Por que herança maldita?

A seguir, mais referências históricas sobre a formação da política e talvez da dinâmica psicológica do brasileiro (do ponto de vista macro), também extraídas do livro “1808”, citado no post anterior:

A corte portuguesa no Brasil era entre 10 e 15 vezes mais gorda do que a máquina burocrática americana nessa época (1808). E todos dependiam do erário real ou esperavam do príncipe regente algum benefício em troca do ‘sacrifício’ da viagem. ‘Um enxame de aventureiros, necessitados e sem princípios, acompanhou a família real’, notou o historiador John Armitage. No Rio de Janeiro, a corte portuguesa estava organizada em seis grandes setores administrativos – chamados de repartições. Os responsáveis por essas repartições passariam para a história como símbolos de maracutaia e enriquecimento ilícito” (pág.76).

Outro trecho revelador do livro, que nos soa tão atual e não surpreende a quem conhece as “alianças” nefastas entre veículos de comunicação e representantes do poder:

“Para fugir à censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, era publicado em Londres. Seu fundador, o jornalista Hipólito José da Costa, nasceu no Rio Grande do Sul e deixou o Brasil quando tinha dezesseis anos. Formou-se em Coimbra e morou dois anos nos Estados Unidos. Voltou para Lisboa e foi preso em 1803 por integrar a maçonaria. Processado pela Inquisição, fugiu para a Inglaterra em 1805 onde criou o Correio três anos mais tarde. “Hipólito era um Englêsh que escreveu o historiador americano Roderick J Barman, referindo-se aos liberais que no Parlamento britânico defendiam os direitos individuais e a limitação dos poderes do rei. ‘Acreditava numa constituição equilibrada e justa, num Congresso forte, em liberdade de imprensa e religião, no respeito pelos direitos individuais.’ O mesmo Hipólito que defendia a liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, Dom João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado numero de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Segundo o historiador Barman, por esse acordo, negociado pelo embaixador português em Londres, Dom Domingos de Sousa Coutinho, a partir de 1812 Hipólito  passou a receber uma pensão anual em troca de críticas mais amenas ao governo deDom João, que era um leitor assíduo dos artigos e editoriais da publicação. ‘O público nunca tomou conhecimento desse acordo’, afirma o historiador. De qualquer modo, Hipólito mostrava-se simpático à Coroa portuguesa antes mesmo de negociar o subsídio. ‘Ele sempre tratou Dom João com profundo respeito, nunca questionando sua beneficência’, registrou Barman. O Correio Braziliense, que não apoiou a Independência brasileira, deixou de circular em dezembro de 1822. Hipólito foi nomeado pelo imperador Pedro I agente diplomático do Brasil em Londres, cargo que envolvia o pagamento de uma nova pensão pelos cofres públicos” (pág. 53).


Ainda hoje o jornal Correio Braziliense, do DF, recorre a essa, digamos assim, estratégia econômica, e manipula notícias quando lhe interessa não afetar os interesses do governo local. Não é diferente com a revista Veja e a Rede Globo – quem não se lembra do episódio da bolinha de papel na careca do Serra, durante a campanha eleitoral, um espetáculo de manipulação por parte da Globo, maculando ainda mais a já enlameada imagem do Jornal Nacional.  Não cito os demais veículos, mas nem por isso eles são isentos dessas práticas indecentes em nome do jornalismo. De acordo com Fernando Morais, autor do livro-reportagem Chatô, o rei do Brasil,  o criador do grupo Diários Associados, do qual faz parte o Correio Braziliense, maior jornal impresso da Capital, Assis Chateaubriand, recorreu a chantagens e artifícios condenáveis ao longo da construção do grupo e no exercício do que ele considerava “jornalismo”. Na verdade, o que ele fazia e muitos veículos praticam atualmente é corrupção.  O que os dois jornais têm em comum? Apenas o nome, do qual Chateubriand se apropriou, em 1960, quando inaugurou o seu, já que o de Hipólito havia saído de circulação em 1823, tendo existido por 15 anos: de 1808 a 1823.

