Crianças com transtorno de conduta pagam pela falta de autoridade dos pais

Tenho atendido muitos casos de crianças e adolescentes com Transtorno de Conduta. Esses menores apresentam comportamentos violentos e agressividade desarrazoada. Debocham das regras, não têm limites nem respeitam ninguém. A frase comum entre eles é “tô nem aí”. Claro que carregam um sofrimento interno, uma angústia profunda, aparentemente comum entre as pessoas que não enxergam sentido na vida.  Nenhum deles  têm um projeto de vida ou um sonho que dê sentido à luta pela existência.  Alguns sofrem privações materiais e frustrações fortes desencadeadas, talvez, pelos  apelos consumistas da TV e das ruas. Complexos psicológicos são muitos e pensamentos disfuncionais com distorção da realidade, idem. Têm percepção reduzidíssima acerca do próprio potencial para construir algo positivo seguindo o caminho do bem, agindo conforme as leis e as normas sociais. Afeto verdadeiro quase sempre é coisa rara, mas o que mais é recorrente eles é a ausência de autoridade parental, inexistência de uma figura protetiva que cuide e ao mesmo tempo dê limites, mostre que é preciso respeitar as leis e os direitos das outras pessoas. Ao  investigar a dinâmica familiar, em todos os casos que atendi, me deparei com pais, mães  e/ou os avós que não sabiam ser assertivos, que deixavam os menores acreditar que mandavam na casa, que eram os “reis” do universo deles, que podiam fazer qualquer coisa. Um dos resultados disso é que eles não aprendem a lidar com a frustração, têm o que chamamos tecnicamente de “baixa tolerância à frustração”. Já ouvi de um deles, um paciente de 11 anos que agredia a mãe e o pai, em público e em casa, que o pai não gostava dele. Era um garoto cujo pai lhe dava tudo que ele pedisse e não ousava dizer não a nenhuma das solicitações dele – “pra evitar confusão”, explicou-me o pai, que tinha aspecto físico de muita fragilidade, voz excessivamente mansa e dava a impressão de estar pedindo ao mundo desculpas por existir.  Na presença desse pai, o garoto se comportava de forma mais desafiadora e desrespeitosa com quem estivesse perto e principalmente com o próprio pai. Por que? A percepção interna dessa criança era de que se o pai o deixava fazer coisas erradas era porque não se importava com ele; não gostava dele, portanto.Essa criança acabou sendo internada em uma unidade psiquiátrica para ser “contida”. E sofrendo muito, claro.  Isso me leva a várias reflexões, entre elas a de considerar uma grandessíssima tolice a tal “Lei da Palmada”. Não sou a favor de surras abusivas ou de violência contra crianças. Muito pelo contrário.  Quando a mãe ou o pai tem autoridade (o que é diferente de autoritarismo e despotismo), basta um olhar duro para a criança entender quando não deve fazer algo.  No entanto, se isso não existir (e a criança testa os adultos, sonda até onde ela pode ir) e, sobretudo, se a criança tiver índole difícil, é um verdadeiro desafio descobrir a dose certa da punição, o caminho adequado para corrigir um desvio de conduta, mas só conversa  raramente funciona. Certa vez ouvi na palestra de um educador chinês sobre educação rigorosa a seguinte frase: “quando meu filho erra, eu tenho que corrigir ele; quando o erro é grave e eu já havia conversado com ele e ensinado a forma correta de agir e mesmo assim ele repetiu o erro, eu  preciso ser mais duro; e quando meu braço o surra, meu coração dói, mas eu me lembro de que se eu não bater, a polícia vai bater; e a polícia não vai puni-lo com  cuidado e amor como eu faço”. A Lei da Palmada é um equívoco porque tenciona retirar dos pais o direito de corrigir com mais rigor as excepcionalidades, as situações de exceção  que pedem ações excepcionais. Quando o  pai deixa passar a hora certa de corrigir e impor limites e bons comportamentos aos filhos, conversas, explicações ou retirada de coisas que a criança valoriza podem ser insuficientes para motivar a mudança de conduta. O acúmulo de falta de autoridade pode pedir ações mais autoritárias e os pais precisam ter o direito de recorrer a isso, quando necessário. Caso contrário, toda a sociedade será vítima dos abusos desses indivíduos mal educados, mal orientados. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) certamente trouxe avanços na defesa aos direitos das crianças. No entanto, apresentou um resultado indesejado e grave, sobretudo nas escolas e pede revisão: retirou a autoridade dos professores sobre os alunos e transformou a sala de aula em espaço para impunidade e desrespeito de alunos contra colegas e contra os professores. Claro que professor não pode bater em alunos, mas há que se pensar em mecanismos que devolvam a eles a autoridade de antes e que desestimulem as condutas desrespeitosas e agressivas tão comuns nas escolas atualmente. Alguns, os mais usados –  me contou uma professora – chegam a dizer à professora com ar ameaçador diante de erro deles: ”você não encosta a mão em mim; eu conheço os meus direitos;  você leu o ECA? eu processo você”.  A ausência de autoridade parental é causa da maior parte dos casos de transtorno de conduta, excluídos os casos de transtorno psiquiátrico, claro. E quando essa fragilidade dos pais, das mães ou dos avós que cuidam vem associada a abandono de um dos genitores, sendo a gênese de complexo materno ou paterno, o quadro se agrava muito. Atender a esses casos é trabalho quase sempre quintuplicado; porque é preciso atender a criança, o pai, a mãe e os avós envolvidos (ou madrasta e outros responsáveis). E no fundo,  eu acredito, tudo que  as crianças precisam é de adultos  saudáveis e responsáveis cuidando delas de forma correta, sensata e equilibrada. Parece pouco, mas é absurdamente raro encontrar casais que alcançam essa fórmula – principalmente nos modelos de família e contexto sócio-econômico atuais.

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