Orgulho e Complexo de Inferioridade

Uma observação clínica me mostrou como o orgulho*, uma manifestação do arquétipo Sombra, e o Complexo de Inferioridade se cruzam. Vou tentar esclarecer meu ponto de vista com um conto:

“Nos tempos da Dinastia Sui, nas terras do imperador Yang Jian, vivia um mestre chinês, Jian Da-Hong, sexagenário, e seus dois discípulos favoritos: Shen Zhu-Nai e Jin-Luan, dois adolescentes. Eles tinham sido entregues aos cuidados do mestre Da-Hong quando tinham sete anos, após terem perdido os pais em conflitos bélicos a serviço do imperador. Os garotos haviam sido submetidos a duras provações, experiências de desamparo e até ameaça de morte, antes de serem finalmente acolhidos, aprenderem com a Vida e com mestre, terem crescido e se reconhecerem homens feitos. Embora diferentes, as vivências traumáticas eram similares no sofrimento que causaram.

Os anos se passaram e os garotos se transformaram em homens mduros e virtuosos. Ambos formaram família e viviam bem. Havia, no entanto, uma diferença muito visível para mestre Hong e todos que conheciam os dois discípulos dele: Shen Zhu-Nai, conquanto tivesse se empenhado em ser homem esclarecido, cumpridor das leis, obediente ao mestre e aos ensinamentos por ele passados, e apesar de viver confortavelmente e ter superado todas as adversidades da infância, parecia amargurado, tinha sempre o semblante duro e agia sempre com muita secura, desconfiado das intenções de todos que dele se aproximavam. Vivia angustiado, permanentemente atormentado pelo desejo de autossuperação e de atingir a perfeição em tudo que fazia.

Jin-Luan, ao contrário, se mantivera doce, amistoso, de fácil convivência, igualmente virtuoso, mas sem cobrar isso das outras pessoas; desenvolveu uma capacidade maior de não julgar os outros e de aceitar as diferenças. Também tinha feridas emocionais antigas que insistiam em se fazerem presentes, mas não culpava o mundo pelas duas dores.

Um dia, angustiado como sempre, Shen Zhu-Nai foi conversar com o mestre:

– Mestre, não entendo… tudo está bem, não tenho grandes problemas, mas apesar disso sinto muito desconforto, me sinto aprisionado a algo, como se alguma coisa me mantivesse cativo, me impedindo de sentir leveza, me privando de expressar algo dentro de mim que não sei o que é. O que pode ser?

O mestre manteve-se calado, com o olhar fixo numa ave que cantava próximo à janela.

– Mestre, está me ouvindo? Por que não me responde?

O mestre permaneceu imóvel e calado. Passados alguns minutos o discípulo fez o costumeiro gesto pedindo para sair e só então o outro homem reagiu e falou:

– Shen Zhu-Nai. Espere. Quando pensou em se afastar um pensamento invadiu sua mente, acompanhado de sentimento similar. O que pensou e sentiu Shen, ao me ver calado diante de sua queixa?

_ Senti-me humilhado. O senhor pareceu ignorar minha dor, mesmo eu tendo lhe confiado inquietação tão íntima.

– Por que sentiu-se humilhado e não apenas impaciente ou irritado com meu silêncio, o que seria normal? Por qual razão eu iria humilhar você?

_ Não sei, mestre, julguei mal sua reação; perdoe-me.

_ Não preciso do seu pedido de perdão porque você não me ofendeu. Desejo apenas que você entenda o que orienta seus pensamentos e suas emoções. Vou lhe confiar um segredo: há pouco Jin-Luan veio a mim com uma queixa semelhante a sua e eu agi da mesma forma: me mantive em silêncio. Diferentemente de você, ele esperou longo tempo compartilhando pacientemente do silêncio comigo até que, desejando não incomodar, me pediu permissão para sair, sorrindo docemente. Eu perguntei o que ele estava pensando sobre o meu silêncio e ele respondeu-me:

– Suponho que o senhor deseja pensar mais sobre o assunto ou espera que eu descubra a resposta sozinho. Nos dois casos, mestre, devo me ausentar. Eu consenti que ele saísse, prometi que o chamaria quando tivesse a resposta que ele buscava. Mas ele não sentiu-se humilhado. Que nome você dá a sua reação?

– Orgulho ferido? Perguntou o rapaz.