Esses são os antecedentes psicológicos, sociais  e políticos da nossa gente. Essa é a herança moral que o Brasil herdou de Portugal.  São as raízes que explicam muito do comportamento dos brasileiros. A construção de uma nova realidade, de uma nova cultura é exercício contínuo e demorado, mas há que NÃO se perder as esperanças de um dia sermos um povo decente e de equilibrarmos o desenvolvimento intelectual ao moral e podermos viver em um país justo.

 

Fonte: GOMES, Laurentino. 1808 – Como Uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

 

 

A história de Portugal e as mazelas que o Brasil herdou

A História, ao retratar o passado, explica muito do presente e pode fornecer indicações para o futuro. Isso vale para o macro e o micro. Muito do fracasso moral e social do Brasil decorre de uma herança maldita. Entender o contexto sócio-histórico e filosófico do Brasil colonial e Brasil-império facilita a compreensão do Brasil atual, suas mazelas e virtudes, de modo especial no aspecto político e respectivas implicações sociais.

Veja na análise abaixo, extraída do livro “1808”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes, uma descrição do “caráter” de Portugal, que explica, em parte,  a decadência de um País, de uma cultura, de um povo. Perceba que o que é dito sobre o país se aplica também às pessoas.

“A riqueza de Portugal era resultado do dinheiro fácil, como os ganhos de herança, cassinos e loterias, que não exigem sacrifício, esforço de criatividade e inovação, nem investimento de longo prazo em educação e criação de leis e instituições duradouras. Numa época em que a Revolução Industrial britânica começava a redefinir as relações econômicas e o futuro das nações, os portugueses ainda estavam presos ao sistema extrativista e mercantilista, sobre o qual tinham construído sua efêmera prosperidade três séculos antes. Baseava-se na exploração pura e simples das colônias, sem que nelas fosse necessário investir em infra-estrutura, educação ou melhoria de qualquer espécie. ‘Era uma riqueza que não gerava riqueza’, escreveu a historiadora Lilia Schwarcz. ‘Portugal se contentava em sugar suas colônias de maneira bastante parasitária.’ Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico Raízes do Brasil, mostrou que no Brasil colônia se tinha aversão ao trabalho. Segundo ele, o objetivo da aventura extrativista era explorar rapidamente toda a riqueza disponível com o menor esforço e sem nenhum compromisso com o futuro: ‘O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho’ (pág.24).

Portugal é, ainda, o mais atrasado dos países  que integram a União Européia. Já estava atrasado, em comparação com outros países europeus, na época da dominação napoleônica que motivou a transferência da corte para o Brasil, em 1808. Os historiadores têm explicações demográfica e econômica para isso e outras de ordem política e religiosa, como exemplificado no trecho abaixo,  do mesmo livro:

“De todas as nações da Europa, Portugal continuaria sendo, no começo do século XIX, a mais católica, a mais conservadora e a mais avessa às idéias libertárias que produziam revoluções e transformações em outros países. A força da Igreja era enorme. Cerca de 300.000 portugueses – ou 10% da população total do país – pertenciam a ordens religiosas ou permaneciam de alguma forma dependentes das instituições monásticas. Só em Lisboa, uma cidade relativamente pequena, com 200.000 habitantes, havia 180 monastérios. Praticamente todos os edifícios mais vistosos do país eram igrejas ou conventos. Por três séculos, a Igreja havia mantido submissos o povo, seus nobres e reis. Por escrúpulos religiosos, a Ciência e a Medicina eram atrasadas ou praticamente desconhecidas. Dom José, herdeiro do trono e irmão mais velho do príncipe regente, Dom João, havia morrido de varíola porque sua mãe, Dona Maria I, tinha proibido os médicos de lhe aplicar vacina. O motivo? Religioso. A rainha achava que a decisão entre a vida e a morte estava nas mãos de Deus e que não cabia à Ciência interferir nesse processo. A vida social pautava-se pelas missas, procissões e outras cerimônias religiosas. O comportamento individual coletivo era determinado e vigiado pela Igreja Católica. Para impedir o contato entre homens e mulheres durante os serviços litúrgicos, em meados do século XVIII foram erguidas grades de madeira que dividiam o interior de todas as igrejas de Lisboa. Portugal foi o último país europeu a abolir os autos da Inquisição, nos quais pessoas que ousassem criticar ou se opor à doutrina da Igreja, incluindo infiéis, hereges, judeus, mouros, protestantes e mulheres suspeitas de feitiçaria, eram julgadas e condenadas à morte na fogueira. Até 1761, menos de meio século antes da transferência da corte para o Brasil, ainda havia execuções públicas desse tipo em Lisboa, que atraíam milhares de devotos e curiosos” pág.21).

