Paz no Rio exige mais que coerção

Acompanhei o episódio da invasão do Complexo do Alemão com muito envolvimento emocional. Torci pelo fim da opressão dos moradores honestos de lá e vibrei com o desfecho bem-sucedido. Tenho amigos e parentes no Rio e sei que a população dessa bela cidade merece qualidade de vida, tranqüilidade, paz. Penso que a ação era algo necessário e ocorreu com muito atraso. Todos sabemos que o cartel do tráfico ocupou espaços que a omissão do Estado deixou vazios.  O mesmo que ainda acontece na zona oeste, onde há favelas dominadas pelas milícias, outro tormento que precisa ter as “asas cortadas”. Neste caso, talvez o cancro seja mais difícil de eliminar porque envolve a própria polícia e agentes de segurança da máquina do Estado. Como os moradores das favelas do Alemão e a população do Rio, estou bem contente com a devolução aos moradores do território que lhes pertencia por direito. No entanto, não pode prevalecer a ilusão de que essa é a única medida a ser adotada. Veja: traficantes expulsos de seus territórios não viram santos de uma hora para outra. E continuam tendo que prover suas necessidades básicas de alimento, moradia, vestimenta… o próprio sustento e o de suas famílias. Ou alguém tem a ilusão de que essas pessoas vão se deixar morrer à míngua sem lutar? Todo ser humano, assim como os animais irracionais, são movidos pelo instinto de sobrevivênvia. Vão fazer o que sabem fazer: roubar, furtar, matar até, se preciso for para permanecerem vivos. Expulsos das suas casas, das suas famílias, do território que habitavam, eles apenas migram para outros lugares: Baixada Fluminense, Morro da Mangueira, Vidigal, outras localidades do Rio e, em menor número, para outros estados. Infelizmente o Rio de Janeiro não vai se tornar uma cidade tranqüila, segura para se andar nas ruas, sem roubos de carros ou outros crimes apenas com a expulsão dos traficantes de suas favelas de origem, nem mesmo se  for ampliada a atuação das tais UPPs, Unidades de Polícia Pacificadora. Porque esses traficantes fugitivos vão continuar aterrorizando, aqui ou acolá. Cada um de nós está encarregado de defender a própria vida e eles farão isso. E em situações de risco, a ética e regras morais têm menos força do que o instinto de vida. Se cada traficante, ladrão ou homicida que fosse preso saísse da cadeia com uma formação profissional que lhe permitisse arrumar emprego, se todos os presidiários fossem orientados a transformar suas condutas sociais e obtivessem oportunidade de inserção social, cada pessoa presa seria um indivíduo a menos a ameaçar a vida dos demais. Mas sabemos que isso não ocorre, muito ao contrário. E mesmo que todos os traficantes tivessem sido presos com a invasão do Complexo do Alemão  e das outras 13 favelas recuperadas pelo Estado, isso não livraria o Rio da violência lá  instalada e cronificada por força da indiferença, incompetência e omissão do Estado, assim como pela atuação de agentes públicos corruptos. Claro que mesmo que se tivéssemos o melhor sistema prisional ainda assim haveria aqueles elementos que insistiriam em ser bandidos. Caso do Elias Maluco, Fernandinho Beiramar e outros grandes chefões do tráfico. Para esses acho que o único caminho a essa altura é mesmo um tiro na testa e uma boa desculpa para que tudo pareça acidente. Sim, porque para esses já foram dadas todas as oportunidades, foi assegurado julgamento e  tratamento humano e mesmo assim eles insistem em comandar atos terroristas de dentro dos presídios.  Nada os detém, então não tem jeito. Para livrar a sociedade deles, pena de morte camuflada. Para os demais, alguns deles pelo menos, ainda há salvação e a eles também deve ser assegurado o direito a julgamento e tratamento digno. Mas para que o Rio paulatinamente reconquiste a paz que precisa o Estado não pode recorrer ao eterno jogo do “faz de conta que estamos fazendo”. Quando nos tornamos adultos, perdemos o direito de acreditar em Papai Noel ou Fada Madrinha. A sociedade carioca merece a paz, mas ainda falta muito para que a tenha e deve cobrar do governo federal, do governador do Rio, dos prefeitos e dos comandantes das polícias o cumprimento do papel de gestores públicos. Uma das medidas necessárias é remunerar melhor os policiais. Dirigindo pelas ruas de Brasília vejo PMs tranqüilos, quase entediados com o marasmo da cidade. São policiais preparados para garantir a ordem em eventos públicos e fazer blitz de trânsito. Ganham quatro mil reais por mês. Salários pagos pelo governo federal. Os policiais militares do Rio, com treinamento e desafios de “guerra”, ganham mil reais, pagos pelo governo federal. O que justifica essa distorção absurda? Para ter o mínimo de qualidade de vida muitos são seduzidos por propostas de corrupção. Claro que quando a pessoa tem problema de caráter pode ganhar até mais de vinte mil por mês e ainda assim vai se corromper, como nos mostrou o promotor do Ministério Público Leonardo Bandarra. Esse sim deveria ser taxado de “bandido” pela mídia julgadora, porque ele teve todas as oportunidades necessárias para ser do bem e se perdeu na sedução do mal. O que quero dizer é que festejar a libertação dos moradores do Alemão e de outras favelas é lícito. Mas o Estado não pode entrar no clima de comemoração infantil, repetir o erro de ignorar a dimensão do problema do tráfico de drogas e supor que a violência no Rio será resolvida apenas pela coerção ou pelo poder de polícia do Estado. É preciso serviços públicos de qualidade,  geração de empregos, é preciso combater com determinação a corrupção, doa a quem doer, é preciso fazer distribuição de renda mais justa e acabar com tantas injustiças sociais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s