Religião pode curar ou adoecer

As religiões estão adoecendo as pessoas. Essa afirmação é de um religioso, não minha. É de alguém com legitimidade para fazê-la, na medida em que conhece a fundo o assunto. Refiro-me ao Frei Vicente, um alemão radicado no Brasil há mais de 50 anos e que é também especialista em Psicanálise. Assisti a uma palestra de Frei Vicente este mês e saí do evento maravilhada ao ouvir de um religioso o que eu constato rotineiramente na minha prática clínica como psicoterapeuta: as religiões podem ser causa de transtornos psicológicos. Não a única, mas uma delas.

Mas este post  não é uma defesa do ateísmo; pelo contrário. Concordamos com Carl Jung quando ele afirma que o ser humano tem uma dimensão espiritual e atender às reivindicações da alma em relação a isso evita adoecimentos e favorece a caminhada evolutiva do ser, isto é, integra o processo de individuação da pessoa. O problema está na concepção e no exercício equivocado da religiosidade.

Pra começar a explanação, Frei Vicente explica a diferença entre espiritualidade e religiosidade. Espiritualidade é um movimento de dentro para fora; nasce do sujeito. Religião, ao contrário, é uma manifestação sociológica que vem de fora, de uma cultura e quer ser introduzida no sujeito. São duas coisas distintas. Na visão de Carl Jung, a necessidade autêntica do ser humano (do Si-Mesmo) é por espiritualidade, e não por religiosidade.

De acordo com Frei Vicente, as religiões surgiram de uma necessidade social. Ele explica: uma leitura cuidadosa do Velho Testamento leva à constatação de que 90%  das normas existentes lá são sanitárias. Isso mesmo: sanitárias, relacionadas à vida prática. E o problema disso é que as normas foram absolutizadas e a maioria das pessoas não consegue relativizar. As leis sociais são criadas com razoabilidade e adequadas aos povos de uma época, mas deixam de fazer sentido em outros contextos. Ou seja: o problema das religiões e dos religiosos é absolutizar. Predomina a seguinte dinâmica: o sujeito acredita que a Bíblia é a verdade e, não se  permitindo mudar nada, se submete às regras sociais impostas mesmo quando elas já não fazem sentido.

Bom, aí entra a participação dos religiosos equivocados e das religiões. Esse estado de coisas, ou seja, a obrigatoriedade de se observar uma regra que não faz sentido, só se mantém por meio da culpa, o mecanismo coercitivo do qual se servem os líderes religiosos para exercerem poder sobre as pessoas e, consciente ou inconscientemente, as adoecem. “As religiões se servem da culpa para manter a validade de uma regra que deixou de fazer sentido; Deus nada tem a ver com isso. Um indivíduo sem complexo de culpa manda a religião às favas”, disse Frei Vicente.

Então, a religião pode ser a origem de um transtorno de humor (ou afetivo), como depressão, e de transtornos neuróticos, como ansiedade generalizada e pânico, entre outros. Isso porque ao se exigir de um indivíduo um comportamento que não condiz com a necessidade real dele, esse indivíduo adoece tentando atender essa exigência externa. Frei Vicente afirma que a cada vez mais as religiões adoecem as pessoas porque tratam mais das questões morais e não das espirituais.

Em defesa das religiões, o psicanalista e religioso explica que a religião pode curar quando se coloca no seu limite, quando não quer ser onipotente. “Religião precisa ser entendida como um serviço, e não um serviço vindo de Deus, mas um serviço humano, criado para ampliar a personalidade da pessoa”, para ampliar a consciência, como dizemos em psicologia. “E quando a religião não se encontra com o momento social em que vivemos, não é o caminho, é apenas um paliativo de efeito temporário”, acrescenta Frei Vicente. E como ocorre com as doenças do corpo, tomando analgésico a doença se alastra. Então, a religiosidade mal interpretada e mal vivenciada pode piorar a enfermidade da alma de uma pessoa porque, anestesiado, o indivíduo não sente dor (ou sente menos) e portanto não vai em busca da cura genuína, isto é, da evolução do seu espírito eterno, da autorresponsabilização quanto ao que lhe ocorre, da reforma íntima. É justamente por isso que os ansiolíticos e antidepressivos não curam e não substituem o trabalho analítico (ou até mesmo autoanalítico, para quem dá conta) necessário à resolução definitiva das questões individuais do ser humano.

Para finalizar, Frei Vicente afirma: a pessoa pode viver sem religião, mas não pode ser plena sem vivência espiritual. Esse pensamento é totalmente junguiano!

 

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Um comentário sobre “Religião pode curar ou adoecer

  1. O artigo é bom, mas precisa ser mais aprofundado. Também não concordo que religião e religiosidade sejam sinônimos, religiosidade no meu entender é o exercício da espiritualidade, enquanto que a religião é dogmática a religião é fracionante e em alguns casos segregadora.

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