Enquanto isso, em 1807, no resto da Europa fervilhavam idéias revolucionárias, inovadoras, de progresso, arte, criatividade e ideais de independência – dos países e das pessoas.  Portugal, como tudo que fica estacionado, foi atropelado pela força do tempo, da evolução, das mudanças inexoráveis e inevitáveis.

 

Fonte: GOMES, Laurentino. 1808 – Como Uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

 

Pessoas que mentem e fogem de si mesmas

“Costume arraigado no inconsciente humano, em decorrência dos hábitos doentios do passado, a mendacidade (falsidade) também resulta dos processos insalubres da educação doméstica, especialmente nas famílias atrabiliárias (coléricas; relativo a atrabílis, que deriva de  bílis negra, à qual se imputava a melancolia, o mau humor, a hipocondria), caracterizadas por desajustes de vária ordem.

A família é o laboratório onde se forjam os valores morais edificantes, mediante as contribuições valiosas do amor e da disciplina, corrigindo-se condutas enfermiças e  trabalhando-se valores espirituais  que devem predominar na natureza de cada um dos seus membros.

O que não se conseguir em formação da personalidade nos anos infanto-juvenis, no seio doméstico, muito mais difícil se apresentará ao longo dos outros períodos, em impositivos de reeducação.

Por essa razão, é mais fácil e proveitoso criar-se hábitos morigerados (bons costumes) e saudáveis na infância, quando se insculpe o aprendizado no cerne do ser, do que mais tarde, quando o comportamento já conduz fixações destituídas de equilíbrio e de ética.

Entre os vícios que florescem nos clãs desajustados, a mendacidade ocupa papel de relevo, em razão da falta de compostura dos seus membros em relação à verdade.

O desrespeito ao correto e veraz, a desconsideração pela maneira como os fatos acontecem extravasam em referências adulteradas, em comentários desairosos (indecoroso, vergonhoso) que primam pelo cinismo das conclusões.

Perdendo-se os parâmetros em torno dos acontecimentos, mente-se com muita naturalidade, investindo-se na imaginação exacerbada e tornando-se impossibilitado de proceder  a qualquer narrativa conforme o sucedido.

Da mentira pura e simples à perfídia (traição, deslealdade) é somente um passo, assim como da permanente  máscara  de hipocrisia afivelada ao fingimento  sistemático, torna-se um costume habitual.

Prolongando-se esse comportamento, as suas vítimas (os mentirosos) desajustam-se e atormentam-se em razão da falta de dimensão da verdade negligenciada. Tanto se acostumam com a maneira incorreta de agir, que se fazem incapazes de manter a serenidade, o equilíbrio quando estão no grupo social em que se movimentam.

No íntimo sabem discernir  o certo do errado, compreender que laboram em campo de alto risco, qual seja o da mentira, em razão de ser facilmente descobertos. No entanto, a astúcia, que também é uma remanescente ancestral da evolução, ilude-os, estimulando-os à utilização de novos argumentos totalmente injustificáveis.