_ Sim. Mas além do orgulho há outra erva daninha plantada no seu coração que ainda cresce: o sentimento de menos valia. Perceba que esse sentimento, que vou chamar de Sentimento de Inferioridade existe em vocês dois… e precisamos acabar com isso. Mas me chama a atenção a diferença de reação. E a sua dureza. Estou convencido de que a ausência de doçura em você é resultado de um forte sentimento de orgulho. A pessoa orgulhosa, Shen, sempre acha-se muito valiosa, merecedora de toda a atenção e de todas as benesses do universo. Costumam ser pessoas muito inteligentes, assim como você, mas superestimam o próprio merecimento. Quando a resposta desejada não vem, porque não há pessoas melhores que as demais, efetivamente, o orgulhoso se ressente, se magoa, sente-se humilhado, ferido em alguma parte muito profunda de si mesmo. Tanto quanto você, Jin-Luan foi maltratado pela vida; sofreu e chorou. E como você, superou todas as adversidades, mas sem perder a doçura. Por que? Porque tem menos orgulho que você. Para ele está mais fácil conquistar a sensação de leveza, desejada também por você. A ele basta desvencilhar-se do passado, das feridas de infância que ainda sangram e são a causa do sentimento de menos valia dele. No seu caso, além de lutar contra o persistente sentimento de inferioridade você ainda tem como inimigo o orgulho, a excessiva suscetibilidade diante da frustração, como se o mundo devesse curvar-se diante das suas necessidades e do seu senso de importância exagerados… O rapaz interrompe a fala do ancião e diz:

_ Mestre, eu entendo o que é o orgulho, mas não me considero orgulhoso… só conheço os meus direitos, sempre enxerguei o que me parecia ser meu por direito… O mestre corta-lhe a palavra e acrescenta:

– E sempre se ressentiu de o Destino ter-lhe negado tantas coisas na infância.

Parecendo sentir vergonha de reconhecer a verdade nas palavras do mestre, o rapaz calou-se.

– Peço-lhe que medite sobre isso, que avalie o quanto o orgulho ferido na criança do passado ainda está presente em você e veja como isso orientou as suas decisões inconscientes de isolamento e de autoproteção, construindo escudos e carapaças que lhe dão a aparência assustadora e por vezes aversiva, quando seu desejo é parecer doce e acolhedor, o que efetivamente você o é em essência. Percebeu, Shen, o que estou tentando lhe mostrar? Que a origem do sentimento de limitação, de aprisionamento é o escudo protetor que você próprio criou para defender-se de ter seu orgulho ferido? Que esse foi o mecanismo que adulterou sua essência e roubou de você a doçura? Livre-se do sentimento de prepotência, livre-se do orgulho e compreenda que todas as pessoas, errando ou acertando, têm igual valor aos olhos do Universo, não importando as conquistas materiais e intelectuais que tenham acumulado. Na contabilidade do Universo contam mais as conquistas do sentimento, a ampliação de consciência.

O rapaz calou-se, desejando refletir sozinho sobre o que ouvira, e pediu permissão para afastar-se; queria meditar. O mestre consentiu, feliz, antevendo um início de caminhada produtiva na direção do autoconhecimento e da desejada paz interior.”

Com essas analogias estou tentando expressar minha percepção de que o Complexo de Inferioridade surge e cresce com vivências de desamparo e sofrimento intensos na infância e que a superação desse sentimento ou o disfarce dele ocorrerá por caminhos diferentes. Nas pessoas em que o orgulho atua como manifestação da Sombra de forma muito intensa, o indivíduo vai afastar-se da doçura, vai perder a leveza e alimentar um forte senso crítico como forma de autoproteção. Naquelas em que o orgulho é menor, embora igualmente desenvolvam o Complexo de Inferioridade, não perderão a doçura porque se sentirão menos aviltadas; não terão o sentimento, por vezes inconsciente, de que algo lhe foi “roubado” ou negado. Não acharão que as pessoas e o mundo lhe ameaçam. Essas precisam também livrar-se do sentimento de menos valia e terem a autoestima reforçada, mas é mais fácil para elas se abrirem para receber o que a Vida lhes oferece de bom.

* “O orgulho vos induz a julgardes mais do que sois, a não aceitar uma comparação que vos possa re­baixar, vos conduz a vos considerardes, ao contrário, tão acima dós vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo em vantagens pessoais, que o menor paralelo vos irrita e aborrece. E o que acontece, então? Entregai-vos à cólera.”

(Allan Kardec. O Evangelho Segundo Q Espiritismo. Capítulo IX. Bem-aventurados os Brandos e Pacíficos. A Cólera.).

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8 comentários sobre “Orgulho e Complexo de Inferioridade

  1. Concordo com o texto, já tinha conseguido fazer essa relacao sozinha. Mas, como se livrar do orgulho? Venho sofrendo pois fui rejeitada por um ex-namorado de educacao e moral menos elevados. Nao amo mais ele e nao quero mais nada com ele, mas nao consigo aceitar o fato dele ter colocado um fim em tudo. Me sinto inconformada. Nao consigo me livrar desse sentimento vil. A sensacao que tenho é que só vou ser feliz de novo se um dia ele me falasse algo “nao quis vc pqe sei q sou menos q vc”… como se isso fosse mudar alguma coisa. Essa briga da razao com esse sentimento mesquinho, esse apego estao me levando à depressao…

