Combate ao tráfico de drogas

Assisti hoje ao documentário “Notícias de uma guerra particular”, dirigido por Katia Lund e João Moreira Salles, com a colaboração de Walter Sales. A produção captou imagens e depoimentos nos morros do Alemão, Cantagalo,  Chapéu, Santa Marta e  Rocinha, todos do Rio de Janeiro, nos anos de 97 e 98. São decorridos 12 anos, mas tem-se a impressão de que o filme foi feito este mês, tal a atualidade do problema. O governador do Rio, Sérgio Cabral, usa o problema da guerra civil provocado pela expansão do tráfico de drogas no estado como bandeira política, festeja a atuação policial que extermina traficantes e vítimas inocentes, canta de galo como se estivesse com o controle da situação, mas tudo não passa de encenação, se não for alienação social. A verdade é que o problema, que começou  nos anos 50, tem duas causas básicas: a distribuição injusta de renda e a omissão do Estado.

Vamos por parte, começando com uma frase explicativa de Janete, moradora de um dos morros-cenário do filme: “ninguém tá querendo mais esse salário de miséria”.  Quando as riquezas ficam concentradas nas mãos de poucos e para a maioria sobram migalhas, longas e escravizantes jornadas de trabalho mal remuneradas, vence o instinto pela vida. As pessoas vão em busca de outra alternativa de sobrevivência. Leia explicação de Hélio Luz, chefe da Polícia Civil do RJ quando o filme foi gravado, fazendo uma análise humana das motivações dos traficantes: “se eu conseguir emprego eu vou trabalhar 12 horas por dia pra ganhar 112,00 por mês (salário mínimo de 1997). Se eu me encaixo no tráfico eu ganho o triplo disso por semana.” Bem óbvio.

A segunda causa: todo espaço vazio é preenchido; é lei da física. Onde o Estado deixa de atuar, fazendo o que lhe compete fazer, outra “força” humana vai entrar e fazer o que precisa ser feito, vai ocupar o espaço vazio. Ignorar a responsabilidade dos governantes na expansão da guerra do tráfico seria estupidez. Não é preciso ser socióloga para compreender que a guerra entre polícia e traficantes é coisa inútil que nada resolverá. Não enquanto não forem feitas mudanças estruturais na sociedade brasileira e corrigida a má distribuição de renda, corrigidas as grotescas distorções na divisão dos privilégios. Como o documentário mostra, o Estado – mobilizando a polícia – só passou a se incomodar com a violência nos morros quando ela saiu de lá e passou a ameaçar a vizinhança. Antes, simplesmente se ignorava o problema ou prevalecia a diretriz: “eles que se matem entre eles”. Mas quando a violência de lá resvalou para o mundo dos privilegiados, as autoridades resolveram intervir. Mas o fizeram e continuando fazendo sempre na base do faz de conta que estamos resolvendo. A conseqüência é que o problema vai se alastrando. Os substitutos do Estado, ganhando força e poder, ampliam seus tentáculos. Vão em busca de ocupar outros espaços deixados vazios pelo Estado. Onde for. Assim, o problema nasceu no Rio, mas se transferiu para outros estados, como São Paulo e Minas Gerais. Omissão do Estado. É talvez o resultado mais efetivo dessas  ações policias: o problema apenas muda de lugar. Expulsos de determinado morro, os traficantes vão atuar em outra localidade.

Sim, o filme é  representação social da violência, mas  mostra também a fragilidade ética, primeiramente dos detentores do poder e da elite abastada; em segundo, da classe social desprivilegiada. Porque não se pode ter ilusão: na espécie humana há desvios de conduta em todas as classes sociais. Mas o que o documentário mostra é a necessidade de se considerar as circunstâncias que levam as pessoas a integrar o tráfico. Trata-se de problema sistêmico, interligado a outras questões  interdependentes. Não resolve invadir o morro, atirar, matar, exterminar e, em seguida, simplesmente descer o morro como se tudo tivesse ficado bem. A questão é mais profunda. Uma analogia: numa horta, não basta arrancar as ervas daninhas que surgem sem limpar a terra das sementes escondidas. Do mesmo modo, na questão do tráfico, essas ações de invasão dos morros de nada adiantam. Porque as pessoas sempre irão fazer movimentos para assegurar a própria vida e dos seus familiares. Sem trabalho bem remunerado, sem políticas sérias de habitação, saúde e educação, sem distribuir melhor as riquezas do país, que são de todos e não de uma minoria que luta com unhas e dentes, sem escrúpulos ou ética, para não perder privilégios, o futuro é incerto e volta e meia os próprios privilegiados serão vítimas dos desprovidos, dos socialmente abusados. Desde que o mundo é mundo que os mais fortes tentam usurpar direitos dos mais mais fracos. Embora a passos de tartaruga, penso que esses vitimizados mais e mais estão aprendendo a se defender. É óbvio que não se pretende com essa análise defender o tráfico de drogas nem os traficantes. O que está em discussão é o fato de que compete ao Estado resolver os problemas sociais sem teatro, sem distorções da realidade, sem ilusões, sem politicagens baratas. Por que os traficantes não têm prestígio nem grande domínio na Suiça, Suécia e entre outras comunidades onde prevalece a justiça social ou onde existe qualidade de vida?   Pessoas bem educadas, bem alimentadas e com reconhecimentos social são pessoas com esperança de felicidade. São pessoas que não precisam usar drogas, salvo uma ou outra, cuja causa do vício tem origem diversa e mais fácil de ser tratada.

O filme Notícias de uma Guerra Particular foi dividido em 10 partes e postado no YouTube.

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