Por que herança maldita?

A seguir, mais referências históricas sobre a formação da política e talvez da dinâmica psicológica do brasileiro (do ponto de vista macro), também extraídas do livro “1808”, citado no post anterior:

A corte portuguesa no Brasil era entre 10 e 15 vezes mais gorda do que a máquina burocrática americana nessa época (1808). E todos dependiam do erário real ou esperavam do príncipe regente algum benefício em troca do ‘sacrifício’ da viagem. ‘Um enxame de aventureiros, necessitados e sem princípios, acompanhou a família real’, notou o historiador John Armitage. No Rio de Janeiro, a corte portuguesa estava organizada em seis grandes setores administrativos – chamados de repartições. Os responsáveis por essas repartições passariam para a história como símbolos de maracutaia e enriquecimento ilícito” (pág.76).

Outro trecho revelador do livro, que nos soa tão atual e não surpreende a quem conhece as “alianças” nefastas entre veículos de comunicação e representantes do poder:

“Para fugir à censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, era publicado em Londres. Seu fundador, o jornalista Hipólito José da Costa, nasceu no Rio Grande do Sul e deixou o Brasil quando tinha dezesseis anos. Formou-se em Coimbra e morou dois anos nos Estados Unidos. Voltou para Lisboa e foi preso em 1803 por integrar a maçonaria. Processado pela Inquisição, fugiu para a Inglaterra em 1805 onde criou o Correio três anos mais tarde. “Hipólito era um Englêsh que escreveu o historiador americano Roderick J Barman, referindo-se aos liberais que no Parlamento britânico defendiam os direitos individuais e a limitação dos poderes do rei. ‘Acreditava numa constituição equilibrada e justa, num Congresso forte, em liberdade de imprensa e religião, no respeito pelos direitos individuais.’ O mesmo Hipólito que defendia a liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, Dom João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado numero de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Segundo o historiador Barman, por esse acordo, negociado pelo embaixador português em Londres, Dom Domingos de Sousa Coutinho, a partir de 1812 Hipólito  passou a receber uma pensão anual em troca de críticas mais amenas ao governo deDom João, que era um leitor assíduo dos artigos e editoriais da publicação. ‘O público nunca tomou conhecimento desse acordo’, afirma o historiador. De qualquer modo, Hipólito mostrava-se simpático à Coroa portuguesa antes mesmo de negociar o subsídio. ‘Ele sempre tratou Dom João com profundo respeito, nunca questionando sua beneficência’, registrou Barman. O Correio Braziliense, que não apoiou a Independência brasileira, deixou de circular em dezembro de 1822. Hipólito foi nomeado pelo imperador Pedro I agente diplomático do Brasil em Londres, cargo que envolvia o pagamento de uma nova pensão pelos cofres públicos” (pág. 53).


Ainda hoje o jornal Correio Braziliense, do DF, recorre a essa, digamos assim, estratégia econômica, e manipula notícias quando lhe interessa não afetar os interesses do governo local. Não é diferente com a revista Veja e a Rede Globo – quem não se lembra do episódio da bolinha de papel na careca do Serra, durante a campanha eleitoral, um espetáculo de manipulação por parte da Globo, maculando ainda mais a já enlameada imagem do Jornal Nacional.  Não cito os demais veículos, mas nem por isso eles são isentos dessas práticas indecentes em nome do jornalismo. De acordo com Fernando Morais, autor do livro-reportagem Chatô, o rei do Brasil,  o criador do grupo Diários Associados, do qual faz parte o Correio Braziliense, maior jornal impresso da Capital, Assis Chateaubriand, recorreu a chantagens e artifícios condenáveis ao longo da construção do grupo e no exercício do que ele considerava “jornalismo”. Na verdade, o que ele fazia e muitos veículos praticam atualmente é corrupção.  O que os dois jornais têm em comum? Apenas o nome, do qual Chateubriand se apropriou, em 1960, quando inaugurou o seu, já que o de Hipólito havia saído de circulação em 1823, tendo existido por 15 anos: de 1808 a 1823.

