TPOC (por Gabard) – Compreensão psicodinâmica II

Continuação do post anterior:

“Apesar dos esforços dos pacientes com Transtorno de Personalidade Obsessivo Compulsivo (TPOC) para serem submissos,  ponderados e complacentes, o medo de que possam isolar os outros se torna  com frequência uma profecia autorrealizável. A conduta obsessivo-compulsiva tende a irritar e exasperar aqueles que entram em contato com ela. Entretanto, a pessoa que apresenta o comportamento pode ser percebida de maneira um pouco diferente, dependendo do poder diferencial na relação. Os indivíduos com TPOC são considerados dominadores, hipercríticos e controladores pelas pessoas a eles subordinadas. Para seus superiores eles podem parecer agradáveis e obsequiosos de uma forma que soa falsa. Ironicamente, a aprovação e o amor que eles buscam é enfraquecido, e as pessoas  com TPOC se sentem cronicamente não-estimadas à medida que trabalham da sua própria forma torturada para ganhar a tão desejada aprovação por parte dos outros.

As pessoas obsessivo-compulsivas também são caracterizadas por uma busca de perfeição. Elas parecem possuir uma crença secreta de que, se puderem pelo menos alcançar um estágio transcendente de perfeição, irão finalmente receber a aprovação e a estima dos pais que lhe faltaram quando crianças. Essas crianças com frequência crescem com a convicção de que simplesmente não tentaram o suficiente e, como adultos, sentem cronicamente que não estão fazendo o suficiente. O pai ou a mãe que parece nunca estar satisfeito é internalizado como um superego severo que espera mais e mais do paciente. Muitos indivíduos obsessivo-compulsivos tornam-se viciados no trabalho por serem inconscientemente guiados pela convicção de que o amor e a aprovação podem ser obtidos apenas por meio de esforços heroicos para alcançar extraordinário destaque na profissão escolhida. Entretanto, a ironia nessa busca de perfeição é que as pessoas obsessivo-compulsivas raramente parecem satisfeitas com quaisquer de suas realizações. Elas parecem mais guiadas por um desejo de obter alívio de seu superego atormentador do que por um desejo  genuíno de prazer.

Esses fundamentos dinâmicos levam a um estilo cognitivo característico. Enquanto os pacientes histéricos e histriônicos tendem a supervalorizar os estados afetivos à custa de pensamento cuidadoso, o inverso é verdadeiro para as pessoas obsessivo-compulsivas. Da mesma forma que o Sr. Spock de Jornada nas Estrelas, os indivíduos obsessivo-compulsivos buscam ser inteiramente racionais e lógicos em tudo o que fazem. Eles temem qualquer situação de emoção descontrolada, e sua tendência mecanicista de ser totalmente sem afeto pode levar aqueles que estão à sua volta a não dar atenção a eles. Além disso, seu pensamento é lógico dentro de certos parâmetros limitados. Seus padrões de pensamento podem ser caracterizados como rígidos e dogmáticos. Dinamicamente, essas qualidades podem ser compreendidas como compensações da dúvida e ambivalência subjacentes que inundam a pessoa obsessivo-compulsiva.

Em contraste com o estilo cognitivo do histérico, o do indivíduo obsessivo-compulsivo envolve a atenção cuidadosa ao detalhe, mas uma quase completa falta de espontaneidade ou flexibilidade, com intuições impressionistas sendo automaticamente rejeitadas como sendo ‘ilógicas’. As pessoas obsessivo-compulsivas gastam uma extraordinária energia para manter seu rígido estilo cognitivo e de atenção, de forma que absolutamente nada que elas fazem é sem esforço. Um conjunto de crenças mal adaptadas persegue a pessoa com TPOC. Entre elas as seguintes: ‘É importante fazer um trabalho perfeito em  tudo’; ‘qualquer falha ou defeito no desempenho pode levar a uma catástrofe’; ‘as pessoas devem fazer as coisas do meu jeito’; ‘os detalhes são extremamente importantes’. Estar de férias, ou mesmo relaxar, geralmente não provoca nenhum encantamento na pessoa verdadeiramente obsessivo-compulsiva. Em um estudo de revisão envolvendo 100 médicos abertamente declarados obsessivo-compulsivos, apenas 11% tiravam férias exclusivamente pelas férias e apenas 10% se afastavam regularmente do trabalho para relaxar. Embora muitos desses indivíduos sejam grandes realizadores, alguns acham que seu estilo de caráter prejudica sua capacidade de ter sucesso no trabalho. As pessoas obsessivo-compulsivas podem ruminar por um tempo indefinido a respeito de pequenas falhas, exasperando aqueles em torno delas. Com frequência elas se prendem a detalhes e perdem o rumo do principal objetivo da tarefa em questão. A indecisão pode estar dinamicamente relacionada com sentimentos profundos de insegurança. Elas podem sentir que o risco de fazer um erro é tão grande que pode impedir uma decisão definitiva para um lado ou para outro. De forma semelhante, sua preocupação de que o resultado final de um projeto possa estar menos do que perfeito pode contribuir para a indecisão. Muitas pessoas obsessivo-compulsivas são extraordinariamente articuladas verbalmente, mas encontram obstáculos psicológicos maiores devido à preocupação de que o resultado final possa não ser perfeito.

