Seu Pedro e as promessas dos políticos

Casa dos avós no CE

Cartaz de propaganda política com foto do Lula ao fundo (Foto: Carmelita Rodrigues).

 

A foto acima ainda está afixada numa velha casa, agora vazia, de uma família de sertanejos do Ceará. Gente humilde, mas também íntegra, trabalhadora, resistente. Quem a pregou foi o Pedro Rodrigues, também chamado de “seu Pedro”, meu tio. Ele nasceu e sempre viveu na mesma casa, construída pelo pai. Após a morte deste, como de costume, a casa e a família ficaram a cargo dos irmãos mais velhos, até passar a ser ele o mais velho e herdeiro das responsabilidades. Uma família patriarcal, sim, e não incestuosa, como defende a deputada Érika Kokay (PT/DF) e por isso sempre houve proteção e respeito, nunca abusos. Os valores ético-morais são até hoje rígidos, em contraste com a frouxidão moral que predomina no País e desencadeia desordem e insegurança.

Meu tio Pedro, depois de um tempo virou petista, como muitos nordestinos; ele acreditou no populismo do Lula, afinal, era este também nordestino, também sertanejo e prometia cuidar do povo, das pessoas humildes, julgou seu Pedro. Ele próprio, dado ao trabalho honesto e à labuta penosa, não precisava de ajuda; só queria o que lhe assegura a Constituição: segurança pública, hospital decente para quando tivesse algum viés da idade avançada e tranquilidade na velhice. A vida toda só trabalhou, lidando na roça; diversão quase não teve. Nunca se afastou mais do que alguns quilômetros da casa e das terras herdadas dos pais. Nos últimos tempos, magro e sem muita energia, ainda cuidava dos bichos, dos parentes que podia ajudar e de duas irmãs, que como ele, nunca se casaram.

Seu Pedro viu entrar e sair governo; e perdeu a conta das promessas que ouvira de políticos na época das eleições ; e já não estranhava quando eles desapareciam depois do pleito e nenhuma das benfeitorias juramentadas vinham. A energia elétrica, uma das promessas recorrentes a cada eleição, só chegou quando ele passava dos sessenta anos de idade. As chuvas, essas também desapareciam. E quando não chovia por seguidas estações, ele assistia angustiado a aflição dos humanos e dos bichos sedentos e famintos; bichos e humanos compartilhando fome e sede.

Nunca nenhum projeto de irrigação ou qualquer coisa que aliviasse as agruras das secas foi realizado por lá, apesar das doces promessas dos que apareciam pra pedir votos. Dnocs, Sudene, Codevasf… siglas e promessas de políticas públicas que nunca beneficiaram os sertanejos – mas sempre consumiam milionárias verbas públicas. E nada mudou até hoje!

Ele viu a irmã caçula ir embora com os sobrinhos, outros parentes partirem, vizinhos, conhecidos, todos eles vendendo seus pertences e reproduzindo na vida real o que Luiz Gonzaga cantou em A grande Partida. Alguns, voltavam tempos depois pra matar a saudade da terra natal; outros, ele jamais reencontrou. Viu os pais morrerem, os irmãos mais novos também e ele foi ficando, resistindo, envelhecendo e teimando em acreditar que era possível viver no sertão. A visão aos poucos também o abandonou: catarata maldita que lhe roubou o gosto de ver o pôr do sol, a aurora, luz revigorante, a babuja  surgindo verde no pós-chuva, e as penas coloridas dos passarinhos. Dedilhando um velho violão nas horas vagas, ia tocando em frente, como na canção do Almir Sater.

Com a eletricidade veio também a TV. Ele acompanhava as campanhas políticas, os discursos de Lula e esperava nele, confiava nele, afinal, era também um sertanejo e de origem humilde, como ele. Não tinha muito, mas não queria nada além de paz e de poder morrer na sua vidinha calma, cuidando das criaturas que Deus pôs sob sua responsabilidade. Tio Pedro acreditou no PT do Lula e no Lula do PT. E pra ele mesmo não queria nada, mas para os vizinhos que nem um pedaço de terra tinham pra cultivar.

