Médico pode fazer mal à saúde?

“Médicos podem receber dinheiro de laboratórios como remuneração por serviços de consultoria e palestras, e pela realização de pesquisas patrocinadas. O que não podem é ganhar para prescrever algum remédio. Ou melhor, não em espécie. (…) A indústria farmacêutica está legalmente autorizada a convidar os profissionais para a participação em eventos, congressos e treinamento com despesas pagas, enviar aos consultórios amostras grátis de medicamentos e brindes, contratar médicos e promotores para informar sobre os remédios. O que se discute é o limite da ética e as perversões que esse sistema pode gerar.

O fato de um médico estabelecer algum vínculo com uma companhia, como dar palestras, não quer dizer que ele tenha vendido a alma, claro. Também não significa que só prescreva uma medicação em troca de benefícios. Em tese, médicos tomam decisões baseadas em evidências de eficácia e segurança das drogas.

A questão é: pode acontecer de alguns deles se corromperem? Sim. Pode. Uma pesquisa do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) mostrou que 93% dos médicos paulistas recebem brindes, convites para almoços, jantares e eventos culturais, ou pagamentos de honorários de aulas e palestras das empresas farmacêuticas e de equipamentos. Desse total, 48% prescrevem os produtos indicados pelos fabricantes que os bancaram.

Curiosidade: 77% dos médicos afirmam conhecer outros médicos que aceitam presentes, benefícios e pagamentos de maior valor, mas apenas 37% admitem que eles mesmos receberam.

Outras curiosidades: 33% souberam ou presenciaram casos de pressão da indústria sobre médicos, 28% souberam de profissionais que receberam comissão por receitar medicamentos e realizar procedimentos DESNECESSÁRIOS, inclusive cirúrgicos, em troca de benefícios. Nenhum deles assume essas práticas.

A conclusão do Cremesp é que a promoção de medicamentos, produtos e equipamentos, mesmo as iniciativas que parecem inofensivas, como distribuição de brindes, pode influenciar de forma negativa decisões sobre tratamentos.

Nos EUA, essa relação entre médicos e indústria vem sendo alvo de iniciativas de controle. Desde 2013, o governo americano mantém uma lista aberta para consulta com informações sobre valores que médicos e hospitais universitários recebem da indústria e para quais atividades. Em 2014, as empresas declararam pagar 6,4 bilhões de dólares a profissionais da área – só metade desse dinheiro foi remuneração pelo envolvimento em estudos. A outra metade financiou despesas que incluem brindes, viagens e contratações de palestras.

Nove das dez maiores empresas farmacêuticas do mundo gastam mais em marketing do que em pesquisa¹. A maior parte delas coloca quase o dobro de dinheiro em ações para divulgar os remédios do que para desenvolvê-los.

E você paga essa conta, já que todos esses preços são embutidos nos preços dos remédios. Por isso, dizer que novos medicamentos são caros por consumirem muito tempo em dinheiro e pesquisa é uma meia verdade.

Mas dizer que a indústria farmacêutica é o monstro criador de todo esse sistema perverso é simplificar a questão. Existem muitas nuances de cinza entre o branco e o preto.

Duas situações que, no Brasil, são preocupantes e abrem as portas para distorções. Uma delas é o despreparo de parte dos profissionais. “Hoje, temos mais médicos formados do que antes, porque os critérios de abertura de novos cursos de Medicina no País muitas vezes atendem a interesses comerciais, e não à qualidade do ensino”, diz o psiquiatra Mauro Aranha, vice-presidente do Cremesp. As estratégias de marketing ganham espaço porque entram no vácuo da falta de conhecimento.

Todos os anos, o Cremesp faz um exame para avaliar recém-formados em Medicina no Estado de São Paulo. A participação e a nota na prova não impedem o exercício da atividade. Ela funciona como diagnóstico da qualidade das faculdades de São Paulo, onde estão muitas das melhores do País. Portanto, serve indiretamente como termômetro nacional. E os resultados mostram que o ensino médico está na UTI.

Em 2015, 48% dos inscritos foram reprovados, acertando menos de 60 das 120 questões. O índice foi menor entre os formados de escolas públicas (um quarto dos reprovados) do que de instituições privadas (três quartos). Considerando todos os participantes, 60% ou mais não souberam diagnosticar ou tratar problemas de saúde frequentes que chegam aos consultórios e prontos-socorros, como hipertensão, crise de asma, hipertireoidismo, doenças psiquiátricas e cetoacidose, uma complicação em diabéticos causada pelo excesso de glicose no sangue que pode levar ao coma e à morte. Também demonstraram despreparo para agir diante de um quadro inicial de infarto agudo do miocárdio e de primeiros socorros de vítimas de acidentes automobilísticos.

Em 2014, 55% não atingiram a nota mínima. Em 2013, foram 59,2%. Poderia ser um indício de que o ensino está melhorando, mas não. Segundo parecer do Cremesp, o nível de dificuldade da prova foi menor em 2015 do que nos outros anos. Enquanto isso, mais e mais cursos de Medicina são abertos no País. Foram 28 novas escolas em 2014 e mais 18 em 2015.

Médicos despreparados tendem a prescrever abusivamente, ter menos visão crítica diante das informações que recebem e fazer diagnósticos errados. Principalmente durante poucos minutos de consulta. Tudo isso junto reduz muitos médicos a meros carimbadores de receitas.” (Kedouk, 2016, págs 21-25).

¹ ANGEL, Marcia. A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos. Editora Record, 2014.

Referência: KEDOUK, Marcia. Os Segredos que os Médicos não Contam sobre os Remédios que Você Toma. Editora Abril, São Paulo, 2016.

Toma. Kedouk, Márcia. Ed. Abril: São Paulo, 2016.

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