Cirurgia plástica ou terapia?

Há pelo menos quatro aspectos comuns em casos de pessoas que recorrem a sucessivas cirurgias plásticas:

  1. Predominância da persona;
  2. Autoimagem distorcida;
  3. Forte influência da mídia sobre sentimentos e comportamentos;
  4. Dificuldade para lidar com a própria individualidade.

Para facilitar o entendimento desse primeiro aspecto preciso explicar rapidamente o conceito junguiano de persona: é uma espécie de vestimenta ou de máscara a qual recorremos para estar  no mundo e viver os muitos papéis sociais que nos tocam. Criamos “personagens” para nos colocarmos nos diferentes espaços sociais. Por exemplo: no caso da jornalista Lanusse Martins, que morreu após se submeter a uma cirurgia de lipoaspiração, possivelmente estivesse predominando nela a persona de repórter. Que elementos estéticos entram na construção de uma repórter de TV? Beleza, magreza, em resumo: ser uma mulher bonita! Embora em essência isso não seja necessário, é o que predomina no momento, em parte para atender à demanda humana de apreciação pelo belo. Sejamos honestos: repórteres feias (ou feios) na TV brasileira só os veteranos, que continuam no ar pelo mérito de terem sido pioneiros. Para entrar agora na telinha é condição si ne qua non ser bonitinho/bonitinha. Lanusse buscava isso com as duas cirurgias invasivas às quais s submeteu: primeiro a bariátrica, para perder parte dos quase 120 kg que pesava. Depois, a de lipoescultura, para corrigir sabe-se lá o quê. Aos olhos de quem a via, tudo estava muito harmonioso e bonito. Mas não aos olhos dela mesma. Algo semelhante ao que ocorria com Michel Jackson. Ambos não acreditavam quando lhe diziam que eram bonitos, que estavam bem, esteticamente, devido à autoimagem distorcida. Expliquei mais sobre persona em outro post de título NOSSA SOMBRA. Clique no link e leia, se quiser entender bem esse importante  conceito junguiano

A má notícia é que não é fácil mudar isso! Porque a construção da nossa autoimagem começa nos primeiros anos de vida e é influenciada pelo que dizem os pais, tios, professores, irmãos e outras figuras significativas. Se a pessoa recebe elementos para construir uma imagem negativa de si mesma, é trabalhoso desconstruir isso para transformar em autoimagem positiva. A boa notícia é que isso é possível! Mas quase sempre exige ajuda profissional, psicoterapia com muito empenho e de média a longa duração.

Disse, em outras palavras, que as relações interpessoais são utilizadas como referencial para a construção da autoimagem. E a mídia televisiva influencia nisso. E muito! Porque as pessoas se identificam com determinados personagens e se deixam influenciar pelos “recados” subliminares que partem desses personagens, sejam as mensagens construtivas ou negativas.

E aí entramos no terceiro aspecto importante envolvido nessa busca desenfreada por perfeição estética, por seguir padrões de beleza ditados sobretudo pela mídia: a dificuldade para trabalhar o individual: Tudo está coletivizado, misturado, até os conceitos de belo, do que é adequado ou não. As pessoas se perdem na busca do que é delas mesmas e o que é dos outros; têm dificuldade para entender o que verdadeiramente importa para elas e o que não passa de modismos ou serve bem para certas pessoas, mas não para si  mesmo; o que é, na verdade, uma demanda real para alguns, mas não para outros. É como se houvesse uma confluência coletiva, todos e tudo muito misturados. Entra nisso também a força do apelo ao consumo, claro. Isso é altamente “neurotizante” porque cada um é cada um. É como se não estivéssemos tendo o direito de sermos nós mesmos. A menos que  paremos e reivindiquemos esse direito! Eu sou eu, eu não sou mais ninguém. Tudo em mim é próprio de mim apenas. Minhas medidas são minhas medidas, minhas proporções corporais devem combinar com meu rosto, com minhas atividades, meus propósitos de  vida… tudo é único para cada pessoa. Não dá pra construir uma forma e obrigar as pessoas a entrar num formato supostamente ideal. Mas  na prática as pessoas se sentem pressionadas a se “adequarem” a um tipo físico, a um padrão ditado, defendido como ideal e necessário. Isso é tudo que não deve ser feito, ninguém deve abdicar de si mesmo a tal ponto. Se você se olha no espelho e gosta do que vê, deve ter confiança em si mesma pra pensar: “estou linda! E vou curtir meu visual assim mesmo!”. Você certamente vai brilhar, porque o que faz uma pessoa brilhar é muito mais o estado de espírito dela do que a imagem. Em resumo: a maior parte das pessoas que fazem muitas cirurgias plásticas ficariam mais bonitas, saudáveis e felizes fazendo apenas psicoterapia.

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