TDAH ou DPAC?

Há nova luz no fim do túnel para pessoas  com  sintomas de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Nos últimos quatro anos, especialistas têm trabalhado com uma nova investigação e novo diagnóstico que muda muita coisa nos casos de agitação e falta de concentração:  o DPAC. Significa Distúrbio do Processamento Auditivo Central. São alterações em uma ou mais das habilidades auditivas que afetam o desenvolvimento da aprendizagem e da linguagem. Com esse distúrbio, a criança apresenta sintomas e comportamentos semelhantes aos registrados em portadores  do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o que leva a erro de diagnóstico. Assim, crianças que hoje estejam tomando Ritalina por terem sido equivocadamente diagnosticadas como TDAH precisam de revisão no tratamento urgente. No caso do DPAC, a Ritalina não funciona nem é necessária. A terapêutica para os DPACs  são exercícios de reabilitação fonoaudiológicos. Isto é devem ser tratados por fonoaudiólogos especializados no assunto. Não qualquer fono! O diagnóstico exige exame audiométrico específico.

Onde entra a psicoterapia nos casos de DPAC? Na correção das perdas psicológicas,  no ajuste de aspectos relevantes da rotina da criança na escola e na família. Algo semelhante ao que já é realizado nos casos de crianças hiperativas ou desatentas sem comprovação/diagnóstico de TDAH pelos exames convencionais, como o P300.

Como nos casos de TDAH, os DPAC precisam muito de afeto, de pais zelosos e atentos às potencialidades e limitações dos filhos. A mãe de um paciente meu contou-me que desenvolveu uma técnica própria para ajudar o filho nas tarefas de casa: os DPACS têm algumas limitações de aprendizagem (mas NÃO IMPOSSIBILIDADES), como por exemplo, não compreender uma questão com duas perguntas no mesmo enunciado. Nesse caso, ela usa marca-texto de cores diferentes para cada pergunta embutida, facilitando a compreensão do filho. Ela é educadora e mãe zelosa; foram essas características que a levaram a não se conformar com a ideia de deixar seu filho aprendendo menos e se sentindo inferiorizado;  ela sempre esteve em busca de compreender  bem o que se passa com a criança, hoje com nove anos, e a tentar desenvolver formas de o ajudar. Isso é uma Mãe com M  maiúsculo, não posso deixar de registrar.

Recomendo o  site COMPORTAMENTO INFANTIL  para informações  preliminares sobre o tema.

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3 comentários sobre “TDAH ou DPAC?

  1. Adorei a sua colocação. Andei discutindo TDAH em um seminário no Instituto SEDES SAPIENTIAE, em São Paulo, SP, e elaborei um texto onde discuto esse “transtorno” como uma manifestação da Persona. Vou tomar a liberdade para enviar para você.Abraço

    TDAH- Aspectos da Psicologia Analítica. A psicologia da Persona.
    A Psicologia Simbólica. Pressupostos.

