Superproteção parental pode adoecer filhos

Mães ou pais superprotetores podem adoecer seus filhos.  Estudos sugerem que cuidados parentais superprotetores e autoritários, isoladamente ou em combinação, estão associados à probabilidade maior de uma criança apresentar dependência problemática na adolescência ou na vida adulta; tecnicamente falando, o nome correto é Transtorno de Personalidade Dependente (TPDP).  “Cuidados parentais superprotetores ensinam às crianças que elas são vulneráveis e fracas e que não podem sobreviver sem a proteção de cuidadores poderosos” ( Robert Bornstein, in O’Donohue, 2010, p. 301). Bem resumidamente essa alteração na saúde psicológica e emocional decorre de a criança desenvolver a representação mental de si mesma como sendo fraca e incapaz. Errar e acertar, cair e levantar, testar-se e descobrir as próprias habilidades são necessidades da criança ao longo do desenvolvimento, desde a idade mais tenra. Por distorção do que seja amor materno/paterno ou “cuidados amorosos”, muitos pais e muitas mães se excedem e tornam-se INVASIVOS;  “é por amor”, garantem. Mas na verdade as motivações subjacentes das figuras parentais costumam ser outras bem diferentes, e na maior parte dos casos são inconscientes. Podem ser projeção da própria insegurança, ímpeto pra compensar a falta de sentido da própria vida, desenvolver em alguém a dependência de modo a tornar-se imprescindível, neuroses de vários tipos e justificativa para fugirem da meta de se dedicarem  ao próprio desenvolvimento – intelectual, material, emocional, psicológico e até espiritual no sentido puro, entre muitas outras possibilidades – mas nunca por amor; porque o amor implica em preservar a liberdade do outro de ser quem é, no caso dos pais, de preferência ensinando os filhos a terem autonomia e a não dependerem de ninguém, nem mesmo deles, mãe e/ou pai.

Claro que todo ser humano apresenta algum nível de dependência de outras pessoas, mas esse transtorno refere-se a um tipo patológico, excessivo de dependência psicoemocional e até material, em alguns casos. A seguir, alguns sintomas de TPDP, de acordo com o DSM-IV, que é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Organização Mundial de Saúde (OMS):

  1. Dificuldade  em  tomar decisões cotidianas sem aconselhamento e reasseguramento excessivo.
  2. Necessidade de que os outros assumam a responsabilidade pela maior parte das áreas importantes da sua vida.
  3. Dificuldade em expressar discordância.
  4. Dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas por conta própria.
  5. Chegar a extremos para obter cuidados e suporte.
  6. Ficar desconfortável e desamparado quando sozinho.
  7. Procurar urgentemente outra fonte de apoio quando um relacionamento importante termina.
  8. Preocupação irrealista sobre o medo de deixar de receber cuidados de alguém.

A pessoa deve apresentar pelo menos cinco dos oito critérios  relacionados acima para ser diagnosticado como portador de DPDP.

Na prática clínica, o que se observa que pode ser acrescentado a esses critérios? A pessoa torna-se ciumenta e possessiva. Na relação conjugal, o investimento é para controlar o cônjuge de modo a que ele/ela  aja sempre dentro das expectativas e necessidades da pessoa com TPDP – para que ela não sinta a aparente ou ilusória sensação de segurança ameaçada. Sofrem de modo assustador ao pensar na perda, morte, separação das pessoas significativas – porque sentem-se incapazes de viver por conta própria.  No caso de filhos, mesmo na idade adulta e embora estejam casados e com os próprios filhos, mantêm vinculação patológica com as figuras parentais. Tive uma paciente que chegava a ligar mais de dez vezes diariamente para a mãe que morava em outro estado – e estranhou que a terapeuta considerasse isso excessivo, afirmando: “eu gosto de conversar com minha mãe e me preocupo em saber se ela está bem… isso não tem nada demais”. Mas ao longo do processo terapêutico, reconheceu a dependência envolvida nisso. Insegurança paralisante, falta de confiança em si mesmo(a) para qualquer desafio, condutas controladoras , tendência à depressão e, em casos mais graves, com tendências suicidas são aspectos registrados em indivíduos com esse transtorno. Mais: “indivíduos com TPDP são incapazes de tomar decisões por eles mesmos, são frequentemente submissos, sempre precisam de tranquilização e não conseguem funcionar bem sem alguém que cuide deles” (Gabard, 2006, p. 437).  Já atendi adolescentes com comportamentos de retardado mental (sem o serem).  Tive um paciente adolescente que teve uma crise de medo paralisante em uma situação de teste (filho de mãe muito invasiva, do tipo que não deixava o adolescente chegar a sentir sede por se antecipar oferecendo a ele água; escolhendo as roupas que ele iria usar, mesmo após a puberdade); outro caso: um rapaz de 28 anos de idade que sofria profundamente, a ponto de somatizar doenças autoimunes, quando surgia qualquer situação que lhe exigia uma decisão.

