Terapeuta é restaurador de obras de arte

Ao assisti a um documentário sobre restauração de obras de arte, me dou conta da similaridade que há entre o trabalho de um restaurador de um quadro, uma escultura ou outra obra de arte e a prática da psicoterapia. Em ambos os ofícios o objetivo é restaurar algo sem afetar-lhe a essência, sem danificar sua configuração original. Nos dois casos é necessário boa formação técnica, ética, bom senso e muita sensibilidade.

Cesare Brandi, considerado um ícone da restauração de objetos de arte, descreve assim o trabalho do restaurador:  “o restauro deve se dirigir ao reestabelecimento da unidade potencial da obra de arte, sempre que isso seja possível sem cometer uma falsificação artística ou uma falsificação histórica, e sem apagar pegada alguma do transcurso da obra de arte através do tempo.”

Assim, o restaurador de uma pintura, por exemplo, terá que devolver as cores originais do trabalho, as linhas, os traçados e as delicadas representações constituintes do trabalho sem alterar nada, sem impor a própria percepção, isto é, sem julgar se aquele percurso do artista é ou não o melhor, apenas respeitando a obra do criador.

Do mesmo modo, o terapeuta deve preocupar-se com a unidade potencial do paciente (também uma obra de arte), sem falsifica-la, respeitando o transcurso singular do indivíduo sob seus cuidados. Obviamente, seguirá em direção oposta a isso todo aquele julgar, que desejar impor seus paradigmas, que não conseguir enxergar em cada paciente uma perfeita obra de arte do Grande Criador. Com intervenções equivocadas, em vez de reparar, de restaurar, poderá desconstruir a essência do ser que se desnuda diante dele.

Vale ressaltar que uma pessoa chega ao consultório de um psicoterapeuta quase sempre impulsionado por profundo sofrimento e enorme dificuldade de compreender o próprio funcionamento; como a obra de arte é levada para restauração quando lhe falta um pedaço ou foi-lhe alterado seu formato original face a qualquer contratempo e ou intempéries do tempo decorrido.

O transcorrer do tempo sobre as vidas, as sucessivas vivências dolorosas são também as responsáveis pelas alterações dos nossos pacientes, porque elas vão alterando a homeostase dos organismos. As sucessivas experiências adversas  (quando não traumáticas), aquelas consideradas intoleráveis pelo sujeito, se acumulando em núcleos de complexos psicológicos vão gradualmente alterando o equilíbrio original, atacando a autorregulação organísmica, minando o autossuporte e a autoestima, desconstruindo as escoras inconscientes, usadas pelo sujeito como sustentação remediadora diante de eventos catastróficos, reais ou imaginários (que deveriam ser temporárias, mas que se perpetuam e também alteram a formatação original do ser).

Ao terapeuta cabe o trabalho de reconhecer a configuração do paciente, ou intui-la ou abrir-se e criar condições ideias para que ela lhe seja revelada em confiança, e com essa proximidade fazer as intervenções sem que seu buril, pincel ou outras ferramentas alterem a compleição original.

Nos dois casos é preciso livrar-se dos preconceitos, das inclinações egoicas, das contratransferências, das projeções, da vaidade. Em vez disso, abrir-se para aceitar que o caminho escolhido pelo outro também foi um caminho certo; ou o caminho possível; que o outro também tem competência para fazer escolhas; que há razões ignoradas por quem vê de fora para algo ser da forma que é; e que cada ser nasce apto para percorrer o próprio caminhar, embora necessite, às vezes, de ajuda hábil.

Aceitar reparar, restaurar sem querer impor a própria marca exige, claro, humildade. E tanto mais feliz será a intervenção quanto mais humilde for o restaurador. Porque a competência, a habilidade para fazer algo melhora, se engrandece com o exercício da humildade, porque tanto o artista quanto o terapeuta devem saber colocar-se como instrumento dos deuses e jamais pretender ser um deles.

Por isso, se eu tivesse que escolher outra profissão, eu seria restauradora de obras de arte. Para o momento, sigo amando meu ofício, atenta à  enorme responsabilidade de manejar com cuidado minhas ferramentas de restauração de almas.

Restauradora de arte

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