Para passar em concurso público (II)

Estudar para concurso é coisa surreal. Pode subtrair-nos alegrias nos domingos,  diversões de fim de dia e até mesmo minutos valiosos de bom namoro. Por outro lado, enche-nos o coração de esperança, agiganta nossa confiança no futuro e cura-nos de ansiedades por nos dar a sensação de estarmos fazendo nossa parte para realizar anseios. Sim, porque nunca se tem total controle sobre o futuro. Mesmo trabalhando muito por uma meta, ela pode simplesmente não se cumprir, se tal evento estiver fora dos desígnios do Destino, esse Senhor intrometido, mandão na vida alheia.

Estudar querendo passar em concurso público é sacrifico autoimposto, mas ainda assim, sacrifício. Como é chato ver e rever tantas vezes coisas que gostaríamos de já ter definitivamente aprendido. Mas tudo tem sempre tantos lados, tantas facetas, tantas exceções e nada pode escapar. Daí estar-se sempre voltando a pontos para corrigir algo que escapou. Já escrevi anteriormente sobre as condições necesárias para se obter aprovação em seleção pública no post PARA PASSAR EM CONCURSO PÚBLICO, mas de forma mais didática. No outro post falava a psicóloga. Neste, apenas  a concursanda.

Às vezes tenho a impressão de que para passar nessas seleções muito concorridas é preciso neurotizar-se. Mudar de tal forma a própria rotina, entregar-se com tanta dedicação aos livros, cadernos, apostilas e exercícios que nos tornamos antissociais, irritáveis (quando nos atrapalham), que acabamos por mudar algo dentro de nós. É como se precisássemos ficar meio adoecidos, fixados, fascinados e até obstinados.

Tenho gastado horas estudando para uma dessas seleções e há uma única vaga. Somos ao todo 34 inscritos e isso significa que preciso me sair  melhor do que os outros 33 concorrentes. Acredito que tenho um forte aliado: esse campeonato de futebol chamado Copa do Mundo. Não podia ter vindo em hora melhor:  como estou indiferente a essa manipulação da mídia, nos dias de jogo avanço alguns passos em relação aos meus concorrentes. Sei que tudo isso é absurdo, que eu deveria me ocupar de mim mesma, tratar de estudar e esquecer os demais concorrentes, mas e o que fazer com a minha natureza humana? Negá-la. Não dá. Tenho estudado sim, mas também torço para que os outros não façam o mesmo ou, se o fizerem, que o façam com menos afinco do que eu.

Mas não me iludo, e se algum concorrente me lê, não tema: estou consciente de que tenho estudado muito aquém do necessário. Já passei num desses concursos e me lembro bem do esforço aplicado. Em 1986 eu e uma amiga nos inscrevemos em um concurso que oferecia apenas duas vagas. Ela era boa em Matemática e eu, em Português. Resolvemos compensar nossas deficiências e todos os dias estudávamos 8 horas por dia. Eu estava namorando, ela não. À noite ela aumentava a carga horária de estudos dela enquanto eu ia me entregar à lascívia juveenil. Resultado: ela passou em primeiro lugar. E eu? Também fui aprovada, mas  em segundo lugar. Ficamos com as duas vagas! Foi uma felicidade indescritível! Nossa autoestima foi às alturas. Ela, a Selma, assumiu a função e está trabalhando no órgão até hoje. Eu havia passado também em outro concurso e dispensei esse. Anos depois pedi demissão do emprego que assumi (era no Ministério da Justiça, técnica administrativa, ganhava tão mal que passava fome!). Além disso, minha natureza inquieta e minha sede por conhecimentos me instigou a alçar outros voos. Me esborrachei em alguns paredões, em certos voos, mas valeu a pena ter seguido em frente.

O importante é que desde essa época aprendi o que é estudar para passar em um concurso com poucas vagas. Infelizmente não estou em rotina semelhante, não tenho uma parceira de estudos e estou consciente de minhas poucas chances. Mesmo assim, desistir sem fazer o possível seria preguiça. Se é verdade que de grão em grão a galinha enche o papo, preciso descobrir se, de concurso em concurso soma-se a bagagem necessária para a aprovação. Acredito que o provérbio popular não se aplica a esse caso, mas preciso ver isso na prática. Você que me lê, pode torcer por mim? Não sei se isso ajuda, mas atrapalhar,  não atrapalha.

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3 comentários sobre “Para passar em concurso público (II)

  1. Olá, escrevi no Google preciso pasar em concurso público e aí dentre tantas opçoes de paginas sobre esse assunto cai no seu Blog,gostei do seu texto, bem lógico e inspirador !!
    Estou na batalha já há alguns anos, mas o quê me falta é justamente a determinação para os estudos, todo concurso é igual faço a inscrição e compro livros e apostilas, falo desta vez vou me aplicar, mas acontece que vivo fugindo dos estudos, ivento todo quanto é tipo de coisa para fazer, para me “auto desculpar” para não estudar…trabalho numa Multi-Nacional, numa função frustrante e Desgastante e outro dia saindo para almoçar comecei a pensar com os meus botões se no fundo essa minha fuga dos estudos não seria na verdade por um medo incosciente da derrota ?! Ou seria preguiça mesmo, falta de força interior ?! Ai meu Deus preciso mudar, mas como meu Deus ?
    Olha sei que isso não é uma sessão de análise, este espaço é apenas para um simples comentário e já estou aqui desabafando…
    Em fim, me perdoe, quero desejar-lhe na verdade Boa Sorte, pelo que vi você é merecedora, se dedica e eestou aqui emanando sinceramente votos de Boa Sorte, que você atinja realmente todos os seus objetivoa !!
    Um abraço.

