Casamento e divórcio numa visão junguiana

“O casamento dura até a morte. Ao menos as pessoas se casam com essa intenção. Sua significação mais profunda é a confrontação, inevitável por toda uma vida. O meio de individuação pelo casamento consiste no fato de que, nele, não se pode evitar o encontro dialético com o parceiro, mesmo quando as coisas se tornam difíceis e desagradáveis.

Isso de forma nenhuma implica que o divórcio não deveria  existir ou que viole certas exigências da individuação. Como já indiquei, ele implica, antes de tudo, em que talvez fosse melhor que menos pessoas se casassem. Deveria ser dado ao estado civil de solteiro maior valor. É de se esperar que o mundo contemporâneo aumente as possibilidades  socialmente sancionadas de ser solteiro e respeitado. Deve-se esperar mais ainda compreender que o fato de ser solteiro não implica uma vida assexuada. Novas formas de convivência parecem, finalmente, estar começando a existir – comunas, por exemplo, ou outras comunidades  que não possuem o caráter de exclusividade do casamento. Também seria desejável que mais mulheres fossem capazes de se tornarem mães felizes sem ter obrigatoriamente que se casar. É injusto para o meio de individuação pelo casamento que muitas pessoas, especialmente as mulheres, se submetam a essa instituição de salvação a fim de terem filhos e serem mães. Para as pessoas cujo principal interesse é a próxima geração, o casamento é uma instituição totalmente inadequada.

Errare humanum est. Mais cedo ou mais tarde pode se tornar claro às pessoas casadas que elas não encontraram o seu parceiro de individuação, mesmo que não existam sérios mal-entendidos entre eles. Talvez alguém não tenha achado o companheiro certo para o caminho de individuação através do casamento ou descobre-se ser completamente inadequado para esse caminho. O critério de divorciar-se ou não deveria ser procurado no grau de dificuldade ou de patologia no casamento, mas antes deveria claramente depender do casamento representar ou não para ambos os cônjuges um meio de salvação.

Entretanto, antes que os casais notem o problema tornam-se pais. Levanta-se então a questão: deveríamos permanecer juntos pelo bem dos filhos? Minha opinião é que nenhuma consideração deveria ser dada aos filhos. Mantenho essa opinião pelas seguintes razões: antes de tudo, é extraordinariamente difícil saber exatamente o que machuca os filhos psicologicamente e o que os ajuda. Causa dano aos filhos crescer numa família intacta na qual os pais estão desempenhando uma farsa? Ajuda-os se eles vêem como os pais estão se sacrificando pelo bem-estar dos filhos enquanto renunciam aos seus próprios caminhos de individuação? Ou se desenvolvem melhor em uma situação honesta que um divórcio muitas vezes lhes esclarece? Podemos por agora só apresentar a suposição – que a observação tem muitas vezes confirmado – que é um fardo pesado para os filhos testemunhar como os pais rejeitam sua própria salvação e individuação. Isso cria nas crianças uma consciência cronicamente má para com os pais e, advindo dessa má consciência, uma agressão doentia.

Além do mais, a opinião de que se deve permanecer casado incondicionalmente por causa dos filhos, mesmo quando se reconhece  não ser o casamento um meio de salvação, está muito ligada ao “bem-estar”. O casamento não é uma instituição para o bem-estar e isto serve tanto aos filhos quanto aos pais. A coisa mais importante é exemplificar para  os filhos as possibilidades de individuação. Deveríamos demonstrar a eles a importância da salvação, e não do bem-estar. É portanto muito questionável se é certo para nós nos devotarmos hipocritamente ficando juntos, aos serviço do bem-estar mais do que ao conhecimento da salvação.”

Fonte: O CASAMENTO ESTÁ MORTO. VIVA O CASAMENTO! Adolf Guggenbül-craig. Edições Símbolo, SP- 1977 (edição esgotada).

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