  2. Joana, pelo seu relato me parece mesmo ser típico caso de orgulho ferido, mas quanto sofrimento e perda de energia com algo desnecessário! O caminho que conheço, não para “se livrar” do orgulho, mas para “integrá-lo” como parte de sua Sombra é a psicoterapia. Em processo terapêutico vc poderá dar novo significado às vivências, avaliar as cognições disfuncionais, enfim, ressignificar. Esse trabalho envolve conteúdos inconscientes, por isso muito difícil de se fazer sozinha, sem orientação profissional. Livros de autoajuda com essa proposta serão bons – para os editores ganharem dinheiro, não para os leitores, pq de nada adiantarão. Entendo que nem a conversão religiosa, neste caso, é eficiente, embora possa ser coadjuvante útil. Compreender o próprio orgulho é trabalho de auatoconhecimento, condição inalienável para a Individuação (evolução Espiritual. Então, irmã, não resista à possibilidade de crescer e se livrar de amarras paralisantes, destrutivas. Abraço

  3. Tive um relacionamento de 2 anos, sou muito ignorante, tenho um genio forte e me esquento rápido! Meu namorado sempre fez tudo por mim… eu eu terminei pelo fato dele sempre está ali pedindo p eu não terminar e dizendo que me ama e que se isso acontecer ele morre, mais dessa vez foi diferente e ele aceitou porém sei que ele anda sofrendo muito,todo mundo ver ele abatido e triste, ele liga pra perguntar se eu ja superei, pra saber com quem que eu saio, se ja estou com alguem e se eu vou mudar entre outras coisas… eu fui atras dele durante uma semana..ele n quis voltar.. passaram 15 dias e eu fui novamente falar com ele e o mesmo disse que vinha na minha casa e não veio nem ligou! Será que vai voltar a me procurar? Todo mundo diz que é louco por mim… to muito arrependida e ele não acredita que vou mudar e creio que é por isso que ele ta me evitando!!! Estou com as mãos atadas sem poder fazer nada, até o chip ele quebrou para não falar comigo! Fico sabendo que ele ta muito mal, sofrendo…

  4. Concordo com o texto, e digo mais: o orgulho pode ser uma espécie de efeito colateral do sentimento de inferioridade em algumas pessoas. Não se trata de sentir-se maior que os outros, mas um medo quase animal, irracional, de ser inferiorizado de alguma maneira, nem que seja uma brincadeira que passe um pouco dos limites. É um senso de altivez. Eu não sou melhor que você, mas não aceito ser passado por cima. O problema é que isso costuma irritar muito. Ou seja, quando se vive assim, se é muito suscetível a irritação, e numa luta diária por “ganhar”. Além, é claro, de uma auto-crítica muito forte. Enfim… qual sua opinião sobre esta vertente do assunto?

    • Olá Julio. Adorei a sua definição, era exatamente o que eu precisava ler do meu orgulho. Muito bem lembrado e abordado, não é um caminho fácil olhar no espelho e ver esse orgulho em nós, mas conseguir reconhecê-lo tem me auxiliado a encontrar um caminho para ser menos crítica comigo, me aceitar mais e consequentemente aceitar melhor os outros da maneira como são e estão.

  5. Oi, Júlio.

    Eu concordo com você; também já havia chegado a essa compreensão. Vou sugerir um link que me fez ver como uma pessoa pode não ser atingida pela tentativa alheia de humilhá-la POR SER ELA SUPERIOR a outra equivocada e, ainda, sem a mesma evolução:

    Os jurados tentam humilhar um rapaz humilde que, nem por um instante sequer, se sente humilhado. Ao contrário, chega-se a perceber nele um quê de tolerância com os tolos. O garoto me parece espiritualmente superior aos jurados e por isso tem a condescendência dos iluminados. Os artistas genuínos são quase todos missionários de Deus, com o propósito de amenizar o sofrimento na Terra fazendo uso da Arte. É um vídeo emocionante.

    E concordo também com vc qdo diz ser difícil conviver com pessoas com suscetibilidade a ter o orgulho ferido ou sentir-se diminuído. Todo excesso de melindres dificulta a interrelação. Igualmente penoso é conviver com quem está sempre buscando confirmação, seja por insegurança ou por complexo de inferioridade, mas isso já é outra conversa.

    Obrigada pela sua participação e acréscimos ao texto.
    Abraço,
    Carmelita

  6. Ola, tenho caso de orgulho ferido e baixa auto-estima, por mais q eu tente superar isso parece q cresce ainda mais dentro de mim…. sofri muitos transtornos qdo ainda era criança e adolescente, por alguem q sempre tivera muita importancia pra mim. Ja havia lido esse texto antes, e quando li me vi na pele do homem q se sentiu humilhado. As coisas nao eram assim, nao tinha essa coisa qdo criança q aos poucos foi colocada aqui dentro da minha cabeça, queria tanto mudar isso… se voce puder me ajudar me mande um e-mail. Pode ser um livro de pnl (se houver alguma coisa relacionada) qqer coisa eu ficarei mto grato!

    Brigadão :D!

  7. o orgulho n vem de dentro da gente mas sim pela ignorancia das pessoas que plantam covardemente esse sentimento pobre dentro de nossos coraçoes com atitudes que danifica o sentimento como um virus de computador que danifica uma maquina

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