Esses são os antecedentes psicológicos, sociais  e políticos da nossa gente. Essa é a herança moral que o Brasil herdou de Portugal.  São as raízes que explicam muito do comportamento dos brasileiros. A construção de uma nova realidade, de uma nova cultura é exercício contínuo e demorado, mas há que NÃO se perder as esperanças de um dia sermos um povo decente e de equilibrarmos o desenvolvimento intelectual ao moral e podermos viver em um país justo.

 

Fonte: GOMES, Laurentino. 1808 – Como Uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

 

 

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Pessoas que mentem e fogem de si mesmas

“Costume arraigado no inconsciente humano, em decorrência dos hábitos doentios do passado, a mendacidade (falsidade) também resulta dos processos insalubres da educação doméstica, especialmente nas famílias atrabiliárias (coléricas; relativo a atrabílis, que deriva de  bílis negra, à qual se imputava a melancolia, o mau humor, a hipocondria), caracterizadas por desajustes de vária ordem.

A família é o laboratório onde se forjam os valores morais edificantes, mediante as contribuições valiosas do amor e da disciplina, corrigindo-se condutas enfermiças e  trabalhando-se valores espirituais  que devem predominar na natureza de cada um dos seus membros.

O que não se conseguir em formação da personalidade nos anos infanto-juvenis, no seio doméstico, muito mais difícil se apresentará ao longo dos outros períodos, em impositivos de reeducação.

Por essa razão, é mais fácil e proveitoso criar-se hábitos morigerados (bons costumes) e saudáveis na infância, quando se insculpe o aprendizado no cerne do ser, do que mais tarde, quando o comportamento já conduz fixações destituídas de equilíbrio e de ética.

Entre os vícios que florescem nos clãs desajustados, a mendacidade ocupa papel de relevo, em razão da falta de compostura dos seus membros em relação à verdade.

O desrespeito ao correto e veraz, a desconsideração pela maneira como os fatos acontecem extravasam em referências adulteradas, em comentários desairosos (indecoroso, vergonhoso) que primam pelo cinismo das conclusões.

Perdendo-se os parâmetros em torno dos acontecimentos, mente-se com muita naturalidade, investindo-se na imaginação exacerbada e tornando-se impossibilitado de proceder  a qualquer narrativa conforme o sucedido.

Da mentira pura e simples à perfídia (traição, deslealdade) é somente um passo, assim como da permanente  máscara  de hipocrisia afivelada ao fingimento  sistemático, torna-se um costume habitual.

Prolongando-se esse comportamento, as suas vítimas (os mentirosos) desajustam-se e atormentam-se em razão da falta de dimensão da verdade negligenciada. Tanto se acostumam com a maneira incorreta de agir, que se fazem incapazes de manter a serenidade, o equilíbrio quando estão no grupo social em que se movimentam.

No íntimo sabem discernir  o certo do errado, compreender que laboram em campo de alto risco, qual seja o da mentira, em razão de ser facilmente descobertos. No entanto, a astúcia, que também é uma remanescente ancestral da evolução, ilude-os, estimulando-os à utilização de novos argumentos totalmente injustificáveis.

Dessa forma vivem conflitos emocionais que se agravam com a sucessão do tempo, em razão do medo constante de serem desveladas as suas mazelas, sendo levados ao ridículo que merecem, mas se negam reconhecer. (…)

O ser humano educado e evoluído espiritualmente é veraz em todos os momentos, assumindo as responsabilidades da sua conduta, mesmo quando experimentam dissabores e angústias. O compromisso com a verdade não lhe permite negligenciá-la, aceitando o suborno da fantasia que se dilui como névoa ao sol da realidade.

A instabilidade da conduta, no entanto, em relação aos acontecimentos do cotidiano, a falta de ponderação e recato em referência aos fatos como são em verdade, dão lugar à perda da autoestima e, consequentemente, da saúde emocional.

Não se encorajando a enfrentar  os desafios existenciais que se lhe acumulam no íntimo como efeito da mendacidade, disfarçam e negam o conflito que sofre com novas arremetidas da imaginação.