Em pessoas com DPDP são centrais nos processos internos os pensamentos automáticos relacionados à dependência (autodeclarações reflexivas que refletem a falta de competência percebida pela pessoa). Esses pensamentos automáticos são acompanhados por autodeclarações negativas ou seja, monólogos internos autodepreciativos nos quais as pessoas dependentes reafirmam  várias razões se perceberem sem competência ou habilidade para agir por conta própria ou para fazer bem qualquer coisa. Conforme descreve Robert F. Bornstein ( in O’Donohue, 2010, p. 300), “os pensamentos e as autodeclarações negativas se combinam para criar um viés atributivo persistente que reforça a sensação de vulnerabilidade e fraqueza da pessoa. Segue-se um ciclo vicioso no qual cada novo desafio desencadeia um conjunto de respostas cognitivas que exacerbam os sentimentos de desamparo da pessoa dependente; conforme a sensação de desamparo da pessoa aumenta, cada novo desafio parece ainda mais insuperável”.

A premissa básica da perspectiva comportamental é de que as pessoas com DPDP apresentam comportamentos dependentes porque esses comportamentos são recompensados, foram recompensados ou o indivíduo percebe que provavelmente trarão algum tipo de recompensa  (comportamento aprendido no contexto de  dependência da criança com a mãe ou com o pai). Na medida em que a busca por ajuda e apoio é recompensada pelos cuidadores primários, a criança em desenvolvimento terá mais chances de exibir essas respostas em outras interações sociais, ou seja, o reforço intermitente do comportamento dependente propaga a dependência problemática em adultos e crianças.

A explicação psicodinâmica, de acordo com Gabard, é semelhante: “um padrão global de reforço dos pais para a dependência ao longo de todas as fases do desenvolvimento”(2006, p. 438). E mais: “muitos dos  pacientes cresceram com pais que, de uma forma ou de outra, comunicavam que a INDEPENDÊNCIA era carregada de perigo. Eles podem ter sido sutilmente recompensados por manter lealdade a seus pais, que pareciam rejeitá-los diante de qualquer movimento em direção à independência ” (Gabard, 2006, p.438).

A motivação central dos pacientes com TPDP é na obtenção e a manutenção das relações de conforto e apoio. E o apego dependente com frequência mascara a agressão. A conduta dependente também pode ser uma forma de evitar a reativação de experiências traumáticas do passado.

O Transtorno de Personalidade Dependente pode aparecer associado a outros transtornos, como transtorno bipolar, depressão maior, transtornos de ansiedade e transtornos de alimentação (obesidade, anorexia, bulimia). Em alguns casos essa patologia é confundida com Transtorno Borderlaine. Para diferenciar as duas patologias, há um aspecto a ser considerado: o paciente com borderline  reage ao abandono com raiva e manipulação, enquanto o paciente dependente torna-se submisso e apegado.

Finalizando, destaca-se o seguinte: sob a alegação de cuidar excessivamente por amar demais, as figuras parentais adoecem seus filhos! Tiram-lhes a possibilidade de serem indivíduos autônomos, independentes e felizes. Pode haver resultado pior da paternidade ou da maternidade?

Referências

Baker, Jeffrey D., Capron, Earl W. & Azorlosa, J. (1996). Family environment characteristics of persons with histrionic and dependente disorders. Journal of Peresonality Disorders.

Gabard, Glen O. *2006). Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica (4ª ed.). Artmed, Porto Alegre (RS).

O Donohue, Katherine A. Fowler & Lilienfeld, Scott. (2010). Transtornos de Personalidade em direção ao DSM-V. Ed. Roca, SP.

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