A qualidade de ‘ser guiado’ inerente às atitudes da pessoa obsessivo-compulsiva foi bem descrita por Shapiro (1965) como tendo “a aparência de ser pressionada ou motivada por alguém além do interesse da própria pessoa em ação. Ela não parece tão entusiasmada. Seu interesse genuíno na atividade, em outras palavras, não parece ser responsável pela intensidade com a qual ela a realiza’. Esses pacientes são sempre guiados por seu próprio supervisor interno, que emite comandos sobre o que eles ‘devem’ ou ‘deveriam’ fazer. Em termos dinâmicos, eles têm pouca autonomia das injunções de seu próprio superego. Eles se comportam dessa forma porque precisam, independentemente de como seu comportamento possa refletir sobre os outros.

O superego hipertrofiado (superdesenvolvido) do paciente obsessivo-compulsivo é incansável nas suas exigências de perfeição. Quando as exigências não são satisfeitas por um longo período de tempo, pode ocorrer depressão. Esse elo dinâmico entre o caráter obsessivo-compulsivo e a depressão foi observado pelos clínicos por muitos anos. As pessoas obsessivo-compulsivas podem apresentar risco particularmente alto de depressão na meia-idade, quando os sonhos idealizados da juventude são despedaçados pela realidade do tempo que se escoa com o avanço da idade. Esses pacientes podem se tornar suicidas nesse momento de seu ciclo vital e necessitar de hospitalização apesar da  longa história de funcionamento razoavelmente bom numa situação de trabalho.

A complexa estrutura de caráter do paciente com TPOC pode ser resumida como envolvendo um sentido público do self e um sentido inconsciente do self. Cada um desses, tem uma dimensão que é mais aplicável à relação com superiores e outra ligada a relacionamentos com subordinados. Por exemplo, o sentido público do self na relação com superiores é o de um trabalho responsável e consciencioso, sério, atencioso, socialmente adequado em todas as situações e previsível. O sentido público do self em relação a subordinados é o de um mentor zeloso ou que faz críticas construtivas e dá um feedback valioso para aqueles que irão escutá-lo. Infelizmente, tal sentido público do self vivenciado subjetivamente não é sempre o que é percebido pelos outros. As reações dos outros, de fato,  dão origem a um sentido público do self que é totalmente consciente, mas amplamente oculto dos outros. Pacientes com TPOC frequentemente têm a sensação de não serem estimados e, consequentemente, se sentem magoados e com raiva. A falta de aprovação os leva a ser torturados pela insegurança . Essa insegurança deve ser resguardada daqueles em posições superiores, pois os indivíduos  com esse transtorno  temem a humilhação e a vergonha associadas à exposição desse lado inseguro. Eles estão com frequência convencidos de que os outros os irão considerar fracos e lamurientos. Paralelamente a esse aspecto do sentido privado do self, existe uma total convicção de superioridade moral em relação àqueles que estão em posições subordinadas. Pelo fato de os pacientes com TPOC se defenderem tanto contra seu próprio sadismo e agressão, eles não querem parecer desdenhosos. Eles tentam mascarar esse aspecto do sentido privado do self para evitar parecer pretenciosos, pomposos ou excessivamente críticos. Eles podem sentir-se orgulhosos de quão atenciosos e contidos eles são em relação àqueles ‘abaixo deles’.

As duas dimensões do sentido inconsciente do self podem ser resumidas como sendo a de um masoquista servil em relação aos seus superiores e a de um sádico controlador em relação aos subordinados. O inconsciente sádico de espírito mesquinho que deseja infligir dor àqueles que não se submetem a seu controle é inteiramente inaceitável para os pacientes com personalidade obsessivo-compulsiva e deve consequentemente ser reprimido. Fazer de outra forma seria comprometer seus altos padrões morais. Nas relações com figuras de autoridade, por outro lado, esses pacientes temem a humilhação por sua submissão e desejo de ser amados e, então,  de forma masoquista, se submetem a seus próprios padrões morais excessivamente severos e torturam a si próprios por não corresponder a essas expectativas. Essa tortura de si próprio poupa do que temem, ou seja, a humilhação controladora, dominadora e sádica por parte dos outros. A mensagem do inconsciente dada aos superiores é: “não há necessidade de você me criticar e atacar, pois, como você vê, já estou me atormentando de forma impiedosa”.

Fonte: Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. Gabard, Glen O. – 4ª edição, SP, 2006 (p. 426-428).

Considerações psicoterapêuticas (desisti de postar um texto sobre aspectos psicoterápicos para não incentivar a autoanálise por pessoas não preparadas para tal, como também para não fornecer subsídio para estratégias de resistências).

 

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