O desenvolvimento intelecto-moral saudável é estruturado nos alicerces da realidade, no convívio com os pensamentos elevados e as programações edificantes de contínua vigilância moral, propiciando-se renovação de atitudes que facultam estímulos salutares para a evolução. (…)

Ser veraz, então, se lhe desenha  na mente como adequada condição de pessoa inteligente que opta pelo que é lícito e real, em vez das tulmutuadas fugas para a mentira e a hipocrisia.”

(…)

Fonte: VITÓRIA SOBRE A DEPRESSÃO, de Joana de Angelis e Divaldo Pereira Franco. Editora Leal, Salvador (BA), 2010, Série Psicológica – páginas 17 a 19.

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Viver Mentindo

Sobre Hipocrisia

Fuga do autoconhecimento



Fuga do autoconhecimento

Transcrevo um trecho esclarecedor do livro Os Parceiros Invisíveis, obra imprescindível para todos que se percebam com dificuldade em interrelações, sobretudo em relacionamentos amorosos. Esclarece sobre a força das projeções do animus e da anima, as contrapartes masculina e feminina, existentes na mulher e no homem, respectivamente.

“O conhecimento mais elementar de si mesmo é algo a que a maioria das pessoas resiste com a máxima determinação. Em geral, somente quando nos achamos num estado de grande sofrimento ou confusão, e somente quando o autoconhecimento nos oferece uma saída, é que nos dispomos a arriscar nossas estimadíssimas idéias a respeito daquilo que sentimos ser quando postos diante da verdade, e , mesmo assim, muitas pessoas preferem viver uma vida sem sentido a ter de passar pelo processo, não rato desagradável, que as leva ao autoconhecimento. Além disso, há alguns aspectos existentes em nós que são mais difíceis de conhecer do que outros. Por exemplo, a personalidade da sombra, que se forma com características indesejadas e não desenvolvidas, que poderiam ter-se tornado parte da consciência, mas que foram rejeitadas (em vez de integradas). A sombra há muito foram reconhecidas pela Igreja Católica ‘Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero’, exclamou Paulo de Tarso, angustiado com a sua sombra*. Não é coisa inacreditável para nós que haja um lado mais escuro da nossa natureza, porque a religião muitas vezes já no-lo mostrou, embora, mesmo neste caso, haja uma impressionante conspiração dentro da maioria de nós, no sentido de prestar um serviço silencioso à nossa natureza mais obscura, ainda que evitando encará-la em suas peculiaridades. Assim, a nossa sombra frequentemente se apresenta óbvia para outros, mas continua desconhecida para nós. Muito maior é nossa ignorância acerca dos componentes masculinos e femininos existentes dentro de nós, que escapam à nossa atenção, por serem completamente diferentes do que nossa consciência conhece a respeito de nós. Por esse motivo Jung denominou a integração da sombra usando o termo a peça-aprendiz no processo de tornar-se inteiro, e chamou a integração da anima e do animus de obra-prima”Sanford, pág. 16.

A dificuldade de buscar o autoconhecimento e realizar processo analítico que conduza ao contato e à integração da  sombra é mais frequente em pessoas de elevada capacidade e bagagem intelectual. Isso ocorre  porque esses indivíduos costumam ser intelectualmente arrogantes, alimentam postura de autosuficiência quando , na verdade, estão se sabotando, isto é, recorrendo à propria inteligência como mecanismo de defesa para essa fuga. Há também os que preferem se refugiar na religiosidade,  supondo que lhes basta seguir diretrizes da igreja e, não raro, se submeter a autopunições ou repressões de todo tipo para sentirem-se salvas. pagam preço alato para nada!

