Confusão entre transtorno mental e falta de educação

Muitas das dificuldades das crianças e dos adolescentes que atendemos na unidade de saúde mental passam ao largo de um transtorno mental. São, sim, alterações de ordem psicológica, mas que não teriam surgido ou se agravado se as pessoas tivessem boa educação, bons modos e o mínimo de traquejo social. Obviamente que não se enquadram aqui as alterações comportamentais com traços de impulsividade cuja psicogênese são traumas mais contundentes e inconscientes, que acabam por abrir fissuras no psiquismo, onde se acumula vasto material para complexos psicológicos que sabotam o direito de decisão do sujeito. Estou me referindo mais especificamente a crianças que são punidas e isoladas pelos coleguinhas na escola, ou a adolescentes que são hostilizadas rotineiramente e até mesmo adultos (pais, mães e avós) que não enxergam o efeito bumerangue das próprias atitudes e/ou palavras e que redundam em retaliação contra eles próprios.

Atendi um menino muito fofo de 8 anos de idade com queixa de agressividade na escola. Vou chama-lo aqui de Gui (nome fictício, claro). A avó contou que ele se sentia isolado, não tinha amigos na escola, que vivia brigando e não prestava atenção nas aulas. A investigação – nem tão profunda – revelou a dinâmica de tudo. Em casa, Gui só era criticado, punido e recebia noções de certo e errado muito confusas, como também as de limite. O garoto chegou na escola acreditando que podia fazer qualquer coisa e, em sendo rechaçado pelos demais, aprendeu a revidar agressivamente. Sentindo-se rejeitado, sofria e se desconcentrava fácil. Claro que essa dinâmica está aqui exposta de forma bem resumida, desconsiderando-se meandros importantes que exigiriam muito espaço. Bom, um olhar mais atendo levou à percepção de que Gui, na verdade, gostava de carinho e de elogios, mas que dava aos outros o oposto disso.

Fez muito sentido pra ele a ideia de que ele vinha recebendo daquilo que dava aos  outros. Assim, compreendeu que os colegas não gostavam da companhia dele porque ninguém gosta de ser agredido (e Gui agredia de diferentes formas: criticando, debochando, imitando-os sarcasticamente e até fisicamente dando tapas na cabeça). Esclareci como os coleguinhas gostariam de ser tratados, ampliei a explicação sobre a famosa frase crística “não faça ao outro o que não gostaria que o outro fizesse a você” e propus que ele se empenhasse em ser gentil e educado com todas as pessoas para verificar qual seria o resultado. Ele compreendeu e prometeu agir e reagir de forma diferente.

Sessão após sessão ele começou a entrar no consultório com uma expressão sempre melhor. E a expressar afetividade. Havia desaparecido a carranca desafiadora, o gesto de desconfiança à minha proposta de abraço (que com o tempo passou a ser iniciativa dele) e passaram a ser comuns as deliciosas gargalhadas durante as atividades em sessão. O feedback da avó, agora também sorridente, dava conta de que o garoto estava ótimo, “estava de parabéns “, não havia recebido mais reclamações dele por parte da escola e que até em casa ele estava diferente. Então, uma vez sozinhos no consultório, perguntei ao Gui certo dia.

_ E aí, Gui, como estão as coisas na escola?

_ Tudo bem… agora tenho muitos amigos lá!

Finjo espanto e pergunto?

_Mesmo? Que coisa boa… Isso é bom?

_ Ah, sim! Muito melhor.

_ E o que mudou? Foram as pessoas lá ou…

Ele me cortou e se apressou em dizer:

_ Ha, não…  fui eu que mudei; eu não brigo mais com ninguém nem bato mais neles… antes, eu passava pelos meus colegas na sala e batia neles…

Interrompo pra entender melhor:

_ Batia como?

_ Quando eles “tava sentado” (sic), eu passava e dava um tapa na cabeça deles ou um negócio assim na orelha (e fez com os dedos gesto reproduzindo um peteleco)…

Interrompo novamente:

_ Uai, e para quê você fazia isso?

