Respeito à crença religiosa do outro

Há muitos aspectos admiráveis em Singapura, um país asiático novo, mas que preserva tradições milenares dos povos asiáticos. Dentre as que mais me impressionam, cito a boa convivência entre as diferentes religiões. Coexistem em clima de paz e respeito mútuo budistas, induístas, taoístas, muçulmanos e cristãos. Obviamente que existem leis regulando essa relação social, entre elas a proibição para pregação em público e/ou perturbando a ordem pública e desrespeito a cultos religiosos. Vi o térreo de um bloco residencial transformado em templo muçulmano, mas para tanto, o espaço foi cercado por um tecido em forma de muro. Aquelas pregações em ônibus, metrô ou a céu aberto e aos berros, principalmente em rodoviárias ou outros espaços de grande circulação de pessoas, que ocorrem no Brasil são proibidos em Singapura. Tudo para que as pessoas se sintam respeitadas na sua escolha religiosa. É comum (como mostra imagem 1) as pessoas colocarem pratinhos com oferendas aos ancestrais ou a divindades nos corredores e nos alpendres dos prédios residenciais, do lado de fora dos apartamentos. Os vizinhos respeitam e cada um pode vivenciar a própria relação com Deus pelo caminho que lhe convier. Nos centros comerciais (vide foto 2) as pessoas expõem pequenos altares com oferendas. As religiões orientais têm a reencarnação como verdade; apesar disso, em Singapura, se um cristão católico ou evangélico discordar disso, ninguém irá lhe ameaçar para que mude o pensamento (os cristãos kardecistas também são reencarnacionistas e compartilham preceitos filosóficos muito semelhantes aos dos budistas). Esse respeito à escolha religiosa do outro reflete o grau de civilidade e talvez também de evolução espiritual de um povo. No Brasil, ao contrário disso, predomina uma quase selvageria: cada religião reivindicando para si o monopólio da aliança com Deus, como se Este fosse insignificante e pequeno para caber num só modelo filosófico-religioso.  Se alguém encontra uma oferenda aos ancestrais ou a divinades, destrói, chuta e chinga, dizendo que é “macumba”. É comum verem-se imagens de Nossa Senhora sendo quebradas e chutadas por fiéis de igrejas evangélicas, que se opõem à adoração da Mãe de Jesus como divindade, justificando isso com uma tosca interpretação de  suposto trecho do Evangelho. Não quero aqui argumentar contra o sentido dessa interpretação tendenciosa e equivocada, posto ser outro o foco do meu humilde texto. Mas não posso deixar de mencionar também as grotescas perseguições aos seguidores de religiões e cultos afros, às imagens de suas divindades e os rituais deles. Os equivocados autores de tais absurdos sequer param para avaliar o que há de ignorância e visão obtusa nesse desrespeito. Não atentam para o fato de que são meros repetidores de um ranço católico (mesmo no caso dos evangélicos) cuja a origem remonta ao período da escravidão, quando os negros trazidos da África era obrigados a negar suas crenças religiosas e abster-se de adorar as divindades dos cultos africanos,  perversamente associados a “coisas do demônio”. O caminho escolhido para reprimir a fé dos africanos e seus descendentes foi o da opressão, inclusive ao incutir medo endemonizando entidades e práticas africanas. O que chamam de sincretismo, ao meu ver, é na verdade o resultado da opressão imposta aos africanos em relação à religiosidade deles.  Um festival de absurdos até hoje repetidos na associação, por exemplo, da imagem de Iemanjá a “coisa do capeta”. Quanta ignorância! A atual legislação brasileira contra a intolerância religiosa não dá conta de conter a bestialidade de pseudos líderes religiosos e seus seguidores e ainda se vê, aqui no DF, para citar um exemplo concreto, gente quebrando ou incendiando estátuas representativas de orixás, na Praça dos Orixás,às margens do Lago Paranoá. Essa prática é crime desde 1997, de acordo com a Lei 9.459/97, que prevê cadeia  e multa para os crimes de discriminação ou preconceito religiosos. Apesar disso, e mesmo decorridos 11 anos de aprovação dessa lei, ainda são comuns abusos e desrespeito ao direito individual de vivenciar a fé e a religiosidade. Enxergo isso como uma clara demonstração de atraso cultural e intelectual. Em Singapura, quem desrespeita as leis pode ser condenado a pena de morte (em crimes graves, como tráfico de drogas), ser preso, pagar multa ou levar uma surra de  varas, castigo chamado de caning. Pixação e vandalismo, por exemplo, são punidos por caning. Nos anos 90, debochando das leis locais, o americano Michael Fay foi condenado a  levar seis varas de bambu nas costas por ter feito um grafite numa estação do metrô de Singapura. O governo local não achou graça na brincadeira; considerou como vandalismo (por ter sido feito sem autorização, claro): ele foi preso e punido.  Após intervenção do governo dos EUA, a pena foi reduzida: quatro varadas. Isso  lhe parece muito rigor? Para os singapurianos,  é ordem e tem o apoio popular. É também uma forma eficaz de combater a impunidade dos transgressores às leis. Num pais onde as leis realmente são cumpridas, todos podem vivenciar em paz suas práticas religiosas. Por essa e outras motivações, imagine  quanta gente iria apanhar de varas nas costas e na bunda se aqui fossem aplicadas leis vigentes em alguns países orientais? Será que não temos sido muito permissivos? Qual a medida do bom senso? Certamente não é o excesso de ‘tolerância” que temos no Brasil. Preconceitos racial, religioso ou étnico talvez ainda estejam sendo punidos com muita brandura e/ou imunidade por aqui.

Foto 1

fullsizeoutput_414Oferendas de alimentos e incenso (insensário vermelho) no corredor, em reverência aos ancestrais; Singapura, 2018.

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Pequeno oratório na fachada de lanchonete, com oferenda de alimentos, em reverência à divindade cultuada pela família dos comerciantes.

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Templo induísta em Singapura

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Templo budista

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Outro templo budista em Singapura.

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