* 12 Rom, 7,19

SANFORD, John. Os Parceiros Invisíveis. São Paulo (SP): Paulus,2007

A irreversibilidade da maternidade e da paternidade

Em momento de rara lucidez a produção do programa da Ana Maria Braga (Mais Você) levou ao estúdio uma pessoa que realmente tinha algo a dizer, o psiquiatra Fábio Barbirato. O assunto era o comportamento violento de jovens. O médico explicou o que nós terapeutas temos vontade de gritar pelas ruas naqueles caminhões de música baiana: “a responsabilidade de educar e orientar seu filho é sua e não pode ser transferida para ninguém, nem para a babá, a professora, diretora da escola ou  terapeuta. Taqmbém não funciona pedir ao pediatra um remedinho pra curar ele das condutas indesejáveis.” É isso, esses jovens que tocam fogo em índio, agridem professores ou outros jovens nas ruas, shopping centers ou saída de boates fazem isso porque para eles faltou pai e mãe orientando, dando limites. Pais da classe média para cima erram mais nesse aspecto por dois motivos.  Primeiro: acreditam que conseguem suprir ausências e omissões deles com presentes, concessões de todo tipo e confundindo amor com permissividade. Segundo motivo: distanciamento de Deus e da noção de respeito ao próximo – o que, obviamente, não têm como ensinar aos filhos, uma vez que essa diretriz não existe dentro deles.

Assista à ENTREVISTA.

Você que é pai ou mãe: Ninguém pode substituir você nessa função. Essa atribuição não pode ser delegada a ninguém, nem mesmo à avó da criança.

Bom, mas não vou me estender no comentário. Fábio Barbirato escreveu um livro e as ideia dele podem ser lidas em “A Mente do Seu Filho: Como Estimular as Crianças e Identificar os Distúrbios Psicológicos na Infância”. O livro aborda as causas de transtornos como agressividade, birra e timidez, e indica como avaliar quando eles são normais e quando devem ser tratados.

A negligência de homens e mulheres no cuidado com os próprios filhos revolta a nós psicoterapeutas porque constatamos em consultório que a maioria absoluta dos transtornos mentais e dificuldades psicoemocionais e comportamentais das pessoas que nos procuram, adultos e crianças, têm origem no ambiente familiar, em decorrência do “manejo” de pais e mães equivocados ou de outros adultos (i) responsáveis. E se uma babá perversa causa desajuste psicológico numa criança, ainda assim a responsabilidade é dos pais.

Há poucas coisas na vida que são irreversíveis. Ser pai e mãe é a principal. Resolveu ter filho? O resultado dessa decisão  é para sempre. Então faça direito. Se não sabe como, procure descobrir. Se não quisesse essa responsabilidade deveria ter comprado um bebê de plástico. Já existem alguns no mercado que são cópias fieis de bebês vivos. Só que ninguém tem o direito de se esquecer que esses últimos fazem cocô, choram, pedem comiga, companhia e educação.  A irreversibilidade de ser  pai e mãe só perde em importância para o oposto disso: a morte, isto é, matar uma pessoa.

Fabio Barbirato é psiquiatra, professor de psiquiatria infantil (PUC-Rio) e de medicina (Souza Marques). Ex-presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil do Rio de Janeiro, atualmente é responsável pelo setor de psiquiatria infantil da Santa Casa de Misericórdia.

A Mente do Seu Filho tem uma coautora: Gabriela Dias, mestre em psiquiatria e saúde mental pela UFRJ e especialista em saúde mental e desenvolvimento infantil pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Silvia coordena o Programa de Avaliação e Atendimento ao Pré-Escolar do setor de psiquiatria infantil na Santa Casa de Misericórdia do Rio. É também professora da Faculdade de Medicina Souza Marques.

Para quem gosta do estilo, o livro pode ser adquirido também no formato e-book, isto é, em versão eletrônica. Particularmente não gosto; prefiro sentir a textura e o cheiro do papel; coisa de quem já passou dos 40, talvez.

Homossexualismo na adolescência

Será lançado em São Paulo, no próximo dia 18, o livro Uma Outra Verdade, do psicólogo Claudio Picazio. Sem apelar para explicações fáceis nem recorrer a julgamentos de valor, ele responde às dúvidas mais comuns feitas por pais e educadores sobre homossexualidade na adolescência. O objetivo é transmitir ao leitor informações claras e diretas, eliminando o “achismo” e o senso comum, ajudando a combater, assim, qualquer forma de discriminação.

A noite de autógrafos será na Loja das Artes, que fica na Av. Paulista, 2073 – São Paulo (SP), das 18h30 às 21h30.

