Confusão entre amor e paixão

Marcelo Migliaccio elogiou o filme O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, em seu blog RIO ACIMA,  então fui ver. É um excelente filme, com certeza. Agradeço a indicação. Obviamente me interessam filmes em que a dinâmica das personalidades são abordadas como pano de fundo.  E se isso é feito com maestria e apuro, tanto melhor. Esse filme tem essa virtude. O autor consegue nos levar ao exercício de tentar entender como “funciona” o psiquismo dos personagens para deduzir o desfecho da história. Acerta-se em alguns pontos, erra-se em outros, o que dá ao filme a característica de “surpreendente”. É uma boa produção de conteúdo psicológico, sem dúvida. No entanto, saí do cinema incomodada com a confusão de conceitos: amor, paixão,  obstinação e fixação. A frase “nada muda uma paixão” é usada como justificativa para o comportamento de alguns personagens e talvez para todo o enredo. Não contesto a veracidade da afirmativa. Mas o filme não aborda a paixão. É, sim, uma história sobre o amor e sobre fixação. O personagem principal e a protagonista não são apaixonados. Eles se amam. São movidos por um sentimento que resiste a 25 anos e muitos contratempos.  A paixão não dura tanto, acaba em torno de dois anos. Apenas. E não sou eu quem afirma isso, é o resultado de pesquisas científicas realizadas em diversos centros de estudos, em várias cidades, com diferentes metodologias.Não importa como os apaixonados vivam a paixão, se juntos ou separados,  havendo reciprocidade ou não. E ainda que haja muito empenho de ambos para manter o fogo aceso, ele vai declinar até se apagar. Particularmente suponho ser uma armadilha da natureza para garantir a reprodução da espécie.  Nos apaixonamos mais na juventude, quando somos mais férteis! Pessoas maduras e até idosos também podem viver a paixão, mas muito mais motivadas por afinidades e desejo de complementaridade, já descomprometidos com projeto de paternidade e maternidade. Todos sonhamos com um amor eterno, mas confundimos amor com paixão. Amor eterno é possível. Paixão que dure para sempre, não. Felizmente, porque do contrário nosso organismo não suportaria. O corpo de uma pessoa apaixonada apresenta reações fisiológicas semelhantes às de uma psicose. É isso mesmo: quando estamos apaixonados, estamos psicóticos ou “psicotizadinhos”.  O amor é diferente! Pode durar a vida inteira porque conduz todo o funcionamento psicoemocional à plenitude. É fonte de saúde.  Voltando ao filme, fiquei me perguntando qual o limiar entre paixão e obstinação ou fixação. Vamos por parte: um apaixonado pode ser um obstinado, mas não vice-versa. No filme, um dos personagens, o Morales, fica obstinado por vingança. Não é a paixão pela esposa que o move, tampouco o amor. É a obstinação por fazer justiça ou a fixação no momento traumático.  Para a Psicanálise, a fixação refere-se a momentos do desenvolvimento infantil em que há perturbação por uma (ou mais de uma) vivência traumática, o que repercute no desenvolvimento da personalidade da criança, tendo conseqüências na fase adulta. Fixado na fase em que sofreu o trauma, o indivíduo fica preso a respostas emocionais e comportamentais próprias da fase perturbada, e tende a regredir a ela em estado de tensão. Paralisada pela experiência traumática, a pessoa não consegue esquecer nem seguir em frente; fica apegada excessivamente a idéias, pessoas ou coisas. Um exemplo de conseqüência da fixação na fase oral é a compulsão alimentar. Na fase oral, a satisfação da pulsão libidinal é obtida por meio da boca. Então, os indivíduos com essa alteração, ocorrida nos primeiros anos de vida, busca recompensa em atos que envolvam a boca. Ressalto, no entanto, que as compulsões podem ter como causa subjacente também o complexo paterno ou materno. Que me perdoem os acadêmicos se na tentativa de ser clara eu peco por reducionismo. E a diferença entre obstinação e fixação? A primeira pode decorrer da segunda.  Mas obstinação refere-se à meta, a esforço para realizar algo, enquanto a fixação, não necessariamente. Ao contrário, pode paralisar. Ou levar a pessoa a ficar presa a pensamentos e idéias fixas, como o desejo de Morales de impor a outro personagem da história a punição tida como a adequada.  Aceito que o “amor” de alguns torcedores pelo time do coração seja uma paixão,  fixação ou obstinação. Mas o vício pela bebida não pode ser considerado uma paixão, como tenta mostrar o filme. Trata-se de uma compulsão, que tem cura, vale registrar, em sistemático processo analítico. Obviamente a confusão de conceitos que permeia o filme somente será percebida por psicólogos, tão empenhados em tentar compreender sobre emoções e sentimentos humanos. Se não é o seu caso, esqueça meus comentários e vá assistir ao filme; rende bons momentos de entretenimento e reflexão.

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