Fuga do autoconhecimento

Transcrevo um trecho esclarecedor do livro Os Parceiros Invisíveis, obra imprescindível para todos que se percebam com dificuldade em interrelações, sobretudo em relacionamentos amorosos. Esclarece sobre a força das projeções do animus e da anima, as contrapartes masculina e feminina, existentes na mulher e no homem, respectivamente.

“O conhecimento mais elementar de si mesmo é algo a que a maioria das pessoas resiste com a máxima determinação. Em geral, somente quando nos achamos num estado de grande sofrimento ou confusão, e somente quando o autoconhecimento nos oferece uma saída, é que nos dispomos a arriscar nossas estimadíssimas idéias a respeito daquilo que sentimos ser quando postos diante da verdade, e , mesmo assim, muitas pessoas preferem viver uma vida sem sentido a ter de passar pelo processo, não rato desagradável, que as leva ao autoconhecimento. Além disso, há alguns aspectos existentes em nós que são mais difíceis de conhecer do que outros. Por exemplo, a personalidade da sombra, que se forma com características indesejadas e não desenvolvidas, que poderiam ter-se tornado parte da consciência, mas que foram rejeitadas (em vez de integradas). A sombra há muito foram reconhecidas pela Igreja Católica ‘Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero’, exclamou Paulo de Tarso, angustiado com a sua sombra*. Não é coisa inacreditável para nós que haja um lado mais escuro da nossa natureza, porque a religião muitas vezes já no-lo mostrou, embora, mesmo neste caso, haja uma impressionante conspiração dentro da maioria de nós, no sentido de prestar um serviço silencioso à nossa natureza mais obscura, ainda que evitando encará-la em suas peculiaridades. Assim, a nossa sombra frequentemente se apresenta óbvia para outros, mas continua desconhecida para nós. Muito maior é nossa ignorância acerca dos componentes masculinos e femininos existentes dentro de nós, que escapam à nossa atenção, por serem completamente diferentes do que nossa consciência conhece a respeito de nós. Por esse motivo Jung denominou a integração da sombra usando o termo a peça-aprendiz no processo de tornar-se inteiro, e chamou a integração da anima e do animus de obra-prima”Sanford, pág. 16.

A dificuldade de buscar o autoconhecimento e realizar processo analítico que conduza ao contato e à integração da  sombra é mais frequente em pessoas de elevada capacidade e bagagem intelectual. Isso ocorre  porque esses indivíduos costumam ser intelectualmente arrogantes, alimentam postura de autosuficiência quando , na verdade, estão se sabotando, isto é, recorrendo à propria inteligência como mecanismo de defesa para essa fuga. Há também os que preferem se refugiar na religiosidade,  supondo que lhes basta seguir diretrizes da igreja e, não raro, se submeter a autopunições ou repressões de todo tipo para sentirem-se salvas. pagam preço alato para nada!

* 12 Rom, 7,19

SANFORD, John. Os Parceiros Invisíveis. São Paulo (SP): Paulus,2007

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