O livro, segundo o autor, nasce da necessidade de se esclarecer algumas questões que ainda geram dúvidas e, consequentemente, preconceito por parte de pais e educadores. “Quando pais e professores conseguem entender a questão, percebendo que a homossexualidade não é desvio e sim uma outra verdade da expressão da nossa sexualidade, tudo fica mais claro, tornando mais fáceis a quebra do preconceito e a formação de um novo paradigma”, afirma Picazio.

Explicando o que é preconceito e homofobia, por exemplo, Picazio apresenta dados recentes sobre a homossexualidade. Segundo pesquisas feitas por organizações que lutam pelos direitos homossexuais e entidades de direitos humanos, a cada três dias, uma pessoa é morta simplesmente por ser homossexual. Além disso, o Brasil é campeão mundial em crimes contra homossexuais. “O triste é constatar que essa violência começa em casa. Muitos pais rejeitam e até expulsam do lar filhos e filhas que não correspondem ao comportamento e ao desejo sexual esperado. A violência física e psicológica torna-se a estrutura de um estigma fragilizado. São enormes a vergonha e o preconceito internalizados em um gay que conviveu com essa atitude familiar”, diz.

O índice de suicídios na adolescência é três vezes maior no caso de homossexuais. “Em minha experiência clínica, atendi um casal de pais cujo filho cometera suicídio e havia deixado um bilhete com os seguintes dizeres: ‘Desculpa pai, mãe, não quero decepcionar vocês. Sou homossexual e isso magoaria muito vocês. Beijos’. Nenhum pai, nenhuma mãe, acredito, gostaria de ver essa cena; mas, infelizmente, profetizam tal ação quando dizem alto e bom som que prefeririam um filho morto a um homossexual.”

Claudio Picazio é formado pela Universidade São Marcos (SP). Especialista em sexualidade humana e em violência doméstica e abuso sexual infantil pelo Instituto Sedes Sapientiae. Psicólogo clínico desde 1983, atende adolescentes e adultos e oferece terapia a casais homo e heterossexuais. Também desenvolve grupos de estudos e de pais. Foi consultor do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação no projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE). Atuou no projeto Tecer a Vida, do Unicef, onde deu supervisão a profissionais da instituição e da rede pública que atendiam adolescentes e adultos soropositivos (primeira geração), visando à reintegração familiar. É cofundador da Atos, oscip que atua na diminuição da vulnerabilidade social, e autor dos livros Diferentes desejos: adolescentes homo, bi e heterossexuais e Sexo secreto – Temas polêmicos da sexualidade, ambos das Edições GLS.

Texto: Resenha da editora

Psico-oncologia: Caminhos e perspectivas

Livro da editora Summus mostra a importância da psico-oncologia no tratamento de pacientes com câncer. O tema é abordado por meio de três diferentes referenciais teóricos: psicanalítico, fenomenológico e sistêmico. Além disso, apresenta trabalhos realizados com crianças e adultos com câncer, familiares e profissionais de saúde. Destinado a psico-oncologistas, estudantes, pesquisadores e profissionais de saúde.

A psico-oncologia é uma área ampla e multidisciplinar que ainda impõe crescentes desafios a pesquisadores, profissionais de saúde e organizadores de serviços hospitalares. Partindo dessa premissa, o livro Psico-oncologia – Caminhos e perspectivas (288 p., R$ 59,90), lançamento da Summus Editorial, organizado pela psicóloga Carmem Maria Bueno Neme, apresenta a experiência prática dos autores e discute resultados de pesquisas de ponta. A obra oferece estudos e relatos de experiências desenvolvidas em hospitais, apontando uma diversidade de métodos, técnicas e aportes teóricos que refletem diferentes práticas e estilos dos profissionais e demonstra o crescimento e a riqueza da psico- oncologia. “Atualmente, ela pode ser vista como uma área sólida e consistentemente estabelecida, embora ainda aberta a futuros desenvolvimentos na pesquisa, na prática e na realização de serviços”, complementa a organizadora.