Seu Pedro já se foi, não vive mais entre nós; desencarnou em 2016, aos 86 anos, por complicações da idade e de uma surra que levou de um bandido. Um jovem covarde invadiu a casa do idoso, onde vivia com a irmã, também octogenária, bateu no seu Pedro com um pedaço de pau, até derrubá-lo, e levou o dinheirinho da aposentadoria que ele guardava em casa para gastar com as necessidades do cotidiano. Meu tio Pedro morreu sem compreender que a omissão do político que ele defendia devotadamente fez a violência urbana crescer e chegar até a zona rural; e chegar até ele. Não teve tempo de juntar as peças e perceber que também aquele político havia prometido sem cumprir e cujos erros e omissões tiveram consequências federais, já que pedira votos não apenas para vereador ou deputado local, mas para Presidente do País!

Meu tio  morreu um pouco naquele dia em que sua casa foi invadida e ele, agredido a pauladas covardemente. O bandido machucou-lhe o corpo e alma de idoso que só precisava e merecia proteção, que não teve. Ele defendia outro bandido porque este distribuiu algumas esmolas, que nem chegaram ao lugarejo dele,  mas ele via na TV e acreditava. E nunca nenhuma das promessas do velhaco sertanejo político foi cumprida e nunca o sertão do Ceará, onde morreu o velho e cansado Pedro, recebeu qualquer cuidado, além de umas caixas para guardar água da chuva e uma privada de alvenaria no fundo do quintal; muito menos que esmolas.

Nunca nenhuma universidade federal, bancada com o dinheiro suado de muitos trabalhadores do Brasil, inclusive imigrantes nordestinos, se importou ou se importa com os sertanejos resistentes; nunca levaram até os rincões rurais humildes um pouco de tecnologia, de conhecimento, de desenvolvimento pra ajudar aquelas pessoas a sobreviverem no sertão sedento, de águas e de políticas públicas sérias. Nunca nada além de TV e falácias de políticos.

E até hoje, com discursos de homens talhados na prática da enganação, os sertanejos seguem sofrendo. As crianças nunca tiveram e ainda não têm escolas dignas; nem atendimento médico. As mulheres ainda curam seus males e de seus filhos com chás e benzedeiras; e muitas ainda têm filhos com a ajuda de parteiras. Os jovens continuam crescendo sem perspectiva de trabalho ou de futuro; e como manda a natureza, repetem o ciclo de miséria tendo filhos, que lhes darão netos e assim sucessivamente. Mas eles votam. Então, os políticos voltam, de tempos em tempo.

Nunca nenhuma promessa de progresso se cumpre; nunca nenhum centavo da milionária arrecadação de tributos vai pra eles. E deveria; porque os filhos deles, expulsos pela seca e falta de trabalho, envelhecem na labuta dura das grandes metrópoles, mas principalmente porque os sertanejos nordestinos são também brasileiros. Ano após ano só mentiras, promessas vazias, falácias e depois esquecimento, abandono. Agora tem mais um,  com sorriso falso prometendo mundos e fundos aos nordestinos em troca de ser eleito presidente, exatamente como fizera Lula. E inclusive, indiretamente, pedindo votos para o mesmo Lula que abandonou os sertanejos à própria sorte, embora esses ainda não percebam isso.

Olhar pra essa fotografia me inspira a escrever essas mal arranjadas ideias para lembrar aos irmãos nordestinos, incluindo os sertanejos, que eles não precisam de esmolas… Bolsa Família ou coisa parecida. Precisam sim, de políticas públicas responsáveis que gerem trabalho digno; precisam de projetos de desenvolvimento que lhes permitam permanecer nas suas terras; necessitam de boas escolas para seus filhos; precisam ter de volta a tranquilidade que sempre existiu entre as pessoas simples do campo, acostumadas a dormir e acordar cedo, com a confiança de adormecer numa rede armada no alpendre, de janela aberta e porta escancarada – pro vento amenizar o calor do torrão seco.

Mas agora percebo que eles precisam também de algo mais: de malícia! Para conseguir  separar o joio do trigo no terreno da política, como fazem na colheita dos grãos. Irmãos nordestinos, não se deixem usar por mentirosos que repetem promessas antigas, tão conhecidas de vós e jamais cumpridas. As cores das logomarcas mudaram; os discursos, também; mas as intenções são as mesmas: chegar ao poder a qualquer custo, doe a quem doer. Cuidado, irmãos, com os lobos vestidos de pele de cordeiro.

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