Alienação parental: um perigo real para o desenvolvimento das crianças

Miguel (nome fictício) chega ao consultório, aos 16 anos, com sintomas de depressão,  marcas de  autoagressão (neste caso, pequenos cortes na barriga), dificuldade de interação social e pensamentos e desejos recorrentes de matar pessoas (agressividade contida). Ele vinha sendo vítima de alienação parental. Separada do marido e com muitas queixas e mágoas contra ele, desde a separação passou a difamar o pai aos olhos e coração do filho. No entanto, conquanto fossem  legítimas as queixas dela, o homem era bom para o adolescente e o filho gostava dele. Estava instalado o conflito interno, causa subjacente de todos os transtornos dele, fonte de inenarrável sofrimento psicoemocional. Ele não é exceção. Não inúmeros os casos.

A alienação parental é considerada uma forma de abuso emocional contra a criança porque efetivamente os prejuízos sobre o desenvolvimento dela não são poucos nem insignificantes; ao contrário. Pode ser causa de várias alterações na saúde das crianças, com os males se estendendo pela adolescência e vida adulta. Pode ser causa de muitos transtornos psicológicos e psiquiátricos, entre eles depressão, transtorno de personalidade dependente, neuroses e até psicoses, sendo também origem de desatenção e hiperatividade, com os consequentes problemas na escolarização.  A alienação parental é uma espécie de campanha de difamação por parte de um dos genitores contra o outro  genitor, normalmente o que não tem a guarda, entre outras razões por medo de que a afetividade entre a criança e o outro genitor resulte em perda da guarda. É um esforço continuado para programar na criança o sentimento de rejeição, de abuso  e até medo por parte da criança em relação a uma figura parental. Teoricamente costuma ser dividido em três estágios: leve, moderado e severo.

Nesse último estágio, as intervenções reparadoras são muito mais difíceis e dolorosas para todas as partes, sendo o ideal evitar que a alienação parental seja praticada ou, quando ela já ocorre, evitar que avance para grau mais complicado. Em alguns casos, no estágio severo, é preciso transferir a guarda para o outro genitor, em um meticuloso processo de adaptação com a criança no novo lar e afastamento do alienador.

Particularmente, defendo que no manejo do problema não bastam medidas coercitivas e punitivas contra o adulto alienador, na maioria dos casos a mãe, porque historicamente a Justiça brasileira adotava por regra quase geral deixar a criança com a mãe. Defendo que a pessoa que está colocando um filho contra o outro genitor está muito doente e precisa de ajuda. Tanto quanto a criança, a mãe ou o pai que estejam recorrendo à alienação parental estão severamente adoecidos das emoções. Isso porque a separação pode ser evento detonador de muitos complexos psicológicos, com reações que incluem sentimento de menos valia, rejeição, baixa autoestima, desejo de vingança, muita raiva (contida e inconsciente ou manifesta), competitividade patológica, inseguranças e ciúme doentio. Em muitos casos, a pessoa já tinha dificuldades de ordem emocional ou psicológica antes da separação e até mesmo antes da união conjugal. Com o fim da relação, ocorre o que chamamos em Psicologia Analítica de constelação de complexo. As medidas punitivas e/ou apenas coercitivas, em qualquer dos estágios, podem apenas amenizar o problema e não proteger efetivamente a criança porque, adoecida, a pessoa continuará prejudicando o desenvolvimento do menor. Qualquer pai ou mãe que esteja praticando alienação parental precisa ser encaminhado para tratamento psicoterápico e, em casos mais graves, também psiquiátrico.

Toda criança precisa se sentir protegida, amparada porque efetivamente crianças são frágeis.  O sentimento de desamparado, vivenciado por bebês ou crianças, pode levar a graves adoecimentos psicológicos. Então, vejamos: uma criança ser convencida de que o pai, por exemplo, a quem ela ama, em quem confia e em quem se apoia é um monstro, uma pessoa capaz de lhe fazer mal, resultará em profundo sentimento de desamparo, desconstrução do incipiente processo de autossuporte, além do conflito citado acima: gosto do meu pai, mas ele é ruim pra minha mãe, minha mãe diz que ele é perigoso… Quais são as chances de uma criança vivenciar e elaborar isso internamente da forma correta e sem danos? Quase nenhuma. Dessa forma, podemos enxergar a alienação parental como uma reação sintomática de grave adoecimento psicoemocional por parte do alienador. Isso porque, salvo raríssimas exceções, nenhum pai, nenhuma mãe deseja prejudicar seus filhos.

No caso citado acima, desde o primeiro momento ficou claro o adoecimento da mãe e o nível de desequilíbrio dela. A alienação parental vinha sendo praticada por mais de oito anos! Após as devidas intervenções, que incluíram encaminhamento da mulher para terapia e reaproximação do  adolescente com o pai, o jovem começou a recuperar o funcionamento normal, com redução da ansiedade e fim dos pensamentos de auto e heteroagressão. Foi um momento muito gratificante vê-lo sorridente ao contar que agora tinha muitos amigos e amigas na escola e que não se sentia mais um psicopata, um esquisito, como recorrentemente ele ouvia de outros alunos nas escolas por onde passava. Também estava com uma inesperada disposição para evitar a reprovação ao fim do ano  na escola. Antes, ele chegou bem perto de cometer um ato de graves consequências –  porque tinha introjetado que era todas aquelas coisas ruins. Fazê-lo perceber-se como realmente é, um adolescente como os outros, saudável e ainda em desenvolvimento, foi trabalho árduo, mas a meta foi atingida, o que o faz perceber-se, agora, capaz de ser feliz.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s