Superproteção pode adoecer as crianças*

Pais superprotetores passam aos filhos, consciente ou inconscientemente, a ideia de que eles são vulneráveis e fracos e que não podem sobreviver sem os genitores. Por generalização, as crianças crescem acreditando que sempre precisarão de cuidadores poderosos e que são incapazes de viver por conta própria. Esse manejo parental equivocado pode desenvolver nelas a dependência e prejudicar a construção do autossuporte, isto é, a confiança do indivíduo nele mesmo. Pessoas com fraco autossuporte são avessas a correr riscos, a experimentar novidades e mesmo a enfrentar situações que lhes pareçam ameaçadoras. São inseguras, excessivamente medrosas e tendem a não se considerarem capazes de cuidar delas mesmas; exageraram na percepção de risco e têm medo de perder apoio e aprovação, o que lhes dificulta expressar discordância de outras pessoas. Podem ser adultos predispostos a desenvolverem quadro de depressão. Ou seja: são pessoas pouco adaptadas à vida, repleta de adversidades e situações incontroláveis e desafiadoras.

Mães que exageram na proteção, nos cuidados para evitar que os filhos se machuquem ou sofram acabam causando-lhes sofrimentos talvez evitáveis, na medida em que perturbam o desenvolvimento normal dos filhos a ponto de, em alguns casos,  causarem de transtornos psicológicos sérios, entre eles o Transtorno de Personalidade Dependente (TPD). Antes de prosseguir, justifica-se uma explicação resumida do que seja transtorno de personalidade, reproduzindo trecho do DSM-IV-TR: “Um transtorno de personalidade é um padrão duradouro de experiência interior e de comportamento que se desvia marcadamente das expectativas da cultura do indivíduo; é disseminado e inflexível; tem início na adolescência ou no começo da idade adulta; é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento e incapacitação” (APA, 2000, pág. 629).

Especificamente sobre Transtorno de Personalidade Dependente, esse manual de doenças mentais da Associação Americana de Psiquiatria explica: “é um padrão de comportamento submisso e pegajoso, relacionado a uma necessidade excessiva de ser cuidado” (APA, 2000, pág. 685).  Outras características de pessoas portadoras desse transtorno são: baixa autoestima (principalmente como consequência de não confiarem em si ou não se perceberem capazes de fazer e/ou tomar decisões corretas, isto é, de não se sentirem valorosas); insegurança quase sempre generalizada para situações em que precisem escolher ou realizar algo sozinhas;  autoimagem distorcida, tendendo a sentirem-se feias, esteticamente e no sentido mais amplo; pessimismo e medo de separação, inicialmente da mãe e/ou pai e posteriormente de outras pessoas a quem atribuam importância e sobre quem seja depositada confiança como fonte de proteção.

O Transtorno de Personalidade Dependente manifesta-se na adolescência ou no início da idade adulta e o indivíduo deve apresentar pelo menos cinco dos seguintes sintomas em diferentes contextos e espaços para receber diagnóstico de TPD, de acordo com o DSM IV: a) dificuldade  em  tomar decisões cotidianas sem aconselhamento e reasseguramento dos outros; b) necessidade de que as outras pessoas assumam a responsabilidade pela maior parte das áreas importantes de sua vida;  c) dificuldade em expressar discordância; d) dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas por conta própria; e) chegar a extremos para obter cuidados e suporte; f) ficar desconfortável e desamparado quando sozinho; g) procurar urgentemente outra fonte de apoio quando um relacionamento importante termina; h) preocupação irrealista sobre o medo de deixar de receber cuidados de alguém.

Obviamente que esse funcionamento emocional e comportamental compromete tantos as relações pessoais quanto as laborativas, levando o sujeito a evitar posições de responsabilidade e comando no trabalho e a sentir muita ansiedade diante de situações que exijam tomada de decisão. Um funcionamento psicoemocional tão alterado e limitante pode, consequentemente, levar ao desenvolvimento associado de outros transtornos, como transtorno de humor (transtorno afetivo bipolar e depressão) e transtorno de ajustamento, entre outros.