A psico-oncologia surgiu da necessidade de oferecer ao paciente com câncer um modelo de atenção integral – biopsicossocial – capaz de melhorar sua qualidade de vida, aumentar sua sobrevida e as possibilidades de reversão da doença, fortalecer seus recursos e modos de enfrentamento da doença e dos tratamentos, além de atender também às necessidades dos familiares e dos profissionais de saúde envolvidos. Segundo a organizadora, a especialidade representa hoje ampla área de estudos e de atuação profissional. Entre os objetivos, diz ela, estão à prevenção do câncer, o tratamento e a assistência integral ao paciente oncológico e os seus familiares, a formação de profissionais de saúde e a realização de pesquisas que possibilitem a sistematização dos conhecimentos produzidos e conduzam a novas informações.

Organizado em três grandes temas, dividido em oito capítulos, o livro é uma referência essencial para profissionais e estudantes de medicina, psicologia, serviço social e enfermagem. Em linguagem acessível, os autores abordam questões atuais e relevantes na psico-oncologia, com aspectos inéditos em três perspectivas teóricas: psicossomática psicanalista, fenomenologia e sistêmica. “Profissionais e pesquisadores que vêm construindo a psico-oncologia no Brasil e no mundo apontam diferentes aspectos que permeiam a trajetória de todos os envolvidos, desde o diagnóstico até o controle da doença ou sua terminalidade”, afirma a psicóloga.

Ao longo da obra, os autores apresentam o relato completo de um serviço de psico-oncologia criado e desenvolvido em um hospital de Bauru, interior de São Paulo, retratando procedimentos práticos dos profissionais.  Eles mostram também trabalhos realizados com crianças, envolvendo mães e familiares, com mulheres, relacionado à conjugalidade, e com profissionais de saúde. A obra inclui ainda dois capítulos voltados à avaliação psicológica e o histórico da psico-oncologia no Brasil, destacando caminhos, resultados e desafios da prática.

Resultado de um projeto iniciado há dezesseis anos, o livro traz importantes diferenciais em relação a outras obras publicadas sobre o tema. Os autores registram iniciativas como a atuação do psicólogo hospitalar com doenças na infância, estudos clínicos de casos sobre mulheres com câncer de mama, de útero e de ovários, câncer infantil e os significados da doença para a família, vivências de mães de crianças com câncer quando morrem companheiros de tratamento e o contato com a morte de pacientes no serviço de oncologia hospitalar, entre outras questões.

Texto: resenha da editora Summus (para quê refazer o que está bem feito?)

PROVA, PROVÃO, CAMISA DE FORÇA DA EDUCAÇÃO

O livro  Prova, Provão, Camisa de Força da Educação*, de Hamilton Werneck, questiona  a eficácia dos sistemas de avaliação que, embora antigos na maioria dos casos, continuam sendo usados nos dias atuais. Comparando professores com alguns estereótipos de animais, demonstra a impropriedade e ineficiência de determinadas posturas de professores na hora de avaliar seus  alunos.

As analogias mostram, então, o professor macaco, que se compraz em  ridicularizar os alunos; o professor serpente-venenosa, cuja especialidade é elaborar armadilhas nos testes e provas; o professor carrasco, que em vez de ensinar, destrói a confiança e motivação dos alunos, quando não os exclui do processo educativo.

A comparação com o joão-de-barro e o castor são elogiosas: joão-de-barro é um pássaro que constrói algo e sempre em sintonia com o meio ambiente, o que o faz, por exemplo, analisar a posição em que o vento bate mais forte para decidir de que lado fazer a porta de sua casinha, de forma a proteger melhor os filhotes. Semelhante a isso, o professor joão-de-barro observa o contexto que envolve seus alunos, “sente o vento” e constrói algo em seus corações e suas mentes.

O castor, animal que enfrenta baixas temperaturas do inverno enquanto escolhe árvores e prepara diques é apontado pelo autor como exemplo de trabalho intenso, desafio a adversidades e harmonia com o meio ambiente, características também de alguns persistentes e dedicados professores que acreditam na possibilidade de transformação de realidades indesejáveis. O professor abelha é elogiado pelo trabalho dedicado e acompanhamento dos alunos, mas criticado pela mesmice e falta de criatividade nas avaliações.

O professor leão é associado à fera que assusta, ruge nos corredores e salas de aulas como se estivesse ameaçando os alunos tal  qual faziam ferozes leões que ameaçavam cristão aprisionados nos coliseus romanos, verdadeiros espetáculos circenses de atrocidade e coerção.