    Para poder sair da linguagem racional/mecanicista (causa/efeito), que permeia a interpretação médica e cognitivista, e adentrar na linguagem simbólica, é preciso antes de tudo mudar o sentido da interpelação. Não podemos mais perguntar o “porque”, mas o “para que”. Quando procuramos pelo “porque” encontramos uma causa no Soma, mas quando procuramos o “para que” tentamos decifrar os caminhos da Alma (psique). Para tanto é preciso lembrar alguns pressupostos:
    O homem é um ser simbólico, e todo fenômeno psíquico é simbólico, independente de como ele seja percebido pela consciência.
    Isso quer dizer que mesmo que um indivíduo tenha sérios comprometimentos mentais, mesmo que ele esteja com o seu ego cindido, na neurose, na psicose, na esquizofrenia, na depressão… Os fenômenos psíquicos que se apresentam estarão sempre em uma relação simbólica com esse sujeito.
    Mas nada é simbólico por si mesmo, as variáveis dos efeitos, dos sintomas e dos significados individuais dependem do estado respectivo de consciência do “eu” com o qual o símbolo se defronta e da maneira com que este “eu” sabe lidar com esses símbolos.
    Isso engloba desde sintomas físicos e comportamentais até alucinações, delírios, atos falhos, erros de percepções… Por exemplo: a repetição neurótica, mesmo que seja da mesma característica, sempre terá uma distinção subjetiva, e isso se dá assim também com as imagens do esquizofrênico, com a compulsão na drogadição…
    A Psicologia Analítica procura ver o indivíduo como um todo. Neste sentido, tanto os sintomas como a própria “deficiência” do transtorno adquirem um sentido simbólico e prospectivo, portanto estruturante.
    Essa concepção de estruturante foi colocada por Byington para estabelecer o padrão de organização que o símbolo estabelece na Psique para o desenvolvimento da personalidade.
    Como bem colocou Neumann: a individuação é um desenvolvimento da personalidade em direção ao que ele chamou de eixo Ego-Self. Essa é uma das funções do símbolo: construir esse caminho, de maneira criativa ou defensiva.
    Quando Byington fala em maneira criativa ele se propõe a identificar uma estrutura favorável ao desenvolvimento da personalidade. Quando ele fala em maneira defensiva está se referindo a uma estrutura desfavorável ao desenvolvimento da personalidade, e não podemos confundir com sofrimento, pois este é necessário em todo o processo de crescimento.
    Nesta estrutura é o símbolo que, atuando nas dimensões existenciais do Self, (Cósmica, Cultural, Familiar, e Individual) organiza a psique e consequentemente a personalidade e a consciência, formando e aumentando simultaneamente a identidade do “eu” e do “outro”. Essa relação inverte a concepção reducionista causal que compreende todo o fenômeno na relação da parte para o todo. Embora trabalhando concomitantemente, é na totalidade que se encerra o valor simbólico.
    Essa função estruturante está presente e interage com todas as representações arquetípicas: Sombra; Persona; Ego; Anima/Animus…
    Neste sistema, Persona, Ego e Sombra funcionam dinamicamente de forma tão interligada que o que acontece numa estrutura, invariavelmente afeta a outra. Quanto mais limitada é a Persona como função estruturante, tanto mais faltará ao Ego papéis sociais para desenvolver-se e, consequentemente, mais formação de Sombra.
    Então, ao buscar uma compreensão simbólica sobre os sintomas de determinada síndrome ou transtorno estamos descrevendo um funcionamento, considerado normal ou patológico, do ego ao se confrontar na relação com seus símbolos.
    Quando essa relação for normal o ego querendo pode se confrontar “naturalmente” com esses símbolos de forma criativa (quando não o faz é por falta de oportunidade ou vontade), mas quando esse confronto se dá de uma forma defensiva essa relação será patológica. Tanto a posição normal como a defensiva é estruturante porque organiza a psique.
    É por isso que o espaço terapêutico e a figura do analista são tão importantes. Se o indivíduo não consegue estabelecer uma relação autentica dentro da sua casa, dentro da escola, com seu grupo…, caberá à psicoterapia trazer a possibilidade para o esse confronto (ego/símbolos).

    A Persona como função estruturante.
    A psicologia da Persona é determinada por uma série de opostos que se confrontam: entre Persona (manifestações exteriores) e Anima (us) (manifestações interiores); entre e o consciente (parte aceita e integrada) e inconsciente (parte sombria e renegada); entre o Eu e o Coletivo… Segundo Byington, a Persona é uma interação dialética entre o Self Cultural, o Self Familiar e o Self Individual.
    Assim, tanto do Coletivo como do Eu, a orientação da Persona estará sempre sendo direcionada para um Ideal (para aquilo que gostaríamos de ser ou devemos ser, uma totalidade). Então temos mais uma relação oposta para se confrontar: entre uma Persona dirigida para um ideal e uma Sombra (aquilo que não combina – num sentido bem amplo – com esse Ideal). Podemos então definir que a Persona constitui o órgão de externalização. O órgão de mediação do Eu consciente ao voltar-se ora para dentro ora para fora.
    Na realidade, cada fase de desenvolvimento tem as suas imagens de Persona individual e coletiva diferentes.
    Assim, a Persona não é assunto exclusivo dos adultos. Ela desenvolve-se já com as primeiras manifestações da infância, junto com o Eu. A criancinha já imita, assume certa conduta, identifica-se, mas introduz em tudo isso sua própria “nota individual” e isso se estende bem além da “imitação lúdica”.
    Nesses termos a Persona constitui um compromisso entre o indivíduo e a sociedade sobre “como alguém aparece”. Nessa escolha interfere a constituição somática e psíquica já anteriormente dada. O neurótico, o esquizofrênico ou o autista, apresentam uma Persona condizente e estruturada a partir dessas constituições. Ou seja, a maneira com que o “eu” sabe lidar com os seus símbolos estruturantes.
    Segundo Whitmont, a Persona é “um setor mais ou menos acidental da psique coletiva”… “Apesar de uma exclusiva identidade da consciência com a Persona, o Si-mesmo inconsciente, a individualidade propriamente dita, sempre existe”…
    É por isso temos que reconhecer que na escolha e definição peculiar da Persona reside já algo individual. Isso já aparece na Persona também em forma de sintomas. Na agressividade expressa pela incapacidade de controlar seus impulsos, características do TDAH, já reflete uma maneira de se apresentar no mundo.
    A psique coletiva contém elementos conscientes e inconscientes. Segundo Jung e Jacobi, a orientação da Persona decorre extensamente pelo consciente coletivo (Self Cultural). Sob pressão da “educação” ela pode adaptar-se, também, em determinados casos, à função inferior ou às funções auxiliares. A tipologia junguiana é de extrema importância para a função estruturante da Persona tanto para o trabalho no consultório psicoterapêutico como também para a educação escolar. O grande problema é que a nossa pedagogia ainda é conteudista e extremamente racional e não está baseada no desenvolvimento simbólico e arquetípico da personalidade e da cultura.

