Uma reflexão sobre a honestidade

Um paciente adolescente de 14 anos contou-me o seguinte fato: “Meu irmão viajou pro Chile na semana passada; uma noite ele foi jantar com a mulher dele num restaurante e esqueceu o celular no banheiro. Eles foram embora e meu irmão só se lembrou do telefone quando estava no hotel; pegou um táxi, voltou ao restaurante e foi ao banheiro procurar o telefone dele… encontrou no mesmo lugar!” Eu perguntei a ele. “Que nome se dá a isso?” Ele respondeu-me em tom interrogativo: “Honestidade?”. Pulei na cadeira de satisfação! Ele havia entendido. “Sim! Isso  mesmo! Honestidade!”.  Esse rapazinho tinha sido encaminho à terapia pela escola. Queixa: transtorno de conduta. Entre os comportamentos denunciados estava o de furtar objetos dos colegas e, em casa, pegar dinheiro da mãe sem autorização; mentir; brigar com frequência; não render nas atividades escolares e ser muito inquieto. Seguindo a onda vigente, a escola o tinha diagnosticou como TDAH e  pedia aos médicos prescrição de  Ritalina. Vou abster-me de comentar isso – que muito me irrita – porque tenciono entrar em outro tema.  Neste caso, o conflito interno subjacente a todas as alterações emocionais e comportamentais tinha origem na dinâmica familiar – desestruturada ao extremo. O pai estava preso por fraude e outras contravenções graves. Ganhava muito dinheiro cometendo crimes e desrespeitando as leis, pecando contra a HONESTIDADE.  A mãe, ao contrário, era correta e temia que o filho seguisse os passos do pai. Mas os comportamentos neuróticos dela tiravam-lhe grande parte da autoridade como referência de certo e errado. Na cabecinha dele, ouvir a mãe dizer coisas como “não pegue o que não é seu” ou “não quero ver você fazendo coisas erradas”  soavam-lhe  contraditórias porque o pai fazia o contrário. Na minha frente o pai jurava que não o aconselhava a ser desonesto nem a transgredir, no que acredito, mas na educação de crianças não vale aquela diretriz “faça o que eu mando, não faça o que eu faço”. De jeito nenhum; o exemplo educa melhor que os comandos verbais. Então, o garoto estava sempre confuso, dividido, em conflito inconsciente.  Gastei muitas sessões tentando dar sentido ao discurso da mãe, clarificando o tipo de vida que ele teria caso escolhesse um ou outro caminho, dando exemplos de pessoas íntegras e honestas, relatando experiências minhas em outros países que mostravam como agiam as pessoas honestas e reforçando a importância de ele ter um PROJETO DE VIDA construído em bases éticas e legais . Bom, pra encurtar a conversa, digo que muita água rolou sob  a ponte: o pai morreu assassinado por outros bandidos; ele cresceu física e psicologicamente;  amadureceu com as experiências;  viu-se começando a entrar no mundo dos adultos, com as mudanças do corpo,  e foi mudando; gradualmente passou a adotar comportamentos compatíveis com um futuro melhor do que a vida que o pai tivera. Quando me contou o fato acima, o trabalho da mãe e o meu estavam quase concluídos.

Menciono esse episódio  para falar de algo que esteve em destaque esta semana, aliás, nos últimos anos no Brasil: a falta de HONESTIDADE. A maior parte das mazelas deste país decorrem da ausência desse traço de personalidade.

Vamos abrir um parêntesis para conceituar a palavra. Honestidade é a qualidade de ser verdadeiro: não mentir, não omitir, não fraudar, não enganar, não dissimular. Honestidade é a obediência incondicional às regras morais existentes. Ou seja, a pessoa honesta leva em conta os valores da Justiça e da Verdade. Etimologicamente vem do latim honos, que remete à dignidade e honra. Um indivíduo honesto repudia a mentira, a malandragem, o desejo de levar vantagem passando por cima de qualquer coisa ou dos interesses e direitos dos outros.  A honestidade não pode ser baseada na vontade dos indivíduos; ao contrário: um ato honesto se suplanta a qualquer tipo de intenção pessoal e se apoia na verdade. Não pode ser honesto quem se orienta por seus próprios interesses, alheio aos direitos dos outros ou às consequências do ato sobre os outros.