O pavão é usado pelo autor para caracterizar o professor que está preocupado em elitizar, que elabora questões fazendo citações pomposas de autores badalados  por “intelectuais”. Esse tipo de professor, segundo o autor, exige complexidade quando deveria recorrer a instrumentos mais simples e objetivos que privilegiassem o saber ler e escrever, a organização de idéias, capacidade de expressar-se com clareza e solidez de argumentação.

Para o autor, o professor bicho-preguiça é aquele que,  seja por cansaço decorrente de longas jornadas de trabalho ou por desgaste na vida familiar, é lento e dorme acordado, permitindo aos alunos “colarem”   durante as avaliações, além de negligenciar em várias situações.

Ao mesmo tempo em que critica, conclama à reflexão e interage com os leitores propondo-lhes exercícios de aquisição e fixação de nova mentalidade sobre o ato de educar, Werneck apresenta sugestões de como os alunos poderiam ser avaliados de forma mais construtiva e eficaz. Um dos mecanismos propostos por ele para averiguar o aprendizado é o oposto do que vem sendo feito: em vez de se considerar as respostas dos alunos, aconselha uma análise do grau de conhecimento deles por meio de perguntas feitas por eles.

Discussões e debates realizados em grupos é, segundo o autor, outra forma de o professor avaliar o quanto cada aluno assimilou ou conhece sobre o conteúdo ensinado. Avaliar pela síntese verbal, pelas sínteses grupais e observar o rendimento em tarefas seqüenciais são outras formas de medir a aprendizagem adquirida, entre outras propostas do livro, que não se opõe inteiramente ao uso de provas, mas defende que elas não sejam instrumentos coercitivos e sim, mecanismo de orientação para uma busca útil de conhecimento (ou busca por conhecimento util!) e uma forma de feedback para o professor.

Prova, Provão, Camisa de Força da Educação é obra que não pode deixar de ser lida por todos que desejem trilhar o caminho da educação e da pedagogia ou que já estejam atuando nessas áreas. Leitores que se proponham a interagir com o autor vão perceber quão difícil é lembrar-se de professores que se enquadrem nos tipos professor joão-de-barro e castor. Por outro lado, como é fácil relacionar aqueles  que marcaram nossa lembrança como carrascos, serpentes enganadoras, ferozes leões (e leoas!), pavões, abelhas e bicho-preguiça!

A favor dos pontos de vista do autor entram aspectos como a necessidade de se reconhecer que nossas escolas não têm construído cidadãos, preparado bons profissionais nem tampouco proporcionado sabedoria para obtenção daquilo que mais almejam as criaturas humanas: a felicidade.

Ao contrário, temos reproduzido modelos de ensino que interessam apenas aos detentores do poder, defensores do status quo e, sobretudo, a uma estrutura voltada para a produção de proletários resignados e maus eleitores. Por que poucos  querem ser professor ou professora nos dias de hoje? Apenas reflexo das irrisórias remunerações? Ou o modelo de formação escolar adotado e imposto aos alunos produz nesses aversão desde os primeiros anos de escola? Quem deseja imitar o que lhe desagrada?

Contra  os modelos propostos por Werneck destaca-se o fato de que a resistência humana a mudanças é algo tão arraigado que amealhar adeptos das idéias demandaria tempo enorme. Além disso, metodologia de avaliação tão subjetiva pressupõe que as pessoas agem sempre movidas pela boa fé e com honestidade, o que não é necessariamente verdadeiro.

Outra fator contrário às sugestões do autor, também decorrente do caráter subjetivo das avaliações propostas, seria a dificuldade de o Estado controlar a qualidade dos processos educativos, considerando-se que sempre haverá diferenças quantitativas e qualitativas nos níveis de dedicação, boa fé, preocupação com o bem-estar real do ser humano, empenho, capacidade de análise crítica e domínio de conteúdo, entre outros aspectos,  por parte dos professores e corpo diretivo das escolas.

Postado por Carmelita Rodrigues

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*WERNECK, Hamilton, Prova, Provão, Camisa de Força da Educação. Petrópolis (RJ): Vozes, 2002.