A história de Portugal e as mazelas que o Brasil herdou

A História, ao retratar o passado, explica muito do presente e pode fornecer indicações para o futuro. Isso vale para o macro e o micro. Muito do fracasso moral e social do Brasil decorre de uma herança maldita. Entender o contexto sócio-histórico e filosófico do Brasil colonial e Brasil-império facilita a compreensão do Brasil atual, suas mazelas e virtudes, de modo especial no aspecto político e respectivas implicações sociais.

Veja na análise abaixo, extraída do livro “1808”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes, uma descrição do “caráter” de Portugal, que explica, em parte,  a decadência de um País, de uma cultura, de um povo. Perceba que o que é dito sobre o país se aplica também às pessoas.

“A riqueza de Portugal era resultado do dinheiro fácil, como os ganhos de herança, cassinos e loterias, que não exigem sacrifício, esforço de criatividade e inovação, nem investimento de longo prazo em educação e criação de leis e instituições duradouras. Numa época em que a Revolução Industrial britânica começava a redefinir as relações econômicas e o futuro das nações, os portugueses ainda estavam presos ao sistema extrativista e mercantilista, sobre o qual tinham construído sua efêmera prosperidade três séculos antes. Baseava-se na exploração pura e simples das colônias, sem que nelas fosse necessário investir em infra-estrutura, educação ou melhoria de qualquer espécie. ‘Era uma riqueza que não gerava riqueza’, escreveu a historiadora Lilia Schwarcz. ‘Portugal se contentava em sugar suas colônias de maneira bastante parasitária.’ Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico Raízes do Brasil, mostrou que no Brasil colônia se tinha aversão ao trabalho. Segundo ele, o objetivo da aventura extrativista era explorar rapidamente toda a riqueza disponível com o menor esforço e sem nenhum compromisso com o futuro: ‘O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho’ (pág.24).

Portugal é, ainda, o mais atrasado dos países  que integram a União Européia. Já estava atrasado, em comparação com outros países europeus, na época da dominação napoleônica que motivou a transferência da corte para o Brasil, em 1808. Os historiadores têm explicações demográfica e econômica para isso e outras de ordem política e religiosa, como exemplificado no trecho abaixo,  do mesmo livro:

“De todas as nações da Europa, Portugal continuaria sendo, no começo do século XIX, a mais católica, a mais conservadora e a mais avessa às idéias libertárias que produziam revoluções e transformações em outros países. A força da Igreja era enorme. Cerca de 300.000 portugueses – ou 10% da população total do país – pertenciam a ordens religiosas ou permaneciam de alguma forma dependentes das instituições monásticas. Só em Lisboa, uma cidade relativamente pequena, com 200.000 habitantes, havia 180 monastérios. Praticamente todos os edifícios mais vistosos do país eram igrejas ou conventos. Por três séculos, a Igreja havia mantido submissos o povo, seus nobres e reis. Por escrúpulos religiosos, a Ciência e a Medicina eram atrasadas ou praticamente desconhecidas. Dom José, herdeiro do trono e irmão mais velho do príncipe regente, Dom João, havia morrido de varíola porque sua mãe, Dona Maria I, tinha proibido os médicos de lhe aplicar vacina. O motivo? Religioso. A rainha achava que a decisão entre a vida e a morte estava nas mãos de Deus e que não cabia à Ciência interferir nesse processo. A vida social pautava-se pelas missas, procissões e outras cerimônias religiosas. O comportamento individual coletivo era determinado e vigiado pela Igreja Católica. Para impedir o contato entre homens e mulheres durante os serviços litúrgicos, em meados do século XVIII foram erguidas grades de madeira que dividiam o interior de todas as igrejas de Lisboa. Portugal foi o último país europeu a abolir os autos da Inquisição, nos quais pessoas que ousassem criticar ou se opor à doutrina da Igreja, incluindo infiéis, hereges, judeus, mouros, protestantes e mulheres suspeitas de feitiçaria, eram julgadas e condenadas à morte na fogueira. Até 1761, menos de meio século antes da transferência da corte para o Brasil, ainda havia execuções públicas desse tipo em Lisboa, que atraíam milhares de devotos e curiosos” pág.21).

Enquanto isso, em 1807, no resto da Europa fervilhavam idéias revolucionárias, inovadoras, de progresso, arte, criatividade e ideais de independência – dos países e das pessoas.  Portugal, como tudo que fica estacionado, foi atropelado pela força do tempo, da evolução, das mudanças inexoráveis e inevitáveis.

