Nossa sombra

“As pessoas, quando educadas para enxergarem
claramente o lado sombrio de sua própria natureza,
aprendem  a compreender e amar seus semelhantes.” C. G. Jung.

A prática clínica e a experiência de vida mostram que  não basta reconhecer o próprio aspecto sombrio. Isso é algo racional. É preciso que ocorra algo na dimensão emocional, ou seja, é necessário “integrar a sombra”. Isso só se consegue com esforço bem direcionado para o RRE: relembrar, reviver, elaborar, diretriz elementar da prática terapêutica. Isto é, a  catarse, que ocorre quando o indivíduo se lembra do evento  e revive a emoção traumática, libera a energia contida no complexo. A catarse propicia também ressignificação e, pela via da consequência, a libertação e o livre caminhar para a individuação. Autoajuda neste caso nada pode. Práticas religiosas servem tão somente como lenitivos e convite para o autoconhecimento via terapia.

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4 comentários sobre “Nossa sombra

  1. Olá Carmelita. Eu acompanho todos os seus posts e gosto muito dos temas tratados. Foi por conta de um desses posts que optei por iniciar a terapia em São Paulo (psicanálise). Eu agora fiquei com uma dúvida: um transtorno conversivo será esvaziado somente pela catarse? As conversas na terapia não são suficientes para esvaziar os nossos complexos?

    abc.

  2. Olá, Marcelo. Fico feliz de você ser um dos meus visitantes. Você será sempre bem-vindo. Quanto a sua dúvida: em se tratando de questões psicológicas, de dinâmica psíquica, é sempre perigoso fazer generalizações porque cada ser é um sujeito à parte, com suscetibilidades e dinâmica muito próprias. Mas vamos lá, tentar generalizar sem exagerar nos reducionismos. Veja, a catarse é a evocação e a revivência de acontecimentos traumáticos que foram reprimidos, permitindo a descarga dos afetos ligados a esses acontecimentos. Para que haja o esvaziamento do complexo é preciso acontecer catarse e ab-reação, ou seja, a descarga emocional. Com a ab-reação o afeto ligado à recordação traumática é liberado. Isso acontece quando a pessoa se lembra do evento, até então inconsciente;quando o conteúdo chega à consciência. A catarse é um dos métodos para se promover a ab-reação. Mas não é o único. O esvaziamento dos complexos pode ir acontecendo também de forma sutil, aos poucos. Nas “conversas” em sessão psicanalítica, haverá ab-reação se elas não forem apenas conversas, isto é, se ocorrer associação livre. Havendo a associação livre, isto é, a evocação espontânea de idéias para que paciente e terapeuta localizem idéias e desejos reprimidos que se encontram na raiz dos sintomas, haverá catarse e ab-reação. A partir da associação livre ou da análise de um sonho o evento pode ser relembrado e, automaticamente, revivido. A revivência produz descarga da tensão psíquica, ou seja, promove o esvaziamento do complexo. Ocorre que para determinadas pessoas o método psicanalítico demora a apresentar resultados, mesmo quando o psicanalista trabalha também com sonhos, além da associação livre. Mas a revivência do momento traumático é necessária, de uma forma ou de outra, do modo sutil – na psicanálise – ou mais intenso, no psicodrama ou na imaginação ativa (análise junguiana). Para você ter uma ideia, contam as biografia de Jung e Freud que o próprio Freud foi curado de uma incontinência urinária por Jung após este analisar um sonho de Freud, compreender e relatar para ele que havia um desejo sexual reprimido pela cunhada. Bastou a análise do sonho para que a sintomatologia desaparecesse. Isto porque os sintomas são nossos aliados, são “dicas” do inconsciente de que algo precisa ser percebido. No caso da conversão, há sim um evento traumático cuja lembrança a pessoa vem evitando ou da qual não tem consciência e a manifestação física sinaliza isso. Mas fique tranqüilo, no processo psicanalítico você conseguirá livrar-se desses sintomas, sim. Só não tenha pressa. As diferentes abordagens muitas vezes são apenas caminhos diferentes que levam ao mesmo destino. E para cada pessoa há um caminho mais adequado. Eu, no trato com as minhas questões particulares, prefiro a análise de sonho ao psicodrama, por exemplo, mas conheço gente que pensa diferente. Também acho que para cada queixa há abordagens mais adequadas. No caso da conversão, tanto psicanálise quanto análise junguiana (ambas psicologia profunda) funcionam. É apenas uma questão de ter afinidade com um ou outro método. Mas quero que leve em conta um aspecto importante: Dependendo do impacto que a lembrança do evento traumático irá provocar na pessoa, o Inconsciente dela somente permitirá que ela se lembre do fato quando o indivíduo estiver “pronto”, suficientemente forte para suportar a lembrança e reelaborar a vivência dolorosa. Daí porque alguns complexos levam um certo tempo para serem esvaziados. Consegui eliminar sua dúvida?

    • Sim, respondeu perfeitamente! Gostaria que fosse minha analista, mas [por enquanto] estou em São Paulo… quem sabe um dia 🙂

      Gosto muito das suas elucubrações e da forma que você consegue transmitir as suas idéias (muito claramente).

      Forte abc.

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