Dessa forma vivem conflitos emocionais que se agravam com a sucessão do tempo, em razão do medo constante de serem desveladas as suas mazelas, sendo levados ao ridículo que merecem, mas se negam reconhecer. (…)

O ser humano educado e evoluído espiritualmente é veraz em todos os momentos, assumindo as responsabilidades da sua conduta, mesmo quando experimentam dissabores e angústias. O compromisso com a verdade não lhe permite negligenciá-la, aceitando o suborno da fantasia que se dilui como névoa ao sol da realidade.

A instabilidade da conduta, no entanto, em relação aos acontecimentos do cotidiano, a falta de ponderação e recato em referência aos fatos como são em verdade, dão lugar à perda da autoestima e, consequentemente, da saúde emocional.

Não se encorajando a enfrentar  os desafios existenciais que se lhe acumulam no íntimo como efeito da mendacidade, disfarçam e negam o conflito que sofre com novas arremetidas da imaginação.

O desenvolvimento intelecto-moral saudável é estruturado nos alicerces da realidade, no convívio com os pensamentos elevados e as programações edificantes de contínua vigilância moral, propiciando-se renovação de atitudes que facultam estímulos salutares para a evolução. (…)

Ser veraz, então, se lhe desenha  na mente como adequada condição de pessoa inteligente que opta pelo que é lícito e real, em vez das tulmutuadas fugas para a mentira e a hipocrisia.”

(…)

Fonte: VITÓRIA SOBRE A DEPRESSÃO, de Joana de Angelis e Divaldo Pereira Franco. Editora Leal, Salvador (BA), 2010, Série Psicológica – páginas 17 a 19.

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Sobre Hipocrisia

Fuga do autoconhecimento



Fuga do autoconhecimento

Transcrevo um trecho esclarecedor do livro Os Parceiros Invisíveis, obra imprescindível para todos que se percebam com dificuldade em interrelações, sobretudo em relacionamentos amorosos. Esclarece sobre a força das projeções do animus e da anima, as contrapartes masculina e feminina, existentes na mulher e no homem, respectivamente.

“O conhecimento mais elementar de si mesmo é algo a que a maioria das pessoas resiste com a máxima determinação. Em geral, somente quando nos achamos num estado de grande sofrimento ou confusão, e somente quando o autoconhecimento nos oferece uma saída, é que nos dispomos a arriscar nossas estimadíssimas idéias a respeito daquilo que sentimos ser quando postos diante da verdade, e , mesmo assim, muitas pessoas preferem viver uma vida sem sentido a ter de passar pelo processo, não rato desagradável, que as leva ao autoconhecimento. Além disso, há alguns aspectos existentes em nós que são mais difíceis de conhecer do que outros. Por exemplo, a personalidade da sombra, que se forma com características indesejadas e não desenvolvidas, que poderiam ter-se tornado parte da consciência, mas que foram rejeitadas (em vez de integradas). A sombra há muito foram reconhecidas pela Igreja Católica ‘Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero’, exclamou Paulo de Tarso, angustiado com a sua sombra*. Não é coisa inacreditável para nós que haja um lado mais escuro da nossa natureza, porque a religião muitas vezes já no-lo mostrou, embora, mesmo neste caso, haja uma impressionante conspiração dentro da maioria de nós, no sentido de prestar um serviço silencioso à nossa natureza mais obscura, ainda que evitando encará-la em suas peculiaridades. Assim, a nossa sombra frequentemente se apresenta óbvia para outros, mas continua desconhecida para nós. Muito maior é nossa ignorância acerca dos componentes masculinos e femininos existentes dentro de nós, que escapam à nossa atenção, por serem completamente diferentes do que nossa consciência conhece a respeito de nós. Por esse motivo Jung denominou a integração da sombra usando o termo a peça-aprendiz no processo de tornar-se inteiro, e chamou a integração da anima e do animus de obra-prima”Sanford, pág. 16.

