Psicoterapia no tratamento do diabetes

Visitei recentemente uma unidade de saúde especializada em diabetes, obesidade e hipertensão. Ando analisando a possibilidade de me envolver em projeto de pesquisa sobre doenças crônicas, em programa de doutorado. Quis ver de perto a proposta multiprofissional da equipe e saber qual o peso que tem a psicoterapia nas intervenções. Como previ, psicoterapia fica em plano secundário, se muito, e a do tipo terapia de suporte. Por que não dão ênfase maior, considerando-se a importância do trabalho de autoconhecimento no manejo dessas doenças? Perguntei à servidora que conversou comigo. A resposta dela: “porque não tem comprovação científica de que fazer terapia ajuda no tratamento de doenças crônicas”. Eu contesto, digo que já existem muitos estudos associando os resultados de processos terapêuticos à remissão de sintomas. A pessoa rebate: “mas nós não conhecemos esses estudos”. Para o Direito essa alegação não serviria. Não serve também para minha visão de boa prática de saúde; os profissionais precisam estar atualizados. Mas a queixa serviu como provocação para eu própria ir em busca desses trabalhos. Tarefa a cumprir nos próximos dias. Por ora cumpre-me o desafio de explicar a importância da psicoterapia para diabéticos, o que se aplica quase integralmente também a pessoas com obesidade e outras doenças crônicas.

A principal razão pela qual os médicos deveriam enfaticamente encaminhar, e não apenas recomendar, os diabéticos para processo terapêutico é que sem o autoconhecimento os pacientes continuarão a piorar, mesmo tomando medicação e/ou insulina. Por que? É a analogia que usei anteriormente, em outro post, do pus. Posso limpar o pus da minha mão, mas se não atacar a ferida continuará havendo produção de pus, que voltará a sujar minha mão. As emoções são essenciais nos processos de adoecimento, como expliquei no texto anterior. Se o paciente não toma conhecimento do próprio funcionamento, não integra aspectos da própria Sombra, não ressignifica suas experiências, entre outros efeitos da análise, as percepções disfuncionais, as emoções negativamente impactantes e os sentimentos adoecedores continuarão desequilibrando o organismo da pessoa.

Em adultos, o diabetes costuma se manifestar em situações de crise, como rupturas no lar, frustrações afetivas ou profissionais ou qualquer eventos intensamente estressores. As circunstâncias adversas muito emocionalmente impactantes são gatilhos que disparam a manifestação da doença, mas os agravos, o desequilíbrio já estava instalado no organismo há muito tempo.

A psicoterapia irá ajudar o indivíduo no trabalho (árduo!) de conhecer a si mesmo(a); enxergar as coisas indesejáveis e, também,  as boas que são ignoradas. E conhecendo, a pessoa poderá mudar muitas delas. Analisar-se é trazer das águas profundas do Inconsciente para a razão o que está nas sombras, desconhecido, recalcado, reprimido ou rejeitado. Iluminar-se é conhecer-se.  Tirar conteúdos do Inconsciente é impedir respostas autônomas, produzidas por forças desconhecidas (componentes de Complexos psicológicos, em termos junguianos); é reassumir o controle. O que está inconsciente em você lhe controla. Ou nunca fez algo que, racionalmente, não reconhece como resposta “estranha” e pensa “não sei porque agi daquele jeito, não queria fazer aquilo…” Não era mesmo você quem agiu, mas sua Sombra!

Então veja: sem o autoconhecimento, você vai continuar agredindo o seu corpo, sem perceber ou sem entender porquê. Manterá as atitudes compulsivas, como comer o que não deve. E os remédios que você toma lhe darão a ilusão de que está fazendo tudo que pode e você continuará piorando! O médico vai sugerir que você faça exercícios físicos – FUNDAMENTAIS para a recuperação da saúde – mas você não fará, pelo menos não com a regularidade e disciplina necessárias. O médico e a nutricionista irão recomendar que você adquira novos hábitos alimentares. Você pode até mudar uma coisinha aqui e outra ali, mas mudança significativa, não fará! Entre outras explicações porque não está convencido(a) de que vai adiantar grandes coisas… mas mudar hábitos de vida prejudiciais seria muito, repito, muito mais útil do que os remédios que você toma e do que a insulina. Na verdade, sua doença talvez (em alguns casos) nem teria evoluído tanto. O processo analítico, além de lhe propiciar o autoconhecimento, iria desarmar os gatilhos que levam à autossabotagem, às compulsões, à indolência e à falta de adesão plena ao tratamento. Tomar remédio é a parte fácil.

Como psicóloga junguiana, a minha visão de doença e de saúde considera o ser na sua integralidade, nas suas múltiplas dimensões, inclusive a que transcende ao físico-biológico. Assim, recuso a ideia de que o acompanhamento psicológico de um diabético se limite a “possibilitar ao paciente obter aceitação psíquica de sua condição de doente e realizar a elaboração do luto pelo corpo perfeito, contribuindo para motivar o paciente nos cuidados em relação à doença” (frase de uma psicóloga em um artigo científico). O processo psicoterapêutico analítico pode conduzir o paciente a resultados muitos maiores.

O indivíduo não precisa e não deve aceitar a sentença de doente perpétuo e entregar-se nas mãos do atual modelo de medicina, predominantemente medicamentoso e interventivo sobre os sintomas. Ao contrário: deve ser estimulado a eliminar as causas psíquicas e emocionais do seu adoecimento e se comprometer a restabelecer o equilíbrio organísmico afetado, algo que os medicamentos isoladamente jamais conseguirão – e nem prometem isso. O autoconhecimento e autorresponsabilização pela própria saúde, resultante do processo terapêutico analítico, podem conduzir não apenas à adesão ao tratamento medicamentoso, importante nas intervenções médicas inicias e até que seja possível a dispensa de fármacos, mas também à busca pela cura. Sim, diabéticos podem ficar curados! Eu já teria mudado de profissão se não acreditasse na possibilidade de cura para as pessoas e se não presenciasse esse resultado na minha prática clínica.

 

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