A formação da personalidade de um indivíduo sofre influências do meio social e ambiente familiar, isso já é sabido. Em um país em que predomine a diretriz do “quero é me dar bem, “é importante ser esperto”, “você vale o que possui, independentemente de como consegue”, as crianças estão crescendo e os adultos agindo apoiados na crença de que  honesto é  sinônimo de otário e/ou careta. E mais, em prevalecendo a impunidade toda vez que um indivíduo desrespeita uma lei ou regra, passa a vigorar a ideia de que ele pode fazer o que atender aos seus próprios interesses, em detrimento do coletivo. Isso em escala coletiva forma um povo desonesto de forma generalizada, como parece ser ou estar o povo  brasileiro, salvo poucas exceções que não se deixam levar pela onda.

Diariamente vejo brasileiros desrespeitando regras fundamentais, como códigos de ética e penal,  mas também as mais básicas, como filas de supermercado ou regras de estacionamento. E até mesmo coisas bem mais simples que poderiam facilmente ser atribuídas à falta de educação, mas que vão além disso,  e parecem ser um comportamento automatizado, um impulso (adquirido por aprendizagem) para transgredir.

Esta semana vimos (escandalizados) um magistrado usar indevidamente os  bens de um indivíduo acusado pela Justiça de ser transgressor (a ordem de apreensão dos bens fora expedida por esse mesmo magistrado!) . Quem deveria dar exemplo de honestidade não resiste ao desejo de ser visto dirigindo um carro de milionário e transgride. Diante dessa aberração, emerge nas redes sociais o questionamento “quem rouba de ladrão tem cem anos de perdão?”.  Essa distorção imoral me faz lembrar outra ideia equivocada: “achado não é roubado”. Digo sempre aos meus jovens pacientes que NÃO: achar e pegar algo alheio que foi esquecido ou perdido é FURTAR, porque se a coisa for deixada onde está, o verdadeiro dono volta e a pega. E apropriar-se do que não me pertence continua sendo furto ainda que eu tenha encontrado o objeto distante do alcance do verdadeiro dono.

O escândalo de corrupção da Petrobrás é o exemplo de desonestidade elevada à enésima potência! A corrupção, em si, é a consequência mais concreta da falta de honestidade. Uma máquina pública desonesta, um Estado corrupto,  isto é, uma liderança pública com dirigentes,  líderes nomeados para trabalhar pelo bem coletivo que se afastam desse propósito e, em vez disso, agem com desonestidade, promove o sofrimento e a má qualidade de vida das pessoas. Em uma palavra: um Estado corrupto MATA pessoas diariamente; de fome, de sede, por falta de remédios, falta de postos de trabalho,  por carência de ensino de qualidade ou por excesso de violência urbana, entre outras consequências.

Com uma Nação inteira se orientando pela desonestidade, pela falta de ética e de integridade moral, que tipo de pessoas serão eleitas em funções representativas?

Temos veículos de comunicação de massa, formadores de opinião em larga abrangência,  desconstruindo valores sociais importantes para a vida em coletividade, destruindo conceitos que são bases da Vida, como a família e a integridade moral. E esses agentes destrutivos do bem coletivo seguem ilesos, impunes como se o Brasil fosse “terra de ninguém”, país sem leis ou parâmetros ético-morais. Eles tudo querem e tudo podem; tudo fazem que redunde em audiência e/ou lucro e nada sofrem. Ao contrário: quem deveria julgar e punir os abusos, os representantes do povo, já estão eles próprios  contaminados pelas influências desses veículos midiáticos e escorregam rotineiramente na lama da indecência e da desonestidade. A líder-executiva maior do País, a presidenta, hoje fala uma coisa que amanhã se revela uma inverdade; promete aqui o que vai ignorar acolá.  Os legisladores, sustentados a pão-de-ló à revelia dos brasileiros, trabalham mais  em causa própria e construindo uma redoma protetora contra seus erros e assegurando a adoção de medidas contra os interesses do povo e do País. Ou seja, nossos Três Poderes estão mergulhados na mais fétida  e gosmenta lama da desonestidade, falta de ética e imoralidade.

O que pode salvar este país? O que pode dar qualidade de vida à população dessa enorme Nação com tanta gente nefasta, destrutiva atuando impunemente? Acredito ser necessária, em caráter de urgência, uma reforma moral ampla. Mas de quem partiria tal iniciativa? Não tenho resposta para essas e outras inquietações diárias relativas aos rumos da sociedade brasileira, aos rumos do Brasil.

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