A dificuldade de buscar o autoconhecimento e realizar processo analítico que conduza ao contato e à integração da  sombra é mais frequente em pessoas de elevada capacidade e bagagem intelectual. Isso ocorre  porque esses indivíduos costumam ser intelectualmente arrogantes, alimentam postura de autosuficiência quando , na verdade, estão se sabotando, isto é, recorrendo à propria inteligência como mecanismo de defesa para essa fuga. Há também os que preferem se refugiar na religiosidade,  supondo que lhes basta seguir diretrizes da igreja e, não raro, se submeter a autopunições ou repressões de todo tipo para sentirem-se salvas. pagam preço alato para nada!

* 12 Rom, 7,19

SANFORD, John. Os Parceiros Invisíveis. São Paulo (SP): Paulus,2007

A irreversibilidade da maternidade e da paternidade

Em momento de rara lucidez a produção do programa da Ana Maria Braga (Mais Você) levou ao estúdio uma pessoa que realmente tinha algo a dizer, o psiquiatra Fábio Barbirato. O assunto era o comportamento violento de jovens. O médico explicou o que nós terapeutas temos vontade de gritar pelas ruas naqueles caminhões de música baiana: “a responsabilidade de educar e orientar seu filho é sua e não pode ser transferida para ninguém, nem para a babá, a professora, diretora da escola ou  terapeuta. Taqmbém não funciona pedir ao pediatra um remedinho pra curar ele das condutas indesejáveis.” É isso, esses jovens que tocam fogo em índio, agridem professores ou outros jovens nas ruas, shopping centers ou saída de boates fazem isso porque para eles faltou pai e mãe orientando, dando limites. Pais da classe média para cima erram mais nesse aspecto por dois motivos.  Primeiro: acreditam que conseguem suprir ausências e omissões deles com presentes, concessões de todo tipo e confundindo amor com permissividade. Segundo motivo: distanciamento de Deus e da noção de respeito ao próximo – o que, obviamente, não têm como ensinar aos filhos, uma vez que essa diretriz não existe dentro deles.

Assista à ENTREVISTA.

Você que é pai ou mãe: Ninguém pode substituir você nessa função. Essa atribuição não pode ser delegada a ninguém, nem mesmo à avó da criança.

Bom, mas não vou me estender no comentário. Fábio Barbirato escreveu um livro e as ideia dele podem ser lidas em “A Mente do Seu Filho: Como Estimular as Crianças e Identificar os Distúrbios Psicológicos na Infância”. O livro aborda as causas de transtornos como agressividade, birra e timidez, e indica como avaliar quando eles são normais e quando devem ser tratados.

A negligência de homens e mulheres no cuidado com os próprios filhos revolta a nós psicoterapeutas porque constatamos em consultório que a maioria absoluta dos transtornos mentais e dificuldades psicoemocionais e comportamentais das pessoas que nos procuram, adultos e crianças, têm origem no ambiente familiar, em decorrência do “manejo” de pais e mães equivocados ou de outros adultos (i) responsáveis. E se uma babá perversa causa desajuste psicológico numa criança, ainda assim a responsabilidade é dos pais.

Há poucas coisas na vida que são irreversíveis. Ser pai e mãe é a principal. Resolveu ter filho? O resultado dessa decisão  é para sempre. Então faça direito. Se não sabe como, procure descobrir. Se não quisesse essa responsabilidade deveria ter comprado um bebê de plástico. Já existem alguns no mercado que são cópias fieis de bebês vivos. Só que ninguém tem o direito de se esquecer que esses últimos fazem cocô, choram, pedem comiga, companhia e educação.  A irreversibilidade de ser  pai e mãe só perde em importância para o oposto disso: a morte, isto é, matar uma pessoa.

Fabio Barbirato é psiquiatra, professor de psiquiatria infantil (PUC-Rio) e de medicina (Souza Marques). Ex-presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil do Rio de Janeiro, atualmente é responsável pelo setor de psiquiatria infantil da Santa Casa de Misericórdia.