 

Fonte: GOMES, Laurentino. 1808 – Como Uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

 

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6 comentários sobre “A história de Portugal e as mazelas que o Brasil herdou

  1. ‘… um príncipe medroso (?)…’ Me permita descordar de sua fonte. Porém, não há nenhuma evidência(s)que prove que o até então imperador Dom João VI fosse como se disse medroso. Td bem que Portugal y Espanha sejam considerados o , digamos, orifício anal (eufemismo), da Europa. Porém, nós brasileiros não devemos tripudiá – los. Não por isso. Uma vez que, é sabido por todos ( inclusive e/ou principalmente por nós (brasileiros!)e por todo o mundo civilizado )que:

    1)O Brasil não é um país sério ( parafraseando o finado estadista francês Charles De Gaulle )e;
    2)Pra que fazer piada de brasileiro ?????? Dado que o Brasil é o país da piada pronta. É como dizem: O Brasil é a melhor piada(ou seria a pior?)jamais contada por um português. É trágicômico rsrsrs. Pena, que para nós brasileiros (sérios!) seje só trágico.

    Parabéns por seus artigos e muito obrigado pelo espaço
    Um amplexo e um ósculo no seu coração

    hasta la vista, baby

    • Rmulo, agradeo sua visita e participao. Leia o livro citado e vc descobrir, entre outras coisas, por que “o Brasil no um pas srio”, nas suas palavras. E a Histria revela que D.Joo no era apenas medroso,mas tambm covarde. Ele poderia ter ficado em Portugal e enfrentado o que se apresentava. Em vez disso,ele deixou todo aquele povo, uma nao inteira, completamente rfo, inteiramente largado prpria sorte, sem dirigente maior e ainda arrastando consigo todos os demais gestores,legisladores e demais responsveis pela ordem e administrao pblica. Portugal viveu o caos com o abandono do seu monarca. Leia a obra para entender melhor isso, que no apenas difamao gratuita,mas fato. E como se isso no bastasse,ainda trouxe consigo uma leva de gente ordinria, do tipo que vive puxando o saco de monarcas para obter favores; comeo a, no Brasil, a triste tradio de compadrio na poltica. Pessoas de valor no ficam s voltas de dirigentes, puxando o saco para obter um ou outro benefcio; pessoas de valor conquistam o prprio espao com trabalho e confiana em seus prprios mritos e suas habilidades. Em uma palavra:se respeitam. Quem acompanhou D.Joo era, na maioria, uma bando de parasitas.

  2. Desculpe minha querida mas você é muito ruim e suas fonte é igualmente ruim sugiro que você estude história.
    Primeiro se D. João IV tivesse ficado teria perdido a cabeça como todos aqueles que enfrentaram Napoleão e o rei sabia muito bem qual era intenção de Espanha e França em relação as possessões portuguesas no além mar. Enfim Portugal teria ficado na mesma maneira e outra Portugal ficou um caos pq se você não sabe o que esse livrinho não fala é da guerra que ocorreu dentro de Portugal em aliança com os ingleses para expulsar o franceses.
    Enfim D. João IV foi muito inteligente como aponta a historiografia o que mostra como esse livro é superfluo pois é um ponto que já foi revisto e cuja tese é refutada.
    A sua história diz que ele era covarde entre outras coisas mais.
    Em oposição leia o livro de meu professor o historiador Jurandir Malerba quem o infeliz autr do 1808 cita A CORTE NO EXÍLIO é uma leitura saborosa.
    E só para terminar o problema do Brasil não foi Portugal como vocês leigos gostam de ficar repetindo e acham porque leram um livrinho de jornalista cheio de anacronismo historicos já revistos e encerrados sabem alguma coisa.
    Enfim psicologos clinicam e historiadores escrevem a história e jornalistas escrevem noticias, ok!

  3. O QI [quociente de inteligencia de portugal e’de 90 [ a me’dia e’ 100]; do brasil e’ de 87. Estranha coincidencia? Herdamos a corrupcao, a malandragem, a luxuria, a ganancia,e ate’ o DNA; inclusive pagamos o pato quando dizem q no’s importamos escravos;na verdade a importacao se deu a partir de 1530 pelos portugueses,cujos coroneis da epoca assistiam sentados o trabalho escravo dos negros q diga-se de passagem eram negociados na africa,claro, com negros senhores dos infelizes trazidos ao brasil por PORTUGUESES!Quizeram fazer o mesmo com italianos,japoneses e outros,mas em pouco tempo se deram mal.Aproveitando, tem citacao no livro 1808 de uma francesa que lamentou um pai’s como o brasil ser colonizados por incompetentes[na verdade so’ queriam o ouro]! Realmente nada melhor que a Historia para explicar o presente.Parabe’ns pelo blog.

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