Pessoas que mentem e fogem de si mesmas

“Costume arraigado no inconsciente humano, em decorrência dos hábitos doentios do passado, a mendacidade (falsidade) também resulta dos processos insalubres da educação doméstica, especialmente nas famílias atrabiliárias (coléricas; relativo a atrabílis, que deriva de  bílis negra, à qual se imputava a melancolia, o mau humor, a hipocondria), caracterizadas por desajustes de vária ordem.

A família é o laboratório onde se forjam os valores morais edificantes, mediante as contribuições valiosas do amor e da disciplina, corrigindo-se condutas enfermiças e  trabalhando-se valores espirituais  que devem predominar na natureza de cada um dos seus membros.

O que não se conseguir em formação da personalidade nos anos infanto-juvenis, no seio doméstico, muito mais difícil se apresentará ao longo dos outros períodos, em impositivos de reeducação.

Por essa razão, é mais fácil e proveitoso criar-se hábitos morigerados (bons costumes) e saudáveis na infância, quando se insculpe o aprendizado no cerne do ser, do que mais tarde, quando o comportamento já conduz fixações destituídas de equilíbrio e de ética.

Entre os vícios que florescem nos clãs desajustados, a mendacidade ocupa papel de relevo, em razão da falta de compostura dos seus membros em relação à verdade.

O desrespeito ao correto e veraz, a desconsideração pela maneira como os fatos acontecem extravasam em referências adulteradas, em comentários desairosos (indecoroso, vergonhoso) que primam pelo cinismo das conclusões.

Perdendo-se os parâmetros em torno dos acontecimentos, mente-se com muita naturalidade, investindo-se na imaginação exacerbada e tornando-se impossibilitado de proceder  a qualquer narrativa conforme o sucedido.

Da mentira pura e simples à perfídia (traição, deslealdade) é somente um passo, assim como da permanente  máscara  de hipocrisia afivelada ao fingimento  sistemático, torna-se um costume habitual.

Prolongando-se esse comportamento, as suas vítimas (os mentirosos) desajustam-se e atormentam-se em razão da falta de dimensão da verdade negligenciada. Tanto se acostumam com a maneira incorreta de agir, que se fazem incapazes de manter a serenidade, o equilíbrio quando estão no grupo social em que se movimentam.

No íntimo sabem discernir  o certo do errado, compreender que laboram em campo de alto risco, qual seja o da mentira, em razão de ser facilmente descobertos. No entanto, a astúcia, que também é uma remanescente ancestral da evolução, ilude-os, estimulando-os à utilização de novos argumentos totalmente injustificáveis.

Dessa forma vivem conflitos emocionais que se agravam com a sucessão do tempo, em razão do medo constante de serem desveladas as suas mazelas, sendo levados ao ridículo que merecem, mas se negam reconhecer. (…)

O ser humano educado e evoluído espiritualmente é veraz em todos os momentos, assumindo as responsabilidades da sua conduta, mesmo quando experimentam dissabores e angústias. O compromisso com a verdade não lhe permite negligenciá-la, aceitando o suborno da fantasia que se dilui como névoa ao sol da realidade.

A instabilidade da conduta, no entanto, em relação aos acontecimentos do cotidiano, a falta de ponderação e recato em referência aos fatos como são em verdade, dão lugar à perda da autoestima e, consequentemente, da saúde emocional.

Não se encorajando a enfrentar  os desafios existenciais que se lhe acumulam no íntimo como efeito da mendacidade, disfarçam e negam o conflito que sofre com novas arremetidas da imaginação.

O desenvolvimento intelecto-moral saudável é estruturado nos alicerces da realidade, no convívio com os pensamentos elevados e as programações edificantes de contínua vigilância moral, propiciando-se renovação de atitudes que facultam estímulos salutares para a evolução. (…)

Ser veraz, então, se lhe desenha  na mente como adequada condição de pessoa inteligente que opta pelo que é lícito e real, em vez das tulmutuadas fugas para a mentira e a hipocrisia.”

(…)

Fonte: VITÓRIA SOBRE A DEPRESSÃO, de Joana de Angelis e Divaldo Pereira Franco. Editora Leal, Salvador (BA), 2010, Série Psicológica – páginas 17 a 19.

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