Busquemos, então, compreender como o manejo excessivamente protetivo da mãe ou do pai (ou de avós que assumem a guarda) pode levar a essas alterações no desenvolvimento das crianças. Na perspectiva comportamental, a premissa básica para a dependência é a de que o comportamento dependente é ou será recompensado. Essa visão coloca a dependência na classe dos comportamentos aprendidos a partir da relação com as figuras parentais, podendo generalizar-se para relacionamentos interpessoais subsequentes.  Ou seja: se ao buscar ajuda e apoio para fazer alguma coisa a criança for sempre recompensada, ela poderá desenvolver o hábito de repetir esse comportamento, e não apenas com os pais, mas também em outras interações (O’Donohue, 2010). O contrário disso é: se, em vez de ser recompensada por sempre buscar apoio e ajuda a criança for orientada a confiar em si mesma e a tentar fazer sozinha, sendo confirmada ao obter êxito ou apenas por tentar, ela tende a desenvolver autoconfiança e autonomia.

Gabbard (2006) nos dá uma explicação psicodinâmica: “Um padrão global de reforço dos pais para a dependência ao longo de todas as fases do desenvolvimento tem maior probabilidade de operar nos fundamentos de pacientes com TPD. O desenvolvimento da personalidade dependente pode ocorrer a partir da associação entre independência/autonomia à perda de afeto: agir por contra própria pode levar a criança a temer estar sendo desleal com os pais ou cuidadores, que podem deixar de amá-la; claro que tudo em nível inconsciente e resultante de possíveis distorções na compreensão infantil dos eventos ou efetivamente de equivocados discursos dos adultos. Explicando melhor: “muitos dos pacientes com transtorno de personalidade dependente cresceram com pais que, de uma forma ou de outra, comunicavam que a independência era carregada de perigo. Eles podem ter sido sutilmente recompensados por manter lealdade a seus pais, que pareciam rejeitá-los diante de qualquer movimento em direção à independência” (Gabbard, 2006, pág. 438). Corroborando a percepção de Gabbard, um estudo de Baker (1996) sobre ambiente familiar encontrou que famílias de pacientes com transtorno de personalidade dependente apresentavam pouca independência nos comportamentos das crianças e alto controle parental.

O comportamento controlador dos pais, por sua vez, pode ser decorrente de alterações psicoemocioais próprias, cujas manifestações levam a projeções e outros mecanismos psicológicos de defesa. Por trás do impulso para controlar pode estar, por exemplo, a projeção – dos próprios medos e da própria insegurança. Indivíduos controladores são, quase sempre, inseguros e agem evitando o desconhecido, o novo e qualquer coisa que ameace a ilusória sensação de segurança. A necessidade de querer controlar meio ambiente, circunstâncias e pessoas a sua volta não raro aparece de mãos dadas com outra alteração psicológica: uma forte rigidez comportamental, isto é, a dificuldade para lidar com mudanças, seja na forma de pensar, agir e até em relação a disposição de objetos, escolha de percursos e localidades conhecidas e eleitas como adequadas ou com as quais o indivíduo já se acostumou. O indivíduo desenvolve a crença disfuncional de que se ele estiver no controle das situações, ele ficará bem, na medida em que saberá se movimentar nos eventos, dos quais ele acredita conhecer os estímulos (ambientais e respostas comportamentais dos “controlados ”). Obviamente que isso é uma percepção equivocada que precisa ser desconstruída, a partir de clarificações e reelaborações, tanto cognitivas quanto emocionais.