A Mente do Seu Filho tem uma coautora: Gabriela Dias, mestre em psiquiatria e saúde mental pela UFRJ e especialista em saúde mental e desenvolvimento infantil pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Silvia coordena o Programa de Avaliação e Atendimento ao Pré-Escolar do setor de psiquiatria infantil na Santa Casa de Misericórdia do Rio. É também professora da Faculdade de Medicina Souza Marques.

Para quem gosta do estilo, o livro pode ser adquirido também no formato e-book, isto é, em versão eletrônica. Particularmente não gosto; prefiro sentir a textura e o cheiro do papel; coisa de quem já passou dos 40, talvez.

Homossexualismo na adolescência

Será lançado em São Paulo, no próximo dia 18, o livro Uma Outra Verdade, do psicólogo Claudio Picazio. Sem apelar para explicações fáceis nem recorrer a julgamentos de valor, ele responde às dúvidas mais comuns feitas por pais e educadores sobre homossexualidade na adolescência. O objetivo é transmitir ao leitor informações claras e diretas, eliminando o “achismo” e o senso comum, ajudando a combater, assim, qualquer forma de discriminação.

A noite de autógrafos será na Loja das Artes, que fica na Av. Paulista, 2073 – São Paulo (SP), das 18h30 às 21h30.

O livro, segundo o autor, nasce da necessidade de se esclarecer algumas questões que ainda geram dúvidas e, consequentemente, preconceito por parte de pais e educadores. “Quando pais e professores conseguem entender a questão, percebendo que a homossexualidade não é desvio e sim uma outra verdade da expressão da nossa sexualidade, tudo fica mais claro, tornando mais fáceis a quebra do preconceito e a formação de um novo paradigma”, afirma Picazio.

Explicando o que é preconceito e homofobia, por exemplo, Picazio apresenta dados recentes sobre a homossexualidade. Segundo pesquisas feitas por organizações que lutam pelos direitos homossexuais e entidades de direitos humanos, a cada três dias, uma pessoa é morta simplesmente por ser homossexual. Além disso, o Brasil é campeão mundial em crimes contra homossexuais. “O triste é constatar que essa violência começa em casa. Muitos pais rejeitam e até expulsam do lar filhos e filhas que não correspondem ao comportamento e ao desejo sexual esperado. A violência física e psicológica torna-se a estrutura de um estigma fragilizado. São enormes a vergonha e o preconceito internalizados em um gay que conviveu com essa atitude familiar”, diz.

O índice de suicídios na adolescência é três vezes maior no caso de homossexuais. “Em minha experiência clínica, atendi um casal de pais cujo filho cometera suicídio e havia deixado um bilhete com os seguintes dizeres: ‘Desculpa pai, mãe, não quero decepcionar vocês. Sou homossexual e isso magoaria muito vocês. Beijos’. Nenhum pai, nenhuma mãe, acredito, gostaria de ver essa cena; mas, infelizmente, profetizam tal ação quando dizem alto e bom som que prefeririam um filho morto a um homossexual.”

Claudio Picazio é formado pela Universidade São Marcos (SP). Especialista em sexualidade humana e em violência doméstica e abuso sexual infantil pelo Instituto Sedes Sapientiae. Psicólogo clínico desde 1983, atende adolescentes e adultos e oferece terapia a casais homo e heterossexuais. Também desenvolve grupos de estudos e de pais. Foi consultor do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação no projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE). Atuou no projeto Tecer a Vida, do Unicef, onde deu supervisão a profissionais da instituição e da rede pública que atendiam adolescentes e adultos soropositivos (primeira geração), visando à reintegração familiar. É cofundador da Atos, oscip que atua na diminuição da vulnerabilidade social, e autor dos livros Diferentes desejos: adolescentes homo, bi e heterossexuais e Sexo secreto – Temas polêmicos da sexualidade, ambos das Edições GLS.