    Persona e o TDAH
    Já vimos que a Persona tem que ser descrita como um órgão de expressão (comunicação) da Personalidade Total. Nessa totalidade o Self Cultural exige uma atuação. Quando o Self individual não consegue dar conta da expectativa cultural e familiar, já que a sua disposição neuronal é limitadora (TDAH), a sua elaboração simbólica é condizente com essa disposição.
    Isso é traduzido, simbolicamente, pelos aspectos sintomáticos do TDAH e pela inadaptação social do indivíduo. É aí que aparece o estabanado, o desatento, o agressivo, o agitado, o intolerante… Quando o Self individual constela símbolos estruturantes cujo conteúdo ou forma não encontram uma Persona adequada, ou seja, um papel social adequado para se desenvolver, a tendência será que estes símbolos sejam levados a formar a Sombra e que sejam atuadas através da Sombra Cultural (uma marginalização).
    Um dos aspectos mais sintomáticos do transtorno (TDAH) é a incapacidade de controlar os impulsos. O indivíduo que não consegue controlar a sua impulsividade não poderá ter um bom relacionamento com o outro e, principalmente com o meio cultural. Esse indivíduo, por não conseguir adaptar-se às diversidades da vida cultural, acaba identificando-se com as limitações do transtorno e desenvolvendo uma Persona patológica.
    Segundo Whitmont, temos que aprender a nos adaptar às exigências culturais e coletivas, em conformidade com o nosso papel na sociedade, e ainda sobre nós mesmos. Essa é uma tarefa muito difícil para quem tem TDAH.
    Temos que desenvolver tanto uma máscara de Persona como um Ego adequados. A Persona é vivificada (sua função arquetípica é vivencial), mas em si mesma não é fecunda (esse papel, ou máscara, não se desenvolve por si só. Ele depende das interações do ego em confronto com a Sombra, Anima ou Animus). Quando lhe falta a alma, e quem dá alma à Persona é a Anima/Animus, a Persona, como cada órgão, torna-se rígida e consumida; neste caso ficamos doentes.
    Quando a Persona na relação primária e familiar diverge muito da Persona Cultural, isto é, dos papéis culturalmente já identificados e desejados, o desenvolvimento da personalidade estará sujeito a fortes tensões e às prováveis formações de Sombra que se refletirão no manejo dessa Persona pelo Ego através da vida.
    A tendência para quem tem TDAH é que esse manejo seja feito de forma defensiva, isto é, que esse indivíduo atue os mais variados mecanismos de defesas para sobreviver a essa inadequação. Esse manejo neurótico é necessário e está organizado de forma a defender o Ego.
    Isto quer dizer que o indivíduo precisa dos sintomas até para que uma nova organização simbólica seja estabelecida. Esse é o grande desafio a ser enfrentado na psicoterapia: trabalhar com as limitações de forma criativa; aceitá-las e aprender a manejá-las de forma a reconhecer e desenvolver as potencialidades individuais, criando expectativas que possam ser almejadas, independentemente do transtorno.

    Referências-
    BLOMEYER, R. (1974) Os Aspectos Psicológicos da Persona. (Adaptação para estudos e discussão crítica) Analytische Psychologie, 5, pp.: 17 – 19.
    Whitmont, E.C. A BUSCA DO SÍMBOLO.
    Byington, C. A. Pedagogia Simbólica. A construção amorosa do conhecimento de ser.
    Byington, Carlos. A. O conceito de sombra patológica e sua relação com o conceito de mecanismos de defesa dentro de uma teoria de psicopatologia simbólica. Junguiana- Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 2. 1984. pp 90-137.

    Por: Carlos Alberto de Oliveira Araujo, CRP 06/102515

  2. Como a escola deve proceder neste contexto, onde crianças não aprendem e os pais pouco da importancia ao fato?

  3. […] Ele tinha chegado ao consultório com diagnóstico equivocado de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), já muito sequelado por sucessivos manejos inadequados na escola, principalmente. Vinha apresentando até sintomas de depressão. Na verdade, Lucas não tinha TDAH; era um caso de DPAC, que é o Distúrbio do Processamento Auditivo Central. Os sintomas dessas duas alterações no funcionamento podem se confundir. Falei sobre isso em outro post, em 2011 (TDAH ou DPAC?) […]

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