Na prática clínica, não é raro deparar-nos com pais que incutem nos filhos medo do mundo e das pessoas a ponto de eles começarem a apresentar pânico de escuro, de ficarem sozinhos em casa, de irem à escola e até mesmo de brincarem com outras crianças. Ao enxergarem a alteração nos filhos, buscam ajuda quase sempre antes de se darem conta de que as crianças apenas refletem respostas e comportamentos deles próprios. Ao se investigar o caso, a dinâmica familiar e o manejo dos adultos explicam grande parte dos temores, receios e da insegurança das crianças. Ou seja: adultos com alterações psicológicas não reconhecidas ou não tratadas, como por exemplo, portadores de síndrome de pânico, histeria e mesmo TPD, tendem a errar por excesso, principalmente nas tentativas de controlar invasivamente os passos dos filhos, no anseio mais profundo de evitar neles o sofrimento que vivenciam internamente.

Se a negligência nos cuidados parentais é prejudicial ao desenvolvimento das crianças, o manejo invasivo não é menos nocivo. Pode soar exagerado para algumas pessoas que uma mãe ou um pai alcance esse grau de equívoco, chegando a adoecer os filhos com excessos patológicos, mas a experiência clínica prova o contrário. É mais comum do que se imagina, inclusive.

Adotados os cuidados necessários (e limitadores da descrição) para evitar risco de quebra de sigilo profissional, seguem dois exemplos clínicos úteis à compreensão do exposto. Primeiro, o de uma mãe que se negou a perceber os próprios erros e, o segundo, dos bons resultados de uma intervenção dura junto a um pai, que compreendeu o exposto e atendeu prontamente às sugestões de mudança, embora elas indicassem direção totalmente oposta a que os genitores vinham tomando a vida toda. Vale mencionar que, no contexto terapêutico e até mesmo familiar e/ou amigável, a dureza excessiva nas colocações e a pressa em clarificar as coisas como elas são em verdade devem ser bem medidas e pesadas, levando-se em conta que muitas pessoas simplesmente não dão conta de enxergar falhas ou erros na maternidade ou paternidade. É recomendável ir com muito tato e cuidado, principalmente na entrevista com mãe de perfil controlador ou que tenha, ela própria, transtorno de personalidade dependente, transtorno de personalidade narcisista ou outra alteração psicoemocional grave ou moderada. Ela pode fazer projeção inconsciente e se sentir ameaçada pelo discurso da psicoterapeuta ou do amigo/parente bem-intencionado.

O primeiro caso: a mãe levou seu filho adolescente para uma entrevista psicológica com vistas a início de processo terapêutico. Ele tinha dezesseis anos e vinha apresentando condutas agressivas, na fala da mãe, principalmente com ela. Irritabilidade e impaciência, contou a mãe, também eram reações repetitivas. “Ele tem sido muito bruto comigo”, queixou-se, enquanto o filho expressava simultaneamente, em linguagem gestual, não concordar com ela. Essa mãe, ao longo da conversa, revelou-se extremamente controladora e invasiva, negando ao filho o direito a escolhas mínimas e agindo de forma a castrá-lo em todas as iniciativas de autonomia.

A psicoterapeuta chamou a atenção dela para isso e para a necessidade de ela começar a deixar o filho tomar as próprias decisões e a fazer escolhas, a transferir pra ele tarefas que ele já poderia fazer e que ela vinha assumindo, como lavar os próprios tênis, fazer o prato na hora da refeição (definindo por ele o que e quanto comer), escolher as roupas (no ato da compra e de se arrumar – ela insistia em continuar fazendo isso por ele, contou o adolescente), a ir visitar parentes sozinho, sair com amigos, tios,  primos ou pessoas de confiança sem a companhia dela, entre outras pequenas mudanças iniciais. Tratava-se de rapaz saudável, inteligente e perfeitamente capaz de aprender a se deslocar sozinho, então, foi sugerido que ela o ensinasse a andar de ônibus, para não depender dela nos dias da sessão, como também para outros compromissos, inclusive da escola.

