Psicologia Junguiana justifica defesa das cotas

Algum tempo atrás quando eu ia ao campus da UnB via poucos negros, quase todos estrangeiros, filhos de africanos em missão diplomática. Ou seja: estrangeiros tinham facilidade para entrar na nossa UnB e os negros brasileiros, não. Hoje, com as cotas, esse cenário mudou e gosto de perceber isso. Sempre fui a favor da política de cotas nas universidades brasileiras. Recorro à Psicologia Junguiana para justificar essa defesa. Sou a favor das cotas porque os negros e afrodescendentes efetivamente estão em desvantagem no mercado de trabalho e em outros aspectos sócio-econômicos. Dois conceitos de Jung explicam isso: o inconsciente coletivo e as forças arquetípicas. Ainda permeia o inconsciente coletivo, devido aos quase 400 anos de escravidão do negro, a idéia de supremacia da raça branca sobre a negra, a crença de que o negro vale menos ou é menos capaz. Houve tempos em que, com o aval da igreja católica, as pessoas acreditavam que negro não tinha alma por isso não precisavam ser tratados como gente. Todos esses absurdo já estão negados e até proibidos por lei, felizmente. Mas ainda sobrevivem no inconsciente coletivo e influenciam as pessoas no modo de pensar, sentir e agir, de forma inconsciente na maioria dos casos. O fato é que devido a isso, numa situação em que duas pessoas com iguais habilidades, uma negra e outra branca, se estiverem disputando a mesma vaga para emprego, a branca será a escolhida. Desafio qualquer um a demonstrar o contrário, na prática. Uma amiga jornalista foi impedida de fazer teste para apresentação na TV Nacional, anos atrás,  por ser negra.Aborrecida, foi pedir explicação ao chefe de reportagem. A resposta dele: “as pessoas não querem ver você na telinha deles porque você é negra.” Em outro momento, essa mesma pessoa foi discriminada por uma dona de galeria de arte; uma cretina. A moça foi atender ordem desse mesmo chefe e fazer uma matéria do tipo “jabá”, como chamamos matérias pautadas para atender interesses de alguém da empresa, e ainda assim a mulher botou banca. Ligou para o amiguinho dela protestando: “você me prometeu uma matéria e me mandou uma repórter negra!”  Ele ligou para a moça, pediu que ela voltasse à redação sem fazer a matéria e posteriormente enviou outro repórter. Sinto asco de me imaginar à frente dessa pessoa, acho que cuspiria na cara dela, mesmo correndo risco de perder o emprego. Também passei a desprezar o tal chefe de reportagem, cujo nome prefiro não citar. Também concordo com os que afirmam que a sociedade tem uma dívida social com os negros e seus descendentes e toda dívida deve ser paga.

E as forças arquetípicas, onde entram nisso?  O preconceito é arquetípico, é uma espécie de herança ancestral, decorre de imagens primordiais, impressões gravadas pela repetição de reações subjetivas, transmitidas não entre descendentes parentais, mas entre representantes de determinada raça. Assim, por exemplo, tendo em vista o instinto de sobrevivência, tigres rejeitam a aproximação de lobos; eles são diferentes. Reagem para defender o bando e assegurar domínio de território. Entre os humanos ocorre o mesmo, se nos deixamos levar pelos instintos. O preconceito racial é arquetípico, tem por objetivo o instinto inconsciente de sobrevivência. Claro que isso não justifica atos racistas: a menos que não tenhamos evoluído em nada, estejamos no nível mais baixo do primitivismo. Essa força arquetípica se dissipa quando agimos de modo racional. Ao olhar nos olhos, conversar e permitir a aproximação, o receio se perde, a força arquetípica perde força e a compreensão racional assume.

Assim, nos dois casos entendo ser necessária a intervenção do Estado determinando que pessoas negras ou descendentes de negros sejam beneficiadas na disputa por uma vaga. No futuro, espero entrar na UnB e não ver a predominâncias de pessoas de pele branca. Julgo ser função do Estado intervir para tentar corrigir desequilíbrios nas dinâmicas  sociais, como forma de garantir os direitos humanos de todas as pessoas, independentemente de raça ou qualquer diferença. A política de cotas tem esse efeito: corrige distorções motivadas pela influência do inconsciente coletivo e das forças arquetípicas.