    Ah ! vou entra outras vezes no seu Blog rsrsrs.

    Tchau.

    Vanuza.

    • Cara Vanuza, perdoe-me a demora em lhe responder. Vou tentar lhe ajudar lanando um questionamento: talvez sua falta de motivao seja causada pela falta de algum para lanar sua vaca no precipcio. Explico melhor essa ideia com uma analogia, contida no conto O Monge e a Vaquinha: Um velho monge e seu discpulo costumavam visitar as pessoas que moravam em vilarejos distantes da cidade. Num dos seus passeios, j estava anoitecendo e eles ainda estavam no meio de uma estrada, distantes do vilarejo para onde se dirigiam. Avistaram um stio, aproximaram-se e pediram pousada durante aquela noite.

      O stio era muito simples. Ali, viviam um casal de aparncia humilde e seus trs filhos, pequenos, raquticos. A pobreza do lugar era visvel e, mesmo assim, eles acolheram, de bom grado, a dupla de viajantes.

      Durante o jantar, onde fora servido mingau de leite com farinha, o mestre indagou:

      ” – Neste lugar no h sinais de comrcio ou de algum trabalho. Tambm no vimos nenhuma plantao. Como vocs sobrevivem aqui?”

      O dono da casa respondeu:

      “- Meu amigo, ns temos uma milagrosa vaquinha, que nos d vrios litros de leite todos os dias. Uma parte desse leite ns vendemos ou trocamos na cidade, por outros alimentos ou coisas que necessitamos. Outra parte fazemos queijo , coalhada, piro e, assim, vamos sobrevivendo. No sabemos plantar, tambm acho que essa terra no d nada e tudo aqui muito difcil. Ai de ns se perdemos a nossa vaquinha!”

      De madrugada, os dois receberam um copo de leite quente. Em seguida, agradeceram a hospitalidade e foram embora. Assim que sairam do stio, o mestre ordenou ao discpulo que ele pegasse a vaca e a atirasse num precipcio. O jovem, surpreso, no s se chateou como ficou revoltado com a atitude desumana do seu mestre:

      ” -Como podemos destruir a nica fonte de sobrevivncia dessa famlia?”.

      Relutou um pouco, mas limitou-se a cumprir a ordem do mestre.

      Alguns anos depois, o jovem , retornando sozinho quela regio, resolveu se dirigir ao stio daquela famlia que lhes hospedara. Chegando l, qual no foi o seu espanto quando verificou que o local havia mudado muito. O casal que vinha em sua direo era o mesmo, mas estava feliz. As crianas cresceram e, agora, j quase adolescentes, estavam bonitas, bem nutridas. Tudo havia passado e para melhor: horta, frutas, galinhas, animais diversos passeavam pelo stio. O jovem, no acreditando no que via e ainda se sentindo culpado, questionou:

      “- Como possvel vocs terem progredido tanto?!”

      Ao que o casal respondeu:

      “- Quando vocs estiveram aqui a nossa situao no era das melhores. Tnhamos s uma vaquinha e toda a nossa sobrevivncia vinha dela. Logo aps a sada de vocs, aconteceu uma tragdia – nossa vaquinha caiu num precipcio. Entramos em desespero, mas, da em diante, tivemos que fazer outras coisas, desenvolver outros meios de sobrevivncia. Descobrimos que a nossa terra era frtil e boa para legumes e frutas. Fomos, aos poucos, criando gosto e hoje essa beleza que o senhor est vendo. Graas perda da nossa vaquinha.”

      Possivelmente seu emprego atual, apesar de no lhe ser estimulante, lhe d a sensao de segurana e conforto suficientes para justificar suas fugas do ato de estudar e se preparar para os concursos. Imagine-se sem casa, sem salrio, sem uma atividade laboral diria… voc sentiria de modo mais concreto a necessidade de estudar.

      Minha sugesto que voc perceba essa manobra da tendncia natural do ser humano inrcia e mude suas cognies. Se convena de que s h uma pessoa que pode mudar sua realidade: voc mesma. No espere a vaca cair no precipcio, ao contrrio, use o leite da vaquinha, isto , seu salrio, para ir dando os passos necessrios aprovao, isto , pagar cursinho preparatrio, comprar apostilas e livros, videoaulas, etc.

      Quanto ao seu receio de que essa fuga seja uma autossabotagem, no seu lugar eu no descartaria essa possibilidade, mas descobrir se isso tem fundo de verdade ou no, s ser possvel em processo teraputico. J atendi muita gente que me procurou apenas buscando suporte para aprovao em concurso pblico. Funciona; porque ajuda no esvaziamento de complexos que desviam energia psquica; ajuda no autoconhecimento, funciona como controle para cumprimento de metas, etc.

      Um passo vc j seu: percebeu que depende de voc mudar a atual situao.

      Boa sorte.

      Abrao,

      Carmelita

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