Nesse caso, uma hipótese psicodinâmica para as reações dele: ao se sentir tolhido, controlado e exageradamente cerceado o tempo todo por essa mãe, o adolescente começou a sentir raiva e a expressar essa emoção por meio de comportamentos agressivos com a genitora. E, embora soe estranho, pode-se considerar essa reação como sendo saudável e com potencial para salvá-lo do transtorno de personalidade dependente. As reações do rapaz, em linguagem verbal e gestual, às intervenções da psicóloga que o entrevistou indicavam ter havido compreensão correta do quadro e acerto nas intervenções, mas infelizmente, o paciente não retornou para a segunda sessão. A mãe explicou, posteriormente, em contato telefônico, que não tinha concordado com as coisas que a psicóloga tinha dito e que o filho dela não seria atendido novamente por aquela profissional. Ele voltou para a fila de espera (órgão público de saúde com enorme demanda em atraso) e não houve mais notícias dele. No entanto, é possível que ele consiga mobilizar sua capacidade autodefensiva e escape dos equívocos dessa mãe castradora, salvando-se da superproteção patológica dela. Ou, quem sabe, em algum momento a mãe se lembre das intervenções propostas e do que foi-lhe explicado sobre respeito à necessidade de autonomia do filho e ela consiga mudar o próprio manejo com ele.

O segundo exemplo é o de uma mocinha de dezessete anos que teve um episódio de “travamento”, nas palavras dela. O pai busca por psicoterapia após um episódio em que a adolescente não conseguiu executar uma tarefa na qual ela era (e ainda é) muito boa. “Eu simplesmente travei; não consegui me mexer, fazer nada, entrei em pânico”, explicou à psicoterapeuta. O pai, temendo o pior, trata de buscar ajuda para a filha, a quem ele considerava muito talentosa e por quem ele tinha zelo exagerado, a ponto de ir todos os dias falar com o professor da garota para saber como ela tinha-se saído na aula e de cobrar dela excelência em todos as tarefas, chegando ao cúmulo de autorizar o professor, na frente dela, a ser rigoroso. Essa conduta incomodava enormemente a adolescente, mas ela não se opunha por desconhecer os próprios limites e os do pai e por temer desagradá-lo. Esse comportamento invasivo na escola dela se somava a muitos outros (que preciso omitir para preservar anonimato) e era adotado também com a outra filha e em relação também à esposa, que corroborava com os exageros do marido na educação das filhas.

Nesse segundo caso, a explicação plausível para tanta proteção pode ser tanto o amor paterno legítimo quanto uma autocobrança exagerada em acertar como pai, além da projeção dos próprios medos. Mas, diferentemente do outro caso, esse pai agiu com humildade e concordou em avaliar a possibilidade de ter errado por excesso. Na segunda sessão ele pediu para conversar novamente com a psicoterapeuta e contou ter refletido sobre as explicações e intervenções propostas pela profissional e disse ter refletido e se lembrado de situações que confirmavam a hipótese de manejo excessivamente controlador e superprotetor por parte dele; admitiu ter compreendido melhor atitudes do passado, entre elas o fato de ter chegado a mudar de profissão, com o intuito de se dedicar integralmente à família; admitiu ter “pecado por excesso ”,  nas palavras dele, e citou experiência de relativo abandono por parte dos próprios pais.

Segundo ele, após conversar com a esposa, ambos reconheceram os equívocos e colocaram-se integralmente dispostos a fazer o que fosse necessário para corrigir os erros deles e a garantir a felicidade das filhas. Reforçava essa decisão perceber que a outra filha também apresentava dependência deles para realizar quase tudo. Graças à necessária sofisticação psicológica e ao apoio da família, a paciente evoluiu rapidamente e surpreendeu os pais e a psicoterapeuta com mudanças de atitudes e até de visual, entre outros sucessivos e importantes avanços ao longo do processo de autodescobrimento e construção de si mesma.

Muito amorosos, entre si e com as filhas, esses pais apoiaram-se um no outro para lidar com o necessário e relativo afastamento das adolescentes, inclusive para descobrir outros focos de trabalho, outras metas de vida, embora continuassem muito próximos das filhas e disponíveis para ajuda-las, sem excessos.

