da projeção só pode e deve ser retirada gradativamente.” Pág. 96

Como pode ser visto nos trechos citados, o livro contém indicações quanto aos fundamentos e princípios que orientam a concepção prática de Jung sobre psicoterapia e estão reunidos nos seguintes tópicos: princípios básicos da prática da psicoterapia; o que é psicoterapia; alguns aspectos da psicoterapia moderna; os objetivos da psicoterapia; os problemas da psicoterapia moderna; psicoterapia e visão do mundo; medicina e psicoterapia; psicoterapia e atualidade e questões básicas da psicoterapia.

O livro contém temas abordados por Jung em conferências e é o décimo sexto volume das obras completas de Jung.

*Editora Vozes, 9ª edição, RJ, 2004

Postado por Carmelita Rodrigues, em 13.01.08

Livros

Psicofarmacologia

O livro Psicofarmacologia Clínica é destinado a profissionais das áreas de saúde mental, como Psiquiatria, Psicologia e Psicanálise. Escrito pelos psiquiatras Irismar Reis de Oliveira e Eduardo Pondé de Sena, é dividido em duas seções: na primeira, são explorados aspectos gerais da psicofarmacologia, os principais grupos de psicofármacos, interações medicamentosas, aspectos farmacogenéticos e de neuroimagem, além da abordagem da ética em Psicofarmacologia Clínica. A segunda parte aborda a terapêutica de várias patologias mentais: transtornos do humor, transtornos de ansiedade, insônia, transtornos alimentares, esquizofrenia, abuso de drogas, demências e transtornos do déficit de atenção e hiperatividade. O livro, da Editora Medsi, apresenta, ainda, várias situações clínicas nas quais ocorre uso dos psicofármacos: infância, adolescência e população idosa; nas doenças médicas co-mórbidas; na gestação e lactação e nas situações de emergência. Dois capítulos são dedicados a métodos biológicos de grande importância no tratamento de transtornos mentais: a eletroconvulsoterapia e a estimulação magnética transcraniana. São 37 capítulos escritos com a colaboração de 83 profissionais da área das neurociências, com experiências vastas na clínica, docência e empesquisa.

Livros

ABUSO DE PODER

ABUSO DE PODER NA PSICOTERAPIA e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério

Autor: Adolf Guggenbühl-Craig Editora Paulus – São Paulo, 2004.

O tema central do livro é o mal que involuntariamente o analista ou psicoterapeuta pode fazer ao paciente quando se propõe a ajudá-lo, o que atinge também o padre, médico, assistente social, professores e outros “profissionais de ajuda”. Por trás da intenção filantrópica, das ações generosas ou de doação aos outros pode estar oculta a sombra de poder (do psicoterapeuta e dos demais profissionais), a ânsia de poder disfarçada de humanismo. O livro é considerado um clássico da literatura junguiana por mostrar com clareza a força que o arquétipo Sombra tem sobre as pessoas, de modo particular os “ajudadores”. A sombra profissional do psicoterapeuta que pretende ajudar seus pacientes é o charlatão, aquele que trabalha não para seus pacientes, mas para si próprio. A resistência do paciente incentiva o charlatanismo no psicoterapeuta, estabelecendo uma aliança com a sombra do psicoterapeuta. Quando essas duas forças se constelam, o processo terapêutico passa a ser destrutivo. O psicoterapeuta está mais sujeito à sombra arquetípica do que os outros; isso significa que a análise está condenada ao fracasso? Não, mas será preciso ler o livro para entender o que o autor propõe como saída ou defesa para os perigos dessa profissão.

Livros

O Terapeuta e o Lobo

8573962798.jpgEm vez de fazer uma resenha, quero comentar o que considero ser uma grande descoberta pessoal: o livro O Terapeuta e o Lobo.  A obra detalha a experiência do uso do conto como técnica terapêutica, principalmente para o trabalho com crianças que vivem em abrigos, fortemente marcadas por experiências de separação e abandono. O autor, Celso Gutfreind, um psiquiatra brasileiro que também escreve livros infantis, explica que o conto pode ajudar as crianças a encontrarem representações de seus arcaísmos psíquicos e a construírem pensamentos: “o trabalho com os contos auxilia as crianças que vivem em abrigos, marcadas pela separação e o abandono, a encontrarem representações para o próprio sofrimento; ajuda-as a encontrarem uma forma de expressão, um discurso próprios”. A eficácia do método corrobora a tese ainda defendida pela moderna psiquiatria infantil de que a simbolização é a grande saída para a doença mental. A técnica – terapia de grupo para crianças – é detalhada no livro e, resumidamente, consiste em três etapas: contar a história (com arte, emoção e criatividade); encenar o conto (psicodrama) e desenhar o que foi contado e encenado. O desenho, nesse caso, funciona também como instrumento de avaliação, facilitando aos psicoterapeutas observarem a construção das representações conscientes e inconscientes relacionadas ao conto.

Mas o autor alerta:
“Uma terapia que tenha o conto como mediador só pode ser realizada eficazmente por adultos que apreciem o conto e a arte de contá-los.”
Boa leitura.