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Mais médicos ou pais melhores?

Saí pra caminhar carregando crachá de profissional de saúde, que não está em quarentena por força do ofício. Não estou me queixando, ao contrário. Trabalhar faz bem à alma. Mas se alguém me abordasse querendo me impedir de caminhar eu me justificaria assim: “se preciso sair de casa pra cuidar da saúde de outras pessoas, tenho o direito de sair pra cuidar da minha própria saúde”. Pegar um sol que reforce meu sistema imunológico, sintetizar vitamina D, melhorar minhas emoções…

Ninguém me perturbou, felizmente. Oh, como uma lufada de vento e ondas quentes do sol são curativas e energizadoras!

Avistei outras pessoas fora de casa, graças ao bom senso. Num bairro onde antes só se via pessoas andando com seus cães, inclusive aos domingos, hoje vi crianças acompanhadas! Vi homens sendo pais e mulheres sendo mães. Sem creches e sem escolhas, há que se cuidar, cada um, da própria prole. Mas isso não deveria ocorrer sempre? A caminhada resultou em outra reflexão: será que precisamos de mais metilfenidato e outros remédios, de mais psicólogos e médicos ou precisamos de mais seres humanos vivenciando com mais tempo e mais responsabilidade a maternidade e a paternidade?

Quantas crianças com diagnóstico de Transtorno do Déficit da Atenção e Hiperatividade (TDAH) não sofrem, na verdade, de déficit de atenção dos pais? Outras, com Transtorno Opositor-desafiador (TOD) não carecem de pais lhes dando limites e explicando que o mundo não é um repositório de direitos sem cobrança de deveres, de adultos compensando-lhes a ausência de atenção materna e/ou paterna com presentes e permissividades?

Vivemos num mundo onde predominam as exigências do ID, sufocando a atuação do Superego e as reais demandas do Si-Mesmo. Indivíduos soltos, atuando sem a contenção repressora do Superego funcionam tal qual um multidão de embriagados, desnorteados e deprimidos. Observe-se como reagem grupos humanos após consumirem exagerada quantidade de bebidas alcoólicas. O álcool tem o poder de desativar o Superego, deixando o indivíduo solto, livre para ser quem realmente é, para agir sob o Princípio do Prazer, ignorando o Princípio do Dever. Um mundo de embriagados não me parece seguro sem construtivo.

Minha sugestão é que os pais observem seus filhos nesses dias, vejam como funcionam, quais as reais demandas deles, se estão realmente sentindo falta de shopping centers, de coisas materiais ou se, no nível profundo (ou superficial e visível), estão apreciando estar em casa com seus pais e suas mães… fazer coisas juntos, conversar, caminhar, brincar na companhia dos pais, os seres mais amados pelas crianças, é o desejo íntimo mais forte e mais legítimo dos filhos.

É terapêutico ser amado, cuidado, protegido e orientado pelos próprios pais. Após a pandemia, espero que nossas crianças continuem sendo cuidadas pelos seus pais e precisem menos de remédios e intervenções médicas – resguardadas as exceções, claro.

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