Uma mãe que não consegue esperar que o filho sinta sede ou fome e vive atrás da criança oferecendo-lhe bebida ou comida invade o tempo da criança e a necessidade de compreensão sobre o próprio funcionamento organísmico. Impede, inclusive, o aprendizado de autoconhecimento, que deve começar cedo, pelas demandas do corpo. Ou: a que decide a hora, a quantidade e o que deve ser comido pelo filho, mesmo quando ele já é adolescente e está apto a desempenhar essa tarefa, apresenta comportamento invasivo e controlador. Mães que não permitem aos filhos aprender a fazer escolhas, seja entre o que vestir ou calçar, comer ou beber, dizer sim ou discordar, entre tantas outras situações, rouba-lhes o direito de aprender, inclusive, que toda ação é seguida de uma consequência, boa ou ruim conforme o contexto. Mães superprotetoras deixam de incentivar os filhos a construírem a própria individualidade, a se descobrirem como pessoas eficazes. Mães, pais, avós ou quaisquer cuidadores/educadores que hajam desse modo limitante e castrador não entendem que a tarefa deles é ensinar as crianças a sobreviverem na ausência deles, adultos, isto é, a serem independentes e autônomos.

Do mesmo modo, uma mãe que tenha a expectativa de ter no filho ou na filha alguém a lhe obedecer eternamente os comandos e a depender dela para as mínimas coisas, recorrendo à alegação de estar sendo protetora, ou aquela que espere realizar por meio do filho ou da filha o que sonhou para si comete grave equívoco e precisa analisar a origem do próprio comportamento controlador e das suas projeções inconscientes.

Por fim, deve-se ressaltar que o bom senso nas condutas protetivas e educadoras dos pais aplicam-se, inclusive no âmbito da espiritualidade, não sendo recomendável ou  mesmo inadmissível que pais extrapolarem os limites da maternidade/paternidade para fazer imposições fundamentalistas contra essa ou aquela escolha religiosa dos filhos, tão somente por ser divergente em relação à orientação filosófico-doutrinária deles. Ao obrigar, coercitivamente, os filhos a seguirem os próprios passos, pais abusivos ou apenas equivocados correm o risco de, além de prejudicarem experiências com potencial para serem redutoras de ansiedade, afastarem-nos  de uma saudável aliança com o Numinoso e bloquearem neles a construção de livre e construtiva jornada espiritual.

Referências

Baker, Jeffrey D., Capron, Earl W. & Azorlosa, J. (1996). Family environment characteristics of persons with histrionic and dependente disorders. Journal of Peresonality Disorders.

CID-10 – Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento, Descrições Clínicas e diretrizes diagnósticas. (2007). Ed. Artmed (RS).

Gabard, Glen O. *2006). Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica (4ª ed.). Artmed, Porto Alegre (RS).

O Donohue, Katherine A. Fowler & Lilienfeld, Scott. (2010). Transtornos de Personalidade em direção ao DSM-V. Ed. Roca, SP.

*Artigo publicado na Revista Mistérios da Psiquê (2017), da Editora Mythos, edição 6/março, pág. 40.

Para quem preferir, a seguir o link da Revista :

Mistérios da Psiqué/Superproteção pode adoecer as crianças

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Superproteção parental pode adoecer filhos