_ Ah, porque me dava vontade…

_ E agora?

_ Não. Eu não bato mais em ninguém… eu entendi que isso dói… eu não quero isso,  e agora eles são tudo meus amigos…

Corrigidas as condutas agressivas (e ajudou muito os parentes fazerem as correções apontadas como necessárias no ambiente familiar), a criança passou a ser aceita, a sentir-se integrada e gostou de receber respostas positivas às reações positivas dele.

Com esse breve relato quis demonstrar que por falta de educação, orientação inadequada e fraco reforço nas boas condutas, o menino vinha comportando-se de forma a vingar-se do carinho que lhe faltava ou se expressando sem freios sociais. Sendo ele uma criança muito mais carente de reforço, afetividade e reconhecimento que a maioria, buscou compensar-se por meio de uma vingança inconsciente.

Claro que nem sempre será tão óbvio nem tão fácil assim, mas existem muitos casos com essa configuração ou algo semelhante. Outro exemplo: atendi uma adolescente de 14 anos que vinha sendo sucessivamente expulsa das escolas por atos de desrespeito e rebeldia contra colegas e professores. Neste caso, tratava-se também de pessoa muito inteligente, sensível e carente de afeto, reforço e reconhecimento, mas que não sabia como conseguir isso. Uma clarificação convincente e boa demonstração das causas motivacionais da agressão e dos  seus prováveis resultados, levaram-na a observar-se melhor e a reconhecer-se como a responsável pelas coisas ruins que lhe aconteciam. Propus uma atuação oposta ao que ela sempre fazia, quando ocorreu um incidente com uma professora: admitir o erro, pedir desculpas e prometer não repetir a conduta. Ela conseguiu fazer o proposto e o resultado foi incrivelmente motivador para  que ela revisse todas as próprias condutas na escola e passasse a ter experiências positivas, compensadoras e agregadoras no ambiente escolar – como também em família.

Mais dois exemplos: uma mãe que desrespeitava as pessoas com agressões verbais e xingamentos diante da menor contrariedade. A filha copiou isso, em casa e na escola;  sofreu as consequências e a mãe procurou ajuda. Em outro, a criança contava episódios de erros dos colegas de escola, a mãe ia à direção para denunciar,  reclamar da criança mencionada, mesmo quando não envolvia a própria filha. O resultado foi que a menina adquiriu fama de delatora, de fofoqueira e foi excluída das conversas e brincadeiras. A mãe, então, passou a classificar os comportamentos dos colegas da filha como discriminação racial (porque a filha era mulata), mas na verdade nada havia de discriminação. Eram apenas respostas aos equívocos de ambas. Mostrei isso à mãe da criança e à menina, mas em vez de tentar entender os colegas da filha e mudar suas próprias condutas, como também orientar adequadamente a menina, ela optou por tirar a garota da terapia.

Já presenciei várias atitudes de crianças que podem ser consideradas tão somente como falta de educação, muitas vezes resultantes da falta de autoridade parental e/ou falta de repertório ou conhecimento para intervir corretamente e ensinar a criança a se comportar bem. “Pitis”, birras, atrevimentos banais muitas vezes são confundidos com TDAH, deficiência mental e até mesmo transtornos mais graves. E em outros casos, a falta de educação dos pais e dos menores agrava um quadro de real alteração psicoemopcional ou psiquiátrico.

E claro que existe todo um contexto que favorece esse quadro de deseducação das crianças, como por exemplo ausência dos pais, excesso de programação televisiva mais voltada para audiência do que para a educação, omissão dos adultos responsáveis,  isolamento na educação das crianças (antes as mães compartilhavam com muitas outras pessoas o educar dos filhos, com tias, tios, vizinhas, amigas, etc), .

Então, pode-se questionar os graves efeitos da falta de valorização dos antigos ensinamentos sobre boas maneiras e bons modos e, até mesmo, da falta de coerção sobre veículos de comunicação em massa que veiculam qualquer coisa em qualquer horário. Não necessariamente censura, mas algum freio, algum parâmetro faz-se necessário.

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