Texto: Resenha da editora

Psico-oncologia: Caminhos e perspectivas

Livro da editora Summus mostra a importância da psico-oncologia no tratamento de pacientes com câncer. O tema é abordado por meio de três diferentes referenciais teóricos: psicanalítico, fenomenológico e sistêmico. Além disso, apresenta trabalhos realizados com crianças e adultos com câncer, familiares e profissionais de saúde. Destinado a psico-oncologistas, estudantes, pesquisadores e profissionais de saúde.

A psico-oncologia é uma área ampla e multidisciplinar que ainda impõe crescentes desafios a pesquisadores, profissionais de saúde e organizadores de serviços hospitalares. Partindo dessa premissa, o livro Psico-oncologia – Caminhos e perspectivas (288 p., R$ 59,90), lançamento da Summus Editorial, organizado pela psicóloga Carmem Maria Bueno Neme, apresenta a experiência prática dos autores e discute resultados de pesquisas de ponta. A obra oferece estudos e relatos de experiências desenvolvidas em hospitais, apontando uma diversidade de métodos, técnicas e aportes teóricos que refletem diferentes práticas e estilos dos profissionais e demonstra o crescimento e a riqueza da psico- oncologia. “Atualmente, ela pode ser vista como uma área sólida e consistentemente estabelecida, embora ainda aberta a futuros desenvolvimentos na pesquisa, na prática e na realização de serviços”, complementa a organizadora.

A psico-oncologia surgiu da necessidade de oferecer ao paciente com câncer um modelo de atenção integral – biopsicossocial – capaz de melhorar sua qualidade de vida, aumentar sua sobrevida e as possibilidades de reversão da doença, fortalecer seus recursos e modos de enfrentamento da doença e dos tratamentos, além de atender também às necessidades dos familiares e dos profissionais de saúde envolvidos. Segundo a organizadora, a especialidade representa hoje ampla área de estudos e de atuação profissional. Entre os objetivos, diz ela, estão à prevenção do câncer, o tratamento e a assistência integral ao paciente oncológico e os seus familiares, a formação de profissionais de saúde e a realização de pesquisas que possibilitem a sistematização dos conhecimentos produzidos e conduzam a novas informações.

Organizado em três grandes temas, dividido em oito capítulos, o livro é uma referência essencial para profissionais e estudantes de medicina, psicologia, serviço social e enfermagem. Em linguagem acessível, os autores abordam questões atuais e relevantes na psico-oncologia, com aspectos inéditos em três perspectivas teóricas: psicossomática psicanalista, fenomenologia e sistêmica. “Profissionais e pesquisadores que vêm construindo a psico-oncologia no Brasil e no mundo apontam diferentes aspectos que permeiam a trajetória de todos os envolvidos, desde o diagnóstico até o controle da doença ou sua terminalidade”, afirma a psicóloga.

Ao longo da obra, os autores apresentam o relato completo de um serviço de psico-oncologia criado e desenvolvido em um hospital de Bauru, interior de São Paulo, retratando procedimentos práticos dos profissionais.  Eles mostram também trabalhos realizados com crianças, envolvendo mães e familiares, com mulheres, relacionado à conjugalidade, e com profissionais de saúde. A obra inclui ainda dois capítulos voltados à avaliação psicológica e o histórico da psico-oncologia no Brasil, destacando caminhos, resultados e desafios da prática.

Resultado de um projeto iniciado há dezesseis anos, o livro traz importantes diferenciais em relação a outras obras publicadas sobre o tema. Os autores registram iniciativas como a atuação do psicólogo hospitalar com doenças na infância, estudos clínicos de casos sobre mulheres com câncer de mama, de útero e de ovários, câncer infantil e os significados da doença para a família, vivências de mães de crianças com câncer quando morrem companheiros de tratamento e o contato com a morte de pacientes no serviço de oncologia hospitalar, entre outras questões.

Texto: resenha da editora Summus (para quê refazer o que está bem feito?)