Mães ou pais superprotetores podem adoecer seus filhos.  Estudos sugerem que cuidados parentais superprotetores e autoritários, isoladamente ou em combinação, estão associados à probabilidade maior de uma criança apresentar dependência problemática na adolescência ou na vida adulta; tecnicamente falando, o nome correto é Transtorno de Personalidade Dependente (TPDP).  “Cuidados parentais superprotetores ensinam às crianças que elas são vulneráveis e fracas e que não podem sobreviver sem a proteção de cuidadores poderosos” ( Robert Bornstein, in O’Donohue, 2010, p. 301). Bem resumidamente essa alteração na saúde psicológica e emocional decorre de a criança desenvolver a representação mental de si mesma como sendo fraca e incapaz. Errar e acertar, cair e levantar, testar-se e descobrir as próprias habilidades são necessidades da criança ao longo do desenvolvimento, desde a idade mais tenra. Por distorção do que seja amor materno/paterno ou “cuidados amorosos”, muitos pais e muitas mães se excedem e tornam-se INVASIVOS;  “é por amor”, garantem. Mas na verdade as motivações subjacentes das figuras parentais costumam ser outras bem diferentes, e na maior parte dos casos são inconscientes. Podem ser projeção da própria insegurança, ímpeto pra compensar a falta de sentido da própria vida, desenvolver em alguém a dependência de modo a tornar-se imprescindível, neuroses de vários tipos e justificativa para fugirem da meta de se dedicarem  ao próprio desenvolvimento – intelectual, material, emocional, psicológico e até espiritual no sentido puro, entre muitas outras possibilidades – mas nunca por amor; porque o amor implica em preservar a liberdade do outro de ser quem é, no caso dos pais, de preferência ensinando os filhos a terem autonomia e a não dependerem de ninguém, nem mesmo deles, mãe e/ou pai.

Claro que todo ser humano apresenta algum nível de dependência de outras pessoas, mas esse transtorno refere-se a um tipo patológico, excessivo de dependência psicoemocional e até material, em alguns casos. A seguir, alguns sintomas de TPDP, de acordo com o DSM-IV, que é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Organização Mundial de Saúde (OMS):

  1. Dificuldade  em  tomar decisões cotidianas sem aconselhamento e reasseguramento excessivo.
  2. Necessidade de que os outros assumam a responsabilidade pela maior parte das áreas importantes da sua vida.
  3. Dificuldade em expressar discordância.
  4. Dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas por conta própria.
  5. Chegar a extremos para obter cuidados e suporte.
  6. Ficar desconfortável e desamparado quando sozinho.
  7. Procurar urgentemente outra fonte de apoio quando um relacionamento importante termina.
  8. Preocupação irrealista sobre o medo de deixar de receber cuidados de alguém.

A pessoa deve apresentar pelo menos cinco dos oito critérios  relacionados acima para ser diagnosticado como portador de DPDP.

Na prática clínica, o que se observa que pode ser acrescentado a esses critérios? A pessoa torna-se ciumenta e possessiva. Na relação conjugal, o investimento é para controlar o cônjuge de modo a que ele/ela  aja sempre dentro das expectativas e necessidades da pessoa com TPDP – para que ela não sinta a aparente ou ilusória sensação de segurança ameaçada. Sofrem de modo assustador ao pensar na perda, morte, separação das pessoas significativas – porque sentem-se incapazes de viver por conta própria.  No caso de filhos, mesmo na idade adulta e embora estejam casados e com os próprios filhos, mantêm vinculação patológica com as figuras parentais. Tive uma paciente que chegava a ligar mais de dez vezes diariamente para a mãe que morava em outro estado – e estranhou que a terapeuta considerasse isso excessivo, afirmando: “eu gosto de conversar com minha mãe e me preocupo em saber se ela está bem… isso não tem nada demais”. Mas ao longo do processo terapêutico, reconheceu a dependência envolvida nisso. Insegurança paralisante, falta de confiança em si mesmo(a) para qualquer desafio, condutas controladoras , tendência à depressão e, em casos mais graves, com tendências suicidas são aspectos registrados em indivíduos com esse transtorno. Mais: “indivíduos com TPDP são incapazes de tomar decisões por eles mesmos, são frequentemente submissos, sempre precisam de tranquilização e não conseguem funcionar bem sem alguém que cuide deles” (Gabard, 2006, p. 437).  Já atendi adolescentes com comportamentos de retardado mental (sem o serem).  Tive um paciente adolescente que teve uma crise de medo paralisante em uma situação de teste (filho de mãe muito invasiva, do tipo que não deixava o adolescente chegar a sentir sede por se antecipar oferecendo a ele água; escolhendo as roupas que ele iria usar, mesmo após a puberdade); outro caso: um rapaz de 28 anos de idade que sofria profundamente, a ponto de somatizar doenças autoimunes, quando surgia qualquer situação que lhe exigia uma decisão.