Quem se sentir prejudicado que proteste, apresente argumentos válidos. Até o momento, todas as justificativas contra as cotas não passam de falas vazias, retórica falaciosa,  defesa de antigos e injustos privilégios.

E quanto às objeções dos próprios negros? Trabalhei com um rapaz negro na Rádio Cultura de Brasília que afirmou ser contra a política de cotas. Ele dizia: “eu dispenso isso, faz parecer que não temos capacidade para disputar uma vaga com os brancos”. Eu disse: “então, se você se sente capaz, dispute uma vaga na UnB ou em outra instituição pública pela via do vestibular comum. Isso não está proibido. As cotas não obrigam negros ou afrodescendentes a utilizarem esse caminho para ingressar numa universidade. Mas entenda que nem todas as pessoas têm a sua força e resiliência igual. As pessoas tem potencialidades diferentes e muitos afrodescendentes precisam desse apoio. Se você não pode ajudar, não atrapalhe a caminhada de quem não tem seu orgulho e sua suposta força.” Acho que ele não gostou. Nem se convenceu, mas aí já é problema dele.

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4 comentários sobre “Psicologia Junguiana justifica defesa das cotas

  1. Achei excelente o seu artigo. Tinha essa mesma idéia em mente. Foi de grande acréscimo e me auxiliou em um trabalho acadêmico. Obrigado!

    • Que bom, Danilo. Este é o propósito do blog: ser um humilde sinalizador a indicar caminho para que as pessoas ampliem seus conhecimentos a partir das próprias pesquisas. Não posso dar aos textos caráter acadêmico nem me aprofundar muito: ficaria exaustivo neste meio de comunicação. Às vezes tenho que ser reducionista e mesmo superficial em certos momentos. Mas entendo que a partir de um ponto as pessoas realmente interessadas podem ampliar suas percepções e ir muito além do que escrevo. Boa sorte

  2. oi adorei seu texto e seus argumentos. O ano que vêm iniciarei o curso de psicologia na FMU e gostaria de trabalhar, estudar esse assunto, pois, como negro e como cidadão brasileiro, sinto necessidade de ampliar minha atenção sobre o tema. Obrigado!!

    • Fico feliz que você tenha apreciado Glauco. Quando tiver oportunidade, se aprofunde nas obras de Carl Jung. Mas lembre-se: a sua pele é negra. Mas você não é negro, não existem negros, brancos, pardos ou qualquer coisa assim. Essas palavras são apenas adjetivos que desconsideram a configuração interna das pessoas. Você é um ser humano como os demais, com qualidades e defeitos próprios raça humana. Não sei se lhe fará bem direcionar sua vida com um foco racista;considero que seria preconceito ao contrário. Ampliar a compreensão sobre o tema, ótimo. Mas não se excluindo de nada por ser negro tampouco se separando dos demais ou se incluindo em grupos com visão separatista. Como vc sabe, nós brasileiros somos todos um pouco de todas as raças, somos uma bela mistura alquímica de raças e isso é maravilhoso. Aprendi dia desses o seguinte: quanto mais ampliada a compreensao sobre os fatos, quanto mais ampliada a consciência sobre as coisas, maior é a aceitação do que é diferente e menor o preconceito quanto a qualquer coisa que difere. Isot é, quanto mais você entender as pessoas de cor de pele diferente da sua, mais aceitação você tera quanto ao funcionamento psicológico e comportamental delas e maior será, inclusive, sua aceitação quanto a uma ou outra atitude estúpida e mesquinha. Na verdade a mesquinharia humana sempre se manifesta, seja por uma causa ou outra. Apesar disso, somos todos irmãos, estamos todos em caminhada evolutiva. O estudo da psicologia, como de outras ciências, é muito profícuo na construção de nossa consciência ampliada.Desejo-lhe boa sorte e estarei sempre às ordens no que eu puder ser útil. Abraço.

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