Viver sem mentir

Encontrei em um livro  algo que sempre pensei e repeti para explicar minha aversão a mentiras e qualquer tipo de falseamento da verdade:

 “Só vemos Jesus usar expressões veementes quando se dirigiu aos hipócritas, aos sacerdotes, aos escribas e às autoridades venais que escorchavam o povo. Nunca, porém,  vemos o sublime Mestre abatendo o ânimo dos pecadores.” (Trecho do livro NAS PEGADAS DO MESTRE, de Vinícius, Ed. FEB, RJ, 1982, p. 205). Em Psicologia Analítica trabalhamos com o conceito de “Sombra” (aspecto de nossa personalidade negado por ser considerado indesejável ou negativo – equivale, em certa acepção, aos nossos pecados, em termos religiosos). A Sombra é um aspecto de nosso Eu profundo, do nosso Si- Mesmo que precisa ser integrado (e nunca negado como pregam alguns preceitos religiosos). Negar a própria sombra é fugir da evolução, da individuação; é acovardar-se na mentira e no fingimento; é postergar ação que necessariamente terá que ser adotada, cedo ou tarde. O espírito é eterno e o sentido da vida é a evolução. Fugir desse propósito é causa de doenças e muitos sofrimentos, impostos a si mesmo e às pessoas do nosso convívio. É também medida improfícua. Transcrevi o trecho acima, que reflete ensinamento do Evangelho de Jesus, para explicar que Deus (ou o Numinoso) não espera de nós a negação de nossas limitações, de nossos pecados, ao contrário. Deseja Ele que, em  reconhecendo nossa Sombra, possamos integrá-la e evoluir, atingir a individuação (o que equivale a alcançar a salvação, em termos religiosos). Somos todos formados por polaridades: somos o Bem e o Mal, o Certo e o Errado, a Luz e a Sombra… entre outras. Quando Jesus sapecou fogo na figueira que lhe negou alimento ou quando teve um acesso de fúria e expulsou os vendilhões do templo, Ele estava agindo como um ser humano, embora fosse (e seja) Ele incalculavelmente mais evoluído que qualquer um dos homens que já viveu na Terra. Isto é, Ele estava sendo invadido pela Sombra e demonstrando sua natureza humana (posto que estava encarnado como homem). Ora, se Ele, que é Perfeito, reconhece e acolhe seus aspectos sombrios, porque teríamos nós, imperfeitos em demasia e longe da individuação, que negar nossas polaridades indesejadas? Não. O caminho da hipocrisia, do fingir algo que não se é ou não se faz, é atraso na caminhada evolutiva; é fraqueza a ser combatida. Além disso, se vivo uma felicidade falsa e  me contento com isso, apregoando ao mundo que “sou feliz”, sou isso ou aquilo, mesmo sem o ser,  posso eu reclamar de Deus a verdadeira felicidade sem nada fazer para alcança-la? Ou posso reivindicar status de alma evoluída sem me esforçar na conquista da verdadeira evolução? Posso enganar a mim mesma e talvez a alguns poucos incautos, mas nunca à Vida. De modo geral é o medo da Verdade, o receio de olhar nas águas profundas de si mesmo o que faz as pessoas se esquivarem de psicoterapia analítica – a ponto de chegarem a somatizar doenças. Em verdade, sou forçada dia a dia  a reconhecer a coragem que tem cada um dos meus pacientes de análise: estão à minha frente com plena disposição para despir-se das ilusões sobre si mesmos, desejando reformar-se e, modificando a si mesmos, refazer trajetos e rever escolhas. Não raro precisam admitir terem perdido muito tempo com ilusões. Mas o consolo quanto ao tempo perdido é que cada um só faz o que consegue; só vai aonde pode, só enxerga longe quando está pronto para ver. Cada um tem seu próprio tempo e sua própria capacidade. Sou impulsionada rotineiramente a reconhecer e expressar que pacientes de análise são pessoas admiravelmente CORAJOSAS. Já ouvi de uma paciente a seguinte frase “às vezes eu saio daqui (do consultório) cambaleando, sangrando com o que você me disse ou com algo que eu percebi; dói, mas eu sei que é uma dor necessária e quando ela passa surge algo incrivelmente novo em mim, me percebo mais forte e mais autêntica”. É certamente algo emocionante de se ouvir. E gratificante. Porque é a obtenção da meta: o autoconhecimento e a autotransformação a partir da ampliação da consciência. Finalizando, apenas desejei expressar neste texto minha aversão a todo tipo de mentira e, ao contrário, minha absoluta e incomensurável admiração pelas pessoas que conseguem viver em verdade.  

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