Em pessoas com DPDP são centrais nos processos internos os pensamentos automáticos relacionados à dependência (autodeclarações reflexivas que refletem a falta de competência percebida pela pessoa). Esses pensamentos automáticos são acompanhados por autodeclarações negativas ou seja, monólogos internos autodepreciativos nos quais as pessoas dependentes reafirmam  várias razões se perceberem sem competência ou habilidade para agir por conta própria ou para fazer bem qualquer coisa. Conforme descreve Robert F. Bornstein ( in O’Donohue, 2010, p. 300), “os pensamentos e as autodeclarações negativas se combinam para criar um viés atributivo persistente que reforça a sensação de vulnerabilidade e fraqueza da pessoa. Segue-se um ciclo vicioso no qual cada novo desafio desencadeia um conjunto de respostas cognitivas que exacerbam os sentimentos de desamparo da pessoa dependente; conforme a sensação de desamparo da pessoa aumenta, cada novo desafio parece ainda mais insuperável”.

A premissa básica da perspectiva comportamental é de que as pessoas com DPDP apresentam comportamentos dependentes porque esses comportamentos são recompensados, foram recompensados ou o indivíduo percebe que provavelmente trarão algum tipo de recompensa  (comportamento aprendido no contexto de  dependência da criança com a mãe ou com o pai). Na medida em que a busca por ajuda e apoio é recompensada pelos cuidadores primários, a criança em desenvolvimento terá mais chances de exibir essas respostas em outras interações sociais, ou seja, o reforço intermitente do comportamento dependente propaga a dependência problemática em adultos e crianças.

A explicação psicodinâmica, de acordo com Gabard, é semelhante: “um padrão global de reforço dos pais para a dependência ao longo de todas as fases do desenvolvimento”(2006, p. 438). E mais: “muitos dos  pacientes cresceram com pais que, de uma forma ou de outra, comunicavam que a INDEPENDÊNCIA era carregada de perigo. Eles podem ter sido sutilmente recompensados por manter lealdade a seus pais, que pareciam rejeitá-los diante de qualquer movimento em direção à independência ” (Gabard, 2006, p.438).

A motivação central dos pacientes com TPDP é na obtenção e a manutenção das relações de conforto e apoio. E o apego dependente com frequência mascara a agressão. A conduta dependente também pode ser uma forma de evitar a reativação de experiências traumáticas do passado.

O Transtorno de Personalidade Dependente pode aparecer associado a outros transtornos, como transtorno bipolar, depressão maior, transtornos de ansiedade e transtornos de alimentação (obesidade, anorexia, bulimia). Em alguns casos essa patologia é confundida com Transtorno Borderlaine. Para diferenciar as duas patologias, há um aspecto a ser considerado: o paciente com borderline  reage ao abandono com raiva e manipulação, enquanto o paciente dependente torna-se submisso e apegado.

Finalizando, destaca-se o seguinte: sob a alegação de cuidar excessivamente por amar demais, as figuras parentais adoecem seus filhos! Tiram-lhes a possibilidade de serem indivíduos autônomos, independentes e felizes. Pode haver resultado pior da paternidade ou da maternidade?

Referências

Baker, Jeffrey D., Capron, Earl W. & Azorlosa, J. (1996). Family environment characteristics of persons with histrionic and dependente disorders. Journal of Peresonality Disorders.

Gabard, Glen O. *2006). Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica (4ª ed.). Artmed, Porto Alegre (RS).

O Donohue, Katherine A. Fowler & Lilienfeld, Scott. (2010). Transtornos de Personalidade em direção ao